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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

“Praça da Alegria” em Lisboa significa menos Norte e menos Portugal


Em Portugal, o fim do programa “Praça da Alegria” na RTP Porto, e sua transferência para Lisboa, é uma decisão estúpida e destituída de sentido, que acaba de ser tomada pelo presidente da RTP, o ex-gestor cervejeiro Alberto da Ponte.
Produzir um programa de televisão não é a mesma coisa que produzir cerveja. A produção de uma cerveja tanto pode ser feita numa fábrica de Lisboa, como numa fábrica do Porto, de Vila Nova de Famalicão, de Estremoz ou de Santarém. Independentemente da fábrica e dos trabalhadores, a bebida continua exatamente igual. Já um programa de televisão deixa de ser o mesmo programa se mudar a cidade onde é produzido e apresentado. Porque, ao contrário de uma cerveja, um programa televisivo é formado por pessoas de múltiplas origens, que transmitem culturas, crenças, interesses e valores que são muito diferentes. É da soma dessas diferenças que se faz uma região, um País, um povo.
O programa “Praça da Alegria” foi uma ideia da televisão pública para o Norte, no tempo em que a cidade do Porto era vista como a capital do trabalho – pois sediava muitas das maiores empresas da indústria, do comércio e dos serviços. E tinha, também, alguns dos maiores jornais do País, onde eram formados os melhores jornalistas portugueses. Foi para satisfazer os anseios e expectativas do Norte que a RTP lançou o programa “Praça da Alegria”, que se somava ao serviço de notícias “Jornal da Tarde” – que foi sempre uma visão do mundo com os olhos do Norte. Dessa emergência do Porto mediático resultava um País mais forte, mais coeso e mais desenvolvido. Os municípios e as instituições nortenhas que não tinham acesso à “televisão de Lisboa” tinham na RTP Porto um serviço público de TV descentralizado que era uma porta de entrada alternativa na casa de milhões de portugueses.
Nos últimos 18 anos, o programa “Praça da Alegria” deu seguimento a uma tradição com quase três décadas (28 anos) de programas da manhã feitos a partir da RTP Porto, depois de programas como "Bom Dia" ou "Às Dez", que ocupavam, grosso modo, o mesmo horário, antecedendo o "Jornal da Tarde", também emitido e coordenado a partir do Porto.
Ora, o Porto das grandes empresas e dos grandes jornais já não existe. “O Comércio do Porto” fechou, “O Primeiro de Janeiro” vegeta sem jornalistas e o “Público”, que já teve uma grande redação no Porto, também está confinado a Lisboa. Aliás, não há hoje na cidade do Porto um jornal diário que seja totalmente dirigido e produzido na cidade. O “Jornal de Notícias”, que é o único grande jornal da cidade, já não tem um departamento comercial autónomo e vai buscar a sua informação económica ao jornal digital “Dinheiro Vivo”, do mesmo grupo, que é de Lisboa. Ou seja, a informação económica do “JN” já não tem a visão do Norte, nem transmite o pulsar da economia real nortenha, mas sim, a visão do centralismo financeiro falido de Lisboa.
A RTP, sendo uma empresa pública, deveria refletir sobre isto. Esta visão deve escapar a Alberto da Ponte, que não tem uma ideia sobre Portugal que se conheça. E deveria ter, dado o lugar que ocupa. Mais do que nunca, o Porto e o Norte precisam de um serviço público de televisão forte e produtivo. Mas é precisamente nesta altura que a RTP resolve abandonar a região, encerrando também outras delegações.
Para a maioria daqueles que têm acesso ao espaço público mediático, a questão não interessa muito. Afinal, estão quase todos em Lisboa. E a mudança da “Praça da Alegria” para Lisboa acaba por ser mais um palco onde podem aparecer. Daí que as vozes contrárias estejam muito confinadas aos trabalhadores da RTP, em particular aqueles que vão perder o seu trabalho em Vila Nova de Gaia.
É pena que assim seja. Porque estamos perante uma decisão política da maior gravidade para a coesão e para o desenvolvimento de Portugal, numa fase tão difícil para todos os portugueses. Uma decisão que não assenta em justificações de ordem técnico-financeira e que representa um reforço do centralismo. Uma decisão que significa mais uma facada no povo do Norte, na sua cultura e suas instituições. Uma facada no património mundial do Porto, de Guimarães, do Douro Vinhateiro e de Vila Nova de Foz Côa. Porque, sem o programa “Praça da Alegria” e sem uma RTP Porto forte e ativa, Portugal será ainda um País mais pobre, mais pequeno, mais desconhecido e mais distante da sua capital e dos centros de decisão. Um País mais pobre porque um País sem voz e sem acesso aos grandes meios de comunicação. Daí que o apelo à revolta da região, lançado pelo eurodeputado do PSD Paulo Rangel, naturalmente apoucado pela elite lisboeta, faça todo o sentido (ver aqui).
Os operadores privados de televisão – que noutros tempos foram atrás da receita da RTP para a programação das manhãs de segunda a sexta-feira –, estarão, certamente, atentos a esta retirada da televisão pública portuguesa do Norte do País. Pode ser que agora descubram o filão nortenho. É um desafio. E uma oportunidade.

