As primeiras páginas do "Jornal de
Notícias" e do “Metro” desta sexta-feira, 4 de Abril de 2014. A
publicidade à frente das notícias. O interesse económico da publicidade à frente do
interesse público das notícias.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
quarta-feira, 26 de março de 2014
TSF e SIC. As memórias de Emídio Rangel
Em finais da década de 1980, a estação de rádio TSF
deu a voz às pessoas comuns e às organizações da sociedade portuguesa e mudou os tempos da
informação com o seu jornalismo em directo. E isso contribuiu decisivamente para consolidar a democracia em
Portugal, cerca de 15 anos depois da revolução de 25 de Abril de 1974.
Independentemente
da história do berbequim, como metáfora dos exageros cometidos na luta pelas
audiências televisivas nos tempos de afirmação da SIC, Emídio Rangel fica na história como o homem que mudou a rádio e a
televisão em Portugal. Como eu já escrevi neste blog, a TSF revolucionou a forma de fazer rádio e jornalismo de um modo tão intenso que influenciou também os meios de comunicação escrita da época (ver aqui: http://bit.ly/1g0of5A).
Na
passagem dos 40 anos da revolução, o jornal “i” foi ouvir Emídio Rangel, o
fundador da TSF e, mais tarde, da SIC – dois projectos de comunicação que também mudaram Portugal. É uma entrevista de memória
que considero um documento importante porque ajudará a fazer a história da rádio
e da televisão em Portugal. Eis as passagens mais significativas:
“Eu notava que, [na
década de 1970], a rádio em Angola estava mais avançada. Nós já fazíamos
reportagens em todo o mundo, e aqui não era normal. Nós íamos com a rádio
angolana a todos os sítios onde aconteciam coisas. Para nós as notícias tinham
uma dimensão global: a rádio era um mundo que se debruçava sobre todo o
planeta. Lembro-me que na rádio do Lubango cobrimos os Jogos Olímpicos de
Munique. Aqui não havia essa cultura, nem esses hábitos. O perfil da emissão
que produzíamos era completamente diferente.”
“A RDP [Rádio Difusão
Portuguesa] não reconhecia a iniciativa das pessoas, era uma estrutura muito
pesada, manietada pelos sucessivos governos. Comecei a pensar que Portugal não
podia continuar a viver com uma emissora do Estado e outra da Igreja. Era
necessário libertar a rádio, fazer um combate para que fosse possível criar
novas emissoras. Depois do boom das rádios piratas concorremos a uma frequência
e ganhamos uma local. Foi uma batalha que durou mais de seis anos, para
conseguirmos que isso fosse possível e termos condições para fazer a TSF.”
“Deram-nos apenas uma
frequência local, quando éramos uma emissora que privilegiava a informação.
Houve uma clara manipulação política do concurso, aos governos da altura não
interessava uma rádio independente do ponto de vista informativo, preferiam
outro tipo de projectos menos dedicados a fazer informação. Aqui ganhou o ‘Correio
da Manhã’, no Norte ganhou a Lusomundo [Rádio Press]. Decidiram a solução que
lhes dava mais tranquilidade e segurança.”
“Nós não aceitámos essas
limitações. Passamos a fazer as coisas de uma maneira diferente. Não
aceitávamos o "Portugal sentado" da agenda dos outros órgãos de
comunicação social. Queríamos dar voz às pessoas. Ter gente dentro das nossas
notícias. A informação que havia era uma informação cheia de hierarquias e
muito respeitinho: primeiro apareciam as notícias do Presidente da República,
depois eram as do primeiro-ministro, e a cadeia alimentar seguia com ministros,
secretários de Estado, deputados, presidentes de câmara até aos chefes de
repartição. Nós introduzimos uma pequena revolução: abríamos jornais com o que
fosse importante. Tanto podíamos abrir com uma greve como com desporto. Isto
era para muita gente um crime de lesa-pátria.”
“Sentíamos pressões.
