domingo, 29 de dezembro de 2013

O papel da imprensa económica no espaço mediático português


“(...) Alguns jornalistas ficam muito irritados quando afirmo (e vou repetir) que um dos problemas dos dias de hoje na vida pública em Portugal é a facilidade com que a comunicação social absorve a linguagem do poder e a reproduz como sendo sua, assim legitimando-a porque lhe dá um sujeito neutro, tornando-a uma verdade universal. Este processo não é simples, não se trata de estar “a favor” ou “contra” o Governo, nem sequer de atuar em função de preferências ou hostilidade partidárias, porque se fosse assim seria mais fácil identificar o que se passa.
Há um papel importante para os gostos e os ódios pessoais, mas isso faz parte do meio jornalístico desde sempre. O hábito é ajustar contas em função das simpatias ou antipatias pessoais entre jornalistas, políticos e outras personagens do espaço público, muito mais eficaz como explicação do que as simpatias partidárias. A promiscuidade entre jornalistas e “fontes”, a troca de favores e cumplicidades, as amizades e os amores, as vinganças e elogios interessados passam-se de modo subterrâneo, mas explicam muito da atitude de jornalistas face aos detentores do poder político, atual ou passado. Ora pouca gente cultiva mais a sua relação com os jornalistas do que os grupos dirigentes das “jotas” dos partidos, seja do PS ou do PSD, cuja proximidade social, cultural, de mentalidade e modo de vida, é quase total, e cuja partilha geracional de vocabulário (escasso), fragmentos de ideias, mitos e (in)experiências é igualmente comum.
Muitas vezes estas empatias têm a ver com o bem escasso da “influência” e os conflitos pela capacidade de a ter, outras vezes é inveja por ganhos e recursos. O problema é que, sendo esta uma explicação importante para muito do que se publica e se diz, ainda por cima em meios muito pequenos, que comunicam entre si, e onde está sempre alguém no lugar pretendido por outrem, ela é invisível para a comunidade dos consumidores dos media, que desconhecem muitos dos meandros que estão atrás dos bastidores. Explicava muita coisa, como se percebeu quando do “caso Relvas”, mas é na maioria dos casos impossível de usar.
Há cada vez mais jornalistas e jornalistas-comentadores mais próximos do poder, partilhando do mesmo pensamento de fundo associado ao “ajustamento”, embora possam discordar e algumas vezes serem até agressivos na crítica a aspectos de detalhe da governação. O problema é que a concordância de fundo é muito mais importante do que a discordância no detalhe e o núcleo central de legitimação do poder permanece intocável.
A mentalidade adversarial da comunicação social, já em si mesmo uma fragilidade, deu lugar a uma enorme complacência com o poder. Uma das razões desta proximidade de fundo tem a ver com o papel cada vez mais destacado da imprensa económica em tempos em que a “crise” é dominantemente explicada apenas pelas suas variantes económicas. O predomínio da economia levou a um avolumar do “economês”, uma variante degradada quer da economia, quer da política. E esse “economês” favorece os argumentos de “divisão” que têm tido muito sucesso no discurso público, fragilizando, no conflito social, umas partes contra as outras. Este discurso da divisão é uma novidade desta crise e uma das principais vantagens da linguagem do poder.
Colocar novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores privados contra funcionários públicos, reformados da Segurança Social contra pensionistas da CGA, sindicalizados contra “trabalhadores”, grevistas contra a “população”, e muitas outras variantes das mesmas dicotomias, tem tido um papel central no discurso governamental, que encontra na “equidade” um dos mais fortes elementos de legitimação. Se se parar para pensar, fora dos quadros das “evidências” interessadas, verifica-se até que ponto uma espécie de neomalthusianismo grosseiro reduz todas estas dicotomias a inevitabilidades a projeções sobre o “futuro” muito simplistas e reducionistas e que recusam muitos outros fatores que deviam entrar na avaliação dessa coisa mais que improvável que é o “futuro”. À substituição da política em democracia, com o seu complexo processo de expectativas e avaliações, traduzidas pelo voto, ameaçando, como dizem os “ajustadores”, pela “politiquice”, ou seja, as eleições, a “sustentabilidade” das soluções perfeitas de 15 ou 20 anos de “austeridade”, soma-se a completa falta de pensamento sobre o modo como as sociedades funcionam, que o “economês”, que é má economia, não compreende.