sábado, 21 de julho de 2012

A RTP e os incêndios na Madeira



As televisões portuguesas mobilizaram alguns dos seus melhores jornalistas para a cobertura dos incêndios florestais na ilha da Madeira. Como se sabe, na ilha existe a RTP Madeira, que é um dos canais da televisão pública portuguesa, por sinal a primeira a ter mostrado ao mundo, com grande profissionalismo, a tragédia que se abateu sobre a ilha. Porém, nos dias seguintes, a RTP Lisboa acabou por mandar outras equipas de reportagem para a Madeira, com caras mais conhecidas da informação. Deixámos, por isso, de ouvir relatos com sotaque madeirense daqueles que melhor conhecem a região.
Em minha opinião, é incompreensível o que se passou. Ao ter mandado repórteres de Lisboa, a RTP – para além de acicatar Alberto João Jardim com o envio de uma jornalista  indesejada... – passou um atestado de menoridade aos seus repórteres da Madeira. Ora, se o pessoal da RTP Madeira não é capaz de descrever incêndios não será capaz de fazer nada. A verdade é que o trabalho dos repórteres madeirenses foi bem avaliado por quem acompanhou as reportagens. 
No fundo, a RTP Lisboa revelou a todos nós um exemplo do centralismo bacoco que tem impedido o desenvolvimento harmonioso do País. Eu sei que, quem está em Lisboa, tem dificuldade em olhar as coisas por este prisma. Mas é uma realidade. E já não menciono questões como o desperdício de meios e o aumento de despesa que esta operação implicou. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

O dia em que até a RTP foi ao Pingo Doce


Com esta campanha de preços extraordinariamente baixos, que é própria de um País de pobres e miseráveis, o Pingo Doce só contagia quem se deixar contagiar e, também é verdade, quem não pode deixar de ser contagiado. Isto num dia em que todos deveriam estar em casa a descansar, vivendo em sossego o feriado do Dia do Trabalhador. A começar pelos trabalhadores do Pingo Doce.
Para muita gente, porém, já não há 1º de Maio. Até a insuspeita RTP, que é pública, o que significa que tem responsabilidades de serviço público em matéria de televisão, mandou um repórter para a porta do Pingo Doce de Telheiras, para que fossemos informados sobre as promoções do supermercado do grupo Jerónimo Martins. Não se tratou de publicidade encapotada. Era mesmo o "Jornal da Tarde", da RTP1. Era mesmo uma reportagem. Deve ter sido para agradecer à família Soares dos Santos a recente transferência de capital para uma subsidiária do grupo na Holanda.
Por mim, e quanto a supermercados, continuo a fazer compras no LIDL, que é uma das coisas boas que a Alemanha meteu em Portugal. Tem marcas próprias, tem bons produtos e fortalece a economia portuguesa, não só os produtores locais, como os armazenistas que não têm acesso à grande distribuição. Parafraseando a publicidade do Pingo Doce, é no LIDL que sabe bem pagar tão pouco. O resto é conversa.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Nuno Melo. "RTP faz grande serviço público em Portugal"


“Acho que o Estado deve ter um canal e deve assegurar um canal que actualmente a RTP representa, mas não tenho dúvida nenhuma que o Estado deve assegurar uma melhor gestão e a RTP não pode ser um sorvedouro de dinheiro que o Estado não tem.”

