sábado, 4 de outubro de 2014

A força da televisão nas eleições brasileiras


As eleições brasileiras deste domingo são um interessante caso de estudo sobre a política e a comunicação, e, em particular, sobre a volatilidade cada vez maior das percepções do público eleitor em relação aos políticos e suas propostas.
Apesar da Internet, que deverá ter 30% da população conectada e politicamente ativa (sendo, por isso, um público com as suas opções políticas bem definidas), o Brasil é um país onde a televisão continua a fazer a imagem dos candidatos e a mudar o sentido do voto, não através dos serviços informativos (onde os políticos até passam muito pouco), mas através dos tempos de antena eleitorais (o chamado “horário político”, à hora do almoço e à hora do jantar, em todos os canais de televisão de sinal aberto) e, sobretudo, através das inserções publicitárias ao longo do dia, a que os candidatos têm direito, no espaço da publicidade comercial das televisões. Logo, uma candidatura com um bom trabalho de televisão tem possibilidades de ganhar mais eleitores durante a campanha.
Foi, aliás, após o início da campanha na televisão que a Presidente Dilma Rousseff conseguiu estancar a queda de popularidade e recuperar algum eleitorado. Com uma excelente campanha na televisão, na senda, aliás, de todas as campanhas do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff está estacionada nos 40% das intenções de voto, pelo que haverá uma segunda volta, no dia 26 de outubro. Mas a ambientalista Marina Silva (Partido Socialista Brasileiro), muito provavelmente, não irá com ela nesse segundo jogo. Os últimos estudos apontam o segundo lugar para o surpreendente Aécio Neves, o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de Fernando Henrique Cardoso, que foi o Presidente da estabilidade económica. Na última semana da campanha, Aécio renasceu das cinzas, beneficiando com a perda de imagem de Marina – na razão direta da sua exposição pública para responder ao marketing de guerrilha do PT.
Não sendo brasileiro, mas vivendo no Brasil, devo dizer que o país está melhor do que no primeiro dia do PT na Presidência, em 1 de janeiro de 2003. De então para cá, houve muitos casos de corrupção, é certo, mas também houve milhões de brasileiros que saíram da pobreza, que compraram computadores, casa, carro e electrodomésticos. Outros começaram a ter oportunidade de estudar na universidade ou começaram a viajar para a Europa e Estados Unidos. E foi neste tempo que o Brasil enfrentou a crise económica internacional mais grave desde 1929. Há, agora, novos e complexos desafios pela frente, destacando-se entre eles a qualificação dos serviços públicos (saúde, educação, justiça), a violência urbana e a modernização e competitividade da economia num mundo global.
Olhando para este processo eleitoral, confesso que esperava mais espessura política dos candidatos e uma visão mais profunda das soluções. Vejo Dilma sem rasgo, sem uma visão do Brasil para daqui a 30 ou 50 anos, a gerir os projetos lançados por Lula da Silva, e Aécio Neves muito agarrado ao trabalho que diz ter feito enquanto Governador de Minas Gerais e como fiel seguidor de Fernando Henrique Cardoso. Marina Silva, que tem mais história de vida do que outra coisa, também não trouxe nada de novo à campanha.
Para o segundo turno, as pesquisas de opinião apontam uma vitória de Dilma sobre qualquer dos candidatos. Serão novas eleições. É preciso ter em atenção que Aécio Neves é o candidato que subiu sempre nas intenções de voto, tendo perdido terreno apenas nos dias emocionados da morte de Eduardo Campos, em que o Brasil parecia comovido e apostado em Marina Silva. Ora, se Dilma, neste domingo, tiver uma votação percentualmente abaixo dos 40% dos estudos de opinião, penso que tudo poderá acontecer no dia da grande decisão. Está, por isso, tudo em aberto.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Efeitos da comunicação


A boa comunicação produz sempre bons resultados. Uma empresa que comunica bem os seus produtos ou serviços é uma empresa que ganha boa reputação no mercado, podendo vender mais e gerar mais lucros. Do mesmo modo, o candidato a uma eleição que comunica bem é um candidato que se torna mais conhecido e com mais possibilidades de vencer. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A sociedade hedonista


A capa da revista “Visão”, de 4 de setembro de 2014, na imagem, é bem demonstrativa da sociedade hedonista e narcisista em que vivemos. A cultura hedonista encara o prazer como o bem supremo, como a finalidade e o fundamento da existência humana. Pessoas que querem o prazer a todo custo são pessoas eminentemente egoístas, que se colocam em primeiro lugar para tudo, revelando falta de percepção do outro em todos os momentos e em todas as relações, sejam elas afectivas, profissionais, sociais e até sexuais.
Um ser humano narcisista é pressionado pelo individualismo competitivo, que gera ansiedade e insatisfação, as quais empurram a vítima para o consumo desenfreado. É por isso que o hedonismo medrou na sociedade de consumo pós-moderna.
Numa sociedade hedonista, as pessoas vivem para o prazer ou são induzidas a viver para o prazer. É por isso que o regresso ao trabalho ou às aulas, depois de férias, é motivo de stress, como aponta o tema de capa da revista “Visão”. O regresso ao trabalho e às aulas é motivo de stress porque, numa sociedade hedonista, trabalhar e estudar não dão prazer.
Além disso, também é preciso alimentar a indústria da depressão. Quando a vida está desagradável tem que haver um comprimido que a torne agradável. E o sistema mediático promove esta cultura, sem que as pessoas, passivas, se apercebam. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

As pessoas querem proximidade e interacção


Na semana passada, Marina Silva, candidata do Partido Socialista Brasileiro (PSB) à liderança do Governo do Brasil, desembarcou no aeroporto de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, num voo comercial.
Apesar de a organização da sua campanha ter colocado um veículo à sua espera na pista do aeroporto, Marina preferiu demorar mais tempo saindo pela área de desembarque comum. Ainda dentro do aeroporto, ela conversou e tirou fotos com eleitores, mostrando-se como uma mulher normal. Ela que, onde chega, tem fama de provocar um silêncio reverente e sepulcral. Mas uma campanha eleitoral faz milagres e, agora, tal como Dilma Rousseff, também Marina Silva aderiu às “selfies” (ver na imagem).
Estas quebras “protocolares”, como podemos designar a interrupção do percurso de um político por causa de uma fotografia, têm muita força comunicacional. Fartos de políticos importantes e muito distantes, mesmo quando não cumprem com a sua palavra, os eleitores são cada vez mais pessoas de corpo inteiro – pessoas potencialmente mais informadas ou com acesso a mais informação, pessoas que têm meios de produção e difusão de conteúdos, pessoas que pensam pela sua cabeça, que escrevem directamente ao político, que apreciam proximidade e interacção. Apreciam, no fundo, ser tratados como pessoas e não como meros votos que geram vitórias eleitorais e poder.
Não é por acaso que as quebras de protocolo do Papa Francisco são tão apreciadas, mesmo por aqueles que não são católicos. É que essas situações transmitem do líder da Igreja Católica a imagem de um homem normal, com quem podemos falar ou trocar um sorriso. Ora, ao contrário do passado, as pessoas deixaram de ser contemplativas e passaram a ser interactivas. Isso, que começou por acontecer na relação das pessoas com a arte, estendeu-se ao comportamento quotidiano.
Na era da informação digital em que vivemos, em que a imagem prevalece sobre o texto, em que a forma é mais importante do que o conteúdo e em que as reacções das pessoas comuns são instantâneas e públicas, as “selfies” – além de serem um elemento de difusão da imagem dos candidatos políticos nas redes sociais – apresentam-se como um elemento de comunicação capaz de humanizar os candidatos durante uma campanha. Em suma, as “selfies” são mais um instrumento de comunicação política que nenhum político deve menosprezar, pois tem o valor de ser uma imagem orgânica que o eleitor decide fazer, podendo divulgá-la publicamente, caucionando, assim, o seu apoio público a um candidato.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

