A
rede social Facebook cresceu, cresceu muito, e transformou-se num espaço muito mal frequentado. Se o senhor
Mark Zuckerberg não apostar fortemente na segurança e não conseguir travar a
proliferação de vírus que andam por aí – travestidos de pedidos de amizade, mensagens,
posts e comentários robotizados –, a maior rede social do mundo corre o risco
de cair, como aconteceu com muitas outras que duraram menos tempo. Porque ninguém gosta de frequentar um espaço que representa uma ameaça à nossa segurança.
segunda-feira, 17 de março de 2014
quinta-feira, 13 de março de 2014
A queda do vinho do Porto no Brasil e a comunicação
O
vinho do Porto perdeu 30% do negócio no Brasil em apenas dois anos, anunciou o “Jornal
de Negócios”, apontando como motivos barreiras alfandegárias e taxas elevadas. Mas
há outras razões. É trágico porque é uma queda que acontece num momento em que
os brasileiros despertam para o consumo de vinhos e têm uma oferta
internacional cada vez maior. E mesmo custando cinco vezes mais, em média, do
que em Portugal, os vinhos portugueses nem são particularmente dos mais caros
que podemos ver nas prateleiras dos supermercados brasileiros. A questão é que
não são os únicos vinhos do mercado. E até os bons vinhos franceses apostam em
comunicação, aparecendo no Brasil com rótulos em língua portuguesa.
Eu
acrescento outra razão para a tragédia: falta ao vinho do Porto uma política de
comunicação eficaz no Brasil. Em especial uma comunicação que vá ao encontro do
consumidor, despertando o seu interesse por um dos melhores vinhos do mundo. O
lado bom é que o presidente do Instituto do Vinho do Douro e do Porto, Manuel
de Novaes Cabral, com quem já tive o privilégio de falar sobre o assunto, sabe
disso.
Num
mundo global e competitivo, a comunicação é um elemento fundamental para que um
produto possa ir ao encontro dos consumidores, criando neles uma necessidade de
consumo. Comunicar com eficácia um vinho num determinado mercado estrangeiro é
dar a conhecer esse vinho, mas também a cultura que o envolve e os momentos que
convidam ao seu consumo, gerando, assim, envolvimento entre o produto e os
possíveis consumidores.
O
Vinho do Porto e a Região Demarcada do Douro – que é a região demarcada mais antiga
do mundo – reúnem condições para uma comunicação eficaz nos mercados
internacionais, que tenha em conta uma visão multidimensional da região e do
País, que contribua para o fortalecimento da imagem externa da região duriense,
para a captação de consumidores de vinho do Porto, para a atração de enoturistas,
assim como de novos investimentos e, por consequência, novas fontes de
rendimento para a região duriense, para a Área Metropolitana do Porto e para Portugal.
O
Turismo do Vinho é um segmento da atividade turística que se baseia na viagem
motivada pela apreciação do sabor e aroma dos vinhos, mas também nas tradições
e na cultura das localidades que produzem a bebida. Mais do que apenas
"beber" vinho, o enoturista aprecia paisagens, utiliza os
equipamentos de gastronomia, hotelaria e diversão, fomentando a economia,
designadamente o comércio local e outras prestações de serviços. Uma boa
comunicação de um produto com a singularidade do Vinho do Porto tem, portanto,
reflexos sobre a percepção pública que os “stakeholders” e os públicos externos
podem ter sobre o território produtor.
O
aumento do grau de conhecimento sobre o vinho do Porto é fundamental para fazer
aumentar o seu consumo no Brasil. No mercado brasileiro, aumentar o
conhecimento sobre o vinho do Porto implica ensinar a história, a forma como se
bebe, como se aprecia e combina com os diversos tipos de comida. Os vinhos do
Porto e do Douro possuem uma multiplicidade de características e de produtos
diferenciados que se adequam a muitos momentos de consumo, dos mais solenes aos
mais descontraídos, a climas mais quentes ou mais frios – e o mercado
brasileiro precisa de ter acesso a esse conhecimento, para saber distinguir
entre um vinho do Porto e um vinho argentino, chileno ou francês.
