quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A honra perdida do jornalismo

A notícia de primeira página do "Expresso" de sábado ("Deputado do BE João Semedo foi sócio do BPN numa clínica do Porto") é das mais inaceitáveis infâmias jornalísticas que vi em 40 anos de profissão.
Os factos são os seguintes: Semedo (hoje deputado do Bloco de Esquerda) e outros médicos criaram em 1994 uma clínica no Porto, tendo com sócio minoritário uma companhia de seguros, a Real Vida; cinco anos depois, em 1999, essa seguradora foi comprada pelo BPN, então apenas mais um banco; oito anos mais tarde, em 2007, soube-se que o BPN não era, afinal, apenas mais um banco e que os seus dirigentes se haviam envolvido numa gigantesca fraude que custou milhões aos contribuintes; Semedo já estava entretanto desligado da clínica desde 2000.
Em "O mundo a seus pés", de Orson Welles, Kane explica ao chefe de Redacção de um dos seus jornais que os factos podem não ter a mínima importância que o que torna uma notícia importante é o facto de ela vir na primeira página. Foi o que fez o "Expresso": pôs a notícia na primeira página e deu-lhe grande destaque no interior, fazendo com que os inócuos factos referidos se tornassem relevantes e lançando subliminarmente uma difusa suspeita (que suspeita?) sobre um homem honrado.
Quem nos rouba a honra, diz Shakespeare em "Othelo", não fica mais rico e deixa-nos irremediavelmente pobres. A notícia do "Expresso" rouba não só a honra de João Semedo mas a honra do próprio jornalismo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pedro Mota Soares, a “scooter” e a “bomba”


O ministro “popular” Pedro Mota Soares, que tutela a Segurança Social, compareceu na tomada de posse do Governo pilotando a sua “scooter”. Foi notícia em todo o lado porque um ministro dispensando motorista e pilotando a sua lambreta nas ruas de Lisboa era, de facto, notícia. E uma boa notícia.
Mas ao contrário do que parecia, Pedro Mota Soares não estava a ser portador de um novo paradigma do transporte governamental. Estava apenas apostado em ser a notícia do dia, daquele dia específico da tomada de posse, ainda que a “scooter” tenha sido no seu passado de deputado o meio de transporte habitual.
Por isso, é com toda a naturalidade que Pedro Mota Soares volta agora a ser notícia, não porque tenha comprado “scooters” para os seus colaboradores no Ministério, mas porque acaba de comprar uma “bomba” automóvel pela módica quantia de 86 mil euros, quando o País é convocado para cumprir medidas de austeridade severas. É, por isso, alvo de uma notícia negativa. É o chamado “efeito boomerang ” sobre quem deu passos maiores do que a perna em termos da imagem que procurou fazer passar para a opinião pública…
No fundo, no fundo, Pedro Mota Soares, depois de ter vendido a ideia de que seria um ministro poupado, que até iria para o Ministério na sua “scooter”, foi apanhado na primeira curva do despesismo. Quanto à justificação do novo carro do ministro da Solidariedade e da Segurança Social como tendo sido uma encomenda do anterior Governo, num texto cheio de erros de português, como se pode ler aqui, foi pior a emenda que o soneto. A falta de solidariedade institucional num partido político não se nota. Já num Governo é um defeito grave. Mais a mais num ministro da dita.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Fátima é uma marca poderosa


A extinção de feriados civis e católicos é um tema que está na agenda portuguesa e sobre o qual já escrevi neste blogue, como se pode ler aqui. Acossado pela crise e pelo FMI, o Governo quer reduzir feriados e pontes, em nome do aumento da produtividade.
Neste processo, lamento o modo birrento e corporativo dos responsáveis da Igreja Católica, ao terem dito que não abdicariam do feriado de 8 de Dezembro – Dia de Nossa Senhora da Conceição, no calendário religioso – e que só aceitariam reduzir feriados católicos se o Estado também extinguisse feriados civis. É por isso, e não por outra razão, que sobre a mesa está agora a extinção de quatro feriados, sendo 2 católicos (15 de Agosto, que celebra Nossa Senhora da Assunção, e Corpo de Deus, em Junho) e 2 civis (5 de Outubro, que evoca a instauração da República, e 1 de Dezembro, o feriado da restauração da independência, face ao domínio espanhol).
Como em muitas áreas da governação, não se vê um sentido estratégico. Vê-se a obsessão de cortar, procurando não desagradar muito a gregos e a troianos. Mas não se vislumbra um sentido, um contraponto positivo, que nos indique um caminho para o futuro. Eu insisto numa ideia: é um erro grave não aproveitar esta oportunidade para criar o feriado de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Por motivos religiosos, mas também turísticos e económicos.
Fátima é um símbolo de Portugal, um símbolo da Igreja Católica e uma marca poderosa em todo o mundo. Não tratar devidamente o fenómeno de Fátima – inclusive como elemento-âncora de um produto turístico-cultural de projecção internacional – é desperdiçar mais uma oportunidade para a economia portuguesa.