A redução das análises correntes a este “economês”, sem política democrática, nem sociedade, revela-se num fenómeno recente que é a proliferação de livros de jornalistas com as receitas para salvar o país, quase todos sucessos editoriais. Eles mostram a interiorização profunda, em muitos casos prosélita, noutros mais moderada, da linguagem, explicações, legitimações, amigos e adversários, proto-história e factos selecionados, do discurso do poder sobre a crise. A isso acrescentam propostas em muitos casos inviáveis em democracia e num Estado de direito, e cuja eficácia, mesmo nos seus termos, está por demonstrar.
Esses livros favorecem a ideia de que o “vale-tudo” que está por detrás da continuada sucessão de legislação inconstitucional do Governo poderia ser a solução ideal “para Portugal”, que infelizmente é “proibida” ou pela “resistência corporativa” dos interesses ou por entidades como o Tribunal Constitucional, ou mesmo pela “ignorância” e impreparação da opinião pública. Escreve-se como se não houvesse interesses legítimos que o Estado de direito acautela, ou práticas brutais de transferência de rendimentos e recursos, que tem sempre quem ganha e quem perde, cujos efeitos na conflitualidade social tornam por si próprio insustentável a sua manutenção. São de um modo geral muito complacentes com os de “cima” e muito críticos dos de “baixo”, e dão pouca importância aos efeitos de exclusão e diferenciação social que as suas políticas propõem, mas, acima de tudo, ignoram sistematicamente que elas falham no essencial, ou seja, que são ineficazes para os objetivos pretendidos.
A solução é, em vez de mudar as políticas, acrescentar-lhes mais tempo e é por isso que o coro da “austeridade” para décadas é cada vez maior e será ruidoso depois da troika mandar aterrando cá, para mandar a partir de Bruxelas. Aliás, será um interessante exercício ver o que nos diziam em 2011, sobre os resultados que já se deveriam ver em 2012, e o milagre de uma economia pujante “libertada do Estado”, já em 2013, e que agora é de novo prometida em 2014. Se diminuíssemos a dívida e défice em função das “intenções proclamadas” para o ano seguinte, já estávamos a cumprir o Pacto Orçamental.
Alguns jornalistas sabem que é assim, que a linguagem do poder se estabeleceu de forma acrítica na comunicação social, e aqui e ali tentam funcionar a contracorrente. Mas as redações estão muito degradadas, com meios muito escassos, o trabalho precário, barato ou quase gratuito, pouco qualificado, prolifera e o emprego está sempre em risco, pelo que a prudência exige muita contenção. Por outro lado, o papel crescente da “comunicação” profissionalizada, a que Governo e empresa, recorrem cada vez mais, exerce uma pressão considerável no produto final da comunicação social, em particular na informação económica. A isto se junta o proselitismo na Rede, nos blogues e no Facebook, nos comentários anónimos, às claras ou em operações “negras” de assessores militantes e amigos dos partidos do Governo, à procura de um lugar ao sol, ao exemplo do que um destes operacionais revelou recentemente numa entrevista à Visão.
Por isso, neste combate pelas palavras de 2014, o Governo parte em vantagem, não porque tenha razão, mas porque tem mais meios e, pior ainda, conta com a força que num país pequeno, fragilizado, com uma classe média empobrecida, com uma opinião pública débil, tem o discurso que vem do lado do poder. Já acontecia com Sócrates, acontece com Passos Coelho.”

