sexta-feira, 9 de março de 2012

A rua mais bonita do mundo


A rua mais bonita do mundo é brasileira e fica na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. A Rua Gonçalo de Carvalho é uma rua “verde”, sob um túnel formado pelas árvores que se erguem dos dois lados. A via foi eleita pelos turistas e por especialistas como a rua mais bonita do mundo. Eis como o verde das árvores pode potencializar o marketing público de uma cidade e a sua capacidade de atracção turística.
Mas tudo começou quando a população se manifestou contra a construção de um parque de estacionamento. O projecto previa a remoção de algumas árvores, além da colocação de asfalto no lugar dos tradicionais paralelepípedos do local – que sugam a água da chuva, ajudando na irrigação das árvores. Os moradores venceram. Não houve parque de estacionamento e as árvores não foram derrubadas. Hoje, a rua é motivo de atracção urbana. A moda deveria pegar (ver mais fotos aqui)...

Há um português no Brasil entre os mais ricos do mundo


Há mais um português além de Alexandre Soares dos Santos, Américo Amorim e Belmiro de Azevedo na lista dos mais ricos do mundo. O empresário luso-brasileiro Ivens Dias Branco (na foto), presidente do Grupo Manoel Dias Branco, entrou para o ranking dos homens mais ricos do mundo, publicado pela revista norte-americana “Forbes” (ver aqui). As origens do empresário escaparam, porém, à imprensa portuguesa. Ivens Dias Branco é filho de um emigrante português do distrito de Aveiro e é o primeiro cidadão do Nordeste brasileiro a constar da lista dos mais ricos do mundo.
Ivens Dias Branco, que lidera o mercado brasileiro de massas e bolachas, o que levou a revista "Isto É Dinheiro" a considerá-lo "O Rei do Macarrão" (ver aqui), ocupa a 290ª posição entre os mais ricos no mundo e o nono lugar no Brasil, com uma fortuna avaliada em 3,8 mil milhões de dólares. Segundo a “Forbes”, está mais bem colocado na lista mundial que grandes empresários brasileiros como Abílio Diniz (Grupo Pão de Açúcar), António Luiz Seabra (Natura) ou os irmãos Moreira Salles, sócios do Banco Itaú. Numa listagem onde os portugueses mais ricos perderam terreno (ver aqui).
Ivens Dias Dias Branco regista a particularidade de ser filho do português Manoel Dias Branco (1904-1995), que construiu um império na indústria alimentar, a partir do estado nordestino do Ceará, onde chegou com apenas 18 anos, na primeira metade do século XX, oriundo de Albergaria-a-Velha, no distrito de Aveiro. A sua importância na economia de Fortaleza foi distinguida recentemente com uma homenagem pública que não está ao alcance de todos: Manoel Dias Branco tem a sua estátua numa praça da cidade que tem o seu nome.
O grupo Dias Branco tem a sua sede no município de Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza (ondem vivem 3 milhões de pessoas), e emprega mais de 10 mil trabalhadores. Segundo o “Estado de S. Paulo”, os investimentos do grupo Dias Branco vão das massas ao cimento (ver aqui).

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Sicasal ardeu. Mas renasceu das cinzas


Se me pedissem para nomear uma empresa portuguesa que seja exemplar no envolvimento activo dos seus trabalhadores na concretização da missão empresarial, em resultado da união entre patrão e trabalhadores, não teria dúvidas em nomear o exemplo da Sicasal, a empresa de transformação de carnes com sede em Mafra.
A Sicasal, uma organização familiar, liderada por Álvaro Santos Silva, foi parcialmente destruída pelo fogo em 15 de Novembro de 2011, mas, dois meses depois, estava pronta a retomar a laboração, e ainda com maior capacidade produtiva, que lhe permite alargar os mercados. “Vamos aproveitar a oportunidade para investir num projecto novo, com uma componente importante de exportação”, revelou Santos Silva, ao “Expresso” (ver aqui).
Ora, dada a situação de crise que o País atravessa, o normal seria que o patrão fizesse como muitos que andam por aí de cabeça levantada e aproveitasse a onda de despedimentos para despedir também o pessoal eventualmente excedente na Sicasal. Mas Álvaro Santos Silva demonstrou ser um grande empresário – um empresário daqueles que o País precisa.
No dia do incêndio, o patrão anunciou logo que não despediria nenhum dos 650 trabalhadores. Em resultado da sua atitude, recebeu a colaboração de todas na reconstrução da fábrica, inclusive aos fins-de-semana. E no final, em sinal do bom ambiente que se vive na organização, os trabalhadores surpreenderam o patrão com uma homenagem.
“Nos maus momentos vem ao de cima tudo o que há de bom entre as pessoas. Os trabalhadores vivem realmente a empresa, não é só vir aqui ganhar dinheiro. Isso vale quanto? Não se consegue quantificar”, considera Álvaro Santos Silva, que afirma ter por costume “falar sempre a verdade” aos empregados. Ainda em declarações ao “Expresso”, Álvaro Santos Silva – que já recebeu a visita do ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, que quis testemunhar o bom exemplo da Sicasal – afirmou: “Está provado que os portugueses estão dispostos a fazer sacrifícios. Mas querem um País decente e que lhes ofereça futuro, não um Portugal sem sentido.” Quem fala assim diz também nunca ter acreditado “no modelo que existe em Portugal de luta de patrões contra empregados”.
No fundo, a Sicasal está a dar mostras de ser uma organização moderna, em aprendizagem contínua, como definiu Peter Senge (ver aqui). Uma organização que tem capacidade de aprender, de se renovar e de inovar continuamente, e cujos membros estão permanentemente a reforçar a sua capacidade criativa e produtiva, num modelo de comunicação aberta, com significado comum e partilhado por todos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A realidade do Facebook e a vida real


