domingo, 31 de julho de 2011

Júlio Trindade (1946-2011)


Morreu Júlio Trindade, um cidadão do mundo, nascido em Lisboa, que um dia aterrou em Fortaleza, no Brasil, e criou o "Pirata Bar", um bar conhecido internacionalmente, por só funcionar na noite de segunda-feira. Mas no "Pirata Bar", situado junto à Ponte dos Ingleses, no animado bairro de Iracema, junto ao mar, a noite de segunda-feira era considerada a mais animada do planeta. Júlio Trindade tinha olho para o negócio e soube criar uma marca – o Pirata. O próprio bar tinha uma banda de forró e comercializava artigos de “merchandising” em torno da marca “Pirata Bar”. Há uns 10 anos, foi ele mesmo que me vendeu uma "t-shirt" negra da banda de forró que tinha o nome do bar.
Para além do “Pirata”, Trindade chegou a ter outros projectos turísticos no Estado do Ceará – terra que adorava – dos quais chegou a falar no caderno de Economia do semanário "Expresso". Com a sua morte, motivada por um cancro no cérebro, desaparece um empreendedor lusófono que só o Brasil conheceu verdadeiramente.
Aqui, podem ler um texto escrito pelo próprio Júlio Trindade. É um texto sobre a aventura que foi a sua vida na Terra da Luz, como é conhecido o Estado brasileiro do Ceará, até ao contacto com a doença fatal. Em homenagem ao patrão, o site do "Pirata Bar" diz que, com a morte de Trindade, agora "tem forró no céu". Ele criou a segunda-feira mais louca do mundo. É também nesta segunda-feira que o seu corpo é cremado. A segunda-feira era mesmo o dia de eleição de Júlio Trindade!...

Governo, espiões, gravatas e espaço mediático


Ele são os espiões do SIS que saltam entre o Estado e as empresas privadas que estão de olho nos negócios públicos; ele são as nomeações para a Caixa Geral de Depósitos marcadas exactamente pelos mesmos critérios das pressões partidárias que afectaram outras nomeações feitas no passado, indicando que, nestas coisas, continuamos na mesma; ele são as gravatas masculinas que a ministra Cristas aboliu no seu gabinete como medida estratégica de poupança de energia; ele é a Ongoing preocupada com os prejuízos da Impresa de Pinto Balsemão e este, para não ver o seu negócio ainda pior, preocupado com uma eventual privatização da RTP; ele é o “streap-tease” patético dos vencimentos dos elementos que integram as equipas ministeriais, motoristas incluídos, num sinal de transparência ilusória da governação na Internet, potenciando o espião que há em cada português, como se a principal questão a ter em conta deva ser o dinheiro que ganham aqueles que nos governam e não a sua competência para os cargos que ocupam. A propósito, não seria mais indicado revelar o currículo de cada nomeado? Assim, parece que é mais importante sabermos quanto ganham do que sabermos quem são.
Folheando os jornais e vendo as notícias que passam na televisão verificamos que a agenda mediática portuguesa está a fustigar o Governo com assuntos que estão longe das preocupações centrais dos portugueses que ainda acreditam no País e que continuam à espera de medidas que valham a pena. E o Governo não tem sabido contrariar a orientação dos ventos, ocupando devidamente o espaço mediático com novos temas, que interessem à vida dos cidadãos. Até pode estar a ser feito um grande trabalho governativo, mas não é essa a percepção que temos.  Tirar as gravatas (curiosamente só num dos ministérios, o que significa que os outros ministros não acreditam na poupança energética anunciada...) e revelar quanto ganha toda a gente no final do mês é muito pouco e não interessa a ninguém.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sónia Brazão. O milagre da “Flash”


Depois da “Morte Anunciada” de Sónia Brazão, só mesmo um milagre editorial poderia fazer esta capa da “Flash”, anunciando ao povo leitor que a actriz, afinal, não morreu. Neste caso, os editores da “Flash” nem sequer foram muito criativos. Limitaram-se ao óbvio. Depois da morte anunciada, só mesmo um milagre daria uma nova capa com Sónia Brazão.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O coveiro do jornalismo


“Murdoch foi o coveiro do jornalismo, o assassino em série da informação laboriosamente pesquisada e apresentada. O inimigo da prosa. A queda da casa de Murdoch é uma oportunidade para repensar a suicidária tabloidização de todo o jornalismo e a crise da grande reportagem, parente da literatura. (…) O jornalismo não precisa de criminosos.”

[FONTE: Clara Ferreira Alves, “Expresso”/”Única”, 23-07-2011]

Famalicão há duas décadas


A realidade social e política de Vila Nova Famalicão há duas décadas... Um texto que escrevi esta semana para o semanário regional “Opinião Pública” – de que na altura era director precoce – no âmbito do 20º aniversário do jornal, que hoje regista uma tiragem superior a 12.500 exemplares. O tempo passa. E tudo vai mudando: as pessoas, as instituições, as cidades...


Obs.  Clicar na imagem para ler no tamanho original.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O blogue na construção do espaço mediático


O admirável mundo novo da sociedade de informação, potencializado pela comunicação instantânea à escala planetária através da Internet, permite que qualquer cidadão possa participar no processo de produção de informação de interesse público, ajudando a construir e a influenciar o espaço mediático. Algo que era impossível há muito poucos anos.
O blogue Comunicação Integrada, que está “online” desde 11 de Abril de 2011, acaba de protagonizar um desses momentos de participação na construção do espaço mediático, ao ter antecipado uma observação jornalisticamente pertinente em relação à inactividade do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, no Facebook, por oposição à sua participação naquela rede social durante a campanha eleitoral e também à actividade regular naquela rede do Presidente da República, Cavaco Silva, por sinal pertencente a uma geração mais antiga.
Acontece que, horas depois do “post” do blogue Comunicação Integrada, Pedro Passos Coelho regressou ao Facebook. Atento, o jornal “Público” observou os movimentos e escreveu a notícia. Ganhou este blogue, que viu a sua acção “credibilizada” por uma marca do jornalismo tradicional de referência, e ganhou o “Público”, que assim conseguiu dar aos seus leitores uma informação porventura mais completa. O jornalismo do futuro também passa por uma boa interacção entre as redacções tradicionais e os potenciais jornalistas em que se transformaram todos os cidadãos que estão na Internet.  

À atenção da diplomacia económica


“O posicionamento em mercados internacionais dos vinhos portugueses é menor do que a sua qualidade intrínseca. Há vinhos franceses e chilenos que custam fortunas, apenas pelo nome e pela imagem, quando a qualidade fica aquém de muitos portugueses.”

“Vejo agências internacionais de publicidade com um sucesso enorme em Portugal, quando o País é tão criativo como qualquer outro País. Falta dar confiança a esses profissionais para que eles possam ousar um pouco mais.”