“Faz sentido neste momento discutir tudo e ponderar muito bem cada privatização (...). Acredito que a RTP nos garante um serviço público de qualidade, que se deve manter. Até do ponto de vista do pluralismo democrático que o canal público garante. Mas na RTP não pode ficar tudo na mesma, como não pode ficar tudo igual em muitas empresas em que o Estado tem prejuízos recorrentes e sucessivos.”

“A RTP tem feito um grande serviço público em Portugal. E isso os outros canais não têm garantido. Mas também tem de dar um passo em frente para assegurar o cumprimento de objectivos de gestão. Isso leva-nos a que se pondere tudo muito bem e a discussão aconteça antes que seja proclamada qualquer privatização sem mais.”

“O ministro Miguel Relvas já disse muita coisa e eu respeito muito o que o senhor ministro Miguel Relvas disse, mas isso não quer dizer que essa decisão [privatização da RTP] não deva ser discutida e ponderada no momento certo. O ministro Miguel Relvas, quando agora o diz, não decidiu já o que terá de ser avaliado a seu tempo e numa decisão que acontecerá, porventura, a partir de 2012. Daqui até lá muito terá de ser ponderado numa discussão que terá de acontecer e espero que se mantanha o serviço público que a RTP assegura.”

Nuno Melo, eurodeputado e vice-presidente do CDS/PP, jornal “i”, 31-12-2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

RTP. Mudar tudo para que tudo fique na mesma



“A RTP custou este ano 350 milhões de euros, sem nos dar em troca os correspondentes conteúdos de interesse público e de valorização pessoal. Para o ano vai-nos custar mais de 600 milhões! Sim, mais de 600 milhões, pois será incluída no orçamento a dívida que foi colocando a RTP numa falência técnica crónica sempre tolerada pelos governos em troca dos serviços prestados à propaganda e à desinformação.”

“O ministro Miguel Relvas pretende contas controladas por um genuíno sentido de defesa do dinheiro público num momento de crise, para ter a empresa financeiramente pronta para a privatização de um canal e para passar por salvador da RTP, tal como Morais Sarmento, que a "salvou" em 2002 para se servir dela de 2003 em diante.”

“Em 2011, pretende-se de novo emagrecer a RTP para salvar o modelo de sempre na relação com o poder político, permitindo à RTP, a qualquer momento, servir o governo e o sistema partidário (os outros partidos toleram e apoiam este modelo, porque comem as migalhas queo governo e a RTP lhes atiram ao chão).”

“Este Governo, como os anteriores, pretende algum controlo sobre aspectos da informação, como a "sugestão" de chefias e de comentadores políticos, a agenda do ‘Prós e Contras’ — que tem sido, desde há quase dez anos, o verdadeiro programa do Governo —, e as habituais "sugestões" para a agenda noticiosa normal. É isto que está em causa.”

“O ministro Relvas reconduzirá o presidente da RTP, um PS que se aprestou ao frete da recuperação financeira imposta pela ‘troika’ e a despedir umas centenas de funcionários. Uma ressalva na lei que baixou os salários das outras empresas públicas salvaguarda os altos salários desta administração. O administrador Luís Marinho, a quem não se conhece nenhum trabalho de mérito, que disse ser José Sócrates um primeiro-ministro "óptimo", que já foi director de informação em tempos de governos PSD ou PS, está "sugerido" por Relvas para director-geral da RTP, o que será, na minha opinião, um desastre para os conteúdos e para a informação. Alguém duvida dos motivos que levam Relvas a querer Marinho como director-geral?”