A realidade do Facebook é fantástica. Pessoas felizes, famílias felizes, piadas engraçadas. O Facebook é o campo virtual, onde se conversa com centenas de pessoas, muitas que não conhecemos pessoalmente. De maneira amigável, descontraída, “cool”.
Mas a vida real é diferente. Hoje, é maior o cenário das pessoas que tentam sobreviver, do que as que tentam viver. O mundo está perigoso, diria Vasco Pulido Valente. Eu só diria que está difícil.
As pessoas estão muito mais sós. Não falo apenas da solidão propriamente dita, pois, em alguns casos, é uma opção. Falo da solidão por falta de solidariedade, por falta de valores de amizade, de compaixão, de interesse pelo "outro".
O mundo em que vivemos é perigosamente do "salve-se quem puder", de atropelos e de falta de escrúpulos. Ao contrário do Facebook, a realidade não é bonita. Por isso, muita gente gosta do Facebook.

FONTE: Rui Calafate, editor do blog It’s PR Stupid, 28-02-2012 (ver aqui)

Sporting na Europa. Um vídeo magnífico


O Sporting Clube de Portugal lançou um vídeo de promoção nas redes sociais do jogo desta semana com o Manchester City, a contar para a Liga Europa, em futebol. É um vídeo muito bem feito, porque dá aos adeptos do futebol uma percepção da dimensão internacional do clube leonino e deixa os sportinguistas com vontade de ir ao Estádio de Alvalade repetir sucessos de outros tempos.

A justiça e a comunicação


“O poder judicial não pode continuar a ser hermético, fechado. Os magistrados têm de aprender a comunicar. A justiça precisa de se abrir e compreender que aquele universo é um universo que as pessoas têm sede de conhecer. Gera muita curiosidade, dúvidas e perguntas. Acho difícil um juiz falar sobre uma causa antes de julgá-la, mas é possível que os tribunais tenham gabinetes de comunicação que possam interpretar os termos técnicos jurídicos e dar a informação de forma objectiva. Isso já acontece em muitos lugares do mundo. Se a população compreender melhor o funcionamento da justiça vai criticar menos e confiar mais.”

Gabriela Knaul, Relatora Especial das Nações Unidas para a Independência de Juízes e Advogados, jornal “i”, 07-03-2012

terça-feira, 6 de março de 2012

James Curran. “ A Internet está a pulverizar o jornalismo”