Sílvio Passarelli, director da Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, de S. Paulo, e professor da pós-graduação em Gestão de Marcas de Luxo, da Universidade Fernando Pessoa, “Diário Económico”, 25-07-2011

Pedro Passos Coelho regressa ao Facebook


Ontem, pelo pôr-do-sol, chamei a atenção neste blogue para uma grande diferença entre Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho na comunicação digital através do Facebook: enquanto o Presidente da República comunica pela rede social mais popular em Portugal, seja em campanha ou no exercício de funções, o Primeiro-Ministro tinha deixado a rede em 6 de Junho último, dia seguinte à vitória eleitoral.
Não quero dizer que o blogue Comunicação Integrada seja lido com atenção pelo primeiro-ministro, mas a verdade é que, quatro horas depois do "post" que escrevi, Pedro Passos Coelho, ainda na ressaca das polémicas escolhas para a administração da Caixa Geral de Depósitos, voltou à sua página no Facebook, onde não escrevia há 50 dias, para justificar a sua longa ausência perante mais de 57 mil seguidores. Assim: 
“Caras amigas e caros amigos,
Os inúmeros afazeres deste primeiro mês de Governo não me têm permitido comunicar convosco como gostaria. No entanto, não posso deixar de agradecer cada uma das mensagens que aqui tenho recebido, por ocasião do meu aniversário, e que muito me sensibilizaram. Obrigado por todo o vosso carinho. Um abraço do Pedro Passos Coelho.”

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Jornalismo e espionagem


Há três casos – dois mais recentes e um deles mais antigo – que revelam uma área de potencial conflito de interesses: a do jornalismo e da espionagem. Trata-se, bem entendido, de uma matéria em que se espera uma regulação e uma ética pública exemplares, evitando-se qualquer promiscuidade que – nas democracias abertas mas reguladas – deve ser afastada, sob pena de se descredibilizar ainda mais o sistema político. Refiro-me, concretamente, aos casos do escândalo de espionagem do jornal britânico “News of the World”, da hipotética investigação a um potencial secretário de estado do actual governo PSD-CDS pelos serviços de informações internos (SIS), e à saída em Dezembro do ano passado do director dos serviços de informações externos (SIED) para ir desempenhar funções num grupo empresarial privado.
Estes três casos demonstram que o papel dos jornais na investigação e regulação das democracias ainda é – infelizmente – pouco eficiente. No caso britânico – do jornal “News of the World” –, tratou-se de um conjunto de escutas ilegais que abrangeram políticos, membros da família real, celebridades da cultura popular e familiares de vítimas de terrorismo. Estas ilegalidades foram cometidas durante muitos anos e da sua denúncia já resultaram a detenção do ex-director de Comunicação do actual primeiro-ministro britânico, David Cameron, e da editora da News International, que supervisionava as operações do grupo de comunicação do magnata australiano Rupert Murdoch na Grã-Bretanha, proprietário do tablóide que foi encerrado. Entretanto, e perante rumores de subornos pagos a agentes, também o responsável máximo da Scotland Yard se demitiu, no que me parece ser um caso que apelará a reformas profundas no modo como se fiscalizam as escutas nas democracias. Já o caso mais recente em Portugal, da hipotética investigação a um potencial secretário de estado do Governo PSD-CDS pelo SIS, entretanto desmentida pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tem tanto de bizarro como de preocupante. Trata-se de uma situação com contornos bizarros, pois estamos a falar de uma pessoa que nunca chegou a ocupar qualquer cargo político, embora tenha, naturalmente, o direito de defender a sua reputação e o seu bom nome. Mas trata-se também de um caso preocupante, pois está – uma vez mais – a deixar-se arrastar para um terreno menos claro a reputação do trabalho dos profissionais das informações. No outro caso mais antigo – também ocorrido no nosso País –, é apreciável a descrição a que, depois de uma entrevista ao “Diário de Notícias”, se votou o anterior director do SIED. Mas o problema aqui está mais no processo e não tanto no resultado.
Na verdade, a questão central é que estas situações revelam uma preocupante ausência de regras e de regulação nas fronteiras da relação entre jornalismo e serviços de informações. Por tudo isto, devem ser fiscalizados por poderes independentes quaisquer relações menos claras entre jornalismo, serviços de informações ou outros interesses. Só assim se conseguirá – de forma séria e em benefício do serviço patriótico – a tão desejada abertura das informações à sociedade civil. Uma abertura e uma transparência que são, afinal, um direito de todos. E que até podem tardar, mas que, estou certo, se afirmarão um dia.

Cavaco Silva e Passos Coelho. Diferenças na rede


Há uma grande diferença entre Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho no Facebook, a rede social mais frequentada pelos portugueses. Cavaco Silva, que já ultrapassou a fasquia dos 100 mil seguidores, comunica sempre, seja em campanha eleitoral, seja no exercício de funções como Presidente da República. Pedro Passos Coelho não. O primeiro-ministro, que ainda não chegou aos 60 mil seguidores, deixou de comunicar pelo Facebook no dia seguinte à vitória nas eleições.

sábado, 23 de julho de 2011

Amy Winehouse (1983-2011)


A cantora e compositora britânica Amy Winehouse viveu 27 anos, os últimos dos quais como um produto da sociedade de consumo e da comunicação de massas, acabando mergulhada no álcool e nas drogas. Morreu a artista. Nasceu a lenda. Clique aqui para obter mais informação sobre Amy Winehouse. [FOTO: Reuters]

Um título absolutamente badalhoco



Perante um título destes, na primeira página do segundo jornal diário mais lido do País, só podemos ficar em estado de choque. O consultor de comunicação Rui Calafate considera que se trata de uma idiotice. Mas eu acho que, se o título tivesse sido feito por um idiota, talvez o jornalismo e os leitores não fossem tão insultados como foram na primeira página desta sexta-feira, do “Jornal de Notícias” – jornal que, recentemente, mudou de direcção editorial para recuperar de uma tendência de queda nas vendas. Como diz o presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), Azeredo Lopes, ao ter comentado este “título notável” na sua página no Facebook, “talvez assim se vá percebendo como pode ser estimulante (mas, sobretudo, desesperante) a regulação da comunicação social” em Portugal.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Façam como Murdoch. Peçam desculpas a Passos Coelho



Uma notícia da agência pública de notícias Lusa, baseada numa fonte anónima, contrariando as normas do Código Deontológico dos Jornalistas, difundida pela calada da noite, provocou o primeiro grande caso político-jornalístico desde que o presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, lidera o Governo.
A partir de uma informação alegadamente transmitida aos jornalistas por um conselheiro nacional do PSD, Pedro Passos Coelho teria revelado na reunião partidária, realizada à porta fechada, que teria encontrado “um desvio colossal” entre as contas públicas referenciadas pelo Governo anterior e as contas que realmente foram encontradas pela nova equipa das Finanças. Para compor o ramalhete, houve ainda um conselheiro do PSD, Miguel Frasquilho, que, surpreendentemente, veio a público confirmar essa versão da agência Lusa, que seria a notícia do dia em todas as televisões e outros meios de comunicação.
Depois apareceu o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, num registo meio cómico, a dizer a versão que mais lhe agradava. Ora, curiosamente, o ministro estava mesmo a falar verdade.
Uma semana depois, os serviços de comunicação do PSD cederam à RTP um vídeo com a intervenção de Pedro Passos Coelho, ficando a certeza de que o líder social-democrata nunca utilizou a expressão “desvio colossal”, conforme se pode ver no vídeo. Só não se entende por que é que o vídeo não foi cedido no próprio dia, desmentindo na hora a versão que os órgãos de informação estavam a divulgar.
De qualquer modo, o vídeo agora divulgado é um documento que reforça a seriedade de Pedro Passos Coelho e a posição governamental, evidenciando, por outro lado, as lacunas e fragilidades de um certo jornalismo político português – aquele que é feito à custa de frases sopradas ao ouvido, muitas vezes de acordo com os objectivos maquiavélicos ou a imaginação de quem as sopra, porque os que sopram recados que querem ver transformados em notícias sabem que não são identificados nos textos jornalísticos.
Foi nessa esparrela, ética e deontologicamente condenável, que caiu o jornalista da agência Lusa, ao atribuir a Pedro Passos Coelho uma expressão que ele não utilizou, com base numa fonte anónima. Tanto mais que os efeitos dessa declaração atribuída ao Primeiro-Ministro foram devastadores, inclusive para a credibilidade externa da governação portuguesa.
As responsabilidades da agência Lusa neste caso triste para o jornalismo português ainda são maiores, porquanto, sendo uma agência de notícias pública, paga com o dinheiro dos contribuintes, deveria estar na linha da frente na promoção da ética e da deontologia jornalísticas. Donde, a agência Lusa e todos os meios de comunicação social que se limitaram a difundir o “desvio colossal” – rádios, jornais, televisões e espaços digitais – devem um pedido de desculpas a Pedro Passos Coelho. Como fez Rupert Murdoch em Inglaterra. Vamos ver quem é que tem coragem e dignidade para o fazer.