As “selfies” de Dilma Rousseff


As “selfies” de Dilma Rousseff fazem furor na campanha eleitoral brasileira. Onde vai, a recandidata à Presidência do Brasil deixa-se fotografar ao lado de toda a gente: crianças, idosos, operários, enfim, ao lado de quem aparecer com um telefone celular no ponto de captar um autorretrato.
Sabendo que tem um alto índice de rejeição nas pesquisas de opinião, o objetivo do marketing de Dilma é fazer passar a imagem de uma presidente humana para reacender os laços com o eleitorado.
Para completar esta estratégia de comunicação, os programas eleitorais na TV já começaram por mostrar Dilma na cozinha como qualquer dona de casa, a falar das saudades que tem da filha, que mora longe. Tudo isto, visa mostrar Dilma Rousseff a todo o Brasil como uma mulher igual a milhões de outras mulheres. Não por acaso, Dilma justifica a sua figura humanizada na campanha com um argumento imbatível: "Eu sou humana, não sou marciana" (ver aqui: http://glo.bo/1rnSAXK).
As “selfies”, ou autorretratos, em português, que correspondem aos autógrafos de antigamente, demonstram a importância cada vez mais crescente da imagem sobre o texto. Nestas eleições brasileiras, elas são um elemento novo de comunicação política. Fotografia: Marcos Ribolli

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Controlinveste e os jornalistas despedidos

A Controlinveste, um dos maiores grupos portugueses de comunicação, anunciou o despedimento de 160 trabalhadores na rádio TSF e nos jornais “Diário de Notícias”, “Jornal de Notícias” e “O Jogo” (ver aqui: http://bit.ly/1kQP17B), entre os quais 65 jornalistas.
No “Jornal da Tarde” da RTP1 vi o jornalista João Paulo Baltazar a revelar que é despedido da TSF por auferir um salário elevado. Ora, excelente profissional da informação e do tratamento da informação em direto, como se exige numa rádio de notícias, João Paulo Baltazar, que estará no auge da sua carreira profissional, é uma das grandes vozes que restavam dos primórdios da TSF  quando a emissora de rádio era de notícias (ver aqui: http://bit.ly/1qzSmZ8). 
O seu despedimento traz custos para a TSF daqui para a frente. E não me refiro à eventual indemnização a pagar. São outros custos, porém, não estão inscritos na cartilha dos gestores de pacotilha, que é basicamente igual em todo o lado, seja nos governos, seja nas empresas. Gestores que cuidam de segurar os seus lugares, e os lugares dos mais próximos, sem soluções para contrariar o abismo que os circunda, gerindo empresas de comunicação como quem gere fábricas de salsichas – sem desconsideração, obviamente, para este ramo da indústria alimentar, que exige, também ele, conhecimentos específicos.
Estes gestores pensam com a máquina de calcular e não percebem que ter o jornalista João Paulo Baltazar a narrar as notícias da manhã é diferente do que ter outra voz e outro cérebro, com outra relação com os ouvintes, com outra cultura e outra memória. Estes gestores, que fazem comunicados de despedimento tratando as vítimas por “caros colegas”, não sabem o que é a cultura e a identidade de uma organização jornalística. E depois querem audiências e bons resultados de gestão. É a verdadeira quadratura do círculo!...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A “Dica da Semana” e o futuro do jornalismo


A “Dica da Semana” é o jornal de variedades da cadeia de supermercados alemã Lidl. Na edição de 5 de junho de 2014, uma entrevista à apresentadora de televisão Bárbara Guimarães, que confessa estar transformada numa mulher “mais confiante”, é o tema de capa e das páginas centrais, presumivelmente os espaços editoriais mais importantes. No meio, como suplemento, a publicação traz um catálogo com preços e promoções, num formato estrategicamente maior que o da “Dica da Semana”, talvez para que possamos ver o logótipo do Lidl depois do jornal dobrado. Isto é o marketing de conteúdo impresso aplicado à comunicação dos supermercados. Uma comunicação que incorpora de forma híbrida diversas componentes outrora muito definidas. Nesta publicação temos jornalismo, marketing, relações públicas e publicidade. Esta é uma tendência global da comunicação das marcas, invadindo cada vez mais territórios que, no passado, eram exclusivos do jornalismo.
Na “Dica da Semana” nada é deixado ao acaso. Com uma distribuição gratuita nos supermercados e em casa dos consumidores, o jornal está tão bem organizado do ponto de vista editorial que até já tem edições regionais! Na imagem, por exemplo, podemos ver a edição “Bragança, Chaves, Minho” – regiões do Norte de Portugal. Uma organização assim era suposto pertencer ao universo dos jornais administrados por empresas jornalísticas. Mas é de uma rede de supermercados que estamos a falar. Isto indica-nos uma nova dimensão do jornalismo do futuro: o “jornalismo de marcas”, ou “brand journalism”, em inglês.
A ideia faz levantar os cabelos de muitos jornalistas profissionais, pois recoloca na agenda a velha questão da fronteira entre o marketing e a informação. Uma mistura entre os dois campos parece, no entanto, ser um caminho sem retorno, que tem as suas bases na evolução do próprio marketing. É que os consumidores exigem, cada vez mais, que as marcas sejam verdadeiras e transparentes. Ora, nada melhor do que produzir conteúdos sérios para demonstrar a verdade e a transparência como valores das marcas. Mas isto ainda só está no começo.
Um grupo de especialistas de marketing reunidos em Miami, em 2012, abriu a polémica. Saber se os agentes de relações públicas estão preparados para se transformarem em jornalistas de marcas foi justamente um dos temas principais da agenda de debates. “Quando os profissionais do marketing e relações públicas defendem o jornalismo de marcas eles estão refletindo uma nova postura das empresas, agora preocupadas em desenvolver uma imagem social para contrabalançar os efeitos negativos da preocupação exclusiva com o lucro corporativo. Esta é uma tendência generalizada entre as grandes e médias corporações, principalmente as que já têm um pé fincado no comércio eletrônico”, considera o jornalista Carlos Castilho, que escreveu para no portal do Observatório de Imprensa do Brasil justamente sobre o “jornalismo de marcas" como “a nova estratégia de relações públicas” (ver aqui: http://bit.ly/1kuVnJr).
A análise de Carlos Castilho, que é professor e analista de meios de comunicação, vai ao encontro das dúvidas que hoje invadem as redações jornalísticas um pouco por todo o mundo e que põem em causa o jornalismo como o conhecemos no século XX: “Hoje já não dá mais para ser tão enfático na afirmação de que os jornalistas defendem os interesses do leitor, porque já é muito difícil dizer quais são os interesses de quem compra jornal dada a enorme diversidade de necessidades e desejos. Também já não é mais possível dizer que os jornalistas defendem os interesses do público, porque a agenda da imprensa está condicionada pelos interesses das empresas jornalísticas, o que não é segredo para ninguém.”
Outra observação importante, do mesmo especialista: “A diferença entre o jornalismo profissional e o de marcas está cada vez menos no produto final e mais no tratamento da informação e da notícia. O jornalista, seja ele funcionário de uma empresa jornalística, um ‘free lancer’ ou até mesmo um praticante (não profissional), começa a tomar consciência de que a notícia está deixando de ser uma ‘commodity’ — porque perde gradualmente todo o seu valor comercial por conta do excesso de oferta informativa gerado pela Internet — para se tornar um dos fatores de produção de conhecimento.”
Com as marcas a produzir e difundir conteúdos informativos, o que será da informação de interesse público, aquela informação que não interessa às marcas, como é o caso da informação política ou da informação sobre os problemas de uma comunidade urbana, da educação ou da justiça? Fica a questão. Uma coisa é certa: o jornalismo profissional precisa de um debate sobre o seu futuro para encontrar o caminho certo.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Marinho Pinto é uma construção mediática