Quando passámos a fazer emissões diárias e a nossa voz passou a ter
importância, começámos a contar. Até porque depressa passámos a atingir um
conjunto de classes informadas e decisivas: a classe média alta, os quadros
técnicos, os estudantes do ensino superior. Nada daquilo que fazíamos era
indiferente. Tudo causava perturbação. Uma vez soubemos que tinha chegado um
barco com sete pessoas negras refugiadas. No porto de Lisboa as entidades
oficiais recusavam-se a recebê-los e disseram ao comandante do barco:
"faça o senhor o que quiser". Estavam num contentor em condições
infra-humanas. Resolvemos fazer a emissão 24 horas sobre 24 horas a partir de
lá. Até que eles desistissem de se desresponsabilizar da situação dessas
pessoas. Eles deixaram de ser tratados como animais para a passarem a ser
tratados como seres humanos.”
“A cobertura do incêndio
do Chiado foi porventura outro dos momentos simbólicos do nosso trabalho. O que
se pretendia é que nós não emitíssemos em directo. A informação na altura era
muito controlada, mas nós dinamitávamos isso, e pelo facto de estarmos em
directo as coisas não podiam ser menorizadas, e também obrigava todos os outros
operadores a seguirem-nos o exemplo. Isso aconteceu também com o aparecimento
da SIC e com o ‘buzinão’ na Ponte 25 de Abril. Caso a informação não
governamental não existisse, a repercussão mediática de um enorme acontecimento
seria provavelmente muito diferente. Estes directos dinamitavam qualquer
controlo informativo. Marcávamos a agenda.”
“Fui convidado pelo Dr.
Pinto Balsemão [para dirigir o canal de televisão SIC], e na altura fiz o
convite aos meus camaradas da TSF, que me aconselharam a aceitar. Era um novo
desafio, mas também poderia ajudar a rádio, porque se eu não estivesse à frente
do novo canal a sangria de profissionais podia ser maior. Nós tínhamos o tom
certo da informação que se pretendia e qualquer novo operador iria buscar
muitos dos nossos jornalistas. Eu próprio fui buscar alguma gente da TSF para o
desafio da SIC, mas não foi uma hemorragia, não foi 80% a 90%, com seria
previsível.”
“Estudei muito a
televisão, por gosto pessoal. Não tinha muito a experiência, mas tinha muitas
ideias de como era a televisão e como se devia agir nesse meio. Não era uma
pessoa sem experiência. Acresce que tinha a ideia firme do ritmo e daquilo que
se tinha de fazer em termos jornalísticos. O convite inicial era para director
de informação, mas com a saída da Maria Elisa do projecto assumi também a
direcção de programas, em televisão faz sentido abarcar a totalidade das
responsabilidades editoriais num meio. Uma televisão não se limita a dar
entretenimento nem a informar. As coisas não são totalmente estanques, tem de
haver uma lógica comum. Eu tinha uma grande experiência na TSF daquilo que
devia ser a mudança da informação na televisão. No fundo a lógica era a mesma:
acabar com o Portugal sentado, com a informação burocrática e hierarquizada
pelo respeitinho cego. Tínhamos como dever chegar aos locais em que a notícia
acontecia: quer fosse uma aldeia, quer fosse uma grande cimeira internacional.
Dar visibilidade mediática às pessoas e ao povo. Aproximar a televisão, a sua
informação e programação, das pessoas. Na altura só apareciam na televisão as
pessoas poderosas. Era necessário democratizar a televisão.”
“Nós queríamos fazer uma
televisão que chegasse ao maior número de pessoas, essa era a condição de
sobrevivência da SIC. Para atingir a maior parte da população era necessário
que não houvesse nenhum complexo elitista em relação ao entretenimento, dar às
pessoas aquilo que elas no fundo pretendiam e em termos informativos que fosse
uma estação muito criteriosa e rigorosa. Não víamos nenhuma contradição nisso.”
“A SIC podia ter [o ‘Big
Brother’] em exclusivo, mas eu considerei que aquele formato não era realizável
no modelo da SIC. Nós devíamos ter comprado para pormos na gaveta e ganharmos
algum tempo para poder arranjar alguma coisa que pudesse contrabalançar isso.