Um
bom vinho depende, antes de mais, do território onde é produzido. É por isso
que não existe Vinho do Porto que não seja produzido na Região Demarcada do
Douro. Por isso, a sua comunicação agrega valor ao produto se tiver em conta
não só o vinho, mas também as potencialidades ambientais, turísticas, culturais
e económicas da Região Demarcada do Douro. É esse conhecimento que se traduz em
percepções positivas junto dos potenciais consumidores que, por sua vez,
potenciam o consumo do vinho e, eventualmente, o incremento do turismo e da
economia da região produtora do vinho. Neste processo, que é dinâmico, são captados
novos consumidores de vinho e novos turistas, enquanto outros se fidelizam.
A
rede de hotéis, o Museu do Douro, os passeios de barco no Douro, as quintas e
adegas, a gastronomia da região, o comboio histórico, as caves do vinho do
Porto, a cultura e as tradições, os centros históricos do Porto e Vila Nova de Gaia,
etecetera, são elementos cuja comunicação integrada é susceptível de aumentar nos públicos
brasileiros o interesse pelo conhecimento do Norte de Portugal. O que, por
consequência, aumenta o interesse e o conhecimento sobre o Vinho do Porto e o
seu consumo.
Através
da Internet, com uma linguagem adaptada à cultura brasileira, a comunicação
pode levar vinho do Porto diretamente aos consumidores brasileiros. Só assim
será possível evitar a queda nas vendas e inverter a tendência, para bem da economia portuguesa. E num negócio que, neste momento, vale
3,8 milhões de euros anuais (valor das exportações de vinho do Porto e do Douro para o Brasil em 2013), iria valer a pena o investimento.
domingo, 9 de março de 2014
Impresso ou digital? Prefiro o jornalismo credível
O
jornalismo digital é sinónimo de informação instantânea. O pior é que isso,
muitas vezes, significa falta de confirmação dos dados junto das fontes e ausência de cruzamento de informações, por
alegada falta de tempo. Na Internet a concorrência é ditada ao segundo e
ninguém quer perder a corrida desenfreada pela notícia dada antes dos outros. Noutros
tempos, antes da rapidez da Internet, quando a concorrência dos jornais
impressos tinha, pelo menos, a cadência das 24 horas do dia, a publicação de
notícias com base em dados não confirmados era identificada como um exemplo de incompetência
profissional de jornalistas, editores e diretores.
Agora,
as edições digitais cometem erros grosseiros que, por sua vez, são reproduzidos
por outras edições digitais e pelas edições impressas do dia seguinte e,
inclusive, nas revistas da semana seguinte. É o descrédito total do jornalismo
impresso – que não tem culpa nenhuma dos erros grosseiros cometidos por maus
profissionais digitais sem tempo para nada.
É
neste contexto que muitas notícias falsas se propagam como vírus tanto nas
edições digitais como nas edições impressas, provocando o descrédito do
jornalismo e alimentando discussões sobre o fim do jornal impresso e sobre um
futuro digital e em rede capaz de resolver os problemas do jornalismo.
Curiosamente,
ninguém confessa, mas um jornalismo sem crédito deve interessar muito aos interesses
privados que invadiram governos e outras instituições públicas, e invadiram
também o espaço público mediático. Quanto menos credível é o jornalismo, mais
esses interesses podem medrar.
Mais
do que discutir se o jornalismo deve ser impresso ou deve ser digital, importa
discutir em que condições é que o jornalismo deve ser feito. A crise de
credibilidade no jornalismo contemporâneo é uma questão fundamental. Se a distribuição
do jornalismo aos cidadãos é feita em modo digital ou em modo impresso será, a
meu ver, uma questão igualmente importante, mas não elementar. A propósito
desta reflexão sobre a crise do jornalismo contemporâneo, aconselho a leitura
de um texto de Jessica Behrens e João José Forni, no blog “Comunicação & Crise”,
sobre o que tem a ver a poluição chinesa com a crise do jornalismo (ver aqui: http://bit.ly/PcHIe3).
sexta-feira, 7 de março de 2014
A “selfie” de Ellen DeGeneres e a nova publicidade
“Um bom
exemplo do que são as novas formas de fazer publicidade aconteceu na noite dos
Óscares – o momento em que a apresentadora Ellen DeGeneres promoveu uma selfie
(fotografia tirada a si própria), que correu mundo e foi um fenómeno
impressionante de partilha nas redes sociais. A história que apareceu no dia a
seguir é curiosa: durante toda a emissão da entrega dos Óscares, Ellen
DeGeneres brincou com um telemóvel Samsung Galaxy Note branco que tinha na mão
– e foi esse aparelho que ela passou ao actor Bradley Cooper para ele fazer a
selfie que correu mundo, ao lado de estrelas como Brad Pitt, Meryl Streep,
Kevin Spacey e Jennifer Lawrence, para além da própria DeGeneres, à sua volta. O
momento da selfie foi filmado e emitido na transmissão televisiva e lá está bem
visível o logo da Samsung. Acontece que a Samsung investiu cerca de 20 milhões
de dólares em spots que passaram nos intervalos da transmissão da entrega dos
Óscares deste ano e a presença em palco do Galaxy fazia parte do pacote
negociado.