José Pacheco Pereira, historiador e militante do PSD, partido que lidera a coligação governamental, “Público”, 28-12-2013 :: Texto integral: http://bit.ly/1fTeU1C :: Título da responsabilidade do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADA

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O vídeo das advogadas de Lisboa


Cinco advogadas portuguesas, por sinal bem parecidas, colocaram um vídeo promocional na Internet que está a agitar a advocacia do país. Para uns, a iniciativa delas trata-se de uma excelente ação de comunicação. Para outros, as advogadas recorreram a meios ilícitos de publicidade para promover o seu escritório, nomeadamente através de poses em público pouco consentâneas com a discrição que a Ordem dos Advogados impõe aos seus profissionais. 
O desafio da comunicação para escritórios de advocacia é comunicar sem deixar de respeitar as peculiaridades e a dignidade da advocacia. Os escritórios de advocacia dispõem de menor flexibilidade no uso de ferramentas de marketing e comunicação do que diversos outros ramos de atividade económica, porém, estão disponíveis muitas formas de contornar as restrições a certas práticas de marketing jurídico dentro dos limites do estrito respeito pelos princípios que orientam a ética profissional.
As cinco advogadas do escritório Maria do Rosário Mattos e Associados, com sede em Lisboa, tiveram uma ideia de comunicação genial: um vídeo promocional, com a duração de 108 segundos, no qual elas são protagonistas, passeando pelas ruas da capital portuguesa, enquanto uma voz “off” vai informando sobre a visão e o posicionamento do escritório, especializado em recuperação de créditos, num registo que incorpora curtas declarações de cada uma das advogadas (ver o vídeo aqui: http://youtu.be/-ytQrEih6_o). Nada de extraordinário, a não ser o pioneirismo da ação comunicacional, profusamente difundida na Internet, obtendo uma visibilidade que outra ação de comunicação dificilmente alcançaria. Uma visibilidade ainda mais impulsionada pela polémica.
O artigo 89º do Estatuto da Ordem dos Advogados, sobre “informação e publicidade”, é muito claro quanto aos atos lícitos de publicidade dos escritórios de advocacia. No ponto 1, diz que “o advogado pode divulgar a sua atividade profissional de forma objetiva, verdadeira e digna, no rigoroso respeito dos deveres deontológicos, do segredo profissional e das normas legais sobre publicidade e concorrência”
Segundo o Estatuto da Ordem dos Advogados (ver aqui na íntegra: http://bit.ly/1dphzOV), entende-se por “informação objetiva”, nomeadamente, “a identificação pessoal, académica e curricular do advogado ou da sociedade de advogados”, “a morada do escritório principal e as moradas de escritórios noutras localidades”, “a denominação, o logótipo ou outro sinal distintivo do escritório”, “a indicação das áreas ou matérias jurídicas de exercício preferencial”; “os colaboradores profissionais integrados efetivamente no escritório do advogado”, entre outras informações. Ora, são algumas destas informações que o vídeo transmite. Por isso, em minha opinião, o vídeo respeita os princípios que orientam a ética profissional dos advogados.
O Estatuto da Ordem dos Advogados não impede o vídeo como meio de divulgação da informação, sendo omisso sobre essa matéria. Portanto, o problema – se é que estamos perante um problema – terá a ver com o meio de comunicação utilizado para distribuir a informação e não com o conteúdo da informação. O que as advogadas fizeram foi adequar a mensagem às novas tecnologias de informação, pelo que deveriam ser elogiadas por isso, em vez de criticadas.
Refira-se ainda que, segundo a Ordem dos Advogados, são atos “lícitos de publicidade”, entre outros, “a menção à área preferencial de atividade”, “a menção à composição e estrutura do escritório” e “a inclusão de fotografia, ilustrações e logótipos adotados”. Por isso, não vislumbro qual é o problema do vídeo. Considero até que as advogadas estão de parabéns por esta ação de comunicação inovadora.
Alguns setores da Ordem dos Advogados já vieram a público condenar a ação das advogadas, considerando o vídeo como “escandaloso”. O caso está a ser tratado com tanta gravidade que o Conselho Distrital da Ordem dos Advogados de Lisboa já decidiu abrir um inquérito disciplinar, após ter recebido várias queixas (ver aqui: http://bit.ly/1fpIhbI). Aliás, aludir a “uma exigente postura pública de probidade e discrição” por parte dos advogados, criticando, assim, a participação das advogadas no vídeo, parece anedótico.
A voz “off” do vídeo promete “elevada qualidade profissional” e “competência técnica”, assim como o cumprimento de “objetivos” que geram “resultados”. Mas isso não constitui uma violação das normas legais sobre publicidade e concorrência. Só que o estatuto dos advogados considera situações como “a menção à qualidade do escritório” ou “a promessa ou indução da produção de resultados” como sendo “atos ilícitos de publicidade”. E podemos considerar um vídeo promocional posto a circular na Internet como publicidade”, no sentido da publicidade que é paga tendo em vista a obtenção de um retorno? Tenho muitas dúvidas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Mário Soares: “O jornalismo vai desaparecendo”