domingo, 27 de novembro de 2011

O fado património mundial e a economia portuguesa


O fado é património mundial. É um grande desafio e uma grande oportunidade para vários responsáveis do Governo português, nomeadamente da Cultura, da Economia e do Turismo. Tal como no fado, também na economia e no turismo só quem tem unhas é que toca guitarra.
“A partir de agora, o fado não é apenas a canção de Portugal, a canção de Severa, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo, Camané, Ana Moura e Carminho – é um tesouro do mundo”, como escreve a jornalista Lucinda Canelas, na edição digital do Ípsilon, o suplemento cultural do diário “Público”. “Um tesouro que fala de Portugal, da sua cultura, da sua língua, dos seus poetas, mas que também tem muito de universal nos sentimentos que evoca: a dor, o ciúme, a solidão, o amor.”
A partir deste domingo, por decisão do comité intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o Fado é Património Mundial da Humanidade. Este sucesso da cultura portuguesa à escala mundial, começou a ser trabalhado em 2005, culminando com a formalização da candidatura apresentada pelo Museu do Fado, em nome da Câmara Municipal de Lisboa, em 2010, dois anos apenas sobre a aprovação da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial. O fado foi então apresentado à UNESCO como “símbolo da identidade nacional” e “a mais popular das canções urbanas” portuguesas, tendo por embaixadores dois intérpretes que, por motivos bem diferentes, fazem parte da sua história de forma incontestada: Carlos do Carmo e Mariza.
O fado é uma das grandes marcas de Portugal com reputação internacional, que vai muito para além das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Conheço pessoas que nunca visitaram Portugal, que não têm origens portugueseas, nem sequer têm a cultura europeia, mas que ouvem Amália Rodrigues e outros fadistas com a veneração dos grandes fãs. Por isso, a eleição do fado como património mundial significa não só uma vitória da cultura portuguesa, mas de Portugal no seu todo, em particular do seu turismo e da sua economia.
Importa agora saber o que fazer com o fado como símbolo da portugalidade. Nesse sentido, a classificação da música da saudade como património mundial constitui um grande desafio e uma grande oportunidade para vários responsáveis do Governo português, nomeadamente da Cultura, da Economia e do Turismo.
Agora quero ver as unhas que Paulo Portas, o ministro da “diplomacia económica”, Álvaro Santos Pereira, o ministro da Economia, e Francisco José Viegas, o secretário de Estado da Cultura, têm para tocar, bem afinados, a guitarra que doravante tem de ser tocada para que o património mundial do fado faça sentido e tenha utilidade. Ou seja, é preciso saber o que é que o Governo vai fazer no sentido de articular um grande plano de marketing público de Portugal que ofereça ao mundo um produto turístico fundamentado na cultura fadista, que consiga gerar ganhos de imagem internacional para muitos outros valores turísticos e culturais de um dos países mais antigos do mundo.

sábado, 26 de novembro de 2011

Marketing digital eficaz em 8 passos


Colocar no terreno um plano de marketing digital eficaz é como treinar uma equipa de  futebol. Jogadas de efeito, lances individuais e grandes golos podem ajudar a ganhar uma partida, mas só um "padrão de jogo" que garanta consistência e regularidade da defesa, no meio de campo e no ataque permitirá à equipa conquistar vitórias ao longo do campeonato e lutar pelo título. A analogia é de Sílvio Tanabe, jornalista com pós-graduação em comunicação com o mercado, empresário, consultor de Marketing Digital, autor do blog Clínica Marketing Digital e coordenador do “e-book” intitulado “Caia na Rede – 12 Maneiras de Planejar e Ter Sucesso nas Redes Socais”. Num artigo que pode ser lido clicando aqui, Sílvio Tanabe elenca 8 passos para montar uma equipa vencedora no marketing digital.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