Mas a
marca não se ficou por aí e preparou a sua presença em ecrã, desde pessoas que
o usavam na passadeira vermelha a fazer fotografias e a filmar, até ao momento
da selfie. Segundo o "The Wall Street Journal", a selfie terá sido
ideia de Ellen DeGeneres, mas a cadeia ABC, detentora dos directos da
transmissão e comercialização da publicidade, sugeriu que ela o fizesse com um
Samsung Galaxy Note, e responsáveis da Samsung estiveram nos ensaios e ensinar
Ellen DeGeneres a familiarizar-se com o aparelho para que, na altura certa, o
pudesse utilizar de forma bem visível. Na realidade, a selfie não foi uma coisa
espontânea, foi um "product placement" bem pensado e trabalhado que
deu enorme retorno à marca coreana. A foto foi "retweetada" quase
três milhões de vezes na segunda-feira à tarde e a Samsung chegou a ser
mencionada 900 vezes por minuto nas redes sociais durante esse espaço de tempo.
É impossível quantificar o valor que isto significa, mas excede em muito aquilo
que foi pago pelos spots exibidos nos intervalos da emissão. ”
Manuel
Falcão, “Jornal de Negócios”, 07-03-2014 :: http://bit.ly/1dzeSx8
Obs. –
Título da reponsabilidade do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADAsegunda-feira, 3 de março de 2014
Um assessor de imprensa aos pontapés
Quem
costuma contactar com Zeca Mendonça, o assessor de imprensa do PSD, que entrou
no partido nos tempos da fundação, como segurança de Francisco Sá Carneiro, tem
dele a imagem de uma pessoa equilibrada, sensata, afável e minimamente conhecedora
do funcionamento dos jornalistas e do sistema mediático. Não é um estratega,
mas é um homem do terreno atento aos detalhes, sempre disponível para ajudar os
jornalistas no cumprimento do seu trabalho.
Sendo
talvez o assessor de imprensa há mais tempo em funções em Portugal, o veterano Zeca
Mendonça é, aliás, uma referência do PSD. Por isso, o seu pontapé num
fotojornalista não é um pontapé qualquer. Ainda me lembro do célebre congresso
do PSD que ditou a sucessão de Cavaco Silva e do momento em que Luís Filipe Menezes,
então presidente da poderosa Comissão Política Distrital do Porto, com o
discurso contra os “sulistas, elitistas e liberais”, causou desordem na
reunião, tendo bastado um olhar do líder Cavaco para que Zeca Mendonça
assomasse ao púlpito e dissesse que Cavaco Silva pedia ordem aos congressistas,
começando toda a gente a gritar pelo PSD, devolvendo, assim, a ordem ao conclave.
Duas
décadas depois, somos surpreendidos pelo mesmo Zeca Mendonça a pontapear um fotojornalista
nos corredores de um conselho nacional do PSD, onde havia, realmente, interesse
jornalístico em fotografar o seu novo presidente, o regressado Miguel Relvas (assista ao vídeo aqui: http://bit.ly/1coRcxf).
Entre 1995 e 2014 são duas imagens distintas da mesma pessoa. Aparentemente, foi Zeca Mendonça
que mudou para pior, perdendo as estribeiras e reagindo sem
senso e sem inteligência – ignorando que estava a ser filmado pelas costas e que, actualmente, tudo o que acontece no espaço público fica registado e pode ser amplamente difundido sem controlo por meios de comunicação tradicionais ou digitais, como aconteceu. E ainda bem, em nome da transparência e do direito que temos à informação.
