Quando
os assuntos privados colidem com a imagem pública de um político e entram no espaço público
deixam de ser assuntos privados para se transformarem em assuntos públicos.
Logo, do interesse de todos. Depois, tudo depende da estratégia de comunicação.
Mas há casos em que não há estratégia de comunicação que resista. A traição conjugal é um
deles. É por isso que o Presidente da França, o socialista François Hollande – que nesta
terça-feira terá 600 jornalistas pela frente –, se encontra em muito maus lençóis. Na imagem, Hollande e a companheira oficial dos últimos anos, a
jornalista Valérie Trierweiler, hospitalizada por causa de uma depressão
na sequência deste caso que está a abalar a política francesa. Confira: http://bit.ly/1iHAyb2.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
A morte de Eusébio e a informação televisiva
Portugal
deve ser o único país do mundo civilizado onde os serviços de notícias, ou telejornais,
das televisões em sinal aberto têm hora para começar, mas não têm hora para
terminar. Sejam na televisão pública ou nas televisões privadas.
No
pequeno mercado português dos “media”, a “informação televisiva” é, muitas vezes, sinónimo
de emissões intermináveis de relatos vazios ou inconsequentes sobre o nada e de
perguntas muitas vezes mal formuladas e respostas sem nexo de protagonistas que não têm nada a acrescentar sobre o acontecimento. Foi esta informação sem conteúdo
que ganhou estatuto e interesse entre os editores de informação, de tal modo
que se transformou em motivo de guerrilha entre canais pela conquista de audiências.
Em tempos, até a hora de início dos três telejornais das 20h00 foi motivo de grande
polémica, tendo sido necessária a intervenção de organismo regulador, porque,
simplesmente, havia canais que tinham prazer em enganar os telespectadores,
iniciando o serviço de notícias antes das 20h00 agendadas só para agarrar o
público que já estava a ver a novela das 19h00. Uma concorrência absolutamente
patética.
A
RTP1, a RTP2, a SIC e a TVI não são canais de informação, nem as suas redações estão
preparadas para trabalhar com as exigências técnicas e profissionais dos canais
de notícias, mas, muitas vezes, atuam como se fossem canais de informação,
embora sem que se vislumbre algum critério editorial a não ser o critério das
imagens espetaculares, propagandeadas por “teasers” sucessivos antes dos
intervalos publicitários para prender ao aparelho o incauto do telespectador –
como se as notícias fossem objetos de consumo. Deste modo, degrada-se a
qualidade do jornalismo e a informação televisiva perde credibilidade e importância
social. Curiosamente, essa degradação agrada aos vários poderes, em particular
ao poder político. Mas isso é outra conversa.
Se
este cenário pode ser assistido em dias normais – em que as televisões desinformam
o telespectador através da promoção da selva mediática, em vez de orientá-lo com
o essencial da informação mais importante do dia – tudo piora nos dias de
cobertura de grandes acontecimentos. Foi o que aconteceu por estes dias, com a notícia
da morte do futebolista Eusébio e respetiva cobertura televisiva das reações, do velório e
das cerimónias fúnebres do antigo jogador de Portugal e do Benfica. Foram diretos sobre diretos, com muitas
lágrimas, muita comoção e muitas opiniões sem interesse nenhum, ou repetições de imagens e declarações que
os portugueses puderam ver em doses cavalares ao longo de horas e horas,
fazendo de Eusébio um homem único sem o qual Portugal não teria existido. E transformando todos os canais numa espécie de “Benfica TV”. A
verdade é que cobertura da morte de Eusébio construiu uma realidade mediática própria ao ter feito desaparecer das televisões toda
a atualidade informativa que não fosse sobre o morto. E, no entanto, mesmo Portugal estando de luto, a vida continuou, em todas as suas vertentes, a chuva não deixou de cair e o mundo avançou.
