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terça-feira, 28 de maio de 2013

O jornal regional como instrumento de cidadania


A imprensa regional desenvolve um importante papel informativo junto das populações, acompanhando a atualidade das comunidades através de um jornalismo de proximidade, cada vez mais necessário, como um dos veículos de transmissão das ansiedades e expectativas dos cidadãos, junto dos organismos de decisão política, em particular, junto da administração municipal.
A informação é um dos pilares de uma sociedade organizada. E quanto mais próxima a informação estiver da realidade do leitor, mais hipóteses terá a comunidade de se organizar e fortalecer, para melhor resolver seus problemas. Um jornal regional focalizado na informação de natureza local tem o propósito de unir, por meio da comunicação, uma região ligada geográfica e politicamente. Nessa perspectiva, toda a produção jornalística é pensada com o objetivo de atender à região, respeitando as características e os fatos locais que movimentam a cidade ou um grupo de cidades em que o jornal possa atuar.
Estudos e reflexões sobre jornalismo regional mostram que a informação é essencial para o desenvolvimento de uma comunidade – sendo objetivo de um jornal que a comunidade se identifique e se reconheça nas suas páginas. O jornal obtém essa identificação da comunidade ao focar sua linha editorial na informação local, nas características e nas peculiaridades do município e seus bairros – sem perder de vista um enquadramento regional, e, por vezes, até um enquadramento nacional da informação de natureza local, de modo a situar o público leitor. Assim, os leitores de um jornal regional bem estruturado têm uma visão dos acontecimentos que movimentam seu município dentro do contexto regional e nacional em que cada cidade está envolvida. A identificação do leitor com o seu jornal ocorre à medida que o jornal abre espaço para eventos, festas, manifestações populares, reclamações de bairro sobre problemas no espaço público e outras notícias ou assuntos de interesse para os moradores da localidade.
Ao levar a informação regional e local a seus leitores, um jornal estimula o debate dos problemas – e das soluções para os problemas – a nível regional. De um jornal regional, a comunidade espera mais notícias locais tratadas com maior profundidade, ou seja, uma visão jornalística voltada para a realidade de cada município.
Ao oferecer a notícia regional com foco local, um jornal regional abre um canal para a população reivindicar, mostrar seus problemas e cobrar soluções junto da administração da cidade, exercendo assim, sua cidadania, em benefício da comunidade. Isso acontece quando a comunidade se identifica com o jornal e absorve a importância de ter um veículo de comunicação preocupado e comprometido com as necessidades regionais e locais.

(Obs. – Texto baseado no estudo acadêmico intitulado “O ‘TodoDia’ e a comunidade: o jornal regional como instrumento de cidadania”, da autoria de Ivone Moreira da Silva, jornalista, especialista em Jornalismo e Segmentação Editorial pela PUC-Campinas, e Bruno Fuser, jornalista, doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e professor titular da PUC-Campinas. Estudo completo aqui: http://migre.me/eKYQa)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

“Opinião Pública”. Um exemplo em Vila Nova de Famalicão


Entre 1991 e 1993 fui o primeiro director do “Opinião Pública”, um jornal semanal de informação geral, com sede em Vila Nova de Famalicão. Há 20 anos, ainda sem a velocidade da Internet, foi um projecto inovador na imprensa regional portuguesa, pois nascia a partir da redacção de uma rádio local acabada de ser criada, num aproveitamento de sinergias que se revelou acertado até hoje. Para além do jornal “Opinião Pública” e da “Rádio Digital”, o pequeno grupo local de “media” fundado pelo empresário Feliz Pereira dispõe agora de uma televisão “online” ("Fama TV"). Nos três meios de comunicação trabalham hoje perto de 20 profissionais.
Esta semana, o “Opinião Pública” chegou à edição nº 1000. Segundo o Bareme Imprensa da Marktest, é o jornal mais lido no concelho de Vila Nova de Famalicão, com uma tiragem média semanal da edição em papel bem acima dos 12.500 exemplares, que são distribuídos gratuitamente em todo o concelho. A edição nº 1000 e a evocação dos 20 anos da publicação foram pretexto para um suplemento especial, para o qual o actual director, João Fernandes, me pediu um texto sobre a experiência que foi dirigir um jornal aos 25 anos de idade. Aqui fica:

