sábado, 21 de julho de 2012

A RTP e os incêndios na Madeira



As televisões portuguesas mobilizaram alguns dos seus melhores jornalistas para a cobertura dos incêndios florestais na ilha da Madeira. Como se sabe, na ilha existe a RTP Madeira, que é um dos canais da televisão pública portuguesa, por sinal a primeira a ter mostrado ao mundo, com grande profissionalismo, a tragédia que se abateu sobre a ilha. Porém, nos dias seguintes, a RTP Lisboa acabou por mandar outras equipas de reportagem para a Madeira, com caras mais conhecidas da informação. Deixámos, por isso, de ouvir relatos com sotaque madeirense daqueles que melhor conhecem a região.
Em minha opinião, é incompreensível o que se passou. Ao ter mandado repórteres de Lisboa, a RTP – para além de acicatar Alberto João Jardim com o envio de uma jornalista  indesejada... – passou um atestado de menoridade aos seus repórteres da Madeira. Ora, se o pessoal da RTP Madeira não é capaz de descrever incêndios não será capaz de fazer nada. A verdade é que o trabalho dos repórteres madeirenses foi bem avaliado por quem acompanhou as reportagens. 
No fundo, a RTP Lisboa revelou a todos nós um exemplo do centralismo bacoco que tem impedido o desenvolvimento harmonioso do País. Eu sei que, quem está em Lisboa, tem dificuldade em olhar as coisas por este prisma. Mas é uma realidade. E já não menciono questões como o desperdício de meios e o aumento de despesa que esta operação implicou. 

Os atalhos para escolher o candidato certo



Para escolher o candidato certo, o eleitor precisa percorrer alguns atalhos. Foi o que descobriu a jornalista Juliana Bublitz, do “Zero Hora”, de Porto Alegre, após ouvir alguns cientistas políticos brasileiros, a propósito da campanha para as eleições municipais do próximo dia 7 de Outubro, que começou no princípio do mês de Julho.
Escolher um prefeito (que em Portugal corresponde ao presidente da Câmara), não é a mesma coisa que escolher um vereador (que em Portugal corresponde ao deputado municipal). Como diz Valeriano Costa, da Universidade Estadual de Campinas, “o prefeito é um administrador, um gerente”, enquanto “o bom vereador é aquele que cuida da sua praça, que conhece o seu bairro e suas demandas”. Essas diferenças de funções têm, obviamente, implicações na escolha do melhor candidato (ver aqui artigo na íntegra).
Ao contrário do que se passa em Portugal, onde uma campanha eleitoral só tem a duração oficial de 15 dias (embora acabe por durar muito mais tempo nos meios de comunicação de acordo com a proactividade de candidatos e partidos), no Brasil, a campanha dura, oficialmente, três longos meses, seja em eleições municipais, estaduais ou federais.
Nas próximas municipais brasileiras, que se realizam em 7 de Outubro, serão eleitos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores em 5.566 municípios dos 27 estados brasileiros (ver aqui). Apenas nas cidades com mais 200 mil eleitores – cerca de 80 – haverá segundo turno, caso o candidato a prefeito mais votado não consiga mais de 50% dos votos.