“A comunicação social, tal como a entendíamos no passado, praticamente deixou de interessar. Os jornais vendem cada vez menos. As televisões também sofrem a concorrência da Internet, onde, através das redes sociais, as notícias vão chegando, com custos mais acessíveis aos que têm pouco – ou mesmo nada – para gastar.
A crise financeira e a globalização, tão elogiada há algum tempo, praticamente deixaram de interessar. Os jornais são cada vez menos lidos porque não falam do que a maioria das pessoas quer saber. E as televisões menos vistas e ouvidas pela mesma razão.
Os jornalistas, cada vez mais dependentes dos patrões, deixaram de dizer o que pensam – como antes faziam – para agradar ao que julgam pensarem os patrões. E o público, cada vez mais empobrecido com a crise, não tem interesse em comprar os jornais que mal escrevem aquilo que querem saber... É um círculo vicioso que não interessa a ninguém.
Nos últimos anos, os jornais e as revistas portuguesas começaram a ser comprados por angolanos com dinheiro para gastar. Antes eles – é verdade – do que os magnatas americanos que compraram de uma assentada “Le Monde” e “El País”...
É assim que o jornalismo do tempo da democracia vai desaparecendo nesta espécie de ditadura em que vivemos. E como os poucos jornalistas e comentadores das televisões, para agradar aos patrões, não escrevem nem dizem o que pensam – com raras e honrosas exceções, claro – mas tão-só o que julgam agradar aos patrões. E os leitores deixam de comprar os jornais e de abrir as televisões. É inevitável...
A comunicação social, dado que os jornalistas não querem perder suas posições, deixa de ter interesse, tem cada vez menos leitores e telespectadores a ouvir e a ver as televisões. Porquê? Porque têm medo de não agradar ao Governo, a caminho da ditadura. Assim se vai destruindo a nossa comunicação social, com as consequências nefastas que daí advêm.
Isto é: perdem todos. É o que resulta de um capitalismo cada vez mais selvagem – como lhe chamou desassombradamente o Papa Francisco – que mata o futuro e vai acabar por ser um desastre para aqueles que julgam que o vão usufruir...”

Mário Soares, político português, “Diário de Notícias”, 17-12-2013 :: Texto integral: http://migre.me/h3F70 :: Fotografia: "Público"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

De olho nos consumidores


No marketing contemporâneo os estudos sobre o comportamento do consumidor são elementos fundamentais de investigação e análise para melhor determinar a segmentação dos públicos e o posicionamento de marcas e produtos. No fundo, os consumidores, agora mais informados e exigentes, é que marcam o ritmo das marcas, dos seus produtos e dos seus serviços.
Francisco Teixeira (http://www.franciscoteixeira.com), que é especialista de marketing, afirma que vivemos sob o reinado do consumidor”, pois é o consumidor quem está em melhores condições para fornecer “insights e ideias de negócio” aos gestores de marketing das empresas. Muitas vezes, as empresas olham para esta área como vaga e teórica, mas não é, adverte Teixeira.
Além de uma longa carreira com trabalhos para o marketing de diversas empresas, Francisco Teixeira regista a particularidade de ser o fundador da comunidade Consumer Behavior Portugal, uma network na Internet, atualmente com quase 2300 membros, que é hoje um dos maiores grupos portugueses da área do marketing no Facebook. O seu objetivo “é dar notoriedade à área do comportamento do consumidor, tão importante quanto muitas vezes menosprezada”.
É justamente por isso que, neste sábado, dia 14 de dezembro, Francisco Teixeira estará na cidade de Viana do Castelo para dar formação em Comportamento do Consumidor, onde explicará como o comportamento de quem recebe o produto final se traduz, na prática, numa informação preciosa para os setores de marketing e vendas de uma empresa. Uma boa oportunidade para gestores empresariais e comerciais. As vagas são limitadas. Para obter informações e participar, confira no link: http://bit.ly/1bJfI9c.