Obs. - Clicar no vídeo para ver o que disse Pedro Passos Coelho e clicar na imagem para ampliar a notícia da Lusa que originou a polémica.

A liberdade de imprensa em Portugal



"Muito boa gente, daquela que acha que a liberdade de imprensa em Portugal é excessiva e desregulada, está a aproveitar o caso ‘News of the World’ para perorar sobre os perigos de uma "mediocracia" (a expressão é de Vital Moreira) tomar conta desta terra, sublinhando a importância de "submeter o poder mediático aos limites constitucionais e legais" – como se algum dia alguém tivesse defendido que a imprensa devesse actuar acima da lei.
Este desejo de transformar a árvore numa floresta seria apenas picaresca se não fosse perigosa e, sobretudo, cega. Vital Moreira foi um daqueles colunistas que durante vários anos sofreram de uma paixão assolapada pelo PS do engenheiro Sócrates, e que acha que o nosso querido ex-primeiro-ministro foi vítima de várias tentativas de assassinato de carácter. Ora, na verdade, o que nós tivemos durante o desgoverno PS foi exactamente o contrário disso – os poderes executivo e legislativo a tentar por todos os meios silenciar aqueles que se afastavam da verdade oficial, com um profissionalismo sem paralelo. Basta ver o que a TVI fez a Manuela Moura Guedes, que era autora do programa informativo com mais audiência do país, para demonstrar a verdadeira independência do Quarto Poder em Portugal.
Não brinquem connosco, por favor. Nós podemos ter uma comunicação social em roda livre em muitos aspectos, mas nunca no que toca aos verdadeiramente poderosos. Neste aspecto, aliás, a tentação para meter a pata na garganta dos “media” é transversal ao PS e ao PSD. Qual foi a primeira cabeça a rolar após o Governo de Passos Coelho entrar em funções? Simples: o director da Lusa. Meu Deus, como são poderosos os “media” deste País…"

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Como ter uma presença eficaz nas redes sociais


Ter uma presença eficaz na Internet e nas redes sociais implica um alinhamento eficaz com a cultura do público digital que uma empresa, uma marca ou uma organização pretendem atingir com as suas mensagens, assim como um entendimento cabal dos mecanismos e processos de funcionamento de cada rede social. Até para que possamos ter uma estratégia de selecção e escolha dos espaços digitais que queremos ocupar. Esta relação cúmplice de uma marca com o seu público é essencial para uma comunicação eficaz, estabelecendo, deste modo, uma relação de fidelização com o público e do público com a marca.
As redes sociais são utilizadas, em primeiro lugar, como meio de comunicação das nossas mensagens. Mas também podem ser utilizadas para procurar informações úteis e relevantes para a nossa actividade; monitorar o que é dito sobre a marca ou a organização; saber o que fazem outras marcas ou organizações, avaliando o interesse de novos projectos lançados ou medidas que sejam tomadas por uma organização de natureza governamental.    
A utilidade das redes sociais não se esgota aqui. Elas permitem também fazer um levantamento das críticas e sugestões deixadas pelos internautas, o que acaba por funcionar como uma sondagem em tempo real, e gratuita, captando o “feedback” sobre um novo produto ou um novo projecto que uma empresa ou uma organização tenha em mente ou de uma medida que um organismo governamental pense tomar ou tenha acabado de tomar.
Há uma ideia importante a reter: não importa estar presente na Internet se não formos activos e criativos. Estar na Internet é como estar na vida real. Se não formos activos, se não estudarmos, se não trabalharmos, se não tivermos método, nem estratégia, o mais provável é que a nossa existência digital se torne irrelevante e se transforme num fracasso.
Ter uma presença eficaz na Internet implica um trabalho regular, a cargo de um editor digital que seja criativo, que tenha experiência jornalística e conhecimentos em escrita digital, que entenda o que é importante para o público e para a política de comunicação da empresa ou organização. E que perceba os mecanismos da vida digital. Para uma uma pequena ou média empresa talvez seja exagerado contratar um profissional a tempo inteiro para o espaço digital, a não ser que reúna outras qualidades no campo comunicacional. O que não é fácil encontrar. Para esses casos, o melhor é contratualizar esse serviço com especialistas, em regime de “outsourcing”. Empresas ou organizações de grande dimensão, e sobretudo, que produzem um grande fluxo de informação, como é o caso de organizações que têm grande actividade pública ou que prestam serviços públicos, tais como as autarquias, justificam plenamente um bom investimento na área da comunicação digital.
Uma presença activa na Internet não significa produzir conteúdos informativos e lançá-los indiscriminadamente no ciberespaço. É preciso ter em conta o número de pessoas que potencialmente estão em linha. Não importa lançar 10 ou 20 mensagens no Facebook ou no Twitter, pela madrugada, num espaço de poucos minutos. A essa hora pouca gente estará na rede para receber a nossa informação. E se essas mensagens forem lançadas todas de uma vez, há o risco de grande parte delas não serem lidas. Por isso, o ideal é que a informação seja difundida na rede durante o horário de expediente, e de modo espaçado ao longo do dia.
Uma presença activa e eficaz de uma organização nas redes sociais pode implicar a criação de um lugar de “editor de Internet” ou “editor digital”, um profissional de extrema importância para as organizações nos dias de hoje. Porque os olhos do editor digital serão os olhos da instituição no espaço público digital. E a sua cara será também a cara digital da instituição. Por isso, o uso das redes sociais pode favorecer as marcas e as organizações, públicas ou privadas, em diversos aspectos, mas é extremamente importante que os responsáveis das marcas e das organizações, em todas as áreas, entendam como isso funciona, para não cometerem falhas.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Público Mais", interesse público e interesses privados