sábado, 14 de julho de 2012

A comunicação de Mitt Romney e casos lusófonos


A pré-campanha nos Estados Unidos está animada. O republicano Mitt Romney respondeu aos incessantes ataques de Barack Obama reforçando a sua equipa de comunicação (ver aqui). Romney, que no "slogan" da sua campanha diz acreditar na América, demonstra saber o essencial: só comunicando bem poderá chegar à presidência dos EUA. Para isso precisa de ter os melhores ao seu lado. Não só os que são bem informados, mas também os que sabem comunicar com eficácia essa informação. O segredo de uma boa comunicação política está aí. 
Numa sociedade mediática, onde a informação circula instantaneamente, a má informação combate-se com boa informação. Só assim é possível desviar o foco mediático deste do daquele assunto. Para isso é preciso ter gente competente nos gabinetes e fora dos gabinetes. Gente que trabalhe, gente que investigue e que conheça profundamente o terreno que pisa.
Se olharmos para o que se passa em Portugal ao nível da comunicação, será fácil encontrar grandes organizações onde nem sequer há quem saiba redigir um comunicado (ver aqui um exemplo). Isto para não falar de um Ministério do Governo que ainda há dias anunciou em "Diário da República" ter contratado um elemento de um dos partidos da coligação governamental (ver aqui). 
A propósito da polémica licenciatura do ministro Miguel Relvas, a Universidade Lusófona, que era suposto saber comunicar com os "media", também nos deu abundantes exemplos de má comunicação, desde o primeiro dia, em que avistámos na televisão o ex-reitor Fernando Santos Neves a ser questionado por jornalistas no meio da rua, em andamento, fugindo para um beco sem saída, como sabemos agora (ver aqui).
Estes casos desagradáveis são reveladores de falta de profissionalismo na comunicação das instituições. A falta de profissionalismo é notória numa situação de crise. É nesses momentos que as organizações que contrataram o amigo conhecido em vez do profissional competente pagam a factura.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Passos Coelho. O rosto mediático de um País em dívida



Na comunicação política do líder de um Governo há três componentes estratégicos que são essenciais: a liderança, o discurso e o agendamento. Estes componentes constituem um conjunto integrado e interdependente da comunicação de um líder governamental. A liderança define um estilo de governação; o discurso dá-lhe uma narrativa; e o agendamento confere-lhe proactividade. Da conjugação destes elementos resulta a solidez, a estrutura e um programa orientado para o reforço da imagem e da liderança do Governo e do seu líder. Ou não. Como acontece com Pedro Passos Coelho (PPC) na liderança do Governo português.
Essa foi uma das principais conclusões a que cheguei num trabalho de análise que teve como objecto empírico determinar a configuração mediática de PPC, a partir da observação do jornal diário “Público” ao longo das 30 edições impressas entre 1 e 30 de Abril de 2012. Uma análise feita exclusivamente na perspectiva de quem recebe a informação através da leitura do jornal impresso. Daí resultou a percepção de PPC como um primeiro-ministro condicionado pela crise económica e financeira de Portugal e da Europa, que não concentra em si a comunicação do Governo e que se revela mais reactivo do que proactivo.
A presença de PPC na primeira página do “Público”, por exemplo, além de reduzida, aconteceu basicamente por motivos que lhe foram alheios ou que não decorreram da sua agenda mediática própria. E as notícias negativas para a imagem e reputação políticas de PPC superaram as notícias positivas em termos quantitativos (61,90% % contra 16,66%).  
Analisei a presença de PPC na primeira página, a representação fotográfica e as referências em artigos e secções de opinião, em entrevistas e reportagens (trabalho completo disponível aqui para "download").
Normalmente, PPC aparece como portador de más notícias ou como alguém incapaz de evitá-las ou combatê-las. Alguém que é percepcionado como não tendo um rumo claro e definido, que anda a reboque dos acontecimentos.
O que é preocupante para Pedro Passos Coelho e o seu Governo é que estamos no mês de Julho, passaram três meses, e o registo permanece, com tendência para piorar. De Abril para cá já se registaram dois “casos” envolvendo o ministro Miguel Relvas e já verificamos o descontrolo das contas das Finanças. O Tribunal Constitucional, por seu lado, ao declarar inconstitucional a eliminação dos subsídios de férias e de Natal em exclusivo para os funciconários públicos, obrigou ao anúncio de mais austeridade para todos os portugueses em 2013. Por tudo isto, PPC é o rosto mediático de um País em dívida. FOTO: Sean Gallup/Getty Images Europe

sábado, 7 de julho de 2012

A pressa e a precisão no jornalismo



“Depressa e bem há pouco quem”, diz o ditado. No jornalismo, a concorrência entre meios de comunicação, sobretudo agora que a Internet apela a uma informação instantânea, tem motivado erros grosseiros de quem menos se esperava. Perdem os cidadãos, porque ficam desinformados. E perdem os meios de comunicação, pois são atingidos na sua credibilidade, muitas vezes de modo fatal. E a credibilidade de um meio de comunicação é o seu património mais valioso. Sobre este assunto, deixo um artigo do Observatório da Imprensa, justamente intitulado “A pressa e a precisão” (ver aqui).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Leya edita livro no Brasil sem um capítulo