Eduardo CintaTorres, membro do Grupo de Trabalho nomeado pelo Governo para definir o Serviço Público de Comunicação Social, “Corrreio da Manhã”, 11-12-2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

José Mensurado (1931-2011)

O jornalista José Mensurado, de 80 anos, faleceu nesta sexta-feira, "de morte natural", segundo revelou à agência Lusa uma fonte familiar. José Mesurado trabalhou na RTP durante 39 anos, onde "fez de tudo um pouco", segundo a estação pública portuguesa. Ainda me lembro vagamente dele como apresentador de notícias nos anos de 1980.
Ao longo de quatro décadas na RTP, Mensurado foi chefe de redacção, chefe do “Telejornal”, moderou inúmeros programas de informação. Mensurado conduziu em directo a histórica emissão da chegada do Homem à Lua em 1969, numa maratona que durou 18 horas. A última entrevista de José Mensurado foi no programa "Há Conversa", na RTP Memória. Mais informação aqui: “Instante Fatal”: José Mensurado, partiu um grande senhor da TV.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

João Duque, Carlos Magno e os jornalistas vendidos


O líder do "grupo de trabalho" escolhido pelo Governo para definir o serviço público de comunicação social, o economista João Duque, pensa genuinamente que os portugueses devem ter o mínimo de informação possível sobre o que se passa no País e no mundo e que o mundo só deve saber sobre Portugal aquilo que o Governo acha que deve ser notícia. Duque também acha, convictamente, que os jornalistas, editores e directores dos meios de comunicação do Estado são todos uns vendidos, partindo do princípio que todos os poderes, em particular o político, fazem deles o que querem. Até Paulo Portas, que não está para ser queimado nesta fogueira de incompetentes, fugindo das más notícias como quem foge dos pingos da chuva, já disse que não quer nada com a RTP Internacional.
Por ter falado em jornalistas, que João Duque considera que são vendidos ao poder político, um dos que serviram o Estado foi precisamente Carlos Magno (na foto), novo presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) e eminência do nosso espaço mediático, tanto que terá sido escolhido directamente pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, num triste e lamentável processo de "eleição".
Ora, em função das conclusões do tal "grupo de trabalho", que defende a extinção da ERC, Carlos Magno tem fortes razões para se sentir enganado, caso Miguel Relvas resolva seguir as indicações. Porém, Magno ainda não disse nada sobre o assunto, ao contrário do seu antecessor, Azeredo Lopes, embora, premonitoriamente, tenha dito que, enquanto presidente da ERC, iria privilegiar a língua portuguesa e evitar a conflitualidade com jornalistas e meios de comunicação. Isto é, a nova liderança da ERC não está para se chatear muito.
Resumindo e concluindo, se um "grupo de trabalho", que deveria ser formado por gente considerada especialmente preparada sobre um assunto em questão, pensa o que pensa sobre o serviço público de comunicação social, não custa admitir o que pensarão outros grupos de trabalho de outros sectores de actividade no País. Juntando tudo, temos Portugal no seu melhor, ou seja, o País que todos conhecemos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Limitar a informação pública é uma ideia absurda