Para mim, o "Big Brother" não era exibível na SIC porque afectaria a
credibilidade do resto da estação. Mas os meus argumentos não foram ouvidos
pelo Dr. Francisco Balsemão, isso implicava um milhão, mas os accionistas da
SIC só viam os dividendos. E essa cegueira levou-nos a largar mão desse
expediente e a perder a liderança, com custos acrescidos para os accionistas.”
“[Se voltasse atrás],
teria feito exactamente a mesma coisa. Adivinhava-se o sucesso do "Big
Brother", mas aquilo era fazer caminho para trás. Quando a SIC começou foi
tendo formatos populares, simples e baratos, mas depois foi sempre melhorando
de qualidade e complexidade, e quando estava numa fase não se admitia voltar
com tudo atrás em termos de relação com o espectador.”
“Considerado em termos
globais, acho que, [na comunicação social em Portugal], se conseguiu manter uma
informação e um jornalismo televisivo actuante e isento. Onde eu acho que há
uma regressão é nos jornais. Menos pluralismo. E há o domínio de uma imprensa
sensacionalista que publica coisas sem respeitar o mínimo dos códigos
deontológicos. Não olha a meios para atingir fins.”
“Os portugueses têm de
estar felizes pelo 25 de Abril. Temos democracia. Podia ser melhor, mas não há
caminho sem democracia. Mesmo para melhorarmos muito o que temos. Nos últimos
anos há algumas coisas preocupantes, como a falta de respeito total pelas
pessoas durante esta crise. Mas o seu combate exige sempre mais democracia e um
melhor jornalismo.”
Emídio Rangel, fundador e primeiro diretor da TSF e da SIC, entrevistado por Nuno Ramos de Almeida, jornal “i”, 25-03-2014 :: Texto integral no link: http://bit.ly/1l3Ctba
Emídio Rangel, fundador e primeiro diretor da TSF e da SIC, entrevistado por Nuno Ramos de Almeida, jornal “i”, 25-03-2014 :: Texto integral no link: http://bit.ly/1l3Ctba
sexta-feira, 21 de março de 2014
As novas regras da comunicação no turismo
NOVOS TEMPOS / DIRETO AO PONTO
Por Luís Paulo Rodrigues
O mundo digital trouxe desafios e novidades ao mercado de viagens.Hoje, a comunicação tem novas regras, como a criação de vínculos ou cumplicidade, para atrair o consumidor.
As
viagens e a comunicação se integram. A democratização da Internet e a conexão
das pessoas em redes de troca e partilha de informação trouxeram novos desafios
ao tradicional agente de viagens. Antigamente, o destino das férias era
escolhido tendo em conta a opinião do agente de viagens, que assim condicionava
as escolhas. Agora, o turista do século 21 – ou da sociedade da informação e do
conhecimento –, que segue a pauta dos meios de comunicação e está na rede,
planeja suas férias ou visitas turísticas e pode inclusive fazer tudo online: escolher
o destino, a hospedagem e comprar a passagem aérea.
É
um mundo novo, desafiante para o agente de viagens e para as organizações de
promoção turística de países e cidades. Um destino de férias, para ser
escolhido, precisa ser conhecido. Para isso, tem de divulgar suas
características e seu diferencial, indo ao encontro dos potenciais turistas, de
forma espontânea, comunicando-se diretamente com eles. Como afirma Philip Kotler,
professor norte-americano e um dos principais nomes do marketing atual, as
localidades são produtos cujos valores e identidades “devem ser planejados e promovidos”
para evitar a estagnação e o declínio. Num mundo global e competitivo, a
comunicação de um território, focalizada nos seus recursos culturais,
turísticos e econômicos, fortalece os laços de coesão e motivação internas e
define a percepção pública que os “stakeholders” (interessados) e o público
externo podem ter sobre esse território. A comunicação é a ferramenta disponível
para facilitar e promover a captação de moradores, turistas e investidores – uma
tríade fundamental para um lugar sustentável e em desenvolvimento constante.