sábado, 23 de novembro de 2013

O jornalismo e as bestas negras


Este é um “post” sobre jornalismo, "bestas negras" e organização das redações, a partir do jornalismo desportivo português. Mas poderia ser a partir do jornalismo político, onde acontece o mesmo.
Durante a última semana, enquanto a seleção de Portugal conseguia a sua qualificação para o Mundial de futebol Brasil 2014 – com uma brilhante vitória sobre a Suécia, por 3-2, com uma exibição de gala de Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo –, os jornais desportivos, ao lançarem a 10ª jornada da Liga Portuguesa, falaram no Sporting Clube de Braga como "a besta negra" do Benfica. Isto para dizerem que, nos últimos anos, os bracarenses têm conseguido bons resultados em jogos com o Benfica. O Benfica-Sporting de Braga terminou com uma vitória benfiquista por 1-0 e parece que não houve “besta negra” em Lisboa. Ao contrário do que aconteceria no Porto. Segundo a edição digital do jornal "Record", o Nacional da Madeira, que na noite deste sábado, dia 23, empatou no Estádio do Dragão, também é a “besta negra” do FC Porto, o tricampeão português. Só porque o clube madeirense ousou ir ao Porto travar a caminhada triunfal do clube de Jorge Nuno Pinto da Costa.
Os dois exemplos apontados deixam nítido que, para a imprensa desportiva portuguesa, as equipas pequenas, ou menos poderosas, não empatam ou não ganham os jogos com as equipas grandes por terem feito por isso, mas porque são "bestas negras". Isto tem um significado muito claro: para os jornalistas desportivos portugueses, sejam da rádio, da televisão, dos jornais ou da Internet, o sujeito é sempre o clube mais forte, e toda a narrativa é construída em função desse posicionamento. Coitadas das equipas pequenas, sempre maltratadas, sempre a “roubarem” pontos ou vitórias a quem não deveriam… Os seus feitos raramente são elogiados ou valorizados. Na maioria das vezes, são relatados como ameaças ao caminho vitorioso dos mais fortes e mais poderosos.
A organização das redações dos meios de comunicação especializados em futebol baseada em editorias para os grandes clubes, agrupando os jornalistas que "fazem" o Sporting Clube de Portugal, os que "fazem" o FC Porto e os que "fazem" o Benfica, talvez contribua para esta situação. Ao longo do tempo criam-se laços, vícios e dependências mútuas entre os jornalistas e as fontes dos clubes, e seus dirigentes, que geram um clima potencialmente pernicioso para a qualidade do jornalismo. 
Deixo uma dica para as direções editoriais. Se os jornalistas que "fazem" o Sporting fossem "fazer" os jogos do FC Porto, se os jornalistas que "fazem" o Benfica fossem "fazer" os jogos do FC Porto e se os jornalistas que "fazem" o FC Porto fossem "fazer" os jogos do Sporting, ou seja, se todos os jornalistas rodassem continuamente fazendo trabalhos jornalísticos em todos os clubes, o seu distanciamento produziria, certamente, um jornalismo de maior qualidade, do qual todos beneficiariam, inclusive os clubes grandes, em função da maior exigência que o trabalho de uma imprensa não tão engajada com os clubes iria implicar. Deste modo, os meios de comunicação prestigiariam o jornalismo e seriam, certamente, muito mais respeitados por todos os clubes. Por outro lado, talvez os clubes mais pequenos que "roubam" pontos aos clubes grandes deixassem de ser as "bestas negras" do futebol português.

domingo, 17 de novembro de 2013

Siri Hustvedt. "A arte tem de perturbar e chocar"


“As expectativas podem cegar-nos. Sabemos hoje que a percepção das obras de arte pode até ser condicionada por predisposições biológicas ou fisiológicas pré-conscientes. Mas o fenomenologista Edmund Husserl [no início do século XX] aconselhava-nos a pormos de lado as nossas disposições naturais. Não conseguimos colocar-nos perante uma obra de arte totalmente nus, mas podemos rejeitar ao máximo as ideias pré-concebidas. Devemos abrir-nos a todas as possibilidades.”