Carmelinda Pereira é uma candidata tradicional do POUS (Partido Operário de Unidade Socialista) que nunca consegue ser eleita para os órgãos políticos a que se candidata. E lembro-me de ver a senhora concorrendo a eleições há mais de 30 anos. Carmelinda Pereira, que começou nestas andanças nos tempos em que era uma jovem revolucionária, tem um problema de imagem e credibilidade: ela só aparece na televisão nos tempos de antena obrigatórios por lei, nas campanhas eleitorais, ou seja, em espaços televisivos desprezados pelas audiências. Fora disso, não tem existência mediática e ninguém a conhece. É um caso de falta de comunicação estruturada e permanente. Não admira, por isso, o último lugar do POUS, nas eleições europeias de 2014, com 0,11 por cento em resultado de uns míseros 3692 votos em todo o país.
Um caso bem diferente é o de Marinho Pinto, que foi a grande surpresa nas eleições europeias em Portugal, ao ter conseguido a eleição de dois lugares no Parlamento Europeu para o pequeno Movimento Partido da Terra, conquistando 7,1% dos eleitores que foram às urnas, em resultado de uma votação na ordem dos 235 mil votos.
Quando decidiu integrar a lista do Partido da Terra, Marinho Pinto já tinha construído uma imagem mediática, em função da sua visibilidade pública enquanto bastonário da Ordem dos Advogados. Já era uma figura pública conhecida da maioria dos portugueses. Para ele, os estúdios de televisão já não tinham grandes segredos. E muita gente já se identificava com o seu ar justiceiro e genuíno.
Ele foi o primeiro bastonário que soube utilizar o lugar que ocupou para transferir os temas áridos do escritório da advocacia para a arena mediática, tomando posições públicas frequentes, vestindo a pele de homem corajoso no ataque à corrupção e aos mais poderosos, a começar pelos poderosos da sua classe profissional. Inclusive, enfrentou certa comunicação social, de que guardo na memória a sua altercação em direto, num dos famosos telejornais de sexta-feira, na TVI, que eram apresentados por Manuela Moura Guedes e que ficaram conhecidos como um pequeno bastião mediático contra o Governo de José Sócrates.
Hoje, Manuela Moura Guedes, que fora, episodicamente, deputada à Assembleia da República nos primórdios do CDS/PP de Paulo Portas, em meados da década de 1990, está na RTP1 a apresentar o concurso “Quem Quer Ser Milionário?”, enquanto Marinho Pinto acaba de ser a grande surpresa das eleições europeias, sendo eleito para Estrasburgo e tendo o povo já a pedir a sua candidatura às próximas eleições nacionais.
Certos comentadores consideram que a votação de Marinho Pinto significa a adesão dos eleitores a uma figura populista. Mas há um detalhe que desmente essa visão: Marinho Pinto tem um discurso estruturado, quer a dignificação da política e dos políticos, defendendo mudanças do sistema dentro da democracia e nunca fora dela.
O sucesso eleitoral de Marinho Pinto resulta de um processo de construção mediática no tempo em que ele foi bastonário da Ordem dos Advogados. Podemos dizer que Marinho Pinto é um produto de comunicação. À sua visibilidade pública, Marinho Pinto só juntou um discurso crítico do atual sistema político, feito com pés e cabeça, tendo, por isso, sido capaz de penetrar em setores mais conservadores do eleitorado que estão descontentes com as políticas de austeridade e a falta de credibilidade de uma classe política corrupta.
Marinho Pinto é, por isso, muito maior que o Partido da Terra, que, sendo um pequeno partido sem representação parlamentar em Portugal, teve muito menos espaço mediático do que PS, PSD-CDS, CDU e Bloco de Esquerda, segundo um estudo já divulgado. Ora, a comunicação é decisiva. A prova disso é que, sabendo-se agora da eleição José Inácio como eurodeputado, todos os meios de comunicação perguntam: “Quem é o segundo eleito do MPT?” (ver aqui: http://bit.ly/1ntYMJv). E quantas pessoas terão votado no MPT por causa de José Inácio?... (Fotografia: André Kosters / Observador)