Da
Europa e da América do Norte já chegaram ao Brasil exemplos de comunicação
internacional, tendo em conta o potencial da comunicação digital. No Facebook, por
exemplo, o governo da França criou a página Turismo na França, escrita em
português, com 186 mil seguidores, que promove a cultura e os lugares franceses
junto aos potenciais turistas brasileiros, indo ao encontro deles, falando com
eles de modo regionalizado, ou seja, como se fosse uma comunicação de
brasileiros para brasileiros, criando vínculos e cumplicidades. As autoridades
de turismo dos Estados Unidos fizeram o mesmo, com a página Descubra os Estados
Unidos da América,
seguida por 3,4 milhões de pessoas. Eles já compreenderam as novas regras da
comunicação. Vão diretamente ao consumidor.
(Texto
publicado na VIAGENS SA, revista de referência para o “trade” turístico do
Brasil, nº 27, página 52, Abril de 2014 :: Consulte a edição impressa aqui: http://bit.ly/1jcECE7)
quinta-feira, 20 de março de 2014
Relações Públicas e Jornalistas. Uma relação difícil
Muito se tem escrito sobre o papel dos
agentes de relações públicas no espaço público mediático – profissionais da
comunicação que, ao serviço de uma instituição, empresa, organismo ou até
pessoas, são, muitas vezes, acusados de “envenenar” os verdadeiros jornalistas, “vendendo-lhes” notícias
ou informações que estes últimos não deveriam “comprar”... Verdade? Mentira? Se calhar as duas coisas, pois
tudo deve começar no respeito com que uns e outros devem relacionar-se...
Comecemos então. Um agente de relações
públicas (RP) pode e deve assumir-se como um informador privilegiado dos
jornalistas. Deve ter conhecimento profundo da matéria cuja divulgação
pretende, assumindo naturalmente que esse facto não lhe dá o direito de exigir qualquer
publicação ou simples divulgação. Por outro lado, o jornalista ao receber
informações, documentação, etc., do profissional de RP, não deve nem está a
assumir qualquer compromisso em termos de divulgação do conteúdo dessas mesmas
informações.
Tudo se pode passar, ao fim e ao cabo, como
se uma fronteira invisível atravessasse, embora dividindo, um terreno comum a
estes dois profissionais. De um lado o agente de RP, que ao ter conhecimento
dos princípios de independência, rigor e objetividade que regem a atividade
jornalística, não deve pressionar o jornalista, forçando ou simplesmente
sugerindo qualquer publicação.
Do outro, o jornalista, que jamais se deve
sentir comprometido por aceitar documentação ou informações, antes
reservando-se o direito de as analisar, trabalhar e incluir ou não no seu
trabalho final. Que o RP não se sinta melindrado se o jornalista não
aproveitar, ou aproveitar pouco o seu material. Que o jornalista não se sinta, “culpado”
por exercer as suas opções editoriais chegando à situação limite de recusar a
divulgação ou publicação de qualquer matéria.
Qual então o terreno comum aos dois grupos? A
informação trabalhada e preparada por um para servir a função do outro?
Provavelmente, e uma vez mais se afirma, no total respeito pelas competências e
prerrogativas de ambos.
O agente de RP tem, assim, a responsabilidade
de produzir ou preparar uma informação que, destinando-se a ser fornecida ao
jornalista, jamais poderá conter erros, mentiras, inverdades ou simplesmente
ser falaciosa, por assumir dedutivamente algo não provado.
Embora podendo considerar o profissional de RP
como uma fonte de informação fidedigna, o jornalista jamais deve assumir como
inquestionável o material informativo que recebe das suas mãos. Por outras
palavras, a matéria informativa recebida pelo jornalista pode, e se calhar
deve, ser confirmada junto de outras fontes estranhas ao primeiro “informador”.
O jornalista pode, assim, encarar o agente de
RP como um precioso auxiliar no processo da obtenção da informação. Pode e
deve, porque essas são as suas funções, questionar essa mesma informação,
procurando complementá-la junto de outras fontes.
O profissional de RP – ou assessor de
comunicação – não pode nem deve alimentar expectativas de que a sua informação
vá ser aproveitada em todo ou em parte pelo jornalista na sua peça. Mas pode
ter fundadas esperanças de que quanto mais correta, factual e organizada
estiver a informação que fornece ao jornalista, maiores serão naturalmente as
possibilidades dessa mesma informação ser difundida pelo jornalista.
