terça-feira, 27 de maio de 2014

Marinho Pinto é uma construção mediática


Carmelinda Pereira é uma candidata tradicional do POUS (Partido Operário de Unidade Socialista) que nunca consegue ser eleita para os órgãos políticos a que se candidata. E lembro-me de ver a senhora concorrendo a eleições há mais de 30 anos. Carmelinda Pereira, que começou nestas andanças nos tempos em que era uma jovem revolucionária, tem um problema de imagem e credibilidade: ela só aparece na televisão nos tempos de antena obrigatórios por lei, nas campanhas eleitorais, ou seja, em espaços televisivos desprezados pelas audiências. Fora disso, não tem existência mediática e ninguém a conhece. É um caso de falta de comunicação estruturada e permanente. Não admira, por isso, o último lugar do POUS, nas eleições europeias de 2014, com 0,11 por cento em resultado de uns míseros 3692 votos em todo o país.
Um caso bem diferente é o de Marinho Pinto, que foi a grande surpresa nas eleições europeias em Portugal, ao ter conseguido a eleição de dois lugares no Parlamento Europeu para o pequeno Movimento Partido da Terra, conquistando 7,1% dos eleitores que foram às urnas, em resultado de uma votação na ordem dos 235 mil votos.
Quando decidiu integrar a lista do Partido da Terra, Marinho Pinto já tinha construído uma imagem mediática, em função da sua visibilidade pública enquanto bastonário da Ordem dos Advogados. Já era uma figura pública conhecida da maioria dos portugueses. Para ele, os estúdios de televisão já não tinham grandes segredos. E muita gente já se identificava com o seu ar justiceiro e genuíno.
Ele foi o primeiro bastonário que soube utilizar o lugar que ocupou para transferir os temas áridos do escritório da advocacia para a arena mediática, tomando posições públicas frequentes, vestindo a pele de homem corajoso no ataque à corrupção e aos mais poderosos, a começar pelos poderosos da sua classe profissional. Inclusive, enfrentou certa comunicação social, de que guardo na memória a sua altercação em direto, num dos famosos telejornais de sexta-feira, na TVI, que eram apresentados por Manuela Moura Guedes e que ficaram conhecidos como um pequeno bastião mediático contra o Governo de José Sócrates.
Hoje, Manuela Moura Guedes, que fora, episodicamente, deputada à Assembleia da República nos primórdios do CDS/PP de Paulo Portas, em meados da década de 1990, está na RTP1 a apresentar o concurso “Quem Quer Ser Milionário?”, enquanto Marinho Pinto acaba de ser a grande surpresa das eleições europeias, sendo eleito para Estrasburgo e tendo o povo já a pedir a sua candidatura às próximas eleições nacionais.
Certos comentadores consideram que a votação de Marinho Pinto significa a adesão dos eleitores a uma figura populista. Mas há um detalhe que desmente essa visão: Marinho Pinto tem um discurso estruturado, quer a dignificação da política e dos políticos, defendendo mudanças do sistema dentro da democracia e nunca fora dela.
O sucesso eleitoral de Marinho Pinto resulta de um processo de construção mediática no tempo em que ele foi bastonário da Ordem dos Advogados. Podemos dizer que Marinho Pinto é um produto de comunicação. À sua visibilidade pública, Marinho Pinto só juntou um discurso crítico do atual sistema político, feito com pés e cabeça, tendo, por isso, sido capaz de penetrar em setores mais conservadores do eleitorado que estão descontentes com as políticas de austeridade e a falta de credibilidade de uma classe política corrupta.
Marinho Pinto é, por isso, muito maior que o Partido da Terra, que, sendo um pequeno partido sem representação parlamentar em Portugal, teve muito menos espaço mediático do que PS, PSD-CDS, CDU e Bloco de Esquerda, segundo um estudo já divulgado. Ora, a comunicação é decisiva. A prova disso é que, sabendo-se agora da eleição José Inácio como eurodeputado, todos os meios de comunicação perguntam: “Quem é o segundo eleito do MPT?” (ver aqui: http://bit.ly/1ntYMJv). E quantas pessoas terão votado no MPT por causa de José Inácio?... (Fotografia: André Kosters / Observador)