O grupo de trabalho escolhido pelo Governo para definir o conceito de serviço público de comunicação social preconiza, no essencial, a manutenção de apenas dois canais públicos da RTP sem publicidade (um canal nacional e outro internacional), o fim de uma das três estações de rádio públicas (presume-se que seja a dispensável Antena 3) e a privatização da agência Lusa.
Os “livres pensadores” coordenados pelo economista João Duque acham ainda que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deve ser extinta e que a informação em todos os meios estatais deve ser limitada ao mínimo.
Estas duas propostas são estranhas. Quanto à extinção da ERC – de que grande parte dos jornalistas não gostam, assim como não gostam de provedores –, num País onde a justiça não funciona, os atropelos dos meios de comunicação têm de ser regulados por um organismo que tenha meios para o fazer.
Quanto à limitação da informação nos meios públicos “ao essencial”, para evitar “a intervenção ilegítima ou eticamente reprovável dos diferentes poderes na informação da rádio, TV e agência do Estado”, considero uma ideia absurda, porque significa um atestado de incompetência às direcções editoriais dos meios de comunicação públicos e prenuncia o fim do serviço público de informação. Basicamente é isto: se um meio de comunicação estatal só difunde as inócuas notícias de agência limitadas o mínimo, deixa de ter razões para existir. Donde, é o fim do serviço público de informação.
Sobre o serviço público de televisão, recordo o que escrevi neste blogue, em 22 de Abril de 2011:
“Portugal precisa de um bom serviço público de televisão a custar muito menos do que custa agora. Precisamos de um bom canal público que faça uma boa televisão generalista, mas que não concorra com as televisões privadas.Não precisamos do Estado para nos dar mais do mesmo.
Uma televisão pública não pode funcionar, porém, tendo várias equipas de reportagem nas delegações espalhadas pelo País formadas por três elementos, sendo um coordenador dos outros dois. Nem pode ter tantas prateleiras douradas em gabinetes visíveis e invisíveis que estejam ocupadas por gente que ganha muito e não faz nada. Nem pode ter profissionais a ganhar mais do que o primeiro-ministro ou o Presidente da República.
Além disso, não precisamos da RTP 2, não precisamos da RTP Madeira, não precisamos da RTP Açores, não precisamos da RTPN, nem precisamos da RTP África, nem da RTP Memória. Mas, provavelmente, precisamos de uma boa RTP Internacional, como grande canal da lusofonia, e de uma RTP Cultura, para promover a cultura portuguesa de todo o país em todas as suas vertentes.
Ora, isto não teria nada a ver com um serviço público dominado pelos saltos do João Baião e palhaçadas similiares, que nos mostram de manhã até à noite, como se a RTP fosse um canal privado que dá ao público aquilo que o público quer ver... Por isso, valia a pena que Miguel Relvas fosse estudar melhor o dossiê RTP. E que o enquadrasse numa perspectiva global da comunicação social pública, onde teria de incluir a agência de notícias Lusa, que também deveria integrar o universo RTP-RDP, com ganhos para o erário público.”

terça-feira, 6 de setembro de 2011

RTP continua a brincar às televisões


Na RTP, continuam a brincar às televisões. Eis uma notícia incompreensível: numa altura em que o Governo se prepara para privatizar a RTP, eis que a RTP N, um canal dispensável quando há canais privados que fazem o mesmo, decide mudar a sua identidade visual.
Pior sinal para um País castigado pela austeridade seria praticamente impossível, sobretudo quando se fala em poupança de recursos para diminuir a despesa pública e quando se escolhe uma equipa de especialistas para definir como deverá ser o serviço público de televisão em Portugal (equipa essa que, provavelmente, só deverá descobrir a pólvora).
Para que não haja dúvidas, as mudanças agora anunciadas já estavam a ser "estudadas há meses". Ou seja, desde o tempo do Governo anterior. Portanto, já nem o poderoso ministro Miguel Relvas tem mão no forrobodó...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

José Eduardo Moniz regressa à RTP


A Ongoing, de Nuno Vasconcellos, está de olho na privatização da RTP. Logo, o regresso de José Eduardo Moniz à RTP, ele que é vice-presidente da Ongoing, faz todo o sentido. Escusado será lembrar que os problemas financeiros da RTP e do aumento da despesa pública do Estado já não se colocam quando está em causa contratar uma vedeta como Moniz, mais a mais da Ongoing...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Um elefante numa loja de porcelanas


Se a ideia é privatizar a RTP, os últimos dados indiciam o contrário. O ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, que tutela o pelouro da Comunicação Social, convidou o jornalista da SIC Mário Crespo para correspondente da RTP em Washington. Segundo revela a edição “online” do "Expresso", jornal da Impresa, grupo que detém a SIC Notícias, onde Crespo trabalha, a abordagem feita pelo ministro ao experiente jornalista apanhou de surpresa não só a administração da RTP, mas também a direcção de informação. Primeiro porque a nomeação de correspondentes da RTP é uma incumbência da direcção de informação, com posterior aval da administração. Depois, porque estas nomeações têm um regulamento interno com critérios bem definidos: é dada primazia aos jornalistas da RTP interessados em colocações no estrangeiro – o que não é o caso de Mário Crespo, jornalista da SIC – e os candidatos só são escolhidos após avaliação feita por um júri interno. Crespo não desmente o convite do Governo, mas Miguel Relvas ainda não explicou mais esta trapalhada – depois do caso que envolveu o afastamento do jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes da delegação da agência Lusa em Paris.
O poder político sempre teve dificuldades para lidar com jornalistas e meios de comunicação social. Os atribulados processos de legalização das rádios locais e de privatização dos jornais, em finais da década de 1980, e de licenciamento dos canais privados de televisão, no início da década de 1990, assim como, agora, mais um processo de reestruturação da RTP, sob a batuta de Miguel Relvas, confirmam outra percepção histórica: quando se trata de “mexer” na comunicação social, os governos liderados pelo PSD também se comportam como um elefante numa loja de porcelanas.  [FOTO: Gerardo Santos, “Dinheiro Vivo”]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Joaquim Vieira e a privatização da RTP