Há em todo este processo um risco que não
deve ser escamoteado. O agente de RP serve os múltiplos interesses da entidade
que o contratou, e é evidente que o seu trabalho reflete esses mesmos
interesses. Ao contrário, o jornalista norteia a sua ação, orientando-a em
função do interesse público, ou quando muito no interesse do público. Estes
interesses podem entrar em choque, e às vezes dar origem a equívocos que os
intervenientes devem ser capazes de amenizar.
É assim frequente encontrarmos relações
públicas que entendendo a especificidade do trabalho dos jornalistas,
limitam-se não apenas ao papel de fornecedores de informação, mas sobretudo à
organização segundo critérios jornalísticos dessa mesma informação.
Trabalhando a montante do jornalista, o agente
de RP dá-lhe a total liberdade de escolha da informação a publicar, devendo
aceitar implicitamente os resultados dessa escolha. Funcionando o jornalista a
jusante do relações públicas, as suas opções editoriais, acabam por ter em
conta os seus destinatários: o grande público consumidor do seu trabalho
jornalístico.
Pedro Luiz de Castro,
jornalista
e professor
universitário
::
Texto inédito
enviado pelo autor
Pedro Luiz de Castro,
jornalista
e professor
universitário
::
Texto inédito
enviado pelo autor
A remoção de Mário Crespo
O
jornalista Mário Crespo sai da SIC Notícias e o “Jornal das Nove” jamais será o
mesmo. Curiosamente, a comunicação da Impresa, de Pinto Balsemão, diz que vai renovar a “oferta
informativa em horário nobre”. Como se houvesse horário nobre
na televisão atual (embora isso seja tema para outra análise). E como se fosse possível substituir a experiência e a
memória do jornalista Mário Crespo – para mim, um dos melhores pivôs de informação
da televisão portuguesa, cuja densidade e independência incomodavam os vários poderes políticos.
Há momentos em que o esforço de comunicação de uma
organização se transforma em propaganda barata. A questão é esta: a saída de Mário
Crespo significa a remoção da memória na redação da SIC Notícias. E a remoção da memória
numa redação é uma perda irreparável. Por muito que se renove a tal “oferta informativa”. Confira a informação: http://bit.ly/1miIa7Z.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Ameaças ao Facebook
A
rede social Facebook cresceu, cresceu muito, e transformou-se num espaço muito mal frequentado. Se o senhor
Mark Zuckerberg não apostar fortemente na segurança e não conseguir travar a
proliferação de vírus que andam por aí – travestidos de pedidos de amizade, mensagens,
posts e comentários robotizados –, a maior rede social do mundo corre o risco
de cair, como aconteceu com muitas outras que duraram menos tempo. Porque ninguém gosta de frequentar um espaço que representa uma ameaça à nossa segurança.
quinta-feira, 13 de março de 2014
A queda do vinho do Porto no Brasil e a comunicação
O
vinho do Porto perdeu 30% do negócio no Brasil em apenas dois anos, anunciou o “Jornal
de Negócios”, apontando como motivos barreiras alfandegárias e taxas elevadas. Mas
há outras razões. É trágico porque é uma queda que acontece num momento em que
os brasileiros despertam para o consumo de vinhos e têm uma oferta
internacional cada vez maior. E mesmo custando cinco vezes mais, em média, do
que em Portugal, os vinhos portugueses nem são particularmente dos mais caros
que podemos ver nas prateleiras dos supermercados brasileiros. A questão é que
não são os únicos vinhos do mercado. E até os bons vinhos franceses apostam em
comunicação, aparecendo no Brasil com rótulos em língua portuguesa.
Eu
acrescento outra razão para a tragédia: falta ao vinho do Porto uma política de
comunicação eficaz no Brasil. Em especial uma comunicação que vá ao encontro do
consumidor, despertando o seu interesse por um dos melhores vinhos do mundo. O
lado bom é que o presidente do Instituto do Vinho do Douro e do Porto, Manuel
de Novaes Cabral, com quem já tive o privilégio de falar sobre o assunto, sabe
disso.
