Carmelinda
Pereira é uma candidata tradicional do POUS (Partido Operário de Unidade Socialista)
que nunca consegue ser eleita para os órgãos políticos a que se candidata. E lembro-me
de ver a senhora concorrendo a eleições há mais de 30 anos. Carmelinda Pereira,
que começou nestas andanças nos tempos em que era uma jovem revolucionária, tem
um problema de imagem e credibilidade: ela só aparece na televisão nos tempos
de antena obrigatórios por lei, nas campanhas eleitorais, ou seja, em espaços
televisivos desprezados pelas audiências. Fora disso, não tem existência mediática
e ninguém a conhece. É um caso de falta de comunicação estruturada e permanente.
Não admira, por isso, o último lugar do POUS, nas eleições europeias de 2014,
com 0,11 por cento em resultado de uns míseros 3692 votos em todo o país.
Um
caso bem diferente é o de Marinho Pinto, que foi a grande surpresa nas eleições
europeias em Portugal, ao ter conseguido a eleição de dois lugares no
Parlamento Europeu para o pequeno Movimento Partido da Terra, conquistando 7,1%
dos eleitores que foram às urnas, em resultado de uma votação na ordem dos 235
mil votos.
Quando
decidiu integrar a lista do Partido da Terra, Marinho Pinto já tinha construído
uma imagem mediática, em função da sua visibilidade pública enquanto bastonário
da Ordem dos Advogados. Já era uma figura pública conhecida da maioria dos
portugueses. Para ele, os estúdios de televisão já não tinham grandes segredos.
E muita gente já se identificava com o seu ar justiceiro e genuíno.
Ele
foi o primeiro bastonário que soube utilizar o lugar que ocupou para transferir
os temas áridos do escritório da advocacia para a arena mediática, tomando
posições públicas frequentes, vestindo a pele de homem corajoso no ataque à
corrupção e aos mais poderosos, a começar pelos poderosos da sua classe
profissional. Inclusive, enfrentou certa comunicação social, de que guardo na
memória a sua altercação em direto, num dos famosos telejornais de sexta-feira,
na TVI, que eram apresentados por Manuela Moura Guedes e que ficaram conhecidos
como um pequeno bastião mediático contra o Governo de José Sócrates.
Hoje,
Manuela Moura Guedes, que fora, episodicamente, deputada à Assembleia da
República nos primórdios do CDS/PP de Paulo Portas, em meados da década de 1990,
está na RTP1 a apresentar o concurso “Quem Quer Ser Milionário?”, enquanto
Marinho Pinto acaba de ser a grande surpresa das eleições europeias, sendo
eleito para Estrasburgo e tendo o povo já a pedir a sua candidatura às próximas
eleições nacionais.
Certos
comentadores consideram que a votação de Marinho Pinto significa a adesão dos
eleitores a uma figura populista. Mas há um detalhe que desmente essa visão:
Marinho Pinto tem um discurso estruturado, quer a dignificação da política e
dos políticos, defendendo mudanças do sistema dentro da democracia e nunca fora
dela.
O
sucesso eleitoral de Marinho Pinto resulta de um processo de construção
mediática no tempo em que ele foi bastonário da Ordem dos Advogados. Podemos
dizer que Marinho Pinto é um produto de comunicação. À sua visibilidade pública,
Marinho Pinto só juntou um discurso crítico do atual sistema político, feito
com pés e cabeça, tendo, por isso, sido capaz de penetrar em setores mais conservadores
do eleitorado que estão descontentes com as políticas de austeridade e a falta
de credibilidade de uma classe política corrupta.
Marinho
Pinto é, por isso, muito maior que o Partido da Terra, que, sendo um pequeno partido
sem representação parlamentar em Portugal, teve muito menos espaço mediático do
que PS, PSD-CDS, CDU e Bloco de Esquerda, segundo um estudo já divulgado. Ora, a comunicação é decisiva. A
prova disso é que, sabendo-se agora da eleição José Inácio como eurodeputado,
todos os meios de comunicação perguntam: “Quem é o segundo eleito do MPT?” (ver
aqui: http://bit.ly/1ntYMJv). E quantas pessoas terão votado no MPT por causa
de José Inácio?... (Fotografia: André
Kosters / Observador)