Podemos
dizer que, mais uma vez, os editores televisivos perderam a noção da realidade,
deixaram-se arrastar pela emoção do acontecimento e perderam a capacidade de
editar o manancial de informação de que dispunham sobre Eusébio, em função de imagens,
notícias, entrevistas, reportagens e outros conteúdos. Ora, quando um meio de
comunicação perde a capacidade de editar deixa de cumprir o seu papel na
sociedade. Editar dá muito trabalho e implica capacidade de decisão, bom gosto, sobriedade, objetividade e muito bom senso. Editar significa
separar o trigo do joio, separar o que interessa do que não interessa, em suma,
editar significa hierarquizar a informação segundo o posicionamento editorial
de cada meio de comunicação, oferecendo ao público o essencial para sua
informação. Doutro modo, não estamos a orientar o público e a facilitar a compreensão da realidade, correndo o risco de desinformar, intoxicar e confundir o
público.
Mesmo
em situações de grandes acontecimentos de interesse público, um telejornal de um canal generalista
não pode deixar de ser um telejornal, oferecendo ao público toda a informação
do dia. E por muito grande que seja um acontecimento, só muito raramente ele poderá
ser susceptível de alterar o tempo de duração de um telejornal. De resto, em ocasições muito especiais, há sempre a
possibilidade de ser aberta uma emissão especial, com uma duração temporal previamente
fixada, para que o público possa saber com o que vai contar na sua televisão. E
assim ganhariam todos. O canal de televisão ganharia credibilidade e o telespectador
sentir-se-ia respeitado.
Mário Soares, Eusébio e a hipocrisia
Mário
Soares e Eusébio são duas figuras públicas incontornáveis do século XX
português. Soares na política e Eusébio no futebol. Com quase 90 anos, Mário
Soares, antigo Presidente da República, está na idade de dizer tudo o que
pensa. É por isso que ele tem sido uma voz contra a corrente, contra o
politicamente correto. Tem sido assim ao analisar a crise económica europeia e
foi assim, agora, ao falar sobre a morte de Eusébio – figura do futebol de
dimensão internacional que, exercendo o seu direito como cidadão, nunca
participou nos grupos de apoiantes políticos de Soares, tendo preferido andar
mais à direita, nomeadamente no apoio a Cavaco Silva.
Porém,
não consigo perceber por que é que as declarações de Mário Soares sobre Eusébio
são consideradas polémicas e geraram tanta polémica nas redes sociais. Não é verdade que Eusébio bebia e comia sem grandes
cuidados? Não é verdade que Eusébio não era um intelectual? Onde é que está o
problema ou a gravidade nas declarações de Soares? Onde está o pluralismo e o direito à
liberdade de expressão? É preciso medir cada palavra para não cairmos em
desgraça neste espaço público mediático global, que integra meios de
comunicação tradicionais e meios digitais, onde todos os cidadãos podem
participar ativamente? Que ditadura é esta, onde a sinceridade não fica bem?
Que ditadura é esta, onde só fica bem o que é agradável ou positivo? E que
sociedade é esta que só aceita bem a hipocrisia? Confira o que disse Mário
Soares: http://bit.ly/19L3MW9.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Revista sobre jornalismo para download
Para começar 2014 de um modo simpático, partilho com os leitores
do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADA a nova edição da "Revista Pauta Geral -
Estudos em Jornalismo", organizada pelo Mestrado em Jornalismo da
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Paraná (Brasil). Destaque para
uma entrevista exclusiva com o investigador português Adriano Duarte Rodrigues,
professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade de Estrasburgo (França), doutor em Ciências da Comunicação pela
Universidade de Louvain (Bélgica) e professor da Universidade Nova de Lisboa,
onde foi vice-reitor e também dirigiu a Faculdade de Comunicação. Download no
link: http://bit.ly/1copdtK.
domingo, 29 de dezembro de 2013
O papel da imprensa económica no espaço mediático português
“(...) Alguns jornalistas ficam muito
irritados quando afirmo (e vou repetir) que um dos problemas dos dias de hoje
na vida pública em Portugal é a facilidade com que a comunicação social absorve
a linguagem do poder e a reproduz como sendo sua, assim legitimando-a porque
lhe dá um sujeito neutro, tornando-a uma verdade universal. Este processo não é
simples, não se trata de estar “a favor” ou “contra” o Governo, nem sequer de atuar
em função de preferências ou hostilidade partidárias, porque se fosse assim
seria mais fácil identificar o que se passa.
