sexta-feira, 29 de junho de 2012

A lógica da comunicação da EDP



Na primeira página do sítio da EDP na Internet ficamos sem saber se estamos em contacto com uma empresa de distribuição de energia ou se estamos perante mais uma dessas instituições do complexo sector financeiro. Como podem observar na imagem, registada nesta sexta-feira, dia 29, a informação mais destacada é relativa ao valor das acções da EDP na Bolsa de Lisboa. O número que se vê, logo que abrimos a página, não é o número de telefone da linha de atendimento ao consumidor. É o número relativo ao valor de cada acção no PSI20!...
Ora, a EDP vende energia e a maioria das pessoas que entram no sítio digital da EDP serão consumidores com contas para pagar, com consumos de energia para comunicar ou com outro problema para resolver. A verdade é que há uma lógica nesta comunicação dos “gestores de topo” António Mexia, Eduardo Catroga e companhia. É uma lógica que privilegia o accionista da empresa e que deixa para segundo plano o consumidor. É por isso que os contadores revelam erros grosseiros no registo do consumo, com prejuízo para os clientes, os quais só foram reconhecidos depois de uma denúncia pública de uma associação de consumidores.
Na verdade, os “gestores de topo” da EDP, empresa que ainda é participada pelo Estado português, não pensam em prestar um serviço público de qualidade. O que eles demonstram com estes sinais é que só pensam nas acções bolsistas e nos prémios de gestão chorudos no final do ano. E só se aguentam no mercado porque a concorrência é limitada. Muito limitada. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

A REN, José Luís Arnaut e os insultos a Cavaco



Na segunda metade da década de 1990, José Luís Arnaut era um jovem executivo conhecido por segurar a pasta de Marcelo Rebelo de Sousa, quando este liderava o PSD, na ressaca do cavaquismo. Em pouco tempo, Arnaut tornou-se homem público-privado, entre a advocacia, os negócios e o Governo de Durão Barroso. No tempo de Sócrates recolheu aos gabinetes da advocacia e dos negócios. Até que, quando cheirava a poder, apareceu na campanha do PSD e na televisão como comentador político. A defender a causa do partido, claro. Agora está na ribalta por ter entrado na administração da Rede Eléctrica Nacional (REN). Diz que foi para lá por indicação da família Oliveira, da Riopele, e não pelo Governo.
A questão não está em quem formalmente fez o convite. A verdade é que, sabe-se agora, a REN é uma antiga cliente do escritório de Arnaut. E o escritório de Arnaut tem sido responsável por muita produção legislativa no âmbito do sector energético. Daí a polémica (ver aqui).
Este é só mais um daqueles casos que minam gravemente a confiança que os portugueses possam ter num Governo que, no essencial, faz o que Bruxelas e o FMI dizem que tem de ser feito, ocupando grande parte do tempo a controlar os danos resultantes destas polémicas, fragilizando-se perante os eleitores.
Os nomes saltam da memória sem esforço nenhum. Casos como os de José Luís Arnaut, Eduardo Catroga, Dias Loureiro, Oliveira e Costa ou António Borges, no PSD, e os de Jorge Coelho, Pina Moura ou Armando Vara, no PS, embora diferentes, confirmam que Portugal é uma coutada dominada pelos espertalhões do grande bloco central dos interesses em que se transformou a vida política portuguesa. É por isso que até o impoluto Cavaco Silva, se não quiser ser agredido ou insultado, já não pode sair do Palácio de Belém. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Vaticano contrata jornalista



Mergulhada em escândalos sexuais e financeiros, a Igreja Católica aposta na comunicação para melhorar a sua imagem junto dos fiéis e da sociedade. O Papa Bento XVI acaba de contratar um jornalista norte-americano, da Fox News e membro do grupo conservador católico Opus Dei, para melhorar as relações entre o Vaticano e os meios de comunicação (ver aqui).
É sempre bom quando uma organização decide apostar numa comunicação melhor ou mais eficaz. Mas, dada a natureza dos problemas que afectam a Igreja Católica, não me parece que a solução esteja na comunicação. A comunicação não serve para acabar com problemas graves que possam afectar pessoas ou instituições.
De qualquer modo, esta mudança estratégica do Vaticano significa também que a dessacralização do mundo continua a grande velocidade, obviamente, por força da Internet, que tudo mostra e tudo divulga, destapando segredos incontáveis e tornando humanos como nós homens e mulheres que tínhamos como “deuses” inspiradores.