Uma experiência irrepetível
Tudo o que vivemos “é vivido pela primeira vez e sem preparação”, como diz Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza do Ser”, “como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”. Foi assim que, em 1991, aceitei o desafio de Feliz Pereira para dirigir um novo jornal em Vila Nova de Famalicão, inserido numa empresa jornalística que integrava também uma estação de rádio.
Tinha 25 anos e já tinha uma “carreira” jornalística profissional, o que na altura significava que era um dos poucos jornalistas de Famalicão a viver do jornalismo. Estivera na “Rádio Famalicão”, com António Santos Oliveira; fundara o jornal “Cidade Hoje”, onde José Mário Machado Ruivo e Carlos Vieira de Castro, dirigentes do Círculo de Cultura Famalicense, agraciaram o meu trabalho com um louvor; e tinha sido contratado por “O Comércio do Porto”, na altura dirigido por Manuel Teixeira, actual chefe de gabinete de Rui Rio, e Fernando Santos, actual director-adjunto do “Jornal de Notícias”, de quem fiquei amigo.
Nesse tempo, tudo era diferente em Portugal. Cavaco Silva, então primeiro-ministro, vendeu-nos bem a ideia de um País com pedalada para integrar o “pelotão da frente” da Europa, o que, no nosso imaginário, significava capacidade de consumo e qualidade de vida. O dinheiro começava a chover de Bruxelas. Salvo os desempregados do velho têxtil do Vale do Ave, o emprego era pleno.
Foi neste ambiente efervescente que abracei o projecto inovador do OPINIÃO PÚBLICA, pensado e definido por Feliz Pereira, a pessoa que então, por cá, melhor percebia da comunicação social como um negócio. Foi ele que me convidou para dirigir o jornal, apoiado na estrutura jornalística da “Rádio Vila Nova” (hoje “Rádio Digital”), então a dar os primeiros passos, depois da legalização das rádios locais, em 1989.
Aceitei o desafio com paixão e entusiasmo. Tudo o que sabia de jornalismo tinha sido aprendido a ler jornais – o que fazia desde antes de ir para a “escola primária” – e nas redacções por onde tinha passado. E o OPINIÃO PÚBLICA nasceu, fresco, desempoeirado, irreverente, destemido, sonhador e dependente apenas de quem escrevia as notícias ou as opiniões. Uma experiência irrepetível, porque feita por uma geração de jovens jornalistas, alguns deles sem qualquer experiência, acompanhados com paciência pelos conselheiros editoriais Artur Sá da Costa, Joaquim Loureiro, António Cândido Oliveira, Almeida Pinto e o “grande chefe” Feliz Pereira.
Fui director do OPINIÃO PÚBLICA durante três anos, após o que escolhi trabalhar no “Público”, então o melhor jornal diário do País. Foram três anos que passaram em três dias. Lembro-me que fui arguido na maior parte desse tempo, com termo de identidade e residência, por causa de processos em tribunal – graças à nossa acutilância, por vezes ingénua. Mas, por obra e graça de Gouveia Ferreira, o advogado, nunca vi um juiz em tribunal. O melhor que se pode dizer sobre o meu tempo como director do OPINIÃO PÚBLICA é que, passados 20 anos, continuamos a poder acordar todas as quartas-feiras e folhear as páginas do jornal. Obrigado, Feliz Pereira!

Luís Paulo Rodrigues, director do OPINIÃO PÚBLICA entre 1991 e 1993 e Adjunto do Presidente da Câmara de V. N. de Famalicão para a Comunicação, desde 2002