“Pensava-se que a Internet iria remodelar o mundo, mas o mundo acabou por fazer o contrário. Acho que foi o mundo a ter mais impacto na Internet que o contrário.”
“Talvez a palavra “flop” seja demasiado forte para caracterizar o impacto que a Internet acabou por ter no mundo. As expectativas não foram cumpridas, mas o activismo político, por exemplo, ficou muito mais forte com a Internet. Qualquer grupo que se reúna para combater algo que o preocupe tem na Internet o melhor difusor da mensagem. E muitos têm conseguido marcar a agenda mundial, há vários exemplos. Veja-se a denúncia das fábricas da Apple na China, onde são pagos ordenados miseráveis e os trabalhadores têm falta de condições de trabalho. À custa dos vários protestos na Internet, a Apple já tomou medidas para tentar reverter a situação. A influência da Internet é enorme, é uma das grandes consequências. Com a Internet os activistas conseguem trazer mais activistas para a rua. E a Internet teve grande impacto na movimentação dos capitais. Apesar de tudo, o mundo não ficou melhor com a Internet, não da forma que se imaginava há 15 ou 20 anos.”
“Os grandes excluídos são os que não têm acesso à Internet. Apenas 30% da população mundial tem acesso fácil e os 70% que não o têm são de países pobres. Isso quer dizer que as principais mudanças provocadas pela Internet ocorreram nos países ricos. E há outro aspecto: a Internet promove o activismo, mas o activismo acaba por ficar limitado aos mais ricos. Se formos um cidadão pobre a viver numa sociedade rica e ocidental, vivemos uma experiência dolorosa de exclusão, quase pior que viver num país totalmente pobre, devido à componente moral da pobreza, em que as pessoas são culpadas da sua pobreza, por falharem o êxito pessoal e material. Isso aumenta a exclusão do activismo político, por as pessoas estarem mais desmoralizadas e afastadas da acção. Há vários factores no mundo real que desencorajam as famílias mais pobres de serem mais activas em termos políticos. E tal facto projecta uma enorme sombra sobre o alcance da Internet. O ciberespaço não deu mais poder às pessoas, de forma global.”
“Outra das desilusões dos que, nos anos 90, tinham grandes expectativas quanto à Internet e à liberdade da circulação da informação, que estaria fora do alcance dos estados, é que os governos andam cada vez mais a vigiar a Internet. Organizações como a Wikileaks e a Anonymous tentam reverter essa tendência de supra-vigilância estatal sobre o cidadão comum. Estes movimentos tentam manter vivo o espírito inicial da Internet, de quando se acreditava que ela iria derrubar ditadores e seria uma ferramenta da liberdade de expressão.”

“A penetração da Internet na Arábia Saudita, em Marrocos ou nos Emirados Árabes Unidos (EAU), por exemplo, é bem maior que na Tunísia, na Líbia ou no Egipto. Mas os sauditas ou os marroquinos não fizeram a Primavera Árabe. Nem os habitantes dos Emirados àrabes Unidos. Isso mostra que a tecnologia não faz revoluções. Foram outras as razões que levaram à Primavera Árabe, como o desemprego, as falhas no sector da educação, as rivalidades tribais, o sistema económico, etc. E houve sinais que mostraram que a Primavera Árabe ia acontecer. Os jornalistas ocidentais caíram na tentação de olhar para esta revolução como fruto da Internet e do seu poder. Mas é claro que a Internet acabou por dar alguma força à questão, mostrando ao mundo rico o que se estava a passar por lá.”

“Muitos dos chamados ‘egovernos’ apenas disponibilizam informação para consulta, sem grande comunicação entre governantes e governados. É um mero pró-forma por parte das entidades estatais, para deixar os cidadãos satisfeitos. A maior parte das vezes são meras acções de relações públicas.”

“Acho que [o jornalismo] está a ficar pior. A Internet está a afastar o investimento publicitário dos chamados meios tradicionais, levando a que menos jornalistas tenham de produzir mais conteúdos e baixando a qualidade. E quanto ao mito do jornalista-cidadão, é uma forma de jornalismo que não tem um modelo de viabilidade muito definido. De resto, a Internet está a pulverizar o jornalismo.”
James Curran, director do Goldsmith Media Research Centre, jornal “i”, 06-03-2012 (ver aqui documento integral)