domingo, 24 de junho de 2012

O preço da sardinha



No tempo da ditadura fascista (1926-1974), a sardinha era um peixe que só os pobres comiam. Pão de milho, sardinhas e vinho era a “ementa” quase diária dos portugueses que trabalhavam no campo. Nas famílias mais numerosas ou mais pobres, uma sardinha, mesmo barata, chegava a ser dividida por duas bocas. No Norte, além da sardinha, as fanecas, os carapaus e os chicharros eram os peixes mais populares. E pouco mais.
Mas nem tudo era mau. O peixe era do mar e chegava a casa dos consumidores mais próximos do litoral no próprio dia. Isso hoje seria um luxo. Pela manhã, nas aldeias, as donas de casa, que na altura ficavam em casa, pois o homem é que trabalhava fora para sustentar a família, assomavam à porta da cozinha quando ouviam o som da carrinha do homem do peixe. Umas diziam que era o “peixeiro”, outras o “sardinheiro”. A sardinha era o peixe barato que tinha mais saída.
Foi assim até aos anos de 1980. Depois veio o dinheiro da Europa e Cavaco Silva baixou as calças a Bruxelas e deixou que fosse destruída a nossa frota de pesca. Ninguém se queixou porque os sectores mais dinâmicos e empreendedores da sociedade estavam entretidos com o dinheiro de Bruxelas, que jorrava em grandes quantidades diariamente. Era dinheiro para auto-estradas e todo o tipo de infra-estruturas – inclusive as desnecessárias – e para essa vigarice a que deram o nome de “formação profissional”.
No mar só ficaram os desgraçados que não tinham espaço noutros lados. Na terra aconteceu praticamente o mesmo. A Europa começou a financiar a terra ociosa e muitos proprietários viram na ideia de receber para não produzir o seu filão lucrativo.
Como temos visto na crise em que vivemos, desde que entrou na Comunidade Económica Europeia, em 1986, Portugal decidiu muito mal em matéria de pescas e de agricultura. O que se passa no mercado da sardinha é exemplar.
Muito por força da mediatização das festas sãojoaninas, no Porto, e, sobretudo, das antoninas de Lisboa, a sardinha assada na brasa emergiu como iguaria típica da moda. Nas festas lisboetas, a sardinha foi mesmo “promovida” a elemento icónico – num trabalho de marketing com alguns anos. Hoje, os portugueses não comem sardinhas porque estão mais pobres, mas porque elas se transformaram num peixe chique. Chique, à custa da comunicação, e muito caro – mais caro do que o camarão, como se diz por aí – porque a procura é maior do que a oferta. O problema é não haver frota pesqueira que responda a todas as encomendas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Um conselho de comunicação de Vergílio Ferreira



"Não te coíbas de repetir o que já disseste, porque és pequeno e só assim talvez será possível que te ouçam."

Vergílio Ferreira (1916-1996), escritor e ensaísta português

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Lipovetsky e a expansão do consumo de luxo


“A classe média está em erosão, a Europa perdeu a sua centralidade económica e vivemos numa considerável crise de crença. Ao mesmo tempo, as marcas de luxo continuam, no essencial, a ser europeias. O primeiro grupo de luxo mundial, a Gucci, é francês e o terceiro, a LMVH, também. Quando se deu a crise do ‘subprime’, em 2008, é verdade que houve um abrandamento do mercado de luxo. Mas já na altura disse que não acreditava na crise do luxo. Um ano depois, os factos deram-me razão. O mercado de luxo não pára de crescer. É verdade que na Europa o mercado estagnou, mas a Europa são 100 milhões de habitantes. E foi isso que mudou. O mercado do luxo está em plena expansão noutras geografias. Porque há cada vez mais ricos no mundo.”

“Provavelmente, para a maioria dos países emergentes, como a China, o Brasil ou a Rússia, onde o mercado do luxo é bem sucedido, a compra de bens de luxo serve um objectivo de reconhecimento social. Social e materialmente, o objecto de luxo permite uma certa afirmação. Na Europa isso ainda acontece, com aquilo a que chamo o consumo demonstrativo. É o que em França apelidamos de ‘bling-bling’, ou novos-ricos. Mas há variantes. Por exemplo, o luxo emocional, ou experiencial, para os que querem um outro padrão de qualidade. Essa dimensão ainda não é dominante nos países emergentes, mas já é visível. As pessoas deslocam-se, informam-se e querem distinguir-se do que as faz parecer vulgares.”