terça-feira, 22 de abril de 2014

O profissional de comunicação do século XXI


A questão sobre quem deve dirigir a área de comunicação nas empresas é susceptível de levantar dúvidas e dificuldades na hora da decisão da contratação de um profissional. Sobretudo nestes tempos de convergência, ou hibridez, das ações de comunicação, não existindo divisões estanques entre as diversas disciplinas da comunicação. Nas redes sociais, por exemplo, as marcas misturam ações de marketing com ações de relações públicas e notícias. Essa mistura transforma o profissional de comunicação num agente multifunções, como se fosse uma espécie de canivete suíço.
Para uns, ter um bom serviço de comunicação significa ter notícias nos jornais, para outros significa vender mais produtos e serviços ou ter uma presença digital de excelência, para outros ainda significa ter muitas ações de relações públicas para reforço da imagem da empresa junto da comunidade. Para dificultar a decisão, todas as ações de comunicação referidas são importantes numa boa assessoria de comunicação. Por isso, a escolha não deve ter como critério principal uma das especialidades do profissional a contratar – jornalista, relações públicas, analista de comunicação digital ou técnico de marketing – mas antes uma formação e uma bagagem cultural que permitam a esse profissional de comunicação demonstrar uma visão cósmica do campo operacional. 
De qualquer modo, é fundamental que o profissional de comunicação seja um bom produtor de conteúdo informativo, sabendo escrever sem erros e transformar um conjunto de dados num texto atraente, que possa ser lido com interesse por qualquer pessoa. Dominar a comunicação corporativa em ambiente digital é igualmente fundamental.
Além disso, um bom profissional de comunicação deve ter entendimento de economia e de política, assim como de sociologia, de psicologia, de estatística e de tecnologias de informação. Não precisa de ser fotógrafo, designer ou técnico de imagem, mas é essencial que tenha noções sobre essas artes cada vez mais importantes na comunicação contemporânea. 
O profissional de comunicação do século XXI deve, também, possuir um amplo conhecimento do negócio em que atua e setores económicos adjacentes, o que implica ter bons conhecimentos em marketing, um conhecimento sólido da cultura popular do mercado em qua atua e um acompanhamento do desenvolvimento tecnológico como utilizador. Isso exige muito estudo, muita leitura, muita investigação, método, disciplina e preocupação com sua própria imagem.
Atualmente, um bom profissional de comunicação deve ter estas características, que resultam de uma multiplicidade de saberes que, dificilmente, algum curso superior será capaz de proporcionar de um modo tão completo. Isto quer dizer que é preciso acrescentar ao saber académico uma série de outros saberes que resultam de leituras e análises sociais próprias e da experiência profissional. É um trabalho permanente, porque um profissional de comunicação tem de estar sempre em formação para não perder o comboio da atualidade e as tendências dos mercados, que estão sempre em mutação. 

sábado, 19 de abril de 2014

Jornalistas famosos na publicidade. Um debate atual


Muitos jornalistas famosos e artistas utilizam a fama e a imagem de credibilidade conquistada na carreira profissional para vender produtos e serviços ou participar em anúncios comerciais na televisão e na Internet. São casos comuns na sociedade mediática e de consumo em que vivemos, mas que, muitas vezes, levantam problemas éticos.
A questão é que o negócio da fama e a fama como negócio fazem parte desta nossa era do espetáculo e do comércio. É um tema que foi objeto de um debate muito interessante, promovido pelo Observatório da Imprensa – uma “think tank” brasileira sobre jornalismo.
O debate, com a duração de 50 minutos, é moderado pelo prestigiado jornalista brasileiro Alberto Dines. Participam o publicitário Adilson Xavier, o historiador e jornalista Paulo César de Araújo e a colunista do Estado de S. Paulo Cristina Padiglione. Veja no vídeo: http://bit.ly/1tlZAT8.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Jornais fecham-se no papel e abrem-se no digital


Há dias, o diretor de um dos maiores jornais de Fortaleza e do Nordeste do Brasil – que integra um grupo de comunicação que tem rádio e televisão há muitos anos –, dizia-me que o futuro dos jornais impressos está no jornalismo local e regional. No caso, estamos a falar de jornalismo local e regional numa cidade em cuja área metropolitana vivem 3,5 milhões de pessoas, tanto como na cidade de Madrid, que é a maior da Península Ibérica. 
No âmbito dessa estratégia, a informação nacional e internacional tem cada vez menos espaço na edição em papel, tendo sido subtraídos os colaboradores de temas nacionais e internacionais. Isto no que concerne à edição em papel, porque, na edição online, isso não acontece. "Com a Internet, os jornais se fecham ao mundo no papel, focando-se no jornalismo de proximidade, e se abrem no digital, chegando a todo o mundo e dando espaço a toda a informação", dizia-me o diretor, numa observação muito curiosa.
Apostando no jornalismo local, os jornais impressos reforçam o vínculo com a sua comunidade de leitores. Os leitores, por seu lado, passam a sentir que aquele é o jornal em que podem confiar, pois é aquele que fala sobre os seus problemas. Deste modo, é incorporado um elemento emocional no processo de decisão de compra do jornal diário. Pode ser um caminho.
Até agora não tem sido esse o caminho percorrido pelos jornais portugueses, que praticamente eliminaram a informação local das suas páginas em papel e das edições digitais (informação local que exige investimento e dá trabalho, pois não há agências internacionais a descobrir as histórias e a escrever os textos), ficando cada vez mais virados para si mesmos, para a macropolítica de Belém, S. Bento e Bruxelas, para os interesses da alta finança e das empresas com dinheiro para boas assessorias – que representam os interesses mais fortes –, e para as vacuidades das pobres celebridades que transformam algumas páginas da imprensa em feiras de vaidades de fraca qualidade. 

A publicidade em primeiro lugar


As primeiras páginas do "Jornal de Notícias" e do “Metro” desta sexta-feira, 4 de Abril de 2014. A publicidade à frente das notícias. O interesse económico da publicidade à frente do interesse público das notícias.

quarta-feira, 26 de março de 2014

TSF e SIC. As memórias de Emídio Rangel


Em finais da década de 1980, a estação de rádio TSF deu a voz às pessoas comuns e às organizações da sociedade portuguesa e mudou os tempos da informação com o seu jornalismo em directo. E isso contribuiu decisivamente para consolidar a democracia em Portugal, cerca de 15 anos depois da revolução de 25 de Abril de 1974. 
Independentemente da história do berbequim, como metáfora dos exageros cometidos na luta pelas audiências televisivas nos tempos de afirmação da SIC, Emídio Rangel fica na história como o homem que mudou a rádio e a televisão em Portugal. Como eu já escrevi neste blog, a TSF revolucionou a forma de fazer rádio e jornalismo de um modo tão intenso que influenciou também os meios de comunicação escrita da época (ver aqui: http://bit.ly/1g0of5A). 
Na passagem dos 40 anos da revolução, o jornal “i” foi ouvir Emídio Rangel, o fundador da TSF e, mais tarde, da SIC – dois projectos de comunicação que também mudaram Portugal.  É uma entrevista de memória que considero um documento importante porque ajudará a fazer a história da rádio e da televisão em Portugal. Eis as passagens mais significativas:

“Eu notava que, [na década de 1970], a rádio em Angola estava mais avançada. Nós já fazíamos reportagens em todo o mundo, e aqui não era normal. Nós íamos com a rádio angolana a todos os sítios onde aconteciam coisas. Para nós as notícias tinham uma dimensão global: a rádio era um mundo que se debruçava sobre todo o planeta. Lembro-me que na rádio do Lubango cobrimos os Jogos Olímpicos de Munique. Aqui não havia essa cultura, nem esses hábitos. O perfil da emissão que produzíamos era completamente diferente.”

“A RDP [Rádio Difusão Portuguesa] não reconhecia a iniciativa das pessoas, era uma estrutura muito pesada, manietada pelos sucessivos governos. Comecei a pensar que Portugal não podia continuar a viver com uma emissora do Estado e outra da Igreja. Era necessário libertar a rádio, fazer um combate para que fosse possível criar novas emissoras. Depois do boom das rádios piratas concorremos a uma frequência e ganhamos uma local. Foi uma batalha que durou mais de seis anos, para conseguirmos que isso fosse possível e termos condições para fazer a TSF.”