O diário “Público” apresenta, nesta quinta-feira, o projecto “Público Mais”, como sendo uma “aposta no jornalismo de qualidade” através de um fundo financiado por seis empresas – EDP, Galp, Mota-Engil, REN, Santander Totta e Vodafone.
O desígnio do jornalismo de qualidade é nobre. Mas não creio que tenha sido encontrado o modelo de financiamento adequado. Partindo do princípio de que uma informação de qualidade exige meios financeiros robustos, o “Público” aposta neste financiamento privado para “dar aos leitores melhores conteúdos jornalísticos”. O investimento será feito em áreas como a Grande Reportagem, a Ciência e o Ambiente, a Cultura e o Multimédia, áreas em que o jornal afirma ser líder. O projecto tem uma duração de dois anos.
Ao longo do século XX, a história do jornalismo e do espaço público mediático ficou marcada por um aumento gradual dos interesses privados sobre o interesse público. De tal modo que a propriedade dos meios de comunicação social passou para a esfera de grupos económicos com interesses mais amplos, nuns casos publicamente conhecidos, noutros nem por isso.
Donde, esta nova forma de financiar o jornalismo anunciada pelo “Público” traduz a invasão total dos interesses privados no jornalismo de referência português, não obstante as garantias das empresas financiadoras de que respeitarão a independência do jornal. Ora, não estou a ver os presidentes dessas empresas e os seus amigos da política e de outros negócios a serem escrutinados pelo tal “jornalismo de excelência”. Nem estou a ver os jornalistas do “Público”, na esfera deste projecto de financiamento, a tomar a iniciativa de chatear essas empresas no âmbito de investigações jornalísticas que as possam comprometer. Por outro lado, evitar escrever sobre as actuvidades ou os interesses dessas empresas também constituiria uma forma de influenciar os leitores...
O problema resulta de uma incompatibilidade permanente entre a publicidade crítica inerente ao jornalismo e a publicidade comercial que interessa às empresas. Basicamente, o que o “Público” pretende é dinheiro para poder realizar umas reportagens cujo orçamento está acima daquilo que o jornal pode gastar com a informação que produz. E as empresas comprometem-se a financiar as reportagens do “Público Mais” porque o apoio a um projecto desta natureza lhes garante publicidade e prestígio e, portanto, mais valor no mercado e mais lucros. Veremos como será...

Vítor Gaspar e a teoria do desvio colossal



Obs. - Clicar na imagem para ver o vídeo do ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

Ignacio Ramonet e o jornalismo contemporâneo


“Antes, havia três esferas: informação, publicidade e cultura de massas. Essas três esferas fundiram-se. Na realidade, uma delas, a publicidade, absorveu as outras. A maneira actual de fazer informação é exactamente igual à maneira de fazer publicidade. O jornalismo de hoje tem de possuir três qualidades: muito simples para que toda a gente compreenda; muito rápido, com frases curtas, textos curtos, palavras fortes; e muito divertido. São as qualidades dos filmes de Walt Disney, do ‘spot’ publicitário da televisão ou da história de Monica e Clinton. Veja o que aconteceu com este caso. A grande maioria da imprensa era partidária da destituição do presidente, mas a opinião pública não. Conclusão: contrariamente ao que pensávamos, os meios de informação já não fazem a opinião pública. O público gosta de consumir, mas não crê. Encontramos prazer num filme de Hollywood, mas não cremos nele. Sabemos que é uma ficção. É de um jornalismo de ficção que falo.”

“O exemplo do ‘Le Monde Diplomatique’ demonstra que alguns jornais podem sobreviver. As empresas de comunicação têm de colocar o problema da rendibilidade e da produtividade, porque não têm uma lógica cívica, mas sim uma lógica empresarial. Esta lógica faz com que os próprios jornalistas se encontrem na mesma situação dos trabalhadores das fábricas dos anos 20 e 30 (precarização, especialização, fragmentação do trabalho, anonimato e redução da sua condição social, que algumas estrelas ocultam). No final do século XIX, quando surgiu a grande imprensa de massas, o monopólio da informação era da imprensa. Mas logo vieram a rádio, o cinema, a televisão, etc. O jornalista perdeu, então, o seu monopólio. E ao perdê-lo também perdeu a sua identidade.”

“Temos a ideia de que a censura é característica das sociedades autoritárias, o que é correcto. No Portugal de Salazar, na Espanha de Franco ou em qualquer regime autoritário, observamos que a censura funciona como proibição e amputação. Mas quando observamos as sociedades democráticas e livres, onde toda a gente tem direito a proferir, damos conta de que existe outro tipo de censura. A censura actua agora por saturação. Quando há tanta informação, eu já não consigo saber qual é a boa e qual é a má. Encontro-me submetido a uma ideologia que diz ‘muita informação é boa informação’. São duas coisas diferentes, porque a sobre-informação pode conduzir à não informação...”

[FONTE: Ignacio Ramonet, jornalista e professor universitário, entrevistado pelo jornalista Amílcar Correia, “Público”, 14-03-1999]

terça-feira, 19 de julho de 2011

A “Flash” disparou. Sónia Brazão não morreu


A “Flash”, do grupo Cofina, é uma dessas revistas de mexericos (que alguns, estranhamente, classificam como "jornalismo cor-de-rosa" ou "jornalismo do coração"), que vivem à custa das misérias alheias e dos sonhos que as celebridades e as pseudocelebridades projectam no imaginário do povo consumidor. Povo que só consegue ver a espuma das coisas, que consome passivamente o que lhe dão, que não questiona nada.
Publicações como a “Flash” são capazes de tudo por uma imagem que mostre a privacidade de alguma celebridade, para satisfazer os apetites voyeuristas da clientela. Tem que ser célebre para vender revistas – e célebre significa apenas ser muito conhecido, não importa o motivo, podendo ser nobre ou reles. É da natureza cruel dos negociantes de mexericos serem capazes de tudo por uma informação não confirmada, desde que sirva para construir uma história cheia de nada. Ou então não olham a meios para conseguir uma notícia, como aconteceu em Inglaterra, no"News of the World" de Rupert Murdoch.
Quando a actriz Sónia Brazão foi vítima do acidente doméstico que lhe queimou grande parte do corpo, a “Flash”, na sua primeira edição após a tragédia, mais abutre que os próprios abutres, parece que queria a morte da actriz antes de a morte acontecer. Só assim se explica esta capa monstruosa, com o título “Morte anunciada”.
Na verdade, Sónia Brazão não morreu. Saiu do coma e até já teve alta hospitalar. Pode dizer, por isso, como Mark Twain, que as notícias sobre a sua morte foram manifestamente exageradas. E agora, quem paga os danos pessoais provocados por esta capa?...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

DECO, Sporting e Benfica. Veja as diferenças


A associação de defesa do consumidor DECO desaconselhou o investimento na SAD do Sporting Clube de Portugal e o clube de Alvalade reagiu com surpresa, face ao estranho veredicto da “primeira agência de ‘rating’ portuguesa”, como, com grande oportunidade, rotulou Rui Calafate, no seu blogue. No fundo, o que a DECO disse foi o seguinte: não invistam no Sporting porque o Sporting é “lixo”, estando "quase em falência técnica".
Já não é a primeira vez que a DECO analisa os investimentos nos clubes de futebol, aconselhando os seus associados e o público em geral. Como faz, aliás, em relação ao investimento no mais variado tipo de produtos. Desta vez, a DECO emitiu um parecer sobre o empréstimo obrigacionista lançado pela SAD do Sporting, considerando que as obrigações leoninas – que prometem uma rendibilidade de 9,25% ao ano – são de risco elevado, desaconselhando, por isso, a sua subscrição. Afinal, como, responsavelmente, alerta o próprio Sporting, na campanha de publicidade que lançou para divulgar o produto financeiro, “rentabilidades mais elevadas podem importar riscos mais elevados”.
Curiosamente, em 2010, a mesma DECO chegou à mesma conclusão ao não recomendar a compra de títulos de dívida da Benfica SAD, as quais prometiam um rendimento de 4,8% ao ano até 2013. “Não recomendamos”, foi o veredicto dos técnicos da DECO, justificando que “a Benfica SAD tem um passivo excessivo e o endividamento à banca tem um peso considerável na estrutura da empresa”.
Então o que é que mudou? Em apenas um ano, a DECO demonstrou a mesma opinião negativa sobre dois produtos financeiros semelhantes de dois clubes de futebol, desaconselhando a sua compra. A única diferença é que, enquanto o parecer negativo sobre o investimento no Benfica foi escondido por baixo do tapete das redacções dos jornais (não tendo sido notícia nos meios de comunicação de grande audiência), já o parecer negativo sobre o investimento do Sporting mereceu a maior cobertura noticiosa, porque houve alguém que agora teve a atenção que antes faltara.
Não acredito que estas más práticas jornalísticas, que contribuem para o descrédito do jornalismo, sejam fabricadas de propósito para prejudicar ou beneficiar este ou aquele clube. Mas a verdade é que estamos perante mais um caso em que a imprensa portuguesa, perante a mesma situação, usou pesos e medidas diferentes, sendo de admitir que a cor das camisolas tenha tido influência decisiva. Só assim se explica mais uma notícia negativa sobre o Sporting Clube de Portugal.