segunda-feira, 5 de março de 2012

“Público” tenta regressar ao passado



Quando apareceu nas bancas, em 5 de Março de 1990, sob a liderança editorial de Vicente Jorge Silva, o jornal “Público”, onde tive o enorme prazer de trabalhar, entre 1993 e 2000, revolucionou a imprensa portuguesa, tendo influenciado a produção de jornais nacionais, regionais e até locais. Muitas dessas influências, nomeadamente estéticas, perduram ainda hoje.
Com uma equipa de grande qualidade intelectual e com profissionais para quases todas as tarefas, como era preciso, beneficiando da capacidade de investimento de Belmiro de Azevedo, o “Público” marcava a diferença, assumindo-se como um jornal que aprofundava os assuntos com rigor, explicando devidamente todos os acontecimentos, fossem eles relativos à crise da ideologia comunista após o fim da URSS ou à problemática do tratamento dos lixos domésticos num município dos arredores do Porto. E isso sem deixar de dar as notícias do dia, numa altura em que a Internet estava nos primórdios.
Desde o seu primeiro número (ver imagem da capa neste "post"), o “Público” habituou os seus leitores a muito mais do que à notícia do dia anterior. Com o “Público”, o leitor encontrava diariamente uma visão da região, do País e do Mundo devidamente enquadrada. E foi assim que o jornal da SONAE se transformou numa marca de informação com valor acrescentado.
Mas os tempos mudaram. A comunicação mudou. O jornalismo mudou. O “Público” – que em 1990 surgira com uma imagem e um conceito únicos em Portugal – inaugura hoje aquela que é a sua terceira mudança de grafismo e de conteúdos nos primeiros 12 anos deste milénio, o que, para um jornal de referência, julgo serem mudanças a mais em tão pouco espaço de tempo, mas que demonstram as dúvidas e as incertezas sobre “o papel do papel” nos meios de comunicação, para utilizar uma expressão da directora Bárbara Reis. As mudanças têm um objectivo: fazer do “Público” o jornal de referência que já foi – um regresso ao passado, adaptado aos tempos de hoje. A tarefa é muito difícil.
O “Público” que hoje está nas bancas, no dia em que comemora 22 anos, é um jornal diário que não valoriza as notícias do dia, mas que precisa de tempo para ser lido. Teoricamente, o conceito parece adequado, até porque o público-alvo tem acesso à notícia do dia em tempo real. A questão é saber se esse público tem tempo para ler e, sobretudo, se o jornal – cada vez com menos meios humanos – tem capacidade para oferecer aquilo que um leitor exigente espera todas as manhãs. Da resposta a esta questão dependerá o sucesso ou não de mais esta mudança.

quinta-feira, 1 de março de 2012

No Observatório da Imprensa do Brasil


Em 17 de Fevereiro último, o jornal “i” publicou um artigo meu sobre os desafios que se colocam ao jornalismo contemporâneo (ver aqui), nestes tempos críticos para as instituições representativas do Estado e dos poderes democráticos. Sob o título "Jornalismo, poderes fácticos e novas censuras", esse texto, devidamente "traduzido" para "português do Brasil", acaba de ser publicado no Observatório da Imprensa do Brasil (ver aqui). Fica o meu agradecimento a Alberto Dines, editor responsável do Observatório.
O Observatório da Imprensa é uma iniciativa do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projecto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É um meio jornalístico focado na crítica dos “media”, com presença regular na Internet desde Abril de 1996.

O fim do acordo ortográfico da Língua Portuguesa


Neste blogue continuo a escrever o "português de Portugal", como a professora Luciana Pinto me ensinou nos bancos da escola primária, na década de 1970, pelo que tenho ignorado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E, a avaliar pelas notícias que chegam da secretaria de Estado da Cultura, estou no caminho certo (ver aqui). Ao ter anunciado que o Governo vai mudar o Acordo Ortográfico até 2015 e que cada português pode escrever como quiser, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, acaba de matar, e bem, o famigerado acordo.
De facto, as regras de escrita que, ao fim de anos e anos de estudos, nos tinham impingido por decreto com o alegado objectivo de uniformizar a língua – como se em Portugal, no Brasil ou em outros países de expressão portuguesa todos falassem da mesma forma – não têm sentido nenhum. A diversidade é enriquecedora. Uma língua é tanto mais rica quanto mais incorporar as diferenças dos seus falantes.
Basta ler o que escreve António Guerreiro sobre a grafia dupla prevista no acordo ortográfico, num trabalho analítico publicado no suplemento cultural "Actual", do semanário "Expresso", de 25-02-2012, para perceber o que está em causa: "A grafia dupla abrange três domínios: o das consoantes mudas, o da acentuação gráfica e o da capitalização (o uso das maiúsculas). Como o critério é o da pronúncia, temos os casos em que há a supressão obrigatória (ato, seleção), os casos em que há a manutenção obrigatória (facto, dicção) e os casos em que a supressão é facultativa (rece(p)ção, dece(p)ção), em que o Acordo dito de unificação ortográfica conseguiu criar uma divergência onde ela não havia."
Nos últimos tempos, tinham vindo a público vários sinais contrários ao Acordo Ortográfico. Às reservas colocadas na imprensa angolana, seguiu-se a desobediência protagonizada por Vasco da Graça Moura, novo administrador do Centro Cultural de Belém, ao anunciar que a instituição estatal iria comunicar segundo a antiga ortografia. Graça Moura venceu, assim como todos aqueles que resistiram a uma mudança estúpida – incluindo algumas publicações, designadamente os jornais “Público” e “i”.
Já agora, o Governo português deveria preocupar-se com casos de abuso das autoridades brasileiras, que pedem aos portugueses a tradução dos documentos, como passaportes ou cartas de condução. Como se os documentos de Portugal não estivessem escritos em português (ver aqui).