“Deram-nos apenas uma frequência local, quando éramos uma emissora que privilegiava a informação. Houve uma clara manipulação política do concurso, aos governos da altura não interessava uma rádio independente do ponto de vista informativo, preferiam outro tipo de projectos menos dedicados a fazer informação. Aqui ganhou o ‘Correio da Manhã’, no Norte ganhou a Lusomundo [Rádio Press]. Decidiram a solução que lhes dava mais tranquilidade e segurança.”

“Nós não aceitámos essas limitações. Passamos a fazer as coisas de uma maneira diferente. Não aceitávamos o "Portugal sentado" da agenda dos outros órgãos de comunicação social. Queríamos dar voz às pessoas. Ter gente dentro das nossas notícias. A informação que havia era uma informação cheia de hierarquias e muito respeitinho: primeiro apareciam as notícias do Presidente da República, depois eram as do primeiro-ministro, e a cadeia alimentar seguia com ministros, secretários de Estado, deputados, presidentes de câmara até aos chefes de repartição. Nós introduzimos uma pequena revolução: abríamos jornais com o que fosse importante. Tanto podíamos abrir com uma greve como com desporto. Isto era para muita gente um crime de lesa-pátria.”

“Sentíamos pressões. Quando passámos a fazer emissões diárias e a nossa voz passou a ter importância, começámos a contar. Até porque depressa passámos a atingir um conjunto de classes informadas e decisivas: a classe média alta, os quadros técnicos, os estudantes do ensino superior. Nada daquilo que fazíamos era indiferente. Tudo causava perturbação. Uma vez soubemos que tinha chegado um barco com sete pessoas negras refugiadas. No porto de Lisboa as entidades oficiais recusavam-se a recebê-los e disseram ao comandante do barco: "faça o senhor o que quiser". Estavam num contentor em condições infra-humanas. Resolvemos fazer a emissão 24 horas sobre 24 horas a partir de lá. Até que eles desistissem de se desresponsabilizar da situação dessas pessoas. Eles deixaram de ser tratados como animais para a passarem a ser tratados como seres humanos.”

“A cobertura do incêndio do Chiado foi porventura outro dos momentos simbólicos do nosso trabalho. O que se pretendia é que nós não emitíssemos em directo. A informação na altura era muito controlada, mas nós dinamitávamos isso, e pelo facto de estarmos em directo as coisas não podiam ser menorizadas, e também obrigava todos os outros operadores a seguirem-nos o exemplo. Isso aconteceu também com o aparecimento da SIC e com o ‘buzinão’ na Ponte 25 de Abril. Caso a informação não governamental não existisse, a repercussão mediática de um enorme acontecimento seria provavelmente muito diferente. Estes directos dinamitavam qualquer controlo informativo. Marcávamos a agenda.”

“Fui convidado pelo Dr. Pinto Balsemão [para dirigir o canal de televisão SIC], e na altura fiz o convite aos meus camaradas da TSF, que me aconselharam a aceitar. Era um novo desafio, mas também poderia ajudar a rádio, porque se eu não estivesse à frente do novo canal a sangria de profissionais podia ser maior. Nós tínhamos o tom certo da informação que se pretendia e qualquer novo operador iria buscar muitos dos nossos jornalistas. Eu próprio fui buscar alguma gente da TSF para o desafio da SIC, mas não foi uma hemorragia, não foi 80% a 90%, com seria previsível.”

“Estudei muito a televisão, por gosto pessoal. Não tinha muito a experiência, mas tinha muitas ideias de como era a televisão e como se devia agir nesse meio. Não era uma pessoa sem experiência. Acresce que tinha a ideia firme do ritmo e daquilo que se tinha de fazer em termos jornalísticos. O convite inicial era para director de informação, mas com a saída da Maria Elisa do projecto assumi também a direcção de programas, em televisão faz sentido abarcar a totalidade das responsabilidades editoriais num meio. Uma televisão não se limita a dar entretenimento nem a informar. As coisas não são totalmente estanques, tem de haver uma lógica comum. Eu tinha uma grande experiência na TSF daquilo que devia ser a mudança da informação na televisão. No fundo a lógica era a mesma: acabar com o Portugal sentado, com a informação burocrática e hierarquizada pelo respeitinho cego. Tínhamos como dever chegar aos locais em que a notícia acontecia: quer fosse uma aldeia, quer fosse uma grande cimeira internacional. Dar visibilidade mediática às pessoas e ao povo. Aproximar a televisão, a sua informação e programação, das pessoas. Na altura só apareciam na televisão as pessoas poderosas. Era necessário democratizar a televisão.”

“Nós queríamos fazer uma televisão que chegasse ao maior número de pessoas, essa era a condição de sobrevivência da SIC. Para atingir a maior parte da população era necessário que não houvesse nenhum complexo elitista em relação ao entretenimento, dar às pessoas aquilo que elas no fundo pretendiam e em termos informativos que fosse uma estação muito criteriosa e rigorosa. Não víamos nenhuma contradição nisso.”

“A SIC podia ter [o ‘Big Brother’] em exclusivo, mas eu considerei que aquele formato não era realizável no modelo da SIC. Nós devíamos ter comprado para pormos na gaveta e ganharmos algum tempo para poder arranjar alguma coisa que pudesse contrabalançar isso. Para mim, o "Big Brother" não era exibível na SIC porque afectaria a credibilidade do resto da estação. Mas os meus argumentos não foram ouvidos pelo Dr. Francisco Balsemão, isso implicava um milhão, mas os accionistas da SIC só viam os dividendos. E essa cegueira levou-nos a largar mão desse expediente e a perder a liderança, com custos acrescidos para os accionistas.”

“[Se voltasse atrás], teria feito exactamente a mesma coisa. Adivinhava-se o sucesso do "Big Brother", mas aquilo era fazer caminho para trás. Quando a SIC começou foi tendo formatos populares, simples e baratos, mas depois foi sempre melhorando de qualidade e complexidade, e quando estava numa fase não se admitia voltar com tudo atrás em termos de relação com o espectador.”

“Considerado em termos globais, acho que, [na comunicação social em Portugal], se conseguiu manter uma informação e um jornalismo televisivo actuante e isento. Onde eu acho que há uma regressão é nos jornais. Menos pluralismo. E há o domínio de uma imprensa sensacionalista que publica coisas sem respeitar o mínimo dos códigos deontológicos. Não olha a meios para atingir fins.”

“Os portugueses têm de estar felizes pelo 25 de Abril. Temos democracia. Podia ser melhor, mas não há caminho sem democracia. Mesmo para melhorarmos muito o que temos. Nos últimos anos há algumas coisas preocupantes, como a falta de respeito total pelas pessoas durante esta crise. Mas o seu combate exige sempre mais democracia e um melhor jornalismo.”

Emídio Rangel, fundador e primeiro diretor da TSF e da SIC, entrevistado por Nuno Ramos de Almeida, jornal “i”, 25-03-2014 :: Texto integral no link: http://bit.ly/1l3Ctba

sexta-feira, 21 de março de 2014

As novas regras da comunicação no turismo


NOVOS TEMPOS / DIRETO AO PONTO

Por Luís Paulo Rodrigues

O mundo digital trouxe desafios e novidades ao mercado de viagens.Hoje, a comunicação tem novas regras, como a criação de vínculos ou cumplicidade, para atrair o consumidor.