“O luxo era extremamente minoritário, com fronteiras claras e intransponíveis entre os grupos sociais. Hoje, os adolescentes conhecem os bens de luxo de cor, viram-nos na televisão, no cinema e nas revistas, e querem beneficiar desse acesso. O que antes era muito sectário alargou-se, e as pessoas têm hoje acesso, quanto mais não seja, ao sonho.”

“Num mundo hipermoderno há uma dimensão emocional no consumo de luxo. As pessoas não procuram apenas exibir um estatuto social. Querem também obter uma satisfação pessoal. Antigamente, quando um homem queria mostrar a sua riqueza, comprava um diamante à sua mulher, ou à sua amante. Mas hoje as mulheres ganham o seu próprio dinheiro e podem comprá-lo elas. Fazem-no para se exibirem? Também, mas sobretudo para criarem para si mesmas um momento de emoção e valorizarem a sua imagem.”

“Quando as pessoas escolhem gastar em três dias num SPA o que poderiam gastar numa semana, escolhem um momento de qualidade de vida extrema como forma de evasão. Não se trata de ostentação, nem de representação. É uma procura emocional de momentos que rompam com o quotidiano. O consumo está hoje por todo o lado e é praticado por toda a gente. Antigamente as pessoas cultivavam aquilo que comiam, hoje até as coisas mais básicas precisamos de comprar. O consumo banalizou-se, por exemplo através da publicidade – e, face a essa banalização, o luxo imprime a diferença do que é excepcional.”

“O luxo introduz uma dimensão de sonho no consumo, numa altura em que já não há grandes sonhos. Já não se acredita muito na ideia de paraíso, nem na ideia de revolução.”

“Não [há um limite para o luxo]. Olhe o exemplo de Dennis Tito, que pagou 22 milhões de euros para ir à lua. São momentos de experiência extrema, como quem decide atravessar o mar numa canoa. Isso também é um luxo. As pessoas têm a necessidade de sentir. O homem moderno não suporta viver sempre de forma igual. Antigamente sim, era a tradição. Mas hoje já não temos tradições. Se não existir, de tempos a tempos, algo que se distinga, fica-se com impressão de se estar viver uma vida pobre. Isso é distinto do luxo da ostentação social. Há aquilo a que chamo de luxo eterno. Não há sociedade sem luxo, mas o luxo tem uma história. (…) Não é o luxo social, religioso, pela glória do Senhor. Veja o caso de um casamento. É um luxo à medida de cada um: um vestido muito caro que só se usará, espera-se, uma vez; uma festa com os seus amigos, uma lua-de-mel... Isso não tem nada a ver com ostentação.”

“Dou-lhe um exemplo: a arte. É muito cara e é um objecto de luxo. Mas poderíamos aceitar uma sociedade sem arte? Quando vemos os preços a que os quadros são vendidos hoje, é escandaloso. A leitura moral do luxo parece-me incorrecta e, no entanto, não lhe podemos escapar. Há demasiado desperdício. Mas é a condição para que algo excepcional emerja. Na história do mundo, sem o luxo não teríamos os castelos, os palácios e as catedrais que compõem a beleza da humanidade. As duas ideias que estou a procurar opor (…) são as de luxo privado e luxo público. E este está em perda. É a escolha entre comprar um diamante ou uma mala Dior, e comparar com os romanos que, com o seu dinheiro, mandavam construir palácios. Eu não sou um moralista, mas o dinheiro também permite um luxo público. Olhe o caso de importantes marcas que criam fundações que são novos marcos arquitectónicos nas cidades. Não é tanto o luxo que se denuncia, mas antes um uso excessivamente privado, um novo-riquismo que não se transforma. Não se deve diabolizar o luxo.”