Infelizmente,
Zeca Mendonça abordou o fotojornalista ao pontapé, com o ímpeto de quem queria mesmo partir a perna ao adversário. Um método próprio de intolerantes, que
não convivem bem com a democracia e com a diferença, e que, portanto, não suportam jornalistas. Mas o seu pontapé também pode ser visto como uma metáfora da acção governativa contra os bolsos dos portugueses, enquanto o Estado continua a viver gordo como sempre viveu, tendo eliminado apenas umas juntas de freguesia para disfarçar.
O que é extraordinário é
que a reacção brutal do assessor do PSD foi motivada por uma simples fotografia, que o repórter fez e, ao que parece, não deveria ter feito. E que
mal teria a fotografia de Miguel Relvas que o fotojornalista queria mostrar ao público através dos meios de comunicação para quem trabalha? Não teria mal nenhum, evidentemente. O assessor quis proteger Miguel Relvas de quê? É por isso que tenho
enorme dificuldade em entender este triste episódio fora de um clima de desespero
e desnorte total da comunicação do PSD.
O namorado de Judite de Sousa e o jornalismo do nada
Já há vários anos que os jornais portugueses “Correio da Manhã”, “Diário de Notícias” e “Jornal de Notícias” – particularmente estes, que teoricamente são diários de informação geral e não jornais de mexericos –, enveredaram pela criação de uma secção ondem publicam alegadas notícias do chamado "jet-set" – ou mundo cor-de-rosa, como também é conhecido –, que vive à base dos interesses comerciais de agentes de comunicação que trabalham com modelos, actores e outros artistas para promovê-los de qualquer maneira no espaço público mediático.
Sempre
disponíveis para mostrarem aos seus leitores bons corpos sem roupa, os jornais de informação geral, outrora reconhecidos defensores do interesse público e promotores da informação de interesse público, colocam-se, assim, ao sabor dos interesses privados de atores e modelos, que
procuram aparecer quando estão no desemprego. Por vezes, é nesse contexto que muitas modelos/actrizes aproveitam o ensejo para mostrar as mamas novas, demonstrando, assim, a sua excelente forma física para voltar ao mercado. E os jornais vão enchendo
páginas e páginas com estes conteúdos daquilo que já designei neste blog como o jornalismo do nada.
Apesar disso, os seus jornais continuam alegremente a
informar-nos quem vai para a cama com quem. E, como o mercado é pequeno, agora até jornalistas famosos são objeto destes mexericos, como é o caso da “notícia” sobre o
novo namorado de Judite de Sousa (ver aqui: http://bit.ly/1eV3Q1i), publicada num jornal dito de referência como se fosse jornalismo. Como se tivéssemos alguma coisa a ver com o casal. Como se os leitores fossem acéfalos. E como se estes jornais pudessem sobreviver assim. Fotografia: Lux
Administradores
e editores de jornais podem comemorar milhões de “pageviews” nas edições
digitais dos respectivos meios de comunicação, mas já deveriam ter concluído
que, com estas notícias sobre o nada, não ganham públicos fiéis para as edições
em papel nem conseguem inverter a tendência de queda das receitas de
publicidade.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
As imagens e a credibilidade
"Imagens de qualidade indicam uma preocupação maior com design, que transmite maior credibilidade, uma relação de confiança entre o seu leitor e você."
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Fernanda Lima nua com botas da Arezzo
Numa
imagem divulgada no último sábado, dia 8, Fernanda Lima usa apenas um par de botas de cano curto
da Arezzo – uma marca brasileira posicionada para o segmento de luxo, sendo, aliás, segundo um estudo recente, a primeira
marca feminina e brasileira mais lembrada no “Top of Mind” das mulheres consumidoras
da Classe A (confira aqui: http://bit.ly/1f9ZGDf).
Sendo a Arezzo uma marca de calçado feminino muito conhecida do seu público-alvo, não sei até que ponto uma mulher nua na publicidade será capaz de chamar a atenção e acionar o processo de decisão de compra nas brasileiras com poder aquisitivo.
Embora estejamos a falar de um produto direcionado ao público feminino brasileiro de classe A, ou seja, potencialmente formado, informado e, portanto, mais exigente, haverá,
com toda a certeza, publicitários e teóricos da publicidade capazes de nos
explicarem por que é que os sapatos de uma marca de prestígio precisam de
uma mulher nua para chamar a atenção do seu público-alvo, que é feminino e, teoricamente, de bom gosto. Sendo a Arezzo uma marca de calçado feminino muito conhecida do seu público-alvo, não sei até que ponto uma mulher nua na publicidade será capaz de chamar a atenção e acionar o processo de decisão de compra nas brasileiras com poder aquisitivo.