As viagens e a comunicação se integram. A democratização da Internet e a conexão das pessoas em redes de troca e partilha de informação trouxeram novos desafios ao tradicional agente de viagens. Antigamente, o destino das férias era escolhido tendo em conta a opinião do agente de viagens, que assim condicionava as escolhas. Agora, o turista do século 21 – ou da sociedade da informação e do conhecimento –, que segue a pauta dos meios de comunicação e está na rede, planeja suas férias ou visitas turísticas e pode inclusive fazer tudo online: escolher o destino, a hospedagem e comprar a passagem aérea.
É um mundo novo, desafiante para o agente de viagens e para as organizações de promoção turística de países e cidades. Um destino de férias, para ser escolhido, precisa ser conhecido. Para isso, tem de divulgar suas características e seu diferencial, indo ao encontro dos potenciais turistas, de forma espontânea, comunicando-se diretamente com eles. Como afirma Philip Kotler, professor norte-americano e um dos principais nomes do marketing atual, as localidades são produtos cujos valores e identidades “devem ser planejados e promovidos” para evitar a estagnação e o declínio. Num mundo global e competitivo, a comunicação de um território, focalizada nos seus recursos culturais, turísticos e econômicos, fortalece os laços de coesão e motivação internas e define a percepção pública que os “stakeholders” (interessados) e o público externo podem ter sobre esse território. A comunicação é a ferramenta disponível para facilitar e promover a captação de moradores, turistas e investidores – uma tríade fundamental para um lugar sustentável e em desenvolvimento constante.
Da Europa e da América do Norte já chegaram ao Brasil exemplos de comunicação internacional, tendo em conta o potencial da comunicação digital. No Facebook, por exemplo, o governo da França criou a página Turismo na França, escrita em português, com 186 mil seguidores, que promove a cultura e os lugares franceses junto aos potenciais turistas brasileiros, indo ao encontro deles, falando com eles de modo regionalizado, ou seja, como se fosse uma comunicação de brasileiros para brasileiros, criando vínculos e cumplicidades. As autoridades de turismo dos Estados Unidos fizeram o mesmo, com a página Descubra os Estados Unidos da América, seguida por 3,4 milhões de pessoas. Eles já compreenderam as novas regras da comunicação. Vão diretamente ao consumidor.

(Texto publicado na VIAGENS SA, revista de referência para o “trade” turístico do Brasil, nº 27, página 52, Abril de 2014 :: Consulte a edição impressa aqui: http://bit.ly/1jcECE7)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Relações Públicas e Jornalistas. Uma relação difícil


Muito se tem escrito sobre o papel dos agentes de relações públicas no espaço público mediático – profissionais da comunicação que, ao serviço de uma instituição, empresa, organismo ou até pessoas, são, muitas vezes, acusados de “envenenar” os verdadeiros jornalistas, “vendendo-lhes” notícias ou informações que estes últimos não deveriam “comprar”... Verdade? Mentira? Se calhar as duas coisas, pois tudo deve começar no respeito com que uns e outros devem relacionar-se...
Comecemos então. Um agente de relações públicas (RP) pode e deve assumir-se como um informador privilegiado dos jornalistas. Deve ter conhecimento profundo da matéria cuja divulgação pretende, assumindo naturalmente que esse facto não lhe dá o direito de exigir qualquer publicação ou simples divulgação. Por outro lado, o jornalista ao receber informações, documentação, etc., do profissional de RP, não deve nem está a assumir qualquer compromisso em termos de divulgação do conteúdo dessas mesmas informações.
Tudo se pode passar, ao fim e ao cabo, como se uma fronteira invisível atravessasse, embora dividindo, um terreno comum a estes dois profissionais. De um lado o agente de RP, que ao ter conhecimento dos princípios de independência, rigor e objetividade que regem a atividade jornalística, não deve pressionar o jornalista, forçando ou simplesmente sugerindo qualquer publicação.
Do outro, o jornalista, que jamais se deve sentir comprometido por aceitar documentação ou informações, antes reservando-se o direito de as analisar, trabalhar e incluir ou não no seu trabalho final. Que o RP não se sinta melindrado se o jornalista não aproveitar, ou aproveitar pouco o seu material. Que o jornalista não se sinta, “culpado” por exercer as suas opções editoriais chegando à situação limite de recusar a divulgação ou publicação de qualquer matéria.
Qual então o terreno comum aos dois grupos? A informação trabalhada e preparada por um para servir a função do outro? Provavelmente, e uma vez mais se afirma, no total respeito pelas competências e prerrogativas de ambos.
O agente de RP tem, assim, a responsabilidade de produzir ou preparar uma informação que, destinando-se a ser fornecida ao jornalista, jamais poderá conter erros, mentiras, inverdades ou simplesmente ser falaciosa, por assumir dedutivamente algo não provado.
Embora podendo considerar o profissional de RP como uma fonte de informação fidedigna, o jornalista jamais deve assumir como inquestionável o material informativo que recebe das suas mãos. Por outras palavras, a matéria informativa recebida pelo jornalista pode, e se calhar deve, ser confirmada junto de outras fontes estranhas ao primeiro “informador”.
O jornalista pode, assim, encarar o agente de RP como um precioso auxiliar no processo da obtenção da informação. Pode e deve, porque essas são as suas funções, questionar essa mesma informação, procurando complementá-la junto de outras fontes.
O profissional de RP – ou assessor de comunicação – não pode nem deve alimentar expectativas de que a sua informação vá ser aproveitada em todo ou em parte pelo jornalista na sua peça. Mas pode ter fundadas esperanças de que quanto mais correta, factual e organizada estiver a informação que fornece ao jornalista, maiores serão naturalmente as possibilidades dessa mesma informação ser difundida pelo jornalista.
Há em todo este processo um risco que não deve ser escamoteado. O agente de RP serve os múltiplos interesses da entidade que o contratou, e é evidente que o seu trabalho reflete esses mesmos interesses. Ao contrário, o jornalista norteia a sua ação, orientando-a em função do interesse público, ou quando muito no interesse do público. Estes interesses podem entrar em choque, e às vezes dar origem a equívocos que os intervenientes devem ser capazes de amenizar.
É assim frequente encontrarmos relações públicas que entendendo a especificidade do trabalho dos jornalistas, limitam-se não apenas ao papel de fornecedores de informação, mas sobretudo à organização segundo critérios jornalísticos dessa mesma informação.
Trabalhando a montante do jornalista, o agente de RP dá-lhe a total liberdade de escolha da informação a publicar, devendo aceitar implicitamente os resultados dessa escolha. Funcionando o jornalista a jusante do relações públicas, as suas opções editoriais, acabam por ter em conta os seus destinatários: o grande público consumidor do seu trabalho jornalístico.