"Em toda a União Europeia, exceto no Luxemburgo (511 mil habitantes) e Malta (413 mil), o serviço público de televisão é assegurado através de pelo menos dois canais, e muitas vezes três (ou até mais). A lógica é que, devendo o serviço público dirigir-se naturalmente a toda a população, esta possui gostos e interesses distintos a que é impossível corresponder apenas com um canal. Não existe um público de televisão, mas diversos públicos – para simplificar, haverá, “grosso modo”, dois grandes grupos: a elite e a massa. Daí a necessidade da existência de um mínimo de dois canais, por norma o primeiro, de conteúdos mais populares (dirigido à massa), e o segundo, com programação mais sofisticada (para a elite). Apesar do debate que tem havido a nível europeu acerca desta matéria, nunca foi admitida a possibilidade de reunir tudo num único canal, que seria um canal esquizofrénico, querendo agradar a todas as camadas e acabando por não agradar a nenhuma. Fazer um só canal de televisão pública tenderia a afastar sobretudo as camadas populares, dado que esse canal teria necessariamente o nível de programação mais exigente que por hábito, numa perspetiva fundamentalista, se associa ao conceito de serviço público (patente, aliás, na ideia do PSD de privatizar a RTP1, mas deixar a RTP2 na área pública). Ou seja, todos os contribuintes passariam a pagar um canal que apenas um grupo restrito sintonizaria. Seria a mesma lógica das SCUT: todos as pagam, mas só as utilizam os poucos que nelas circulam. A médio prazo, sobrelevaria a pressão para fechar também esse canal, por inadequação aos consumos públicos de TV, e assim extinguir de vez a televisão pública (que tem uma função supletiva em relação às estações privadas). Sou, por isso, contra a privatização da RTP1. Acho, porém, útil que se discuta se o tipo de programação da RTP1 (e da RTP2) é o mais adequado, se se justifica o seu orçamento anual e também quais as melhores formas de financiamento do serviço público de TV em Portugal. E vale ainda a pena perguntar se se justificam os canais da RTP no cabo, onde o acesso dos telespetadores não é universal, ou se a sua programação não poderia ser 'diluída' na RTP1, na RTP2 e na Internet."

Joaquim Vieira, jornalista, na sua página no Facebook, 08-08-2011

Relvas quer dar RTP à Ongoing, acusa Sousa Tavares


“Quando saí da TVI, disse que não sabia quem era a Ongoing, de onde vinha o dinheiro, de onde é que vinham, para onde é que queriam ir e que isso me fazia muita confusão. Prefiro patrões de imprensa que são transparentes e que sabem o que querem.”

“Agora, o que é que se joga? Penso que é, descaradamente, a privatização da RTP a favor da Ongoing. É uma jogada claríssima. Ouvi Miguel Relvas a dizer que era das privatizações mais urgentes. E ficamos a pensar: porquê, por que é que é assim tão urgente? Há uma manobra destinada a oferecer a RTP à Ongoing. Só espero que não seja oferecida nos termos em que o BPN foi e que ainda tenhamos de pagar para a RTP ir para a Ongoing.”

“[A RTP não está em fim de carreira], o modelo RTP de serviço público é que está em fim de carreira – uma televisão pública continua a fazer todo o sentido.”