Em minha opinião, a questão é mais prosaica: estamos perante uma campanha de mau gosto, que parece dirigida por uma agência de publicidade apostada na vacuidade e não por uma agência de comunicação determinada a criar uma relação duradoura entre a Arezzo e as mulheres que podem comprar os seus produtos. No fundo, estamos perante uma comunicação sem conteúdo, a não ser o corpo pago de uma mulher famosa. Ora, no quadro da sociedade hipermediatizada em que vivemos, em que as pessoas estão permanentemente a receber mensagens, vindas de todo o lado, os consumidores querem comunicação com conteúdo, com transparência e sem artifícios. Para estes novos consumidores, que são mais difíceis de conquistar, conteúdo significa informação com rigor. E transparência significa sinceridade. Tudo o resto, incluindo o corpo de uma mulher nua, é dispensável.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
O Benfica não conseguiu evitar a tragédia
A
imprensa desportiva portuguesa anda muito macia. É compreensível, porquanto, em
função das estratégias editoriais – e comerciais –, está muito condicionada pelos interesses dos
clubes e outros agentes do futebol. É por isso que trabalha pouco, não
investiga. É por isso que todos os jornais, mais vírgula, menos vírgula, dizem
o mesmo, ouvindo as mesmas pessoas e salientando os mesmos pontos de vista. É
assim que os jornalistas, que são uma espécie de marionetes do sistema, se
defendem uns aos outros. Porque um jornalista que trabalhe, que investigue, que
aponte o dedo, enfim, um jornalista que seja livre e que escreva algo diferente
dos outros pode ter a carreira em risco.
Previsíveis, e sem informação nova, os jornais desta segunda-feira, assumem as vozes oficiais, escrevendo que foi
evitada uma tragédia no Estádio da Luz, em Lisboa. Por causa do mau tempo,
dizem. Ninguém aponta o dedo à responsabilidade do Benfica sobre a má construção
ou falta de manutenção do seu estádio. Não, a culpa foi do vento e da chuva –
elementos da natureza com costas largas, pois não sentem, não pensam, nem falam.
Mas
não é verdade que a tragédia tenha sido evitada. O Benfica não conseguiu evitar
a tragédia. A cobertura do estádio – que não aguentou um vento mais forte do que habitualmente – e os detritos caíram mesmo sobre o relvado e
as bancadas – pondo em perigo a saúde dos presentes e colocando a nu a falta de condições de segurança do estádio escolhido pela UEFA para receber
a Liga dos Campeões 2013-2014. Por isso é que o jogo com o Sporting Clube de
Portugal foi adiado.
Outra
tragédia foi comunicacional. No Estádio da Luz, as 65 mil pessoas que pagaram o
seu bilhete estiveram mais de 30 minutos à espera de informação sobre o que
estava acontecendo. E sobre o que poderia acontecer. Um exemplo de má comunicação da organização do jogo, a cargo
do Benfica. Para que serve um “speaker”? Será só para fazer a festa, para apresentar passatempos e para animar
a equipa da casa em momentos de aperto? Não, obviamente.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
O extermínio das ciências humanas em Portugal
(...)
O Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), da Universidade do
Minho, é uma unidade de investigação em Ciências da Comunicação, avaliada pelos
peritos internacionais da FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) como
Excelente, de resto a única na sua área a obter tal classificação. Trabalham neste
centro 60 investigadores doutorados e cerca de 130 investigadores fazem o
doutoramento. Por outro lado, uma dúzia de bolseiros apoiam os projetos de
investigação em curso. Mas em apenas dois anos, a FCT reduziu o melhor centro
de estudos em Ciências da Comunicação do país a uma unidade de investigação
residual. Cortou-lhe 30% do financiamento global, não aprovou projetos
avaliados como excelentes e reduziu incrivelmente o número de bolsas para
formação avançada. Em 2013, o CECS teve apenas uma bolsa de doutoramento
aprovada, um projeto aprovado em 2012 e nenhum no concurso de 2013.