Num
mundo global e competitivo, a comunicação é um elemento fundamental para que um
produto possa ir ao encontro dos consumidores, criando neles uma necessidade de
consumo. Comunicar com eficácia um vinho num determinado mercado estrangeiro é
dar a conhecer esse vinho, mas também a cultura que o envolve e os momentos que
convidam ao seu consumo, gerando, assim, envolvimento entre o produto e os
possíveis consumidores.
O
Vinho do Porto e a Região Demarcada do Douro – que é a região demarcada mais antiga
do mundo – reúnem condições para uma comunicação eficaz nos mercados
internacionais, que tenha em conta uma visão multidimensional da região e do
País, que contribua para o fortalecimento da imagem externa da região duriense,
para a captação de consumidores de vinho do Porto, para a atração de enoturistas,
assim como de novos investimentos e, por consequência, novas fontes de
rendimento para a região duriense, para a Área Metropolitana do Porto e para Portugal.
O
Turismo do Vinho é um segmento da atividade turística que se baseia na viagem
motivada pela apreciação do sabor e aroma dos vinhos, mas também nas tradições
e na cultura das localidades que produzem a bebida. Mais do que apenas
"beber" vinho, o enoturista aprecia paisagens, utiliza os
equipamentos de gastronomia, hotelaria e diversão, fomentando a economia,
designadamente o comércio local e outras prestações de serviços. Uma boa
comunicação de um produto com a singularidade do Vinho do Porto tem, portanto,
reflexos sobre a percepção pública que os “stakeholders” e os públicos externos
podem ter sobre o território produtor.
O
aumento do grau de conhecimento sobre o vinho do Porto é fundamental para fazer
aumentar o seu consumo no Brasil. No mercado brasileiro, aumentar o
conhecimento sobre o vinho do Porto implica ensinar a história, a forma como se
bebe, como se aprecia e combina com os diversos tipos de comida. Os vinhos do
Porto e do Douro possuem uma multiplicidade de características e de produtos
diferenciados que se adequam a muitos momentos de consumo, dos mais solenes aos
mais descontraídos, a climas mais quentes ou mais frios – e o mercado
brasileiro precisa de ter acesso a esse conhecimento, para saber distinguir
entre um vinho do Porto e um vinho argentino, chileno ou francês.
Um
bom vinho depende, antes de mais, do território onde é produzido. É por isso
que não existe Vinho do Porto que não seja produzido na Região Demarcada do
Douro. Por isso, a sua comunicação agrega valor ao produto se tiver em conta
não só o vinho, mas também as potencialidades ambientais, turísticas, culturais
e económicas da Região Demarcada do Douro. É esse conhecimento que se traduz em
percepções positivas junto dos potenciais consumidores que, por sua vez,
potenciam o consumo do vinho e, eventualmente, o incremento do turismo e da
economia da região produtora do vinho. Neste processo, que é dinâmico, são captados
novos consumidores de vinho e novos turistas, enquanto outros se fidelizam.
A
rede de hotéis, o Museu do Douro, os passeios de barco no Douro, as quintas e
adegas, a gastronomia da região, o comboio histórico, as caves do vinho do
Porto, a cultura e as tradições, os centros históricos do Porto e Vila Nova de Gaia,
etecetera, são elementos cuja comunicação integrada é susceptível de aumentar nos públicos
brasileiros o interesse pelo conhecimento do Norte de Portugal. O que, por
consequência, aumenta o interesse e o conhecimento sobre o Vinho do Porto e o
seu consumo.