Quem trabalha na edição de textos confronta-se, muitas vezes, com erros que são imperdoáveis, mas que podem passar pelos crivos da correção, porque podem ser difíceis de detectar. Mas a edição, impressão e venda de um livro com páginas a menos é inadmissível e pode comprometer a marca de uma editora. Não só pelo prejuízo financeiro, mas, sobretudo, pela percepção negativa no mercado. A verdade é que o grupo Leya está a viver uma crise de imagem no Brasil, justamente por causa de um problema grave na edição do livro "A Dança dos Dragões", do norte-americano George Martin, que foi publicado nas livrarias brasileiras com 854 páginas em vez das 864 que devia ter, faltando o 26º capítulo da história. O grupo português já iniciou a recolha dos livros defeituosos (ver aqui). O prejuízo da Leya poderá rondar 1 milhão de reais (cerca de 400 mil euros). Já os prejuízos na imagem e reputação da marca são difíceis de calcular.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A lógica da comunicação da EDP



Na primeira página do sítio da EDP na Internet ficamos sem saber se estamos em contacto com uma empresa de distribuição de energia ou se estamos perante mais uma dessas instituições do complexo sector financeiro. Como podem observar na imagem, registada nesta sexta-feira, dia 29, a informação mais destacada é relativa ao valor das acções da EDP na Bolsa de Lisboa. O número que se vê, logo que abrimos a página, não é o número de telefone da linha de atendimento ao consumidor. É o número relativo ao valor de cada acção no PSI20!...
Ora, a EDP vende energia e a maioria das pessoas que entram no sítio digital da EDP serão consumidores com contas para pagar, com consumos de energia para comunicar ou com outro problema para resolver. A verdade é que há uma lógica nesta comunicação dos “gestores de topo” António Mexia, Eduardo Catroga e companhia. É uma lógica que privilegia o accionista da empresa e que deixa para segundo plano o consumidor. É por isso que os contadores revelam erros grosseiros no registo do consumo, com prejuízo para os clientes, os quais só foram reconhecidos depois de uma denúncia pública de uma associação de consumidores.
Na verdade, os “gestores de topo” da EDP, empresa que ainda é participada pelo Estado português, não pensam em prestar um serviço público de qualidade. O que eles demonstram com estes sinais é que só pensam nas acções bolsistas e nos prémios de gestão chorudos no final do ano. E só se aguentam no mercado porque a concorrência é limitada. Muito limitada. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

A REN, José Luís Arnaut e os insultos a Cavaco



Na segunda metade da década de 1990, José Luís Arnaut era um jovem executivo conhecido por segurar a pasta de Marcelo Rebelo de Sousa, quando este liderava o PSD, na ressaca do cavaquismo. Em pouco tempo, Arnaut tornou-se homem público-privado, entre a advocacia, os negócios e o Governo de Durão Barroso. No tempo de Sócrates recolheu aos gabinetes da advocacia e dos negócios. Até que, quando cheirava a poder, apareceu na campanha do PSD e na televisão como comentador político. A defender a causa do partido, claro. Agora está na ribalta por ter entrado na administração da Rede Eléctrica Nacional (REN). Diz que foi para lá por indicação da família Oliveira, da Riopele, e não pelo Governo.
A questão não está em quem formalmente fez o convite. A verdade é que, sabe-se agora, a REN é uma antiga cliente do escritório de Arnaut. E o escritório de Arnaut tem sido responsável por muita produção legislativa no âmbito do sector energético. Daí a polémica (ver aqui).
Este é só mais um daqueles casos que minam gravemente a confiança que os portugueses possam ter num Governo que, no essencial, faz o que Bruxelas e o FMI dizem que tem de ser feito, ocupando grande parte do tempo a controlar os danos resultantes destas polémicas, fragilizando-se perante os eleitores.
Os nomes saltam da memória sem esforço nenhum. Casos como os de José Luís Arnaut, Eduardo Catroga, Dias Loureiro, Oliveira e Costa ou António Borges, no PSD, e os de Jorge Coelho, Pina Moura ou Armando Vara, no PS, embora diferentes, confirmam que Portugal é uma coutada dominada pelos espertalhões do grande bloco central dos interesses em que se transformou a vida política portuguesa. É por isso que até o impoluto Cavaco Silva, se não quiser ser agredido ou insultado, já não pode sair do Palácio de Belém. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Vaticano contrata jornalista