PT conserta avaria, mas só pelo Facebook


Trago aqui uma história doméstica que demonstra cabalmente a importância e o poder das redes sociais, tanto para os consumidores como para as próprias empresas. E demonstra como é que uma grande empresa pode estar a ser mal servida pelos seus funcionários, quando eles estão longe da sede da organização ou quando julgam que os clientes não têm acesso aos meios de comunicação.
Em 26 de Outubro de 2011, por causa do temporal, fiquei sem telefone fixo e sem acesso à Internet a partir de casa. De então para cá, a minha mulher, que é titular da conta, fartou-se de contactar com a Portugal Telecom, na loja e na linha de atendimento. Ontem, dia 24 de Novembro, quase um mês depois, ela voltou a telefonar, para tentar saber o ponto da situação. Soube, então, que a participação da avaria tinha desaparecido novamente. Parace que o sistema elimina as avarias ao fim de um certo tempo de espera, quer tenha sido consertada ou não. No fundo, a PT Comunicações – é dessa empresa sem concorrência de que estamos a falar – primava por mais um mau atentimento aos clientes, com cada funcionário a dar uma explicação diferente para o mesmo problema, não consertando a avaria e continuando a cobrar serviços não prestados.
Depois de ter contado a história na sua página no Facebook – imediatamente comentada e partilhada por dezenas de amigos –, a minha mulher resolveu ficar a “gostar” da página da PT Comunicações, deixando lá a sua queixa. Isto aconteceu ontem à noite, já fora da hora do expediente. Minutos depois, vinha a resposta da PT, dando conta que a situação iria ser resolvida, pedindo, no entanto, mais dados sobre a situação, logo enviados por e-mail. A PT demonstrava natural preocupação com o "buzz" negativo que o caso estava a provocar no Facebook.
Hoje, depois de várias pessoas da PT terem telefonado ao longo da manhã, sabendo mais detalhes da avaria e providenciando um telefone novo, eis que, pelas 14h00, um técnico da PT Comunicações batia à porta. Em poucos minutos, a avaria ficou resolvida.
Graças ao Facebook, a PT resolveu em menos de 24 horas o que várias idas à loja e inúmeros telefonemas para a linha de apoio não chegaram para resolver ao longo de 29 dias.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Balsemão, a crise de valores e o jornalismo


“A actual crise não se resume às finanças, ao défice, à dívida ao sistema bancário, à economia, ao não crescimento, à baixa do consumo e às desigualdades das empresas. A crise é também social – as desigualdades, o desemprego, a fome – e de valores – o desânimo, a indignação, a legitimação da violência, e, por outro lado, as dúvidas quanto à democracia, o populismo, e o anti-europeismo.”

“Sem ‘media’ profissionais – e, portanto, independentes e capazes – a crise económico-financeira poderá ser ultrapassada, a crise social poderá ser disfarçada, mas a crise de valores, essa, prosseguirá e tenderá a agravar-se."

"Como no tempo do salazarismo, continuam a existir [em Portugal] políticos e empresários ou candidatos a empresários que julgam que os ‘media’ podem e devem ser meros instrumentos a utilizar para a prossecução dos seus interesses económicos ou de influência."

"Criam-se alianças estranhas: os políticos tentam usar os falsos empresários de comunicação social, para que saiam ou não saiam as notícias, as entrevistas, os artigos de opinião, as aberturas do telejornal; os falsos empresários de comunicação social vendem, por acção ou omissão, o apoio dos media que controlam a quem está no poder, em troca de favores noutras áreas. Tudo isto passando ou tentando passar por cima dos jornalistas, embora, como no tempo do salazarismo, com a colaboração activa de alguns. Tudo isto metendo o jornalismo na gaveta. (…) Quem pensa e actua assim está a mais na área dos ‘media’."

"Hoje, mais do que nunca, em plena crise, o jornalismo autêntico, não conspurcado, livre, profissional, é fundamental."