Há um papel importante para os gostos e os
ódios pessoais, mas isso faz parte do meio jornalístico desde sempre. O hábito
é ajustar contas em função das simpatias ou antipatias pessoais entre
jornalistas, políticos e outras personagens do espaço público, muito mais
eficaz como explicação do que as simpatias partidárias. A promiscuidade entre
jornalistas e “fontes”, a troca de favores e cumplicidades, as amizades e os
amores, as vinganças e elogios interessados passam-se de modo subterrâneo, mas
explicam muito da atitude de jornalistas face aos detentores do poder político,
atual ou passado. Ora pouca gente cultiva mais a sua relação com os jornalistas
do que os grupos dirigentes das “jotas” dos partidos, seja do PS ou do PSD,
cuja proximidade social, cultural, de mentalidade e modo de vida, é quase
total, e cuja partilha geracional de vocabulário (escasso), fragmentos de
ideias, mitos e (in)experiências é igualmente comum.
Muitas vezes estas empatias têm a ver com o
bem escasso da “influência” e os conflitos pela capacidade de a ter, outras
vezes é inveja por ganhos e recursos. O problema é que, sendo esta uma
explicação importante para muito do que se publica e se diz, ainda por cima em
meios muito pequenos, que comunicam entre si, e onde está sempre alguém no
lugar pretendido por outrem, ela é invisível para a comunidade dos consumidores
dos media, que desconhecem muitos dos meandros que estão atrás dos bastidores.
Explicava muita coisa, como se percebeu quando do “caso Relvas”, mas é na
maioria dos casos impossível de usar.
Há cada vez mais jornalistas e
jornalistas-comentadores mais próximos do poder, partilhando do mesmo
pensamento de fundo associado ao “ajustamento”, embora possam discordar e
algumas vezes serem até agressivos na crítica a aspectos de detalhe da
governação. O problema é que a concordância de fundo é muito mais importante do
que a discordância no detalhe e o núcleo central de legitimação do poder permanece
intocável.
A mentalidade adversarial da comunicação
social, já em si mesmo uma fragilidade, deu lugar a uma enorme complacência com
o poder. Uma das razões desta proximidade de fundo tem a ver com o papel cada
vez mais destacado da imprensa económica em tempos em que a “crise” é
dominantemente explicada apenas pelas suas variantes económicas. O predomínio
da economia levou a um avolumar do “economês”, uma variante degradada quer da
economia, quer da política. E esse “economês” favorece os argumentos de “divisão”
que têm tido muito sucesso no discurso público, fragilizando, no conflito
social, umas partes contra as outras. Este discurso da divisão é uma novidade
desta crise e uma das principais vantagens da linguagem do poder.
Colocar novos contra velhos, empregados
contra desempregados, trabalhadores privados contra funcionários públicos,
reformados da Segurança Social contra pensionistas da CGA, sindicalizados
contra “trabalhadores”, grevistas contra a “população”, e muitas outras
variantes das mesmas dicotomias, tem tido um papel central no discurso
governamental, que encontra na “equidade” um dos mais fortes elementos de
legitimação. Se se parar para pensar, fora dos quadros das “evidências”
interessadas, verifica-se até que ponto uma espécie de neomalthusianismo
grosseiro reduz todas estas dicotomias a inevitabilidades a projeções sobre o
“futuro” muito simplistas e reducionistas e que recusam muitos outros fatores
que deviam entrar na avaliação dessa coisa mais que improvável que é o
“futuro”. À substituição da política em democracia, com o seu complexo processo
de expectativas e avaliações, traduzidas pelo voto, ameaçando, como dizem os
“ajustadores”, pela “politiquice”, ou seja, as eleições, a “sustentabilidade”
das soluções perfeitas de 15 ou 20 anos de “austeridade”, soma-se a completa
falta de pensamento sobre o modo como as sociedades funcionam, que o
“economês”, que é má economia, não compreende.
A redução das análises correntes a este
“economês”, sem política democrática, nem sociedade, revela-se num fenómeno
recente que é a proliferação de livros de jornalistas com as receitas para
salvar o país, quase todos sucessos editoriais. Eles mostram a interiorização
profunda, em muitos casos prosélita, noutros mais moderada, da linguagem,
explicações, legitimações, amigos e adversários, proto-história e factos selecionados,
do discurso do poder sobre a crise. A isso acrescentam propostas em muitos
casos inviáveis em democracia e num Estado de direito, e cuja eficácia, mesmo
nos seus termos, está por demonstrar.