Miguel Sousa Tavares, “Diário de Notícias”, 07-08-2011

terça-feira, 28 de junho de 2011

Alberto vai casar e a TVI mostra em directo


No próximo sábado, 2 de Julho, vai casar o Príncipe do Mónaco Alberto II, de 53 anos – irmão de Carolina e Stéphanie. A eleita é a ex-nadadora sul-africana Charlene Wittstock, 20 anos mais nova. Ao que parece, o homem até não quer nada com a agenda mediática, mas a agenda mediática dos mexericos e vacuidades não o deixa em paz, sobretudo depois da morte do pai, Rainier III, em 2005. Um casamento real é motivo para ocupar horas e horas de televisão e páginas e páginas de jornais e revistas.
O que se passa no Principado do Mónaco, a todos os níveis, é absolutamente irrelevante para os portugueses. O Mónaco não é conhecido pelas suas relações históricas com Portugal. Além disso, Portugal é uma República, não é uma Monarquia. No entanto, a TVI promete uma emissão especial, entre as 14h00 e as 19h00, justamente para transmitir o espectáculo que será o casamento de Alberto II. Serão cinco horas de emissão em canal aberto do nada sobre o nada, do vazio sobre o vazio. E muita sorte ainda não se terem lembrado de transmitir o funeral do malogrado Angélico Vieira...  
É por isso que a privatização da RTP, que sempre faz parte do programa do Governo PSD-CDS/PP, é perigosa. Quando não há critério na programação televisiva, a população fica entregue à ditadura das audiências – que tudo aceitam, passivamente, sem pestanejar. Donde, um bom canal público de televisão, que faça um caminho próprio, de verdadeiro serviço público, distinto da via popularucha, estupidificante e meramente comercial dos canais privados, é essencial no sistema mediático português.
Como já escrevi neste blogue, precisamos de um bom canal público generalista em sinal aberto, mas não precisamos de uma televisão tão gorda e tão cara como a que existe actualmente. Não precisamos da RTP 2, não precisamos da RTP Madeira, não precisamos da RTP Açores, não precisamos da RTPN, nem precisamos da RTP África, nem da RTP Memória. Mas, provavelmente, precisamos de uma boa RTP Internacional, como grande canal da lusofonia, que promova a cultura portuguesa, a economia, o turismo, “et cetera”. Os actuais sete canais poderiam, então, ser reduzidos a dois. 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A RTP, os debates eleitorais e os protestos


Os pequenos partidos têm toda a razão quando dizem que são discriminados e, por isso, protestam contra as televisões pelo facto de terem ficado de fora dos debates eleitorais, para as eleições legislativas de 5 de Junho. A legislação até está do lado deles, mas ninguém a cumpre. Um dos protestantes, o madeirense José Manuel Coelho, valeu 190 mil votos nas últimas eleições Presidenciais (4,5 por cento dos votos). E valeu 190 mil votos porque, na campanha presidencial, as televisões não conseguiram eliminá-lo completamente do espaço mediático, tendo de aguentar, desde logo, com a sua presença nos debates...
Nos debates para as legislativas, que já estão a ser realizados, é diferente, pois segundo as regras definidas por livre arbítrio das televisões, só cabem os partidos com assento parlamentar. É um escândalo, pois significa que o sistema político se fecha, não abrindo espaço à afirmação pública de novos partidos e de novos rostos políticos através da televisão. O sistema democrático é, portanto, muito relativo.
Neste caso, acho que as televisões privadas são livres de estabelecer o seu critério. É por isso que são privadas. Já a RTP, que vive à custa do dinheiro de todos os portugueses que pagam impostos, tem responsabilidades diferentes. Pelo menos, deveria ter. Defender a democracia, promovendo a pluralismo político, como define a Constituição da República Portuguesa, deveria ser uma das bandeiras da televisão pública. Mas não é.
Infelizmente, a RTP comporta-se como se fosse uma televisão privada, concorrendo com as privadas. É por isso que se justifica uma televisão pública que defenda e promova um serviço público de qualidade, que respeite os sectores minoritários da sociedade.
Acontece, porém, que este debate não interessa. Quem poderia beneficiar dele, ou seja, aqueles que agora não têm espaço na televisão, ganhariam um novo protagonismo. Ora, isso poderia reformar o sistema. Por isso, é um debate que não interessa a quem já tem o seu lugar bem visível nos vários ecrãs, sejam públicos ou privados... FOTOGRAFIA: "Diário de Notícias"