“A arte que me interessa é aquela que nunca chego a compreender totalmente. Algumas obras de Goya, por exemplo, são tão fortes que me é quase insuportável olhar para elas. Cada pessoa tem um grau diferente de estímulo e de tolerância. Mas a arte tem de perturbar e de chocar.”

“É um disparate defendermos hierarquias artísticas muito rígidas, porque as obras de arte estão vivas ou renascem em cada novo espectador, leitor ou ouvinte. O peso de uma aprovação pré-estabelecida pode condicionar-nos a tal ponto que deixamos de conseguir ver a obra. É o que acontece, por exemplo, com a Mona Lisa, que foi esmagada pela história da sua recepção e é ofuscada pela multidão que se acumula à sua frente a toda a hora. Até certo ponto, as pessoas querem é registar o facto de terem visto determinado quadro e, por isso, nos museus, fotografam-no, dispensando mesmo olharem para ele. É também por isso que se lê tanta má literatura ou se vê tanto mau cinema. Aderir a uma proposta só porque muitos outros a consomem é uma experiência social ou cultural, mas não significa um verdadeiro contacto com a arte. Num certo sentido, é uma espécie de placebo.”

“Há pouco tempo, enquanto escrevia sobre as naturezas mortas do pintor italiano Giorgio Morandi, experimentei observar durante quinze minutos uma garrafa de água com gás. Primeiro, o rótulo começou a perder nitidez. Depois, surgiram múltiplos pormenores, como os cambiantes de intensidade da luz ou de espessura do vidro ou os efeitos visuais da condensação da água. A visão foi-se alterando devido à intensidade e à duração do olhar, o que também acontece perante uma obra de arte. Quanto mais rica for a obra de arte, maior será a surpresa do nosso olhar e a sua ressonância, ao longo do tempo, dentro de nós.”

Siri Hustvedt, escritora norte-americana, “Sol”, 16-11-2013

O papel da comunicação na ascensão e queda dos cigarros


O Dia Mundial do Não Fumador, que é assinalado em 17 de novembro de cada ano, pretende sensibilizar a população para os perigos do consumo de cigarros e, sobretudo, para as vantagens de uma vida sem fumo. O tabaco é uma droga muito poderosa, que a sociedade de consumo do século XX, nomeadamente através da publicidade, das relações públicas, da televisão e do cinema, transformou num símbolo de independência juvenil, de emancipação feminina, de estatuto social, de liberdade e de vida ativa. Um grande embuste que resultou numa máquina de destruição e morte!...
Numa sociedade de consumo influenciada por poderosos instrumentos de comunicação a realidade é construída. Isto é, a realidade não é aquilo que acontece mas aquilo que vem a público através dos meios de comunicação. Como já escrevi neste blog (ver aqui), Eduard Bernays, sobrinho de Sigmund Freud, que nos anos de 1920 lançou o livro “Propaganda”, que se tornou uma referência para os profissionais de Relações Públicas, foi o primeiro a formular ideias como “projetos de relações públicas”, “segmentação de públicos”, “product placement”, “lóbi político”, “comunicação orientada” ou “sedução dos prescritores”. Com estas ideias revolucionárias, numa altura em que a sociedade de consumo ganhava terreno no mundo ocidental, Bernays, influenciado pelos conhecimentos de psicologia de Freud, foi o primeiro a tentar convencer as empresas que precisavam captar o interesse dos consumidores, influenciando o seu subconsciente, levando-os a ter necessidade de coisas que na verdade não precisavam. Podemos dizer que eram os primórdios do neuromarketing, agora tão estudado.
Exemplo vivo de uma ação de “spin” aconteceu quando Bernays convenceu a sociedade norte-americana quanto ao consumo de tabaco em público por parte das mulheres. As mulheres não podiam fumar em público e a tabaqueira “Lucky Strike” assumiu a causa de equiparar o ato de fumar feminino a um símbolo de liberdade. Então, Bernays inventou o desfile das “tochas da liberdade”, associando o consumo de tabaco à ideia de emancipação da mulher numa sociedade com igualdade de direitos para os dois sexos.
Nasceu então a expressão “engenharia do consentimento” para definir o papel das Relações Públicas numa sociedade de “spin”. Uma expressão baseada na ideia segundo a qual nós somos manipulados para consentirmos alguma coisa. Para o filósofo Noam Chomsky estávamos perante “a fabricação do consentimento”. Bernays, por seu lado, dizia: “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e as opiniões das massas são elementos importantes numa sociedade democrática”.
Da mesma forma que a sociedade de consumo glorificou o consumo de cigarros, também o diabolizou em muito pouco tempo, o que não deixa de ser notável. Em finais do século XX, os estudos científicos confirmavam o consumo do tabaco como uma causa de múltiplas doenças e de morte prematura e a indústria tabaqueira, embora resistindo, começou a perder terreno com a proibição da publicidade. Seguiu-se a proibição do consumo em espaços fechados. No cinema ou nas séries de televisão, o consumo de cigarros é, agora, associado a um comportamento desviante. Em muito poucos anos, o ato de fumar deixou de ser um prazer de afirmação social para se transformar num ato solitário contra a própria saúde – um ato antisocial e clandestino. A sociedade de “spin” e o sistema mediático tanto constroem como destroem. Neste caso, a destruição do cigarro como símbolo de afirmação social foi uma coisa boa para todos nós.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A roupa como estratégia de marketing