Esses livros favorecem a ideia de que o
“vale-tudo” que está por detrás da continuada sucessão de legislação
inconstitucional do Governo poderia ser a solução ideal “para Portugal”, que
infelizmente é “proibida” ou pela “resistência corporativa” dos interesses ou
por entidades como o Tribunal Constitucional, ou mesmo pela “ignorância” e
impreparação da opinião pública. Escreve-se como se não houvesse interesses
legítimos que o Estado de direito acautela, ou práticas brutais de
transferência de rendimentos e recursos, que tem sempre quem ganha e quem
perde, cujos efeitos na conflitualidade social tornam por si próprio
insustentável a sua manutenção. São de um modo geral muito complacentes com os
de “cima” e muito críticos dos de “baixo”, e dão pouca importância aos efeitos
de exclusão e diferenciação social que as suas políticas propõem, mas, acima de
tudo, ignoram sistematicamente que elas falham no essencial, ou seja, que são
ineficazes para os objetivos pretendidos.
A solução é, em vez de mudar as políticas,
acrescentar-lhes mais tempo e é por isso que o coro da “austeridade” para
décadas é cada vez maior e será ruidoso depois da troika mandar aterrando cá,
para mandar a partir de Bruxelas. Aliás, será um interessante exercício ver o
que nos diziam em 2011, sobre os resultados que já se deveriam ver em 2012, e o
milagre de uma economia pujante “libertada do Estado”, já em 2013, e que agora
é de novo prometida em 2014. Se diminuíssemos a dívida e défice em função das
“intenções proclamadas” para o ano seguinte, já estávamos a cumprir o Pacto
Orçamental.
Alguns jornalistas sabem que é assim, que a
linguagem do poder se estabeleceu de forma acrítica na comunicação social, e
aqui e ali tentam funcionar a contracorrente. Mas as redações estão muito degradadas,
com meios muito escassos, o trabalho precário, barato ou quase gratuito, pouco
qualificado, prolifera e o emprego está sempre em risco, pelo que a prudência
exige muita contenção. Por outro lado, o papel crescente da “comunicação”
profissionalizada, a que Governo e empresa, recorrem cada vez mais, exerce uma
pressão considerável no produto final da comunicação social, em particular na
informação económica. A isto se junta o proselitismo na Rede, nos blogues e no
Facebook, nos comentários anónimos, às claras ou em operações “negras” de
assessores militantes e amigos dos partidos do Governo, à procura de um lugar
ao sol, ao exemplo do que um destes operacionais revelou recentemente numa
entrevista à Visão.
Por isso, neste combate pelas palavras de
2014, o Governo parte em vantagem, não porque tenha razão, mas porque tem mais
meios e, pior ainda, conta com a força que num país pequeno, fragilizado, com
uma classe média empobrecida, com uma opinião pública débil, tem o discurso que
vem do lado do poder. Já acontecia com Sócrates, acontece com Passos Coelho.”
José
Pacheco Pereira, historiador e militante do PSD, partido que lidera a coligação
governamental, “Público”, 28-12-2013 :: Texto integral: http://bit.ly/1fTeU1C :: Título da responsabilidade
do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADA
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
O vídeo das advogadas de Lisboa
Cinco
advogadas portuguesas, por sinal bem parecidas, colocaram um vídeo promocional na
Internet que está a agitar a advocacia do país. Para uns, a iniciativa delas trata-se de uma
excelente ação de comunicação. Para outros, as advogadas recorreram a meios
ilícitos de publicidade para promover o seu escritório, nomeadamente através de poses em público pouco
consentâneas com a discrição que a Ordem dos Advogados impõe aos seus
profissionais.
O
desafio da comunicação para escritórios de advocacia é comunicar sem deixar de respeitar as peculiaridades e a dignidade da advocacia. Os escritórios de advocacia
dispõem de menor flexibilidade no uso de ferramentas de marketing e comunicação
do que diversos outros ramos de atividade económica, porém, estão disponíveis
muitas formas de contornar as restrições a certas práticas de marketing
jurídico dentro dos limites do estrito respeito pelos princípios que orientam a
ética profissional.