Através
da Internet, com uma linguagem adaptada à cultura brasileira, a comunicação
pode levar vinho do Porto diretamente aos consumidores brasileiros. Só assim
será possível evitar a queda nas vendas e inverter a tendência, para bem da economia portuguesa. E num negócio que, neste momento, vale
3,8 milhões de euros anuais (valor das exportações de vinho do Porto e do Douro para o Brasil em 2013), iria valer a pena o investimento.
domingo, 9 de março de 2014
Impresso ou digital? Prefiro o jornalismo credível
O
jornalismo digital é sinónimo de informação instantânea. O pior é que isso,
muitas vezes, significa falta de confirmação dos dados junto das fontes e ausência de cruzamento de informações, por
alegada falta de tempo. Na Internet a concorrência é ditada ao segundo e
ninguém quer perder a corrida desenfreada pela notícia dada antes dos outros. Noutros
tempos, antes da rapidez da Internet, quando a concorrência dos jornais
impressos tinha, pelo menos, a cadência das 24 horas do dia, a publicação de
notícias com base em dados não confirmados era identificada como um exemplo de incompetência
profissional de jornalistas, editores e diretores.
Agora,
as edições digitais cometem erros grosseiros que, por sua vez, são reproduzidos
por outras edições digitais e pelas edições impressas do dia seguinte e,
inclusive, nas revistas da semana seguinte. É o descrédito total do jornalismo
impresso – que não tem culpa nenhuma dos erros grosseiros cometidos por maus
profissionais digitais sem tempo para nada.
É
neste contexto que muitas notícias falsas se propagam como vírus tanto nas
edições digitais como nas edições impressas, provocando o descrédito do
jornalismo e alimentando discussões sobre o fim do jornal impresso e sobre um
futuro digital e em rede capaz de resolver os problemas do jornalismo.
Curiosamente,
ninguém confessa, mas um jornalismo sem crédito deve interessar muito aos interesses
privados que invadiram governos e outras instituições públicas, e invadiram
também o espaço público mediático. Quanto menos credível é o jornalismo, mais
esses interesses podem medrar.
Mais
do que discutir se o jornalismo deve ser impresso ou deve ser digital, importa
discutir em que condições é que o jornalismo deve ser feito. A crise de
credibilidade no jornalismo contemporâneo é uma questão fundamental. Se a distribuição
do jornalismo aos cidadãos é feita em modo digital ou em modo impresso será, a
meu ver, uma questão igualmente importante, mas não elementar. A propósito
desta reflexão sobre a crise do jornalismo contemporâneo, aconselho a leitura
de um texto de Jessica Behrens e João José Forni, no blog “Comunicação & Crise”,
sobre o que tem a ver a poluição chinesa com a crise do jornalismo (ver aqui: http://bit.ly/PcHIe3).
sexta-feira, 7 de março de 2014
A “selfie” de Ellen DeGeneres e a nova publicidade
“Um bom
exemplo do que são as novas formas de fazer publicidade aconteceu na noite dos
Óscares – o momento em que a apresentadora Ellen DeGeneres promoveu uma selfie
(fotografia tirada a si própria), que correu mundo e foi um fenómeno
impressionante de partilha nas redes sociais. A história que apareceu no dia a
seguir é curiosa: durante toda a emissão da entrega dos Óscares, Ellen
DeGeneres brincou com um telemóvel Samsung Galaxy Note branco que tinha na mão
– e foi esse aparelho que ela passou ao actor Bradley Cooper para ele fazer a
selfie que correu mundo, ao lado de estrelas como Brad Pitt, Meryl Streep,
Kevin Spacey e Jennifer Lawrence, para além da própria DeGeneres, à sua volta. O
momento da selfie foi filmado e emitido na transmissão televisiva e lá está bem
visível o logo da Samsung. Acontece que a Samsung investiu cerca de 20 milhões
de dólares em spots que passaram nos intervalos da transmissão da entrega dos
Óscares deste ano e a presença em palco do Galaxy fazia parte do pacote
negociado.
Mas a
marca não se ficou por aí e preparou a sua presença em ecrã, desde pessoas que
o usavam na passadeira vermelha a fazer fotografias e a filmar, até ao momento
da selfie. Segundo o "The Wall Street Journal", a selfie terá sido
ideia de Ellen DeGeneres, mas a cadeia ABC, detentora dos directos da
transmissão e comercialização da publicidade, sugeriu que ela o fizesse com um
Samsung Galaxy Note, e responsáveis da Samsung estiveram nos ensaios e ensinar
Ellen DeGeneres a familiarizar-se com o aparelho para que, na altura certa, o
pudesse utilizar de forma bem visível. Na realidade, a selfie não foi uma coisa
espontânea, foi um "product placement" bem pensado e trabalhado que
deu enorme retorno à marca coreana. A foto foi "retweetada" quase
três milhões de vezes na segunda-feira à tarde e a Samsung chegou a ser
mencionada 900 vezes por minuto nas redes sociais durante esse espaço de tempo.