Pedro Luiz de Castro, 
jornalista 
e professor 
universitário 
:: 
Texto inédito 
enviado pelo autor

A remoção de Mário Crespo


O jornalista Mário Crespo sai da SIC Notícias e o “Jornal das Nove” jamais será o mesmo. Curiosamente, a comunicação da Impresa, de Pinto Balsemão, diz que vai renovar a “oferta informativa em horário nobre”. Como se houvesse horário nobre na televisão atual (embora isso seja tema para outra análise). E como se fosse possível substituir a experiência e a memória do jornalista Mário Crespo – para mim, um dos melhores pivôs de informação da televisão portuguesa, cuja densidade e independência incomodavam os vários poderes políticos. 
Há momentos em que o esforço de comunicação de uma organização se transforma em propaganda barata. A questão é esta: a saída de Mário Crespo significa a remoção da memória na redação da SIC Notícias. E a remoção da memória numa redação é uma perda irreparável. Por muito que se renove a tal oferta informativa. Confira a informação: http://bit.ly/1miIa7Z.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ameaças ao Facebook


A rede social Facebook cresceu, cresceu muito, e transformou-se num espaço muito mal frequentado. Se o senhor Mark Zuckerberg não apostar fortemente na segurança e não conseguir travar a proliferação de vírus que andam por aí – travestidos de pedidos de amizade, mensagens, posts e comentários robotizados –, a maior rede social do mundo corre o risco de cair, como aconteceu com muitas outras que duraram menos tempo. Porque ninguém gosta de frequentar um espaço que representa uma ameaça à nossa segurança.

quinta-feira, 13 de março de 2014

A queda do vinho do Porto no Brasil e a comunicação


O vinho do Porto perdeu 30% do negócio no Brasil em apenas dois anos, anunciou o “Jornal de Negócios”, apontando como motivos barreiras alfandegárias e taxas elevadas. Mas há outras razões. É trágico porque é uma queda que acontece num momento em que os brasileiros despertam para o consumo de vinhos e têm uma oferta internacional cada vez maior. E mesmo custando cinco vezes mais, em média, do que em Portugal, os vinhos portugueses nem são particularmente dos mais caros que podemos ver nas prateleiras dos supermercados brasileiros. A questão é que não são os únicos vinhos do mercado. E até os bons vinhos franceses apostam em comunicação, aparecendo no Brasil com rótulos em língua portuguesa.
Eu acrescento outra razão para a tragédia: falta ao vinho do Porto uma política de comunicação eficaz no Brasil. Em especial uma comunicação que vá ao encontro do consumidor, despertando o seu interesse por um dos melhores vinhos do mundo. O lado bom é que o presidente do Instituto do Vinho do Douro e do Porto, Manuel de Novaes Cabral, com quem já tive o privilégio de falar sobre o assunto, sabe disso.
Num mundo global e competitivo, a comunicação é um elemento fundamental para que um produto possa ir ao encontro dos consumidores, criando neles uma necessidade de consumo. Comunicar com eficácia um vinho num determinado mercado estrangeiro é dar a conhecer esse vinho, mas também a cultura que o envolve e os momentos que convidam ao seu consumo, gerando, assim, envolvimento entre o produto e os possíveis consumidores.
O Vinho do Porto e a Região Demarcada do Douro – que é a região demarcada mais antiga do mundo – reúnem condições para uma comunicação eficaz nos mercados internacionais, que tenha em conta uma visão multidimensional da região e do País, que contribua para o fortalecimento da imagem externa da região duriense, para a captação de consumidores de vinho do Porto, para a atração de enoturistas, assim como de novos investimentos e, por consequência, novas fontes de rendimento para a região duriense, para a Área Metropolitana do Porto e para Portugal.
O Turismo do Vinho é um segmento da atividade turística que se baseia na viagem motivada pela apreciação do sabor e aroma dos vinhos, mas também nas tradições e na cultura das localidades que produzem a bebida. Mais do que apenas "beber" vinho, o enoturista aprecia paisagens, utiliza os equipamentos de gastronomia, hotelaria e diversão, fomentando a economia, designadamente o comércio local e outras prestações de serviços. Uma boa comunicação de um produto com a singularidade do Vinho do Porto tem, portanto, reflexos sobre a percepção pública que os “stakeholders” e os públicos externos podem ter sobre o território produtor.
O aumento do grau de conhecimento sobre o vinho do Porto é fundamental para fazer aumentar o seu consumo no Brasil. No mercado brasileiro, aumentar o conhecimento sobre o vinho do Porto implica ensinar a história, a forma como se bebe, como se aprecia e combina com os diversos tipos de comida. Os vinhos do Porto e do Douro possuem uma multiplicidade de características e de produtos diferenciados que se adequam a muitos momentos de consumo, dos mais solenes aos mais descontraídos, a climas mais quentes ou mais frios – e o mercado brasileiro precisa de ter acesso a esse conhecimento, para saber distinguir entre um vinho do Porto e um vinho argentino, chileno ou francês.
Um bom vinho depende, antes de mais, do território onde é produzido. É por isso que não existe Vinho do Porto que não seja produzido na Região Demarcada do Douro. Por isso, a sua comunicação agrega valor ao produto se tiver em conta não só o vinho, mas também as potencialidades ambientais, turísticas, culturais e económicas da Região Demarcada do Douro. É esse conhecimento que se traduz em percepções positivas junto dos potenciais consumidores que, por sua vez, potenciam o consumo do vinho e, eventualmente, o incremento do turismo e da economia da região produtora do vinho. Neste processo, que é dinâmico, são captados novos consumidores de vinho e novos turistas, enquanto outros se fidelizam.
A rede de hotéis, o Museu do Douro, os passeios de barco no Douro, as quintas e adegas, a gastronomia da região, o comboio histórico, as caves do vinho do Porto, a cultura e as tradições, os centros históricos do Porto e Vila Nova de Gaia, etecetera, são elementos cuja comunicação integrada é susceptível de aumentar nos públicos brasileiros o interesse pelo conhecimento do Norte de Portugal. O que, por consequência, aumenta o interesse e o conhecimento sobre o Vinho do Porto e o seu consumo.
Através da Internet, com uma linguagem adaptada à cultura brasileira, a comunicação pode levar vinho do Porto diretamente aos consumidores brasileiros. Só assim será possível evitar a queda nas vendas e inverter a tendência, para bem da economia portuguesa. E num negócio que, neste momento, vale 3,8 milhões de euros anuais (valor das exportações de vinho do Porto e do Douro para o Brasil em 2013), iria valer a pena o investimento.