As
cinco advogadas do escritório Maria do Rosário Mattos e Associados, com sede em
Lisboa, tiveram uma ideia de comunicação genial: um vídeo promocional, com a
duração de 108 segundos, no qual elas são protagonistas, passeando pelas ruas
da capital portuguesa, enquanto uma voz “off” vai informando sobre a visão e o
posicionamento do escritório, especializado em recuperação de créditos, num
registo que incorpora curtas declarações de cada uma das advogadas (ver o vídeo
aqui: http://youtu.be/-ytQrEih6_o). Nada de extraordinário, a não ser o
pioneirismo da ação comunicacional, profusamente difundida na Internet, obtendo
uma visibilidade que outra ação de comunicação dificilmente alcançaria. Uma
visibilidade ainda mais impulsionada pela polémica.
O artigo 89º do Estatuto da Ordem dos
Advogados, sobre “informação e
publicidade”, é muito claro quanto aos atos lícitos de publicidade dos
escritórios de advocacia. No ponto 1, diz que “o advogado pode divulgar a sua atividade profissional de forma objetiva,
verdadeira e digna, no rigoroso respeito dos deveres deontológicos, do segredo
profissional e das normas legais sobre publicidade e concorrência”.
Segundo o Estatuto da Ordem dos Advogados
(ver aqui na íntegra: http://bit.ly/1dphzOV), entende-se por “informação objetiva”, nomeadamente, “a identificação pessoal, académica e
curricular do advogado ou da sociedade de advogados”, “a morada do escritório
principal e as moradas de escritórios noutras localidades”, “a denominação, o
logótipo ou outro sinal distintivo do escritório”, “a indicação das áreas ou
matérias jurídicas de exercício preferencial”; “os colaboradores profissionais
integrados efetivamente no escritório do advogado”, entre outras
informações. Ora, são algumas destas informações que o vídeo transmite. Por isso, em minha opinião, o vídeo respeita os princípios que orientam a ética profissional dos advogados.
O Estatuto da Ordem dos Advogados não impede o vídeo como meio de divulgação da informação, sendo omisso sobre essa matéria. Portanto, o problema – se é que estamos perante um problema – terá a ver com o meio de comunicação utilizado para distribuir a informação e não com o conteúdo da informação. O que as advogadas fizeram foi adequar a mensagem às novas tecnologias de informação, pelo que deveriam ser elogiadas por isso, em vez de criticadas.
O Estatuto da Ordem dos Advogados não impede o vídeo como meio de divulgação da informação, sendo omisso sobre essa matéria. Portanto, o problema – se é que estamos perante um problema – terá a ver com o meio de comunicação utilizado para distribuir a informação e não com o conteúdo da informação. O que as advogadas fizeram foi adequar a mensagem às novas tecnologias de informação, pelo que deveriam ser elogiadas por isso, em vez de criticadas.
Refira-se ainda que, segundo a Ordem dos
Advogados, são atos “lícitos de
publicidade”, entre outros, “a
menção à área preferencial de atividade”, “a menção à composição e estrutura do
escritório” e “a inclusão de
fotografia, ilustrações e logótipos adotados”. Por isso, não vislumbro qual
é o problema do vídeo. Considero até que as advogadas estão de parabéns
por esta ação de comunicação inovadora.
Alguns setores da Ordem dos Advogados já
vieram a público condenar a ação das advogadas, considerando o vídeo como
“escandaloso”. O caso está a ser tratado com tanta gravidade que o Conselho
Distrital da Ordem dos Advogados de Lisboa já decidiu abrir um inquérito
disciplinar, após ter recebido várias queixas (ver aqui:
http://bit.ly/1fpIhbI). Aliás, aludir a “uma exigente postura pública de
probidade e discrição” por parte dos advogados, criticando, assim, a
participação das advogadas no vídeo, parece anedótico.