“O luxo privado tem a sua legitimidade. Se as pessoas ganham dinheiro, devem poder gastá-lo. A posição estritamente moral é demasiado fácil e não toca a realidade das coisas. O luxo existiu sempre e está hoje em plena expansão. Mas o ideal humano não é o de consumir,antes o de criar, partilhar, melhorar a vida. É preciso que as coisas encontrem o lugar justo. O consumo ganhou uma preponderância excessiva, e é isso que é preocupante. Vive-se na acumulação. Mesmo em crise, o consumo nunca acabará. O que há para o substituir? É por isso que não acredito numa crise do consumo, mas numa crise do consumidor imprudente.”

Gilles Lipovetsky, filósofo e sociólogo francês, teórico de hipermodernidade, entrevistado por Tiago Bartomoleu Costa, sobre o seu novo livro “Luxo Eterno”, no suplemento “Ípsilon”, “Público”, 01-06-2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Cavaco Silva e o circo da selecção portuguesa


Como sempre tem acontecido em outras ocasiões similares, a comitiva da selecção portuguesa de futebol, no âmbito do conjunto de actividades recreativas que têm antecedido a fase final do Euro 2012, foi recebida no Palácio de Belém, pelo Presidente da República, Cavaco Silva. Muito sinceramente, não se sabe o que é que o chefe de um Estado falido tem para oferecer à selecção mais gastadora do campeonato.
Estas recepções não passam de pretensos actos políticos encapotados que dão uma não-notícia que sai em todo o lado: jornais, televisões, rádios, Internet. Mas, do ponto de vista comunicacional, são notícias já não trazem vantagem para ninguém: o político já não ganha mais popularidade com o gesto e os jogadores deveriam era ter tempo para descansar e treinar mais para falharem menos grandes penalidades. Falando curto e grosso, estas recepções do Estado português aos “donos da bola” – que não acontecem em Países civilizados – são ainda resquícios dos 48 anos da ditadura portuguesa (1926-1974). E de outras ditaduras europeias e não só – que sempre utilizaram o desporto como símbolo expressivo da sua força política ou para desviar as atenções do povo de outros problemas. Hitler, na Alemanha, foi o primeiro do mundo a usar a televisão na primeira grande prova desportiva à escala planetária com cobertura televisiva: os Jogos Olímpicos de 1936.
Hoje, nem Cavaco Silva, nem Pedro Passos Coelho (via Miguel Relvas) utilizam estas cerimónias patuscas como momentos de acção política. Porque elas perderam esse papel. No meio de algumas figuras do nosso futebol, os políticos podem, inclusive, perder mais votos. Aliás, como deve ter acontecido agora, com a selecção portuguesa, representativa de um país pobre e endividado, mas cuja Federação de Futebol demonstra ter dinheiro para gastar nos hotéis mais caros do Euro 2012. Ora, com a maioria dos portugueses a sofrer os efeitos da austeridade, não houve um único jornalista que questionasse o Presidente da República sobre esses gastos sumptuários da FPF. 
É por isso que os políticos portugueses deveriam ter cuidado com estas manifestações de “fervor patriótico”. Portugal tem de começar a ser um País onde um político é um homem normal e onde uma selecção de futebol numa fase final europeia é um acontecimento normal. Ora, como sabemos, estamos muito longe disso. Basta ligar as televisões – a começar pela RTP – e ver o circo montado de manhã à noite por causa da selecção de futebol. Uma vergonha digna do Terceiro Mundo. FOTO: "Record Online"