Pinto Balsemão, fundador do “Expresso”, antigo Primeiro-Ministro e presidente da Impresa, discursando no XXI Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimentodas Comunicações, 23-11-2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Melhor empresária da Europa é portuguesa


Enquanto a crise da dívida pública e as aventuras dos criminosos de colarinho branco, da política e dos negócios, vão fazendo as manchetes na imprensa portuguesa e ocupando as televisões, há grandes notícias quase ignoradas, que deveriam ser devidamente destacadas. Eis uma delas: a portuguesa Sandra Correia, 40 anos, presidente executiva da empresa algarvia de cortiça Pelcor, venceu o Troféu de Melhor Empresária da Europa 2011, atribuído pelo Parlamento Europeu e Conselho Europeu das Mulheres Empresárias. "Este prémio abre novas portas para a Pelcor e para a cortiça e é um caso de motivação e orgulho para Portugal", declarou a empresária algarvia, criadora da marca Pelcor, tendo aproveitado a fábrica de rolhas de cortiça do pai para se lançar no mundo da moda e do design.
Vivendo à custa de um produto genuinamente português, a Pelcor, marca de acessórios de moda, brindes para empresas e produtos de decoração de pele de cortiça, vai surgir no início de 2012 com uma nova imagem e uma colecção renovada, tendo em vista "atingir os segmentos de mercado mais altos e de luxo".
Mesmo com uma comunicação digital que à primeira vista não condiz com a dimensão internacional da marca, Sandra Correia, que não conheço de lado nenhum, é a prova viva de que é possível ter sucesso empresarial à escala global, independentemente de estarmos num País do Norte, do Centro ou do Sul da Europa. Haja competência, organização, capacidade de trabalho, conhecimento dos mercados e objectivos bem definidos. E haja meios de comunicação que levem a todos estes bons exemplos.
Ao contrário do que preconizam alguns pensadores do serviço público de comunicação social, ninguém com bom senso quer esconder informação considerada inconveniente. Mas quer, certamente, que se mostre e se valorize devidamente a informação que é conveniente para levantar a auto-estima do País.
Num momento de grave crise económica e de intervenção do FMI, a imprensa portuguesa deveria olhar para o caso da melhor empresária da Europa e tentar perceber como foi possível a Sandra Correia lá chegar e como é que outros empresários lusitanos podem fazer o mesmo caminho de sucesso. Isso também seria serviço público. FOTO: Algarvephotopress / Global Imagens

O comunicador


“A chave para a capacidade de comunicar é a perspicácia no que se refere à natureza humana. Enquanto o escritor se preocupa com o que coloca nos seus textos, o comunicador preocupa-se com o que o leitor deles retira. Por conseguinte, o comunicador torna-se um estudante da forma como as pessoas lêem e ouvem.”

William Bernbach, (1911-1982), publicitário norte-americano

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os conselhos de Vasco Pulido Valente aos cronistas


“Primeiro, aprender a escrever. Convém. Com tudo o que isso implica. Segundo, saber algum assunto muito bem, uma disciplina muito bem, ou economia, ou história ou outra coisa qualquer. Ter uma formação básica boa. E depois, em princípio, nunca falhar, porque uma coluna é um hábito. As pessoas lêem o jornal, estão habituadas, é mais uma questão de hábito. “Deixa-me ver o que é que este diz hoje?” Se as pessoas falham ou são irregulares ou salta-pocinham muito… Por exemplo, eu começo sempre a ler a ‘Spectator’ pelo Taki [Theodoracopulos, comentador político]. Ele nunca falha. Só falhou há 30 anos quando foi preso, mas depois continuou a escrever.”

“E dizer o que se pensa. Se não disser o que se pensa, não é interessante. As pessoas vão à procura de uma diferença. Nâo se trata de fazer uma diferença. Há uns tontaços a fazer isso pelos jornais. Ninguém os leva a sério. O grande problema de se tentar ser original – não estou a falar dos que são mesmo – é inventar coisas para ser diferente e depois ter um mínimo de coerência. As coisas têm de ligar umas com as outras. Não têm que inventar discordâncias para se fazerem originais. Mas também não devem fazer o contrário.”

“Não vejo por que é que um colunista deva ser capado politicamente. O que acho é que não se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Sempre que estive dentro de alguma coisa, parei [de escrever] – tanto durante o Sá Carneiro, como durante o MASP [Movimento de Apoio Soares à Presidência]. Não escrevi. Nem isso era possível com nenhum dos dois.”

Vasco Pulido Valente, historiador e cronista político, “Público”, 21-11-2011