É impossível quantificar o valor que isto significa, mas excede em muito aquilo
que foi pago pelos spots exibidos nos intervalos da emissão. ”
Manuel
Falcão, “Jornal de Negócios”, 07-03-2014 :: http://bit.ly/1dzeSx8
Obs. –
Título da reponsabilidade do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADAsegunda-feira, 3 de março de 2014
Um assessor de imprensa aos pontapés
Quem
costuma contactar com Zeca Mendonça, o assessor de imprensa do PSD, que entrou
no partido nos tempos da fundação, como segurança de Francisco Sá Carneiro, tem
dele a imagem de uma pessoa equilibrada, sensata, afável e minimamente conhecedora
do funcionamento dos jornalistas e do sistema mediático. Não é um estratega,
mas é um homem do terreno atento aos detalhes, sempre disponível para ajudar os
jornalistas no cumprimento do seu trabalho.
Sendo
talvez o assessor de imprensa há mais tempo em funções em Portugal, o veterano Zeca
Mendonça é, aliás, uma referência do PSD. Por isso, o seu pontapé num
fotojornalista não é um pontapé qualquer. Ainda me lembro do célebre congresso
do PSD que ditou a sucessão de Cavaco Silva e do momento em que Luís Filipe Menezes,
então presidente da poderosa Comissão Política Distrital do Porto, com o
discurso contra os “sulistas, elitistas e liberais”, causou desordem na
reunião, tendo bastado um olhar do líder Cavaco para que Zeca Mendonça
assomasse ao púlpito e dissesse que Cavaco Silva pedia ordem aos congressistas,
começando toda a gente a gritar pelo PSD, devolvendo, assim, a ordem ao conclave.
Duas
décadas depois, somos surpreendidos pelo mesmo Zeca Mendonça a pontapear um fotojornalista
nos corredores de um conselho nacional do PSD, onde havia, realmente, interesse
jornalístico em fotografar o seu novo presidente, o regressado Miguel Relvas (assista ao vídeo aqui: http://bit.ly/1coRcxf).
Entre 1995 e 2014 são duas imagens distintas da mesma pessoa. Aparentemente, foi Zeca Mendonça
que mudou para pior, perdendo as estribeiras e reagindo sem
senso e sem inteligência – ignorando que estava a ser filmado pelas costas e que, actualmente, tudo o que acontece no espaço público fica registado e pode ser amplamente difundido sem controlo por meios de comunicação tradicionais ou digitais, como aconteceu. E ainda bem, em nome da transparência e do direito que temos à informação.
Infelizmente,
Zeca Mendonça abordou o fotojornalista ao pontapé, com o ímpeto de quem queria mesmo partir a perna ao adversário. Um método próprio de intolerantes, que
não convivem bem com a democracia e com a diferença, e que, portanto, não suportam jornalistas. Mas o seu pontapé também pode ser visto como uma metáfora da acção governativa contra os bolsos dos portugueses, enquanto o Estado continua a viver gordo como sempre viveu, tendo eliminado apenas umas juntas de freguesia para disfarçar.
O que é extraordinário é
que a reacção brutal do assessor do PSD foi motivada por uma simples fotografia, que o repórter fez e, ao que parece, não deveria ter feito. E que
mal teria a fotografia de Miguel Relvas que o fotojornalista queria mostrar ao público através dos meios de comunicação para quem trabalha? Não teria mal nenhum, evidentemente. O assessor quis proteger Miguel Relvas de quê? É por isso que tenho
enorme dificuldade em entender este triste episódio fora de um clima de desespero
e desnorte total da comunicação do PSD.
Assinar:
Postagens (Atom)











