quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Controlinveste e os jornalistas despedidos

A Controlinveste, um dos maiores grupos portugueses de comunicação, anunciou o despedimento de 160 trabalhadores na rádio TSF e nos jornais “Diário de Notícias”, “Jornal de Notícias” e “O Jogo” (ver aqui: http://bit.ly/1kQP17B), entre os quais 65 jornalistas.
No “Jornal da Tarde” da RTP1 vi o jornalista João Paulo Baltazar a revelar que é despedido da TSF por auferir um salário elevado. Ora, excelente profissional da informação e do tratamento da informação em direto, como se exige numa rádio de notícias, João Paulo Baltazar, que estará no auge da sua carreira profissional, é uma das grandes vozes que restavam dos primórdios da TSF  quando a emissora de rádio era de notícias (ver aqui: http://bit.ly/1qzSmZ8). 
O seu despedimento traz custos para a TSF daqui para a frente. E não me refiro à eventual indemnização a pagar. São outros custos, porém, não estão inscritos na cartilha dos gestores de pacotilha, que é basicamente igual em todo o lado, seja nos governos, seja nas empresas. Gestores que cuidam de segurar os seus lugares, e os lugares dos mais próximos, sem soluções para contrariar o abismo que os circunda, gerindo empresas de comunicação como quem gere fábricas de salsichas – sem desconsideração, obviamente, para este ramo da indústria alimentar, que exige, também ele, conhecimentos específicos.
Estes gestores pensam com a máquina de calcular e não percebem que ter o jornalista João Paulo Baltazar a narrar as notícias da manhã é diferente do que ter outra voz e outro cérebro, com outra relação com os ouvintes, com outra cultura e outra memória. Estes gestores, que fazem comunicados de despedimento tratando as vítimas por “caros colegas”, não sabem o que é a cultura e a identidade de uma organização jornalística. E depois querem audiências e bons resultados de gestão. É a verdadeira quadratura do círculo!...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A “Dica da Semana” e o futuro do jornalismo


A “Dica da Semana” é o jornal de variedades da cadeia de supermercados alemã Lidl. Na edição de 5 de junho de 2014, uma entrevista à apresentadora de televisão Bárbara Guimarães, que confessa estar transformada numa mulher “mais confiante”, é o tema de capa e das páginas centrais, presumivelmente os espaços editoriais mais importantes. No meio, como suplemento, a publicação traz um catálogo com preços e promoções, num formato estrategicamente maior que o da “Dica da Semana”, talvez para que possamos ver o logótipo do Lidl depois do jornal dobrado. Isto é o marketing de conteúdo impresso aplicado à comunicação dos supermercados. Uma comunicação que incorpora de forma híbrida diversas componentes outrora muito definidas. Nesta publicação temos jornalismo, marketing, relações públicas e publicidade. Esta é uma tendência global da comunicação das marcas, invadindo cada vez mais territórios que, no passado, eram exclusivos do jornalismo.
Na “Dica da Semana” nada é deixado ao acaso. Com uma distribuição gratuita nos supermercados e em casa dos consumidores, o jornal está tão bem organizado do ponto de vista editorial que até já tem edições regionais! Na imagem, por exemplo, podemos ver a edição “Bragança, Chaves, Minho” – regiões do Norte de Portugal. Uma organização assim era suposto pertencer ao universo dos jornais administrados por empresas jornalísticas. Mas é de uma rede de supermercados que estamos a falar. Isto indica-nos uma nova dimensão do jornalismo do futuro: o “jornalismo de marcas”, ou “brand journalism”, em inglês.
A ideia faz levantar os cabelos de muitos jornalistas profissionais, pois recoloca na agenda a velha questão da fronteira entre o marketing e a informação. Uma mistura entre os dois campos parece, no entanto, ser um caminho sem retorno, que tem as suas bases na evolução do próprio marketing. É que os consumidores exigem, cada vez mais, que as marcas sejam verdadeiras e transparentes. Ora, nada melhor do que produzir conteúdos sérios para demonstrar a verdade e a transparência como valores das marcas. Mas isto ainda só está no começo.
Um grupo de especialistas de marketing reunidos em Miami, em 2012, abriu a polémica. Saber se os agentes de relações públicas estão preparados para se transformarem em jornalistas de marcas foi justamente um dos temas principais da agenda de debates. “Quando os profissionais do marketing e relações públicas defendem o jornalismo de marcas eles estão refletindo uma nova postura das empresas, agora preocupadas em desenvolver uma imagem social para contrabalançar os efeitos negativos da preocupação exclusiva com o lucro corporativo. Esta é uma tendência generalizada entre as grandes e médias corporações, principalmente as que já têm um pé fincado no comércio eletrônico”, considera o jornalista Carlos Castilho, que escreveu para no portal do Observatório de Imprensa do Brasil justamente sobre o “jornalismo de marcas" como “a nova estratégia de relações públicas” (ver aqui: http://bit.ly/1kuVnJr).
A análise de Carlos Castilho, que é professor e analista de meios de comunicação, vai ao encontro das dúvidas que hoje invadem as redações jornalísticas um pouco por todo o mundo e que põem em causa o jornalismo como o conhecemos no século XX: “Hoje já não dá mais para ser tão enfático na afirmação de que os jornalistas defendem os interesses do leitor, porque já é muito difícil dizer quais são os interesses de quem compra jornal dada a enorme diversidade de necessidades e desejos. Também já não é mais possível dizer que os jornalistas defendem os interesses do público, porque a agenda da imprensa está condicionada pelos interesses das empresas jornalísticas, o que não é segredo para ninguém.”
Outra observação importante, do mesmo especialista: “A diferença entre o jornalismo profissional e o de marcas está cada vez menos no produto final e mais no tratamento da informação e da notícia. O jornalista, seja ele funcionário de uma empresa jornalística, um ‘free lancer’ ou até mesmo um praticante (não profissional), começa a tomar consciência de que a notícia está deixando de ser uma ‘commodity’ — porque perde gradualmente todo o seu valor comercial por conta do excesso de oferta informativa gerado pela Internet — para se tornar um dos fatores de produção de conhecimento.”
Com as marcas a produzir e difundir conteúdos informativos, o que será da informação de interesse público, aquela informação que não interessa às marcas, como é o caso da informação política ou da informação sobre os problemas de uma comunidade urbana, da educação ou da justiça? Fica a questão. Uma coisa é certa: o jornalismo profissional precisa de um debate sobre o seu futuro para encontrar o caminho certo.