domingo, 9 de março de 2014

Impresso ou digital? Prefiro o jornalismo credível


O jornalismo digital é sinónimo de informação instantânea. O pior é que isso, muitas vezes, significa falta de confirmação dos dados junto das fontes e ausência de cruzamento de informações, por alegada falta de tempo. Na Internet a concorrência é ditada ao segundo e ninguém quer perder a corrida desenfreada pela notícia dada antes dos outros. Noutros tempos, antes da rapidez da Internet, quando a concorrência dos jornais impressos tinha, pelo menos, a cadência das 24 horas do dia, a publicação de notícias com base em dados não confirmados era identificada como um exemplo de incompetência profissional de jornalistas, editores e diretores.
Agora, as edições digitais cometem erros grosseiros que, por sua vez, são reproduzidos por outras edições digitais e pelas edições impressas do dia seguinte e, inclusive, nas revistas da semana seguinte. É o descrédito total do jornalismo impresso – que não tem culpa nenhuma dos erros grosseiros cometidos por maus profissionais digitais sem tempo para nada.
É neste contexto que muitas notícias falsas se propagam como vírus tanto nas edições digitais como nas edições impressas, provocando o descrédito do jornalismo e alimentando discussões sobre o fim do jornal impresso e sobre um futuro digital e em rede capaz de resolver os problemas do jornalismo.
Curiosamente, ninguém confessa, mas um jornalismo sem crédito deve interessar muito aos interesses privados que invadiram governos e outras instituições públicas, e invadiram também o espaço público mediático. Quanto menos credível é o jornalismo, mais esses interesses podem medrar.
Mais do que discutir se o jornalismo deve ser impresso ou deve ser digital, importa discutir em que condições é que o jornalismo deve ser feito. A crise de credibilidade no jornalismo contemporâneo é uma questão fundamental. Se a distribuição do jornalismo aos cidadãos é feita em modo digital ou em modo impresso será, a meu ver, uma questão igualmente importante, mas não elementar. A propósito desta reflexão sobre a crise do jornalismo contemporâneo, aconselho a leitura de um texto de Jessica Behrens e João José Forni, no blog “Comunicação & Crise”, sobre o que tem a ver a poluição chinesa com a crise do jornalismo (ver aqui: http://bit.ly/PcHIe3).

sexta-feira, 7 de março de 2014

A “selfie” de Ellen DeGeneres e a nova publicidade


Um bom exemplo do que são as novas formas de fazer publicidade aconteceu na noite dos Óscares – o momento em que a apresentadora Ellen DeGeneres promoveu uma selfie (fotografia tirada a si própria), que correu mundo e foi um fenómeno impressionante de partilha nas redes sociais. A história que apareceu no dia a seguir é curiosa: durante toda a emissão da entrega dos Óscares, Ellen DeGeneres brincou com um telemóvel Samsung Galaxy Note branco que tinha na mão – e foi esse aparelho que ela passou ao actor Bradley Cooper para ele fazer a selfie que correu mundo, ao lado de estrelas como Brad Pitt, Meryl Streep, Kevin Spacey e Jennifer Lawrence, para além da própria DeGeneres, à sua volta. O momento da selfie foi filmado e emitido na transmissão televisiva e lá está bem visível o logo da Samsung. Acontece que a Samsung investiu cerca de 20 milhões de dólares em spots que passaram nos intervalos da transmissão da entrega dos Óscares deste ano e a presença em palco do Galaxy fazia parte do pacote negociado.
Mas a marca não se ficou por aí e preparou a sua presença em ecrã, desde pessoas que o usavam na passadeira vermelha a fazer fotografias e a filmar, até ao momento da selfie. Segundo o "The Wall Street Journal", a selfie terá sido ideia de Ellen DeGeneres, mas a cadeia ABC, detentora dos directos da transmissão e comercialização da publicidade, sugeriu que ela o fizesse com um Samsung Galaxy Note, e responsáveis da Samsung estiveram nos ensaios e ensinar Ellen DeGeneres a familiarizar-se com o aparelho para que, na altura certa, o pudesse utilizar de forma bem visível. Na realidade, a selfie não foi uma coisa espontânea, foi um "product placement" bem pensado e trabalhado que deu enorme retorno à marca coreana. A foto foi "retweetada" quase três milhões de vezes na segunda-feira à tarde e a Samsung chegou a ser mencionada 900 vezes por minuto nas redes sociais durante esse espaço de tempo. É impossível quantificar o valor que isto significa, mas excede em muito aquilo que foi pago pelos spots exibidos nos intervalos da emissão.

Manuel Falcão, “Jornal de Negócios”, 07-03-2014 :: http://bit.ly/1dzeSx8
Obs. – Título da reponsabilidade do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADA

segunda-feira, 3 de março de 2014

Um assessor de imprensa aos pontapés


Quem costuma contactar com Zeca Mendonça, o assessor de imprensa do PSD, que entrou no partido nos tempos da fundação, como segurança de Francisco Sá Carneiro, tem dele a imagem de uma pessoa equilibrada, sensata, afável e minimamente conhecedora do funcionamento dos jornalistas e do sistema mediático. Não é um estratega, mas é um homem do terreno atento aos detalhes, sempre disponível para ajudar os jornalistas no cumprimento do seu trabalho.
Sendo talvez o assessor de imprensa há mais tempo em funções em Portugal, o veterano Zeca Mendonça é, aliás, uma referência do PSD. Por isso, o seu pontapé num fotojornalista não é um pontapé qualquer. Ainda me lembro do célebre congresso do PSD que ditou a sucessão de Cavaco Silva e do momento em que Luís Filipe Menezes, então presidente da poderosa Comissão Política Distrital do Porto, com o discurso contra os “sulistas, elitistas e liberais”, causou desordem na reunião, tendo bastado um olhar do líder Cavaco para que Zeca Mendonça assomasse ao púlpito e dissesse que Cavaco Silva pedia ordem aos congressistas, começando toda a gente a gritar pelo PSD, devolvendo, assim, a ordem ao conclave.
Duas décadas depois, somos surpreendidos pelo mesmo Zeca Mendonça a pontapear um fotojornalista nos corredores de um conselho nacional do PSD, onde havia, realmente, interesse jornalístico em fotografar o seu novo presidente, o regressado Miguel Relvas (assista ao vídeo aqui: http://bit.ly/1coRcxf).
Entre 1995 e 2014 são duas imagens distintas da mesma pessoa. Aparentemente, foi Zeca Mendonça que mudou para pior, perdendo as estribeiras e reagindo sem senso e sem inteligência – ignorando que estava a ser filmado pelas costas e que, actualmente, tudo o que acontece no espaço público fica registado e pode ser amplamente difundido sem controlo por meios de comunicação tradicionais ou digitais, como aconteceu. E ainda bem, em nome da transparência e do direito que temos à informação.
Infelizmente, Zeca Mendonça abordou o fotojornalista ao pontapé, com o ímpeto de quem queria mesmo partir a perna ao adversário. Um método próprio de intolerantes, que não convivem bem com a democracia e com a diferença, e que, portanto, não suportam jornalistas. Mas o seu pontapé também pode ser visto como uma metáfora da acção governativa contra os bolsos dos portugueses, enquanto o Estado continua a viver gordo como sempre viveu, tendo eliminado apenas umas juntas de freguesia para disfarçar.
O que é extraordinário é que a reacção brutal do assessor do PSD foi motivada por uma simples fotografia, que o repórter fez e, ao que parece, não deveria ter feito. E que mal teria a fotografia de Miguel Relvas que o fotojornalista queria mostrar ao público através dos meios de comunicação para quem trabalha? Não teria mal nenhum, evidentemente. O assessor quis proteger Miguel Relvas de quê? É por isso que tenho enorme dificuldade em entender este triste episódio fora de um clima de desespero e desnorte total da comunicação do PSD.