A voz “off” do vídeo promete “elevada qualidade profissional” e “competência técnica”, assim como o
cumprimento de “objetivos” que geram
“resultados”. Mas isso não constitui
uma violação das normas legais sobre publicidade e concorrência. Só que o
estatuto dos advogados considera situações como “a menção à qualidade do escritório” ou “a promessa ou indução da produção de resultados” como sendo “atos ilícitos de publicidade”. E podemos considerar um vídeo promocional posto a circular na Internet como “publicidade”, no sentido da publicidade que é paga tendo em vista a obtenção de um retorno? Tenho muitas dúvidas.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Mário Soares: “O jornalismo vai desaparecendo”
“A
comunicação social, tal como a entendíamos no passado, praticamente deixou de
interessar. Os jornais vendem cada vez menos. As televisões também sofrem a
concorrência da Internet, onde, através das redes sociais, as notícias vão
chegando, com custos mais acessíveis aos que têm pouco – ou mesmo nada – para
gastar.
A
crise financeira e a globalização, tão elogiada há algum tempo, praticamente
deixaram de interessar. Os jornais são cada vez menos lidos porque não falam do
que a maioria das pessoas quer saber. E as televisões menos vistas e ouvidas
pela mesma razão.
Os
jornalistas, cada vez mais dependentes dos patrões, deixaram de dizer o que
pensam – como antes faziam – para agradar ao que julgam pensarem os patrões. E
o público, cada vez mais empobrecido com a crise, não tem interesse em comprar
os jornais que mal escrevem aquilo que querem saber... É um círculo vicioso que
não interessa a ninguém.
Nos
últimos anos, os jornais e as revistas portuguesas começaram a ser comprados
por angolanos com dinheiro para gastar. Antes eles – é verdade – do que os
magnatas americanos que compraram de uma assentada “Le Monde” e “El País”...
É
assim que o jornalismo do tempo da democracia vai desaparecendo nesta espécie
de ditadura em que vivemos. E como os poucos jornalistas e comentadores das
televisões, para agradar aos patrões, não escrevem nem dizem o que pensam – com
raras e honrosas exceções, claro – mas tão-só o que julgam agradar aos patrões.
E os leitores deixam de comprar os jornais e de abrir as televisões. É inevitável...
A
comunicação social, dado que os jornalistas não querem perder suas posições,
deixa de ter interesse, tem cada vez menos leitores e telespectadores a ouvir e
a ver as televisões. Porquê? Porque têm medo de não agradar ao Governo, a
caminho da ditadura. Assim se vai destruindo a nossa comunicação social, com as
consequências nefastas que daí advêm.
Isto
é: perdem todos. É o que resulta de um capitalismo cada vez mais selvagem –
como lhe chamou desassombradamente o Papa Francisco – que mata o futuro e vai
acabar por ser um desastre para aqueles que julgam que o vão usufruir...”
Mário Soares, político
português, “Diário de Notícias”, 17-12-2013 :: Texto integral: http://migre.me/h3F70 :: Fotografia: "Público"
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
De olho nos consumidores
No
marketing contemporâneo os estudos sobre o comportamento do consumidor são
elementos fundamentais de investigação e análise para melhor determinar a segmentação
dos públicos e o posicionamento de marcas e produtos. No fundo, os consumidores, agora mais informados e exigentes, é que marcam o ritmo das marcas, dos seus produtos e dos seus serviços.
Francisco Teixeira (http://www.franciscoteixeira.com), que é especialista de marketing, afirma que vivemos sob “o reinado do consumidor”, pois é o consumidor quem está em melhores condições
para fornecer “insights e ideias de negócio” aos gestores de marketing das empresas. “Muitas vezes, as
empresas olham para esta área como vaga e teórica, mas não é”, adverte Teixeira.
Além
de uma longa carreira com trabalhos para o marketing de diversas empresas, Francisco
Teixeira regista a particularidade de ser o fundador da comunidade Consumer Behavior Portugal, uma network na Internet, atualmente com quase 2300 membros, que é hoje um dos maiores grupos portugueses da área do marketing no Facebook. O seu objetivo “é dar notoriedade à área do comportamento do
consumidor, tão importante quanto muitas vezes menosprezada”.
