Em finais da década de 1980, a estação de rádio TSF
deu a voz às pessoas comuns e às organizações da sociedade portuguesa e mudou os tempos da
informação com o seu jornalismo em directo. E isso contribuiu decisivamente para consolidar a democracia em
Portugal, cerca de 15 anos depois da revolução de 25 de Abril de 1974.
Independentemente
da história do berbequim, como metáfora dos exageros cometidos na luta pelas
audiências televisivas nos tempos de afirmação da SIC, Emídio Rangel fica na história como o homem que mudou a rádio e a
televisão em Portugal. Como eu já escrevi neste blog, a TSF revolucionou a forma de fazer rádio e jornalismo de um modo tão intenso que influenciou também os meios de comunicação escrita da época (ver aqui: http://bit.ly/1g0of5A).
Na
passagem dos 40 anos da revolução, o jornal “i” foi ouvir Emídio Rangel, o
fundador da TSF e, mais tarde, da SIC – dois projectos de comunicação que também mudaram Portugal. É uma entrevista de memória
que considero um documento importante porque ajudará a fazer a história da rádio
e da televisão em Portugal. Eis as passagens mais significativas:
“Eu notava que, [na
década de 1970], a rádio em Angola estava mais avançada. Nós já fazíamos
reportagens em todo o mundo, e aqui não era normal. Nós íamos com a rádio
angolana a todos os sítios onde aconteciam coisas. Para nós as notícias tinham
uma dimensão global: a rádio era um mundo que se debruçava sobre todo o
planeta. Lembro-me que na rádio do Lubango cobrimos os Jogos Olímpicos de
Munique. Aqui não havia essa cultura, nem esses hábitos. O perfil da emissão
que produzíamos era completamente diferente.”
“A RDP [Rádio Difusão
Portuguesa] não reconhecia a iniciativa das pessoas, era uma estrutura muito
pesada, manietada pelos sucessivos governos. Comecei a pensar que Portugal não
podia continuar a viver com uma emissora do Estado e outra da Igreja. Era
necessário libertar a rádio, fazer um combate para que fosse possível criar
novas emissoras. Depois do boom das rádios piratas concorremos a uma frequência
e ganhamos uma local. Foi uma batalha que durou mais de seis anos, para
conseguirmos que isso fosse possível e termos condições para fazer a TSF.”
“Deram-nos apenas uma
frequência local, quando éramos uma emissora que privilegiava a informação.
Houve uma clara manipulação política do concurso, aos governos da altura não
interessava uma rádio independente do ponto de vista informativo, preferiam
outro tipo de projectos menos dedicados a fazer informação. Aqui ganhou o ‘Correio
da Manhã’, no Norte ganhou a Lusomundo [Rádio Press]. Decidiram a solução que
lhes dava mais tranquilidade e segurança.”
“Nós não aceitámos essas
limitações. Passamos a fazer as coisas de uma maneira diferente. Não
aceitávamos o "Portugal sentado" da agenda dos outros órgãos de
comunicação social. Queríamos dar voz às pessoas. Ter gente dentro das nossas
notícias. A informação que havia era uma informação cheia de hierarquias e
muito respeitinho: primeiro apareciam as notícias do Presidente da República,
depois eram as do primeiro-ministro, e a cadeia alimentar seguia com ministros,
secretários de Estado, deputados, presidentes de câmara até aos chefes de
repartição. Nós introduzimos uma pequena revolução: abríamos jornais com o que
fosse importante. Tanto podíamos abrir com uma greve como com desporto. Isto
era para muita gente um crime de lesa-pátria.”
“Sentíamos pressões.
Quando passámos a fazer emissões diárias e a nossa voz passou a ter
importância, começámos a contar. Até porque depressa passámos a atingir um
conjunto de classes informadas e decisivas: a classe média alta, os quadros
técnicos, os estudantes do ensino superior. Nada daquilo que fazíamos era
indiferente. Tudo causava perturbação. Uma vez soubemos que tinha chegado um
barco com sete pessoas negras refugiadas. No porto de Lisboa as entidades
oficiais recusavam-se a recebê-los e disseram ao comandante do barco:
"faça o senhor o que quiser". Estavam num contentor em condições
infra-humanas. Resolvemos fazer a emissão 24 horas sobre 24 horas a partir de
lá. Até que eles desistissem de se desresponsabilizar da situação dessas
pessoas. Eles deixaram de ser tratados como animais para a passarem a ser
tratados como seres humanos.”
“A cobertura do incêndio
do Chiado foi porventura outro dos momentos simbólicos do nosso trabalho. O que
se pretendia é que nós não emitíssemos em directo. A informação na altura era
muito controlada, mas nós dinamitávamos isso, e pelo facto de estarmos em
directo as coisas não podiam ser menorizadas, e também obrigava todos os outros
operadores a seguirem-nos o exemplo. Isso aconteceu também com o aparecimento
da SIC e com o ‘buzinão’ na Ponte 25 de Abril. Caso a informação não
governamental não existisse, a repercussão mediática de um enorme acontecimento
seria provavelmente muito diferente. Estes directos dinamitavam qualquer
controlo informativo. Marcávamos a agenda.”