Por
outro lado, também em 2012, a área de Ciências da Comunicação perdeu a sua
qualidade de área específica, tendo sido colocada no único bloco constituído
das CSH (Ciências Sociais e Humanas), o qual, com os seus 15% de peso no
financiamento, inclui, além das Ciências da Comunicação, a Sociologia, a
História, a Geografia, a Antropologia, as Línguas e Literaturas, os Estudos
Culturais, as Ciências da Educação, as Artes, entre outros. A FCT abriu em 2012
e 2013 concursos de investigadores-FCT, para bolsas de topo na investigação. Os
cinco candidatos do CECS foram reprovados, como aliás todas as candidaturas
nacionais vindas da área das Ciências da Comunicação. Em ambos os concursos,
todavia, nenhum membro do júri era investigador desta área científica. (...)
A
FCT rompeu o pacto de confiança que tinha com as universidades públicas – elas
não são mais o seu parceiro privilegiado para a execução das políticas
científicas. Entretanto, num galope sempre cada vez mais alucinante e
vertiginoso, a irracionalidade seguiu impante. Concursos estruturantes para a
vida das instituições nos próximos seis anos, a serem abertos nas férias de Verão
ou a serem lacrados na passagem do ano. Concursos sem regras fixas, ou com
regras de geometria variável, a serem fixadas em andamento, e até depois de
concluídos os concursos, ou então, pasme-se, a serem alteradas no meio de
concursos abertos. Plataformas informáticas que nunca funcionam de modo
escorreito e tornam caótica a gestão dos prazos dos concursos. A aplicação de
métricas à produtividade científica nas CSH, completamente inadequadas, que
fazem depender a qualidade académica de meras agências de rating. A nomeação de
um Conselho Científico de Ciências Sociais e Humanidades, sem consulta à
comunidade académica e com a credibilidade ferida por uma série de intrusos,
desqualificados na área, uns, com o estigma da encomenda partidária, outros, e
com o vício do nepotismo, outros ainda, um Conselho diminuído em “autonomia,
autoridade e experiência”, a ponto de seis das principais associações
científicas desta área terem exigido, sem mais, a revogação da decisão de
nomeação.
Esta
estratégia, de tão feroz e ensandecida, apenas pode ter como objetivo destruir
a comunidade académica, vencendo-a pelo cansaço, pelo nojo e pelo desespero, na
presunção de que seja impossível suster tamanho ciclone. E, todavia, instados a
pronunciar-se sobre o CECS, o inglês Denis McQuail, professor da Universidade
de Amesterdão e uma referência mundial nas Ciências da Comunicação, e também a
inglesa Annebelle Sreberny e a estadunidense Janet Wasko, respetivamente, a
antiga e a atual presidentes da mais importante associação mundial de Ciências
da Comunicação, a International Association for Media e Communication Research
(IAMCR), escreveram, em síntese:
“O
CECS é o mais reputado centro de pesquisa português em várias áreas, que
incluem a literacia mediática, a economia política dos média, a regulação dos
média, os estudos lusófonos (políticas da língua, políticas da comunicação,
identidade e narrativas, identidade e multiculturalismo), e estudos sobre as
políticas científicas e tecnológicas no espaço ibero-americano. Além disso, o
CECS desempenha um papel de liderança crítica nos estudos da Comunicação. Os
seus membros detêm posições de topo em associações internacionais e na direção
de alguns bem-conhecidos grupos de pesquisa internacional. O centro organizou,
por outro lado, alguns dos mais importantes congressos internacionais de
Comunicação: o Congresso da IAMCR; em 2010, vários Congressos Lusófonos, desde
1999; o Congresso da Secção de Rádio da ECREA, em 2012; o Congresso Europeu de
Semiótica Visual da IAVS, em 2011”. (...)
Deveria
ser permitido puxar da pistola, quando do Governo ou da FCT nos viessem falar
de qualidade e de excelência, de ligação às empresas, de empreendedorismo, de
competitividade e de produtividade. Porque é criminosa uma política científica
que não tem pensamento nem cultura, que não tem conhecimento nem consciência. Um
vento maligno levantou-se na Cidade e percorre-a em devastação. Enquanto durar,
serão anos de calamidade.
Moisés
Lemos Martins, diretor do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS)
da Universidade do Minho e Presidente da Associação Portuguesa de Ciências da
Comunicação (Sopcom) e da Confederação Ibero-americana das Associações
Científicas e Académicas de Comunicação (Confibercom), “Público”, 03-02-2014 ::
Texto integral: http://bit.ly/1eso9XO :: Fotografia: "Público" / Arquivo
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