Mergulhada em escândalos sexuais e financeiros, a Igreja Católica aposta na comunicação para melhorar a sua imagem junto dos fiéis e da sociedade. O Papa Bento XVI acaba de contratar um jornalista norte-americano, da Fox News e membro do grupo conservador católico Opus Dei, para melhorar as relações entre o Vaticano e os meios de comunicação (ver aqui).
É sempre bom quando uma organização decide apostar numa comunicação melhor ou mais eficaz. Mas, dada a natureza dos problemas que afectam a Igreja Católica, não me parece que a solução esteja na comunicação. A comunicação não serve para acabar com problemas graves que possam afectar pessoas ou instituições.
De qualquer modo, esta mudança estratégica do Vaticano significa também que a dessacralização do mundo continua a grande velocidade, obviamente, por força da Internet, que tudo mostra e tudo divulga, destapando segredos incontáveis e tornando humanos como nós homens e mulheres que tínhamos como “deuses” inspiradores.

domingo, 24 de junho de 2012

O preço da sardinha



No tempo da ditadura fascista (1926-1974), a sardinha era um peixe que só os pobres comiam. Pão de milho, sardinhas e vinho era a “ementa” quase diária dos portugueses que trabalhavam no campo. Nas famílias mais numerosas ou mais pobres, uma sardinha, mesmo barata, chegava a ser dividida por duas bocas. No Norte, além da sardinha, as fanecas, os carapaus e os chicharros eram os peixes mais populares. E pouco mais.
Mas nem tudo era mau. O peixe era do mar e chegava a casa dos consumidores mais próximos do litoral no próprio dia. Isso hoje seria um luxo. Pela manhã, nas aldeias, as donas de casa, que na altura ficavam em casa, pois o homem é que trabalhava fora para sustentar a família, assomavam à porta da cozinha quando ouviam o som da carrinha do homem do peixe. Umas diziam que era o “peixeiro”, outras o “sardinheiro”. A sardinha era o peixe barato que tinha mais saída.
Foi assim até aos anos de 1980. Depois veio o dinheiro da Europa e Cavaco Silva baixou as calças a Bruxelas e deixou que fosse destruída a nossa frota de pesca. Ninguém se queixou porque os sectores mais dinâmicos e empreendedores da sociedade estavam entretidos com o dinheiro de Bruxelas, que jorrava em grandes quantidades diariamente. Era dinheiro para auto-estradas e todo o tipo de infra-estruturas – inclusive as desnecessárias – e para essa vigarice a que deram o nome de “formação profissional”.
No mar só ficaram os desgraçados que não tinham espaço noutros lados. Na terra aconteceu praticamente o mesmo. A Europa começou a financiar a terra ociosa e muitos proprietários viram na ideia de receber para não produzir o seu filão lucrativo.
Como temos visto na crise em que vivemos, desde que entrou na Comunidade Económica Europeia, em 1986, Portugal decidiu muito mal em matéria de pescas e de agricultura. O que se passa no mercado da sardinha é exemplar.
Muito por força da mediatização das festas sãojoaninas, no Porto, e, sobretudo, das antoninas de Lisboa, a sardinha assada na brasa emergiu como iguaria típica da moda. Nas festas lisboetas, a sardinha foi mesmo “promovida” a elemento icónico – num trabalho de marketing com alguns anos. Hoje, os portugueses não comem sardinhas porque estão mais pobres, mas porque elas se transformaram num peixe chique. Chique, à custa da comunicação, e muito caro – mais caro do que o camarão, como se diz por aí – porque a procura é maior do que a oferta. O problema é não haver frota pesqueira que responda a todas as encomendas.