O poder dos leitores


Durante anos, os tablóides ingleses fizeram as delícias do público. Apesar das mais flagrantes violações dos mais elementares direitos, os jornais foram alimentando os seus milhares de leitores, que se deleitavam com a publicação das mais escabrosas peças ditas jornalísticas sobre o mundo dos famosos, políticos e afins. Por sua vez, o público retribuía-lhes com audiências. E foi ao abrigo deste contrato, cujo fiador era o princípio da liberdade de expressão, que o negócio floresceu, independentemente dos meios utilizados.
O caso, além das discussões dentro da classe jornalística e dos poderes de um Estado, deve merecer, sobretudo, uma reflexão dos leitores. São estes que suportam os negócios. Quanto mais lixo comprarem, mais será produzido. Estarão dispostos a continuar a financiar um jornalismo que não respeita regras, direitos e o mínimo de bom senso e que a tudo recorre só para revelar quem é a amante do jogador de futebol “A” ou qual a doença que afecta o filho do primeiro-ministro “Y”? Há que fazer escolhas.
Mas como tudo o que tem um princípio tem um fim, o “News of The World” acabou e a sua antiga directora, Rebekah Brooks, foi detida pela polícia. A mesma polícia que também terá beneficiado de um esquema de favores para dar informações. Pode ser que o caso das escutas em Inglaterra sirva para, de alguma forma, higienizar o jornalismo. E higienizar não quer dizer domesticar. Não. É possível fazer jornalismo sério, acutilante e vigilante dos poderes públicos e privados, sem necessidade de ultrapassar os mais elementares princípios de uma sociedade moderna e democrática.

[FONTE: Editorial do “Diário de Notícias”, 18-07-2011]

sábado, 16 de julho de 2011

As desculpas de Rupert Murdoch


Rupert Murdoch, o multimilionário dono da News Corporation, pediu desculpas em anúncios publicados neste sábado em jornais britânicos pelos "graves erros" cometidos pelo semanário “News of the World”, centro do escândalo de escutas telefónicas em Inglaterra. Além de pedir desculpas "pelos graves erros que ocorreram", Murdoch diz sentir muito por não ter agido mais rapidamente para "resolver as coisas".
"Entendo que simplesmente pedir desculpas não é suficiente. O nosso negócio foi baseado na ideia de que uma imprensa livre e aberta deveria ser uma força positiva na sociedade. Nós temos de cumprir essas expectativas”, escreve Murdoch no anúncio publicado. E acrescenta: “Nos próximos dias, quando tomarmos novas medidas concretas para resolver essas questões e consertar os danos que elas causaram, vocês ouvirão mais notícias de nossa parte", diz a declaração publicada na imprensa britânica, assinada "Atenciosamente, Rupert Murdoch".
A executiva-chefe do grupo News International, subsidiária da News Corporation, Rebekah Brooks, deixou o cargo devido ao escândalo. Les Hinton, um dos mais altos executivos do grupo News Corporation, Les Hinton, também anunciou estar de saída da empresa. Brooks, que era funcionária do grupo há 22 anos, foi editora do tablóide “News of the World” entre 2000 e 2003, época em que o jornal terá utilizado escutas telefónicas ilegais para conseguir notícias exclusivas.
Hinton, por seu turno, chefiou o grupo News International de 1995 a 2007 e trabalhou com Rupert Murdoch por mais de 50 anos. Ambos os executivos alegam que não sabiam dos métodos utilizados pelos repórteres para conseguir notícias, mas disseram acreditar que o pedido de demissão era a coisa certa a fazer neste momento. Em resposta ao escândalo das escutas, Murdoch determinou o encerramento do “News of the World”, que era o jornal mais vendido da Grã-Bretanha aos domingos. A última edição foi publicada em 10 de Julho de 2011, com uma tiragem de 5 milhões de exemplares, o dobro da registada nas edições anteriores.

Obs. - Clicar na imagem para ampliar e ler o anúncio.

Galos, pássaros e Zés Pereiras


Viver na aldeia, perto da nossa cidade e de outras cidades, mas sem o bulício urbano e na companhia do verde dos campos de milho, do cantar dos galos e do chilrear dos passarinhos, é um privilégio. Com uma localização extraordinária, a cidade de Vila Nova de Famalicão, ao ter à sua volta, a poucos minutos, outras cidades como Porto, Guimarães, Braga, Barcelos, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Santo Tirso ou Matosinhos, oferece esses sinais de qualidade de vida em dezenas das suas freguesias.
O único problema acontece nos fins-de-semana em que há festa na paróquia e somos expulsos da cama pelo barulho ensurdecedor e sempre igual  dos Zés Pereiras. Eles pensam que estão a comunicar a festa como deve ser e que nós ficamos muito contentes com esse anúncio, mas, para muita gente, como eu, só estão a incomodar.
Felizmente, neste sábado, já passaram por cá, já acordaram a casa toda, já tocaram à campainha e já foram embora. Voltou o sossego. Mas é por pouco tempo, pois haverá foguetes para queimar no fim-de-semana. Viver em comunidade é isto mesmo: integrar uma cultura e respeitar a sua atmosfera.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

As notícias directamente da fonte


Eis o mundo novo da comunicação em rede. Antes da Internet, para ficarmos a saber o que disse o ministro das Finanças sobre o imposto extraordinário, anunciado pelo Governo para o próximo Natal, teríamos que procurar essa informação na rádio, na televisão e nos jornais. Sempre com a mediação do jornalista. Agora é tudo mais completo e mais transparente.
Donde, objectivamente, deixamos de precisar de um jornal, de uma rádio ou de uma televisão para ficarmos a saber mais. Basta-nos ter uma ligação à Internet para podermos ficar informados. Por outro lado, este fluxo comunicacional constitui também um desafio para jornalistas e editores, no sentido de procurarem dar algo mais do que a informação oficial (entrevistas, artigos de opinião bem sustentada, análises mais completas e rigorosas, diferentes ângulos de abordagem, etc.). Sob pena de as notícias se tornarem todas iguais, independentemente do meio de comunicação que as difunde.
Os jornais, as rádios e as televisões que não perceberam isso continuam a ser feitos da mesma maneira, com menos meios humanos do que no passado e a perder audiências. A culpa não é das novas tecnologias. A culpa é da estagnação.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O "desvio colossal", a Lusa e a deontologia jornalística