terça-feira, 5 de junho de 2012

A subjectividade no jornalismo


Em jornalismo, a hierarquização da informação, seja numa página de jornal ou na redacção de uma notícia, é uma tarefa de ordem subjectiva. É essa subjectividade que contribui para estabelecer algumas diferenças entre meios de comunicação. Também é essa subjectividade que molda o nosso pensamento e a opinião que temos sobre um acontecimento ou sobre as decisões de um Governo ou de um tribunal.
A redacção de um texto noticioso implica uma selecção vocabular e um ordenamento dos factos que é influenciada por múltiplos factores de ordem subjectiva. Factores que têm a ver com a formação do jornalista, com a sensibilidade do jornalista, e até com a vida do jornalista. A boa ou má disposição do jornalista ou um problema particular não resolvido são capazes de interferir na hierarquização da informação e na selecção de palavras utilizadas, sem que o jornalista se aperceba.
Se a hierarquização das notícias num jornal é um processo subjectivo, na edição de um telejornal ou na selecção das imagens de uma reportagem televisiva acontece precisamente o mesmo. Estamos perante notícias que resultaram de escolhas que são sempre subjectivas.
Em jornalismo, a objectividade não passa de um mito. Porque nas várias etapas do processo de produção informativa imperam decisões de natureza subjectiva. A selecção de uma fotografia em vez de outra obedece a uma escolha subjectiva. Igualmente subjectiva é a escolha entre a paginação de uma notícia com ou sem fotografia. Ou com chamada à primeira página ou não. Um artigo muito interessante, que li no Observatório da Imprensa, apelida o jornalismo de “objectividade subjectiva” (ver aqui). A expressão é perfeita.
O processo de edição de uma notícia é, portanto, subjectivo, pois depende de múltiplos e variados factores, a começar pela formação e pela sensibilidade de quem está a decidir na redacção. É com essa subjectividade que os “media” ditam as prioridades de debate no espaço público, moldando a nossa vida e a nossa opinião sobre a realidade.
Outra questão central nas discussões sobre jornalismo e sobre os conteúdos jornalísticos é a imparcialidade. Nem sempre os jornalistas e os editores são os maus da fita. Umas vezes são, mas na maioria das vezes até nem são. Mais do que maus da fita serão eventualmente vítimas das circunstâncias.
Intencionalmente ou não, os jornalistas e os editores também podem ser vítimas da propaganda ou da desinformação. Mesmo sem cometerem um erro deliberado, os jornalistas podem dar uma visão parcial dos factos, sendo selectivos no apuramento e na redacção do texto, focando determinados aspectos em detrimento de outros. No fundo, a tal subjectividade.
A nossa expectativa, como cidadãos e consumidores de informação, é que a acção mediático-jornalística seja sempre o espelho da sociedade. A questão é que os “media” podem influenciar, distorcer ou corroer esse espelho social, político, económico ou cultural.
A distorção pode acontecer nomeadamente em função da falta de qualidade profissional dos jornalistas ou em função da qualidade da assessoria de comunicação das organizações que são objecto de notícia. E, para muitos “agentes provocadores” de notícias e de acontecimentos noticiáveis, muitas vezes, não interessa o que aconteceu na realidade, mas aquilo que os “media”, como intermediários, vão dizer que aconteceu. Ou seja, não interessa a realidade, interessa a realidade construída pelos “media”.
É neste colete-de-forças que vivem os jornalistas e os cidadãos no gigantesco espaço mediático, que a Internet tornou permanente e global. Por isso, convoco aqui um pensamento marcante de Ignacio Ramonet, um grande estudioso do jornalismo contemporâneo: “A liberdade dos meios de comunicação não é mais do que a extensão da liberdade colectiva de expressão, fundamento da democracia. Como tal, implica uma responsabilidade social e o seu exercício está, portanto, sujeito, em última instância, ao controlo responsável da sociedade.”

Obs. – Este é o último de uma série de cinco textos criados a partir da minha comunicação sobre o poder dos “media” nas nossas vidas, na Universidade Lusófona do Porto, proferida no dia 30 de Abril de 2012, no âmbito da iniciativa nacional “Um Dia com os Media”.