“O marketing político é a constituição de um poder especializado, se faz pela “bricolagem” de ideias, coloca uma pessoa em evidência, diferencia-a das demais concorrentes. O marketing, diferentemente do que o senso comum tenta explicar, não atua somente mediante estratégias de comunicação; vai além ao racionalizar certas particularidades que visam remodelar, organizar, reconstruir a imagem de uma pessoa para transformar em uma marca. É também operador de sentidos, absorve tendências emitidas pela sociedade e opera dentro de uma estratégia por meio da qual as rupturas e os desgastes causados pelo uso do poder possam ser minimizados frente à constante exigência do mercado consumidor.”

Diógenes Pasqualini, jornalista, especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Mestre em Comunicação e Semiótica :: Fonte: http://bit.ly/1gvWFTc.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Como um blog pode ser decisivo na investigação jornalística


Os novos meios de comunicação não acabam com os meios que existiam antes, nem os substituem. Pelo contrário. Os meios complementam-se e podem dar força uns aos outros. Vem isto a propósito de um trabalho de investigação jornalística sobre uma dirigente nacional do PSD que terá enganado a câmara municipal de que era vereadora, em Valongo, no distrito do Porto, a propósito de uma obra ilegal na sua propriedade. 
Anos mais tarde, acabou por ser um blog sobre temas locais a proporcionar ao jornalista do “Público” José António Cerejo motivos suficientes para avançar com uma investigação, a qual resultou na publicação da notícia que pode ser lida no link: http://bit.ly/1epySn9
Lendo a notícia ficamos a perceber que o papel do blog "A Terra como Limite", de Celestino Neves, foi decisivo para que esta história eminentemente local tivesse entrado no espaço público mediático nacional, funcionando como fonte que despertou o interesse de José António Cerejo, que, em minha opinião, é talvez o melhor jornalista português de investigação.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Os jargões corporativos da moda


O executivo pede à secretária: “Vamos schedular um brainstorm para estimular o team building em nossa cultura organizacional e, aproveitando o know-how de nosso CEO, agregar valor ao business plan.”
Entendeu alguma coisa? Se não entendeu, não se preocupe. O uso de expressões da moda facilita a comunicação no local de trabalho, mas o seu uso em excesso pode ter efeito contrário. Confira a matéria do jornal “Zero Hora”, do Rio Grande do Sul, e consulte um glossário que poderá ser bastante útil no local de trabalho: http://bit.ly/17E5DJf.