Se bem entendi, a alegada referência do primeiro-ministro a um "desvio colossal em relação às metas estabelecidas" foi transmitida "aos membros doconselho nacional e longe dos jornalistas". Contudo, "um dos elementos presentes na reunião do Conselho Nacional do PSD" terá reportado este desabafo aos jornalistas. Como se nota aqui, a citação foi repetida em todos os media, de forma igual. Não sei se o primeiro comunicado partiu da Lusa, mas a agência nacional de notícias fez uma peça em que cita o tal de "um dos elementos presentes na reunião do Conselho Nacional do PSD".
O tom brutal da expressão, desvio colossal, concentrou todas as atenções na mensagem. Tal a sua força, que aparentemente nenhum meio questionou a credibilidade ou veracidade do mensageiro.
E veio-me à memória o caso recente do assessor que não teve credibilidade para uma jornalista da agência nacional de notícias a quem quis transmitir uma frase do (outro) primeiro ministro e que levantou rigorosíssimas dúvidas deontológicas: “Não é rigoroso e exacto e contraria regras básicas do jornalismo citar alegadas declarações de uma pessoa com base em afirmações que outra lhe atribuiu”, considera o Conselho de Redacção (CR) da Lusa, que apresentou queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e ao Conselho Deontológico dos Jornalistas.
E eu fico com uma dúvida colossal sobre as regras básicas do jornalismo.

[FONTE: Alda Telles, blogue Lugares Comuns, 13-07-2011]

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fátima Lopes. A "bomba" que Rangel inventou


“Trabalhava numa empresa de chamadas de valor acrescentado, onde coordenava uma equipa de comerciais. Um dos principais clientes era a SIC e ia lá com muita frequência para ter reuniões com os directores para apresentar os projectos, decidir passatempos com as chamadas de valor acrescentado. Chamavam-me a menina dos telefones. Era uma carteira tão exigente a nível de trabalho que eu passava lá 85% do tempo. Um dia o Emídio Rangel chamou-me e disse-me que já me tinha observado, a minha postura e comportamento, e que achava que eu tinha características para ser apresentadora. Achei que ele estava a brincar. Mas ele já tinha dado o meu nome para o ‘casting’ do programa "Perdoa-me". Ainda mais assustada fiquei porque ia substituir a Alexandra Lencastre. Lembro-me de pensar: "O que é que eu tenho a perder? Nada. Posso é chegar à conclusão que não tenho jeito nenhum para isto."

“Decidiram à última hora que iam cortar o teleponto. Tive uma formação de 15 dias, entre a data em que fui escolhida e a de estreia. Foi o terror. Entrei no estúdio, com uma plateia grande, tudo a olhar para mim, que era uma desconhecida. A tensão que eu vivi era tão grande que depois do programa passei uma semana sem conseguir sorrir. Acumulei tanto ácido lácteo nos músculos do rosto que não sorria. Foi sofredor. Nunca mais vivi uma tensão como essa.”

“Até ao 10º ano queria ser professora de Inglês, mas depois tive uma professora extraordinária em Jornalismo, tão extraordinária que eu disse: "Não, o que eu quero é ser jornalista." Quando fui para Comunicação pensava que esse seria o caminho que iria seguir. Mas, no terceiro ano da faculdade, quando foi necessário escolher a especialização, apaixonei-me pelo marketing, de que ainda hoje gosto muito. E foi isso que escolhi, não fiz nada ligado à televisão, não fiz cadeiras nenhumas ligadas a televisão, tirando as obrigatórias. Até achava piada, mas como pensava que não tinha figura nem imagem para isso, não valia a pena estar a queimar cartuchos ali. E o meu primeiro trabalho foi em marketing.”

[Fátima Lopes, apresentadora de programas da TVI, jornal “i”, 11 de Julho de 2011 * FOTO: Orlando Almeida (Global Imagens)]

"A Bola", "Record" e "Público" lideram na Internet


“A Bola” foi o jornal português mais lido na Internet durante o mês de Junho de 2011, tendo a sua edição digital registado um total de 28 milhões de visitas e de 163,1 milhões de “pageviews”, revela o barómetro Marktest-Weborama, a que o blogue Comunicação Integrada teve acesso.
O barómetro Marktest-Weborama é um sistema “site centric” de medição de acessos à Internet, sendo considerado o mais importante sistema de medição de audiências digitais existente em Portugal, pelo qual se guiam responsáveis editoriais e agências de publicidade.
A versão “online” do jornal da Travessa da Queimada ocupa o segundo lugar de um “ranking” digital que é liderado pelo portal Sapo, com 37,2 milhões de visitas e 174,1 milhões de “pageviews”. Em terceiro lugar, não muito distante de “A Bola”, aparece também um jornal desportivo, o “Record”, com 22,4 milhões de visitas e 125,6 milhões de “pageviews” durante o mês de Junho.
O diário “Público”, que surge em quarto lugar no “ranking”, é o jornal de informação geral que lidera as audiências digitais em Portugal, tendo o seu portal na Internet, em Junho, registado 9,9 milhões de visitas e 41,1 milhões de “pageviews”. Tem, porém, a concorrência apertada do “Correio da Manhã”, com 8,7 milhões de visitas e 63,8 milhões de “pageviews”. Segue-se “O Jogo”, o título da Controlinveste mais lido na Internet, com 7,3 milhões de visitas e 25,3 milhões de “pageviews”. O “Jornal de Notícias”, que na sua versão tradicional é o meio impresso mais lido do grupo de Joaquim Oliveira, é o sexto jornal digital em Portugal, tendo o barómetro Marktest-Weborama registado 6,4 milhões de visitas e 33 milhões de “pageviews”.
Ao nível dos jornais com edição impressa, seguem-se as versões digitais do “Expresso” (5,7 milhões de visitas e 38,4 milhões de “pageviews”), do “Diário Económico” (5,4 milhões de visitas e 38,4 milhões de “pageviews”), do “Diário de Notícias” (4,9 milhões de visitas e 18,8 milhões de pegaviews”), do “Jornal de Negócios” (4,8 milhões de visitas e 14,1 milhões de “pageviews”), do “Sol” (2,3 milhões de visitas e 9,8 milhões de “pageviews”), do jornal “i” (2,5 milhões de visitas e 6,3 milhões de “pageviews”, e, finalmente, do “Destak (675 mil visitas e 1,6 milhões de “pageviews”).
No sector das revistas com edição digital, a liderança cabe à “Visão” (1 milhão de visitas e 4,3 milhões de “pageviews”), seguida pela “Sábado (641 mil visitas e 7 milhões de “pageviews”.