sábado, 2 de junho de 2012

Medina Carreira vende jornais

O melhor barómetro sobre a venda de jornais não é um estudo da Marktest, ou de outra empresa de sondagens e estudos de opinião. O melhor barómetro é a caixa registadora de um quiosque. Neste sábado, por exemplo, fiquei a saber, no meu quiosque, em Vila Nova de Famalicão, que o economista Medina Carreira, com mais de 80 anos de idade, ainda vende jornais.
Antigo ministro das Finanças de Mário Soares, tendo abandonado o Partido Socialista, em 1978, por divergências quanto à política económica então adoptada, Medina Carreira foi o primeiro analista português a falar da falência económica do Estado e do País, quando toda a gente andava atrás das obras públicas de betão de José Sócrates e ainda ninguém sonhava com a intervenção internacional liderada pelo FMI ou com cortes nos ordenados e nos subsídios de férias e de Natal. De Medina Carreira dizia-se, grosso modo, que estava a ficar maluco ou fora do prazo de validade.
Neste sábado, o mesmo Medina Carreira dá uma entrevista à edição de fim-de-semana do jornal “i” (ver aqui) e ocupa quase toda a primeira página do jornal, que agora é dirigido por Eduardo Oliveira e Silva. Pelas 13h00, os 8 jornais que tinham dado entrada no meu quiosque habitual já tinham sido vendidos. “Foi o Medina Carreira. Com o Medina Carreira na capa vendi o jornal rapidamente. E se mais tivesse mais vendia”, explicou-me o homem do quiosque, observando que tem notado nos últimos tempos, durante a semana, uma migração de leitores do “Público” para o “i”. Onde o “Público” continua forte é nas edições de fim-de-semana. Neste sábado, por exemplo, dos 26 exemplares que ali chegaram “nenhum será devolvido”.
O facto de Medina Carreira ter feito o jornal “i” vender mais jornais do que nos restantes dias da semana – habitualmente são vendidos no mesmo quiosque uma média de 4 exemplares – é só a confirmação de que os jornais dão passos em frente quando conseguem surpreender os leitores e quando conseguem ser diferentes de todos os outros.  
Por falar no jornal “i”, é anunciada uma renovação de colaboradores para as páginas de opinião. A jornalista Constança Cunha e Sá, o criminalista Rui Patrício, o deputado Adolfo Mesquita Nunes, o dirigente socialista João Ribeiro e a jornalista Fernanda Mestrinho estão na lista dos novos cronistas do “i”.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Marketing viral. A publicidade que não parece publicidade



Como diz o publicitário David Bentley, director da agência AKQA, em Nova Yorque, “a melhor publicidade não parece publicidade”. A observação, proferida numa conferência do Wave Festival 2011 – Festival Latino-Americano de Comunicação, realizado no Brasil (ver aqui), é muito feliz, porque traduz uma realidade. Vem isto a propósito do marketing viral em ambiente digital e da sua força comunicacional.
O chamado “marketing viral” – assim designado para definir uma mensagem que se espalha rapidamente na Internet como um vírus informático – traduz a essência da comunicação entre as pessoas, pois tem como pilar fundamental a necessidade que as pessoas têm de comunicar entre si, partilhando informações e conteúdos ou comentando os assuntos do quotidiano. É um exemplo de publicidade que não parece publicidade, sendo, por isso, um modo de comunicar muito eficaz.
O marketing viral apresenta-se como uma excelente alternativa para comunicar o valor de empresas, marcas, produtos ou organizações. A mensagem, após ser produzida, caminha por si só, navegando nas ondas da comunicação interpessoal. Mas não basta criar o conteúdo e inseri-lo na rede. É preciso que seja um conteúdo com capacidade virótica, ou seja, com capacidade de atrair as pessoas ou de chamar a sua atenção imediata. Para isso, quanto mais absurdo, risível, sensacional ou espectacular for o conteúdo, melhor, pois maior será a sua capacidade de propagação.
Uma mensagem passa a ser viral quando é transmitida por todo o tipo de pessoas, para qualquer pessoa, em qualquer lugar. Se for bem conduzido, o marketing viral atinge proporções gigantescas, gerando súbitos fenómenos de popularidade, aproveitando a velocidade de comunicação na Internet – o que se apresenta como muito útil para a comunicação das marcas.
O marketing viral distribui gratuitamente produtos e serviços com algum valor; oferece um meio sem esforço de envio para outros; explora motivações e comportamentos comuns; utiliza redes de comunicação já existentes; e tira proveito de recursos de terceiros.
Portanto, o marketing viral é uma boa alternativa ao marketing tradicional, desde logo por ser muito mais económico, o que não é despiciendo, sobretudo agora em que os comunicadores são desafiados a produzir mais, ou seja, a comunicar mais, com menos recursos.
Pelo seu carácter informal, uma mensagem de marketing viral não necessita de investimento material, uma vez que as suas acções são veiculadas por diversos meios de comunicação baratos, como a Internet – através de vídeos, redes sociais, "chat", blogues, lista de e-mails, etc.
Foi, aliás, nas redes sociais que o antigo futebolista Paulo Futre, a partir de uma conferência de imprensa hilariante, como candidato a director desportivo do Sporting Clube de Portugal, se transformou num trunfo publicitário capaz de criar valor para diversas marcas (ver aqui). Em breve vou escrever aqui sobre esse caso.