“Fui convidado pelo Dr.
Pinto Balsemão [para dirigir o canal de televisão SIC], e na altura fiz o
convite aos meus camaradas da TSF, que me aconselharam a aceitar. Era um novo
desafio, mas também poderia ajudar a rádio, porque se eu não estivesse à frente
do novo canal a sangria de profissionais podia ser maior. Nós tínhamos o tom
certo da informação que se pretendia e qualquer novo operador iria buscar
muitos dos nossos jornalistas. Eu próprio fui buscar alguma gente da TSF para o
desafio da SIC, mas não foi uma hemorragia, não foi 80% a 90%, com seria
previsível.”
“Estudei muito a
televisão, por gosto pessoal. Não tinha muito a experiência, mas tinha muitas
ideias de como era a televisão e como se devia agir nesse meio. Não era uma
pessoa sem experiência. Acresce que tinha a ideia firme do ritmo e daquilo que
se tinha de fazer em termos jornalísticos. O convite inicial era para director
de informação, mas com a saída da Maria Elisa do projecto assumi também a
direcção de programas, em televisão faz sentido abarcar a totalidade das
responsabilidades editoriais num meio. Uma televisão não se limita a dar
entretenimento nem a informar. As coisas não são totalmente estanques, tem de
haver uma lógica comum. Eu tinha uma grande experiência na TSF daquilo que
devia ser a mudança da informação na televisão. No fundo a lógica era a mesma:
acabar com o Portugal sentado, com a informação burocrática e hierarquizada
pelo respeitinho cego. Tínhamos como dever chegar aos locais em que a notícia
acontecia: quer fosse uma aldeia, quer fosse uma grande cimeira internacional.
Dar visibilidade mediática às pessoas e ao povo. Aproximar a televisão, a sua
informação e programação, das pessoas. Na altura só apareciam na televisão as
pessoas poderosas. Era necessário democratizar a televisão.”
“Nós queríamos fazer uma
televisão que chegasse ao maior número de pessoas, essa era a condição de
sobrevivência da SIC. Para atingir a maior parte da população era necessário
que não houvesse nenhum complexo elitista em relação ao entretenimento, dar às
pessoas aquilo que elas no fundo pretendiam e em termos informativos que fosse
uma estação muito criteriosa e rigorosa. Não víamos nenhuma contradição nisso.”
“A SIC podia ter [o ‘Big
Brother’] em exclusivo, mas eu considerei que aquele formato não era realizável
no modelo da SIC. Nós devíamos ter comprado para pormos na gaveta e ganharmos
algum tempo para poder arranjar alguma coisa que pudesse contrabalançar isso.
Para mim, o "Big Brother" não era exibível na SIC porque afectaria a
credibilidade do resto da estação. Mas os meus argumentos não foram ouvidos
pelo Dr. Francisco Balsemão, isso implicava um milhão, mas os accionistas da
SIC só viam os dividendos. E essa cegueira levou-nos a largar mão desse
expediente e a perder a liderança, com custos acrescidos para os accionistas.”
“[Se voltasse atrás],
teria feito exactamente a mesma coisa. Adivinhava-se o sucesso do "Big
Brother", mas aquilo era fazer caminho para trás. Quando a SIC começou foi
tendo formatos populares, simples e baratos, mas depois foi sempre melhorando
de qualidade e complexidade, e quando estava numa fase não se admitia voltar
com tudo atrás em termos de relação com o espectador.”
“Considerado em termos
globais, acho que, [na comunicação social em Portugal], se conseguiu manter uma
informação e um jornalismo televisivo actuante e isento. Onde eu acho que há
uma regressão é nos jornais. Menos pluralismo. E há o domínio de uma imprensa
sensacionalista que publica coisas sem respeitar o mínimo dos códigos
deontológicos. Não olha a meios para atingir fins.”
“Os portugueses têm de
estar felizes pelo 25 de Abril. Temos democracia. Podia ser melhor, mas não há
caminho sem democracia. Mesmo para melhorarmos muito o que temos. Nos últimos
anos há algumas coisas preocupantes, como a falta de respeito total pelas
pessoas durante esta crise. Mas o seu combate exige sempre mais democracia e um
melhor jornalismo.”
Emídio Rangel, fundador e primeiro diretor da TSF e da SIC, entrevistado por Nuno Ramos de Almeida, jornal “i”, 25-03-2014 :: Texto integral no link: http://bit.ly/1l3Ctba
Emídio Rangel, fundador e primeiro diretor da TSF e da SIC, entrevistado por Nuno Ramos de Almeida, jornal “i”, 25-03-2014 :: Texto integral no link: http://bit.ly/1l3Ctba