domingo, 10 de julho de 2011

O que as pessoas fazem nas redes sociais


Antigamente, as pessoas encontravam-se nos cafés. Em Portugal, o acto de “tomar um café” é o pretexto comum para um encontro, um momento de convívio, um momento de comunicação interpessoal. Numa sociedade em rede, o gesto cultural bem português de “tomar um café” ou de “parar no café”, para um encontro com os amigos, passou à história. Hoje, as pessoas tomam o seu café em casa, feito na máquina que compraram para o efeito. E encontram-se umas com as outras logo a seguir, através do seu computador pessoal ou do seu telemóvel, numa rede social, onde podem falar com mais do que uma pessoa ao mesmo tempo (estejam essas pessoas onde estiverem), saber as últimas notícias, ver o vídeo do programa de TV favorito, namorar, ouvir música, decidir onde é que vão almoçar ou jantar, “et cetera”. E numa outra "janela" do ecrã do computador podem consultar o saldo bancário, escrever um e-mail, mandar ou receber textos e imagens, fazer uma transferência bancária, pagar uma factura em atraso ou fazer uma compra qualquer. Tudo isso é possível sem sair do ecrã, sem sair de casa ou de qualquer lugar. O computador ou, mais concretamente, o acesso à Internet, facilitado por essa máquina prodigiosa e revolucionária chamada telemóvel, tornou-se numa espécie de prolongamento da nossa existência física.
Os consultores de comunicação e os comunicadores das empresas e das instituições estão atentos a estas mudanças sociais. De acordo com um estudo realizado em 2009 nos EUA, 92% das empresas utilizavam as redes sociais ou estavam a planear iniciativas nesse sentido e, para mais de 70% das empresas, o mundo das redes sociais era ainda uma novidade com dois anos ou menos do que isso. Estes dados significam que a realidade das redes sociais é muito recente.
A atenção e a preocupação das empresas e das instituições privadas e governamentais com o que acontece nas redes sociais são muito importantes. A sua adesão ao admirável mundo da comunicação em tempo real possibilitado pelas redes sociais também é um bom indicador. Mas, por si só, não é suficiente para uma existência digital de sucesso. Num próximo texto sobre as redes sociais abordarei a questão da presença.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Diogo Vasconcelos (1968-2011)

“Um homem genial, um pioneiro, um visionário, com uma capacidade criativa notável. Estava na linha avançada da sociedade do conhecimento e das tecnologias de informação.” Foi assim que o Presidente da República, Cavaco Silva, classificou Diogo Vasconcelos, de 43 anos, que morreu, em Londres, no dia 7, vítima de uma septicemia seguida de complicações cardíacas. Diogo Vasconcelos foi um dos incentivadores do Plano Tecnológico em Portugal e um forte impulsionador da proximidade da sociedade às novas tecnologias.
No início desta semana, numa conferência em Bilbau, sentiu-se indisposto. No regresso a Londres, onde residia actualmente, acabou por ficar hospitalizado devido a uma septicemia, cuja origem não foi detectada, segundo avançaram amigos próximos ao jornal “Público”. Na sequência desta infecção grave sofreu uma paragem cardíaca.
Diogo Vasconcelos nasceu em 1968, no Porto, e licenciou-se em Direito pela Universidade Católica. Desde 2007 era director sénior da Cisco Internacional. Foi co-fundador da “Ciber.net”, primeira revista portuguesa sobre Internet, e fundador e director da “Ideias & Negócios”, primeira revista dedicada aos empreendedores e inovação.
Diogo Vasconcelos foi mentor e presidente do projecto “Dialogue Café”, que permite através de vídeo-conferência que pessoas em todo o mundo troquem impressões ou experiências pessoais. Foi vice-presidente do PSD, no tempo de Durão Barroso, consultor da Presidência da República para os assuntos da Sociedade do Conhecimento e fundador e presidente da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento no Governo de Durão Barroso (2202-2004), actual presidente da Comissão Europeia. Foi presidente da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações e um dos signatários da iniciativa “Compromisso Portugal”, responsável pela elaboração do plano de acção para a Sociedade de Informação e do plano de acção do Governo Electrónico, tendo também lançado as iniciativas Campos Virtuais, Biblioteca do Conhecimento, Banda Larga nas Escolas e Portal do Cidadão.
Diogo Vasconcelos foi distinguido por Jorge Sampaio – Presidente da República entre 1996 e 2006 – com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, pelo trabalho desenvolvido em prol da Sociedade do Conhecimento e da promoção do empreendedorismo. Carlos Brazão, director-geral da Cisco Portugal, frisa que esta é uma perda grande para a empresa e para o País: "É uma perda enorme, é uma pessoa única, com grande experiência de vida como empreendedor, com uma criatividade e inteligência excepcionais. É uma perda para a família, para os amigos, para a Cisco e para o País."

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Google e Facebook. Guerra de milhões no ciberespaço


Há uma guerra de gigantes no ciberespaço. E como em todas as guerras de mercado, os consumidores vão sair a ganhar. Enquanto a Google faz experiências para concorrer com o Facebook, através do Google Plus, o Facebook, rede social detida por Mark Zuckerberg, anuncia uma parceria com a Skype de modo a permitir videochamadas entre os seus 750 milhões de utilizadores.
Para fazer as videochamadas, os utilizadores do Facebook dotados de uma “webcam” selecionarão os amigos para iniciar o diálogo através da área de “chat” da página, que será também redesenhada e permitirá a conversação com mais que um amigo em simultâneo. Até agora, a conversação em tempo real no Facebook apenas é permitida em texto.
Mark Zuckerberg anunciou para as próximas semanas e meses "muitas novidades" no Facebook, na semana em que se ficou a saber que a rede social é já utilizada por 750 milhões de internautas.
A Skype disponibiliza um serviço de telefone via Internet. A empresa foi recentemente adquirida pela Microsoft (que também detém uma pequena parte do Facebook) por 8,5 mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros). Actualmente, mais de 663 milhões de pessoas em todo o mundo têm conta no Skype tendo, em 2010, consumido mais de 207 mil minutos em conversas telefónicas e videochamadas através desta plataforma.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O lixo tóxico do nosso tempo



Neste século XXI que começa por ser marcado pela ganância desenfreada dos mercados, o lixo não é Portugal. O lixo é a Moody’s. O lixo é a Standard & Poors. O lixo é a Fitch. O lixo são todas as agências de “rating”, autênticas vilãs do nosso tempo, sejam americanas ou orientais. A propósito, que é feito de uma queixa anunciada pela Procuradoria-Geral da República contra esse lixo tóxico da economia mundial?...

Maria José Nogueira Pinto. Os últimos "outdoors"



Nas eleições autárquicas de 2005, Maria José Nogueira Pinto apresentou-se como "uma mulher de confiança" na sua candidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, pelo CDS. Foi eleita vereadora. Aqui ficam dois cartazes exteriores da sua campanha.

Maria José Nogueira Pinto (1952-2011)


A deputada Maria José Nogueira Pinto, eleita pelo PSD, faleceu nesta quarta-feira, aos 59 anos, na sua casa de Lisboa, vítima de cancro no pâncreas. Na sua vida política, Maria José Nogueira Pinto, conhecida como uma mulher às direitas, balançou entre o PSD e o CDS, mas não se deu bem com Pedro Santana Lopes, num Governo de Cavaco Silva, nem com Paulo Portas, no CDS/PP. Mais recentemente, notabilizou-se por chamar "palhaço" a um deputado socialista, em plena comissão parlamentar.
Licenciada em Direito pela Universidade de Lisboa, Zezinha Nogueira Pinto (como era tratada pela família, pelos amigos e por "O Independente" no tempo de Paulo Portas) participou no terceiro Governo de Cavaco Silva (1991-1995), como subsecretária de Estado da Cultura, tendo-se incompatibilizado com o secretário de Estado do sector, Pedro Santana Lopes, por causa da "pala" do Estádio José Alvalade. Em Agosto de 1992, um estudo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) referia que a pala da cobertura do antigo Estádio do Sporting, entretanto demolido, estava em risco de ruir. O clube leonino solicitou um parecer ao engenheiro Edgar Cardoso, que, já idoso, foi a Alvalade dar pinotes em cima da pala para demonstrar que estava segura.