É
justamente por isso que, neste sábado, dia 14 de dezembro, Francisco Teixeira estará
na cidade de Viana do Castelo para dar formação em Comportamento do Consumidor,
onde explicará como o comportamento de quem recebe o produto final se traduz,
na prática, numa informação preciosa para os setores de marketing e vendas de
uma empresa. Uma boa oportunidade para gestores empresariais e comerciais. As vagas são limitadas. Para obter informações e participar, confira no link: http://bit.ly/1bJfI9c.
sábado, 23 de novembro de 2013
O jornalismo e as bestas negras
Este
é um “post” sobre jornalismo, "bestas negras" e organização das
redações, a partir do jornalismo desportivo português. Mas poderia ser a partir
do jornalismo político, onde acontece o mesmo.
Durante a última semana, enquanto a seleção de Portugal conseguia a sua qualificação para o Mundial de futebol Brasil 2014 – com uma brilhante vitória sobre a Suécia, por 3-2, com uma exibição de gala de Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo –, os jornais desportivos, ao lançarem a 10ª jornada da Liga Portuguesa, falaram no Sporting Clube de Braga como "a besta negra" do Benfica. Isto para dizerem que, nos últimos anos, os bracarenses têm conseguido bons resultados em jogos com o Benfica. O Benfica-Sporting de Braga terminou com uma vitória benfiquista por 1-0 e parece que não houve “besta negra” em Lisboa. Ao contrário do que aconteceria no Porto. Segundo a edição digital do jornal "Record", o Nacional da Madeira, que na noite deste sábado, dia 23, empatou no Estádio do Dragão, também é a “besta negra” do FC Porto, o tricampeão português. Só porque o clube madeirense ousou ir ao Porto travar a caminhada triunfal do clube de Jorge Nuno Pinto da Costa.
Durante a última semana, enquanto a seleção de Portugal conseguia a sua qualificação para o Mundial de futebol Brasil 2014 – com uma brilhante vitória sobre a Suécia, por 3-2, com uma exibição de gala de Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo –, os jornais desportivos, ao lançarem a 10ª jornada da Liga Portuguesa, falaram no Sporting Clube de Braga como "a besta negra" do Benfica. Isto para dizerem que, nos últimos anos, os bracarenses têm conseguido bons resultados em jogos com o Benfica. O Benfica-Sporting de Braga terminou com uma vitória benfiquista por 1-0 e parece que não houve “besta negra” em Lisboa. Ao contrário do que aconteceria no Porto. Segundo a edição digital do jornal "Record", o Nacional da Madeira, que na noite deste sábado, dia 23, empatou no Estádio do Dragão, também é a “besta negra” do FC Porto, o tricampeão português. Só porque o clube madeirense ousou ir ao Porto travar a caminhada triunfal do clube de Jorge Nuno Pinto da Costa.
Os dois exemplos apontados deixam nítido que, para
a imprensa desportiva portuguesa, as equipas pequenas, ou menos poderosas, não empatam ou não ganham os
jogos com as equipas grandes por terem feito por isso, mas porque são "bestas
negras". Isto tem um significado muito claro: para os jornalistas desportivos portugueses,
sejam da rádio, da televisão, dos jornais ou da Internet, o sujeito é sempre o clube
mais forte, e toda a narrativa é construída em função desse posicionamento. Coitadas
das equipas pequenas, sempre maltratadas, sempre a “roubarem” pontos ou vitórias a
quem não deveriam… Os seus feitos raramente são elogiados ou valorizados. Na maioria das vezes, são relatados como ameaças ao caminho vitorioso dos mais fortes e
mais poderosos.
A organização das redações dos meios de comunicação especializados em futebol baseada em editorias para os grandes clubes, agrupando os jornalistas que "fazem" o Sporting Clube de Portugal, os que "fazem" o FC Porto e os que "fazem" o Benfica, talvez contribua para esta situação. Ao longo do tempo criam-se laços, vícios e dependências mútuas entre os jornalistas e as fontes dos clubes, e seus dirigentes, que geram um clima potencialmente pernicioso para a qualidade do jornalismo.
