O anúncio da transferência do capital para a Holanda, por alegadas vantagens fiscais em relação a Portugal, foi suficiente para que se tivesse instalado nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, um coro nacional contra a Jerónimo Martins e a marca “Pingo Doce”, com ameaças de boicote à rede de supermercados. Parece-me incompreensível tamanha indignação, mesmo tendo em conta a difícil situação económica do País.
É certo que, nas suas campanhas de publicidade e na sua comunicação, o Pingo Doce sempre se posicionou como defensor dos produtos portugueses e dos valores nacionais, mas Alexandre Soares dos Santos, ao mudar o capital para a Holanda, não fez mais do que um puro acto de gestão em defesa de interesses económicos do seu grupo. E fez o que outros grupos económicos sempre fizeram e continuam a fazer sem que ninguém se preocupe: colocar o dinheiro onde ele rende mais.
Podemos dizer que estamos perante um acto de gestão normalíssimo numa Europa unida economicamente, onde as pessoas e bens podem circular livremente, e num mundo globalizado. A globalização é isto mesmo. É gerir sem ter pátria. Porque a pátria dos gestores capitalistas é o próprio globo terrestre. Sem solidariedade ou prepocupação com o colectivo social. E quem não seguir este caminho está condenado ao fracasso. É nesse mundo liberal, insensível e assustador que vivemos.
Esse é o nosso verdadeiro problema, merecedor da indignação colectiva. Porque Alexandre Soares dos Santos até não fez mais do que seguir os conselhos do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho – que, num assomo de impotência política face à resolução dos problemas do País, apelou à emigração de quem não estivesse bem.