Depois de Nogueira Pinto ter interditado o Estádio de Alvalade para servir de palco a concertos musicais, por insegurança da “pala”, Santana Lopes entrou em acordo com o clube. O Sporting comprometeu-se a fazer obras e os espectáculos foram autorizados. Porém, Maria José Nogueira Pinto sentiu-se desautorizada e demitiu-se. Mais tarde, Santana também acabaria por abandonar o Governo, em ruptura com Cavaco Silva, tornando-se presidente do Sporting, em 1995.
Nesse ano, Maria José Nogueira Pinto foi eleita deputada pelo CDS/PP, tornando-se líder parlamentar e militante pouco depois. Em 1998, no Congresso de Braga, disputou a sucessão de Manuel Monteiro com Paulo Portas, que acabou por ser eleito líder. Maria José Nogueira Pinto também foi provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, directora da Maternidade Alfredo da Costa, vice-presidente do Instituto Português de Cinema, consultora da Fundação Calouste Gulbenkian e administradora da Fundação para a Saúde.
Em 2005, candidatou-se pelo CDS à presidência da Câmara de Lisboa, tendo sido eleita vereadora. Abandonou o partido em Março de 2007 depois de uma polémica reunião do Conselho Nacional, órgão que dirigia, e que teve como pano de fundo o regresso de Paulo Portas à liderança para suceder a Ribeiro e Castro. De resto, desde o congresso de Braga que Portas era o seu ódio político de estimação no interior do partido.
Em 2009, foi convidada por Manuela Ferreira Leite a integrar a candidatura do PSD, tendo sido eleita deputada. Nas últimas legislativas, apoiou Pedro Passos Coelho e foi reeleita deputada. Já debilitada, esteve presente nas duas primeiras sessões plenárias, referentes à eleição da presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, não tendo já comparecido à discussão do programa do Governo, na semana finda. Durante a doença, Maria José Nogueira Pinto manteve os seus comentários habituais na “SIC Notícias” e continuou a escrever opinião no “Diário de Notícias”.
Nascida em Lisboa, a 23 de Março de 1952, Maria José Pinto da Cunha de Avillez Nogueira Pinto era irmã da jornalista Maria João Avillez e da especialista em moda e imagem Maria Assunção Avillez. Era casada, desde 1972, com o jurista Jaime Nogueira Pinto, que conheceu na Faculdade de Direito, e mãe de três filhos, um rapaz e duas raparigas. [FOTO: “Sábado Online”]

“Opinião Pública”. Um exemplo em Vila Nova de Famalicão


Entre 1991 e 1993 fui o primeiro director do “Opinião Pública”, um jornal semanal de informação geral, com sede em Vila Nova de Famalicão. Há 20 anos, ainda sem a velocidade da Internet, foi um projecto inovador na imprensa regional portuguesa, pois nascia a partir da redacção de uma rádio local acabada de ser criada, num aproveitamento de sinergias que se revelou acertado até hoje. Para além do jornal “Opinião Pública” e da “Rádio Digital”, o pequeno grupo local de “media” fundado pelo empresário Feliz Pereira dispõe agora de uma televisão “online” ("Fama TV"). Nos três meios de comunicação trabalham hoje perto de 20 profissionais.
Esta semana, o “Opinião Pública” chegou à edição nº 1000. Segundo o Bareme Imprensa da Marktest, é o jornal mais lido no concelho de Vila Nova de Famalicão, com uma tiragem média semanal da edição em papel bem acima dos 12.500 exemplares, que são distribuídos gratuitamente em todo o concelho. A edição nº 1000 e a evocação dos 20 anos da publicação foram pretexto para um suplemento especial, para o qual o actual director, João Fernandes, me pediu um texto sobre a experiência que foi dirigir um jornal aos 25 anos de idade. Aqui fica:

Uma experiência irrepetível
Tudo o que vivemos “é vivido pela primeira vez e sem preparação”, como diz Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza do Ser”, “como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”. Foi assim que, em 1991, aceitei o desafio de Feliz Pereira para dirigir um novo jornal em Vila Nova de Famalicão, inserido numa empresa jornalística que integrava também uma estação de rádio.
Tinha 25 anos e já tinha uma “carreira” jornalística profissional, o que na altura significava que era um dos poucos jornalistas de Famalicão a viver do jornalismo. Estivera na “Rádio Famalicão”, com António Santos Oliveira; fundara o jornal “Cidade Hoje”, onde José Mário Machado Ruivo e Carlos Vieira de Castro, dirigentes do Círculo de Cultura Famalicense, agraciaram o meu trabalho com um louvor; e tinha sido contratado por “O Comércio do Porto”, na altura dirigido por Manuel Teixeira, actual chefe de gabinete de Rui Rio, e Fernando Santos, actual director-adjunto do “Jornal de Notícias”, de quem fiquei amigo.
Nesse tempo, tudo era diferente em Portugal. Cavaco Silva, então primeiro-ministro, vendeu-nos bem a ideia de um País com pedalada para integrar o “pelotão da frente” da Europa, o que, no nosso imaginário, significava capacidade de consumo e qualidade de vida. O dinheiro começava a chover de Bruxelas. Salvo os desempregados do velho têxtil do Vale do Ave, o emprego era pleno.
Foi neste ambiente efervescente que abracei o projecto inovador do OPINIÃO PÚBLICA, pensado e definido por Feliz Pereira, a pessoa que então, por cá, melhor percebia da comunicação social como um negócio. Foi ele que me convidou para dirigir o jornal, apoiado na estrutura jornalística da “Rádio Vila Nova” (hoje “Rádio Digital”), então a dar os primeiros passos, depois da legalização das rádios locais, em 1989.
Aceitei o desafio com paixão e entusiasmo. Tudo o que sabia de jornalismo tinha sido aprendido a ler jornais – o que fazia desde antes de ir para a “escola primária” – e nas redacções por onde tinha passado. E o OPINIÃO PÚBLICA nasceu, fresco, desempoeirado, irreverente, destemido, sonhador e dependente apenas de quem escrevia as notícias ou as opiniões. Uma experiência irrepetível, porque feita por uma geração de jovens jornalistas, alguns deles sem qualquer experiência, acompanhados com paciência pelos conselheiros editoriais Artur Sá da Costa, Joaquim Loureiro, António Cândido Oliveira, Almeida Pinto e o “grande chefe” Feliz Pereira.
Fui director do OPINIÃO PÚBLICA durante três anos, após o que escolhi trabalhar no “Público”, então o melhor jornal diário do País. Foram três anos que passaram em três dias. Lembro-me que fui arguido na maior parte desse tempo, com termo de identidade e residência, por causa de processos em tribunal – graças à nossa acutilância, por vezes ingénua. Mas, por obra e graça de Gouveia Ferreira, o advogado, nunca vi um juiz em tribunal. O melhor que se pode dizer sobre o meu tempo como director do OPINIÃO PÚBLICA é que, passados 20 anos, continuamos a poder acordar todas as quartas-feiras e folhear as páginas do jornal. Obrigado, Feliz Pereira!

Luís Paulo Rodrigues, director do OPINIÃO PÚBLICA entre 1991 e 1993 e Adjunto do Presidente da Câmara de V. N. de Famalicão para a Comunicação, desde 2002