Deixo uma dica para as direções editoriais. Se os jornalistas que "fazem" o Sporting fossem "fazer" os jogos do FC Porto, se os jornalistas que "fazem" o Benfica fossem "fazer" os jogos do FC Porto e se os jornalistas que "fazem" o FC Porto fossem "fazer" os jogos do Sporting, ou seja, se todos os jornalistas rodassem continuamente fazendo trabalhos jornalísticos em todos os clubes, o seu distanciamento produziria, certamente, um jornalismo de maior qualidade, do qual todos beneficiariam, inclusive os clubes grandes, em função da maior exigência que o trabalho de uma imprensa não tão engajada com os clubes iria implicar. Deste modo, os meios de comunicação prestigiariam o jornalismo e seriam, certamente, muito mais respeitados por todos os clubes. Por outro lado, talvez os clubes mais pequenos que "roubam" pontos aos clubes grandes deixassem de ser as "bestas negras" do futebol português.
Deixo uma dica para as direções editoriais. Se os jornalistas que "fazem" o Sporting fossem "fazer" os jogos do FC Porto, se os jornalistas que "fazem" o Benfica fossem "fazer" os jogos do FC Porto e se os jornalistas que "fazem" o FC Porto fossem "fazer" os jogos do Sporting, ou seja, se todos os jornalistas rodassem continuamente fazendo trabalhos jornalísticos em todos os clubes, o seu distanciamento produziria, certamente, um jornalismo de maior qualidade, do qual todos beneficiariam, inclusive os clubes grandes, em função da maior exigência que o trabalho de uma imprensa não tão engajada com os clubes iria implicar. Deste modo, os meios de comunicação prestigiariam o jornalismo e seriam, certamente, muito mais respeitados por todos os clubes. Por outro lado, talvez os clubes mais pequenos que "roubam" pontos aos clubes grandes deixassem de ser as "bestas negras" do futebol português.
domingo, 17 de novembro de 2013
Siri Hustvedt. "A arte tem de perturbar e chocar"
“As
expectativas podem cegar-nos. Sabemos hoje que a percepção das obras de arte
pode até ser condicionada por predisposições biológicas ou fisiológicas
pré-conscientes. Mas o fenomenologista Edmund Husserl [no início do século XX]
aconselhava-nos a pormos de lado as nossas disposições naturais. Não
conseguimos colocar-nos perante uma obra de arte totalmente nus, mas podemos
rejeitar ao máximo as ideias pré-concebidas. Devemos abrir-nos a todas as
possibilidades.”
“A arte que
me interessa é aquela que nunca chego a compreender totalmente. Algumas obras
de Goya, por exemplo, são tão fortes que me é quase insuportável olhar para
elas. Cada pessoa tem um grau diferente de estímulo e de tolerância. Mas a arte
tem de perturbar e de chocar.”
“É um
disparate defendermos hierarquias artísticas muito rígidas, porque as obras de
arte estão vivas ou renascem em cada novo espectador, leitor ou ouvinte. O peso
de uma aprovação pré-estabelecida pode condicionar-nos a tal ponto que deixamos
de conseguir ver a obra. É o que acontece, por exemplo, com a Mona Lisa, que
foi esmagada pela história da sua recepção e é ofuscada pela multidão que se
acumula à sua frente a toda a hora. Até certo ponto, as pessoas querem é
registar o facto de terem visto determinado quadro e, por isso, nos museus,
fotografam-no, dispensando mesmo olharem para ele. É também por isso
que se lê tanta má literatura ou se vê tanto mau cinema. Aderir a uma proposta
só porque muitos outros a consomem é uma experiência social ou cultural, mas
não significa um verdadeiro contacto com a arte. Num certo sentido, é uma
espécie de placebo.”
“Há pouco
tempo, enquanto escrevia sobre as naturezas mortas do pintor italiano Giorgio
Morandi, experimentei observar durante quinze minutos uma garrafa de água com
gás. Primeiro, o rótulo começou a perder nitidez. Depois, surgiram múltiplos
pormenores, como os cambiantes de intensidade da luz ou de espessura do vidro
ou os efeitos visuais da condensação da água. A visão foi-se alterando devido à
intensidade e à duração do olhar, o que também acontece perante uma obra de
arte. Quanto mais rica for a obra de arte, maior será a surpresa do nosso olhar
e a sua ressonância, ao longo do tempo, dentro de nós.”
Siri
Hustvedt, escritora norte-americana, “Sol”, 16-11-2013
Assinar:
Postagens (Atom)









