quarta-feira, 26 de março de 2014

TSF e SIC. As memórias de Emídio Rangel


Em finais da década de 1980, a estação de rádio TSF deu a voz às pessoas comuns e às organizações da sociedade portuguesa e mudou os tempos da informação com o seu jornalismo em directo. E isso contribuiu decisivamente para consolidar a democracia em Portugal, cerca de 15 anos depois da revolução de 25 de Abril de 1974. 
Independentemente da história do berbequim, como metáfora dos exageros cometidos na luta pelas audiências televisivas nos tempos de afirmação da SIC, Emídio Rangel fica na história como o homem que mudou a rádio e a televisão em Portugal. Como eu já escrevi neste blog, a TSF revolucionou a forma de fazer rádio e jornalismo de um modo tão intenso que influenciou também os meios de comunicação escrita da época (ver aqui: http://bit.ly/1g0of5A). 
Na passagem dos 40 anos da revolução, o jornal “i” foi ouvir Emídio Rangel, o fundador da TSF e, mais tarde, da SIC – dois projectos de comunicação que também mudaram Portugal.  É uma entrevista de memória que considero um documento importante porque ajudará a fazer a história da rádio e da televisão em Portugal. Eis as passagens mais significativas:

“Eu notava que, [na década de 1970], a rádio em Angola estava mais avançada. Nós já fazíamos reportagens em todo o mundo, e aqui não era normal. Nós íamos com a rádio angolana a todos os sítios onde aconteciam coisas. Para nós as notícias tinham uma dimensão global: a rádio era um mundo que se debruçava sobre todo o planeta. Lembro-me que na rádio do Lubango cobrimos os Jogos Olímpicos de Munique. Aqui não havia essa cultura, nem esses hábitos. O perfil da emissão que produzíamos era completamente diferente.”

“A RDP [Rádio Difusão Portuguesa] não reconhecia a iniciativa das pessoas, era uma estrutura muito pesada, manietada pelos sucessivos governos. Comecei a pensar que Portugal não podia continuar a viver com uma emissora do Estado e outra da Igreja. Era necessário libertar a rádio, fazer um combate para que fosse possível criar novas emissoras. Depois do boom das rádios piratas concorremos a uma frequência e ganhamos uma local. Foi uma batalha que durou mais de seis anos, para conseguirmos que isso fosse possível e termos condições para fazer a TSF.”

“Deram-nos apenas uma frequência local, quando éramos uma emissora que privilegiava a informação. Houve uma clara manipulação política do concurso, aos governos da altura não interessava uma rádio independente do ponto de vista informativo, preferiam outro tipo de projectos menos dedicados a fazer informação. Aqui ganhou o ‘Correio da Manhã’, no Norte ganhou a Lusomundo [Rádio Press]. Decidiram a solução que lhes dava mais tranquilidade e segurança.”

“Nós não aceitámos essas limitações. Passamos a fazer as coisas de uma maneira diferente. Não aceitávamos o "Portugal sentado" da agenda dos outros órgãos de comunicação social. Queríamos dar voz às pessoas. Ter gente dentro das nossas notícias. A informação que havia era uma informação cheia de hierarquias e muito respeitinho: primeiro apareciam as notícias do Presidente da República, depois eram as do primeiro-ministro, e a cadeia alimentar seguia com ministros, secretários de Estado, deputados, presidentes de câmara até aos chefes de repartição. Nós introduzimos uma pequena revolução: abríamos jornais com o que fosse importante. Tanto podíamos abrir com uma greve como com desporto. Isto era para muita gente um crime de lesa-pátria.”

“Sentíamos pressões. Quando passámos a fazer emissões diárias e a nossa voz passou a ter importância, começámos a contar. Até porque depressa passámos a atingir um conjunto de classes informadas e decisivas: a classe média alta, os quadros técnicos, os estudantes do ensino superior. Nada daquilo que fazíamos era indiferente. Tudo causava perturbação. Uma vez soubemos que tinha chegado um barco com sete pessoas negras refugiadas. No porto de Lisboa as entidades oficiais recusavam-se a recebê-los e disseram ao comandante do barco: "faça o senhor o que quiser". Estavam num contentor em condições infra-humanas. Resolvemos fazer a emissão 24 horas sobre 24 horas a partir de lá. Até que eles desistissem de se desresponsabilizar da situação dessas pessoas. Eles deixaram de ser tratados como animais para a passarem a ser tratados como seres humanos.”

“A cobertura do incêndio do Chiado foi porventura outro dos momentos simbólicos do nosso trabalho. O que se pretendia é que nós não emitíssemos em directo. A informação na altura era muito controlada, mas nós dinamitávamos isso, e pelo facto de estarmos em directo as coisas não podiam ser menorizadas, e também obrigava todos os outros operadores a seguirem-nos o exemplo. Isso aconteceu também com o aparecimento da SIC e com o ‘buzinão’ na Ponte 25 de Abril. Caso a informação não governamental não existisse, a repercussão mediática de um enorme acontecimento seria provavelmente muito diferente. Estes directos dinamitavam qualquer controlo informativo. Marcávamos a agenda.”

“Fui convidado pelo Dr. Pinto Balsemão [para dirigir o canal de televisão SIC], e na altura fiz o convite aos meus camaradas da TSF, que me aconselharam a aceitar. Era um novo desafio, mas também poderia ajudar a rádio, porque se eu não estivesse à frente do novo canal a sangria de profissionais podia ser maior. Nós tínhamos o tom certo da informação que se pretendia e qualquer novo operador iria buscar muitos dos nossos jornalistas. Eu próprio fui buscar alguma gente da TSF para o desafio da SIC, mas não foi uma hemorragia, não foi 80% a 90%, com seria previsível.”

“Estudei muito a televisão, por gosto pessoal. Não tinha muito a experiência, mas tinha muitas ideias de como era a televisão e como se devia agir nesse meio. Não era uma pessoa sem experiência. Acresce que tinha a ideia firme do ritmo e daquilo que se tinha de fazer em termos jornalísticos. O convite inicial era para director de informação, mas com a saída da Maria Elisa do projecto assumi também a direcção de programas, em televisão faz sentido abarcar a totalidade das responsabilidades editoriais num meio. Uma televisão não se limita a dar entretenimento nem a informar. As coisas não são totalmente estanques, tem de haver uma lógica comum. Eu tinha uma grande experiência na TSF daquilo que devia ser a mudança da informação na televisão. No fundo a lógica era a mesma: acabar com o Portugal sentado, com a informação burocrática e hierarquizada pelo respeitinho cego. Tínhamos como dever chegar aos locais em que a notícia acontecia: quer fosse uma aldeia, quer fosse uma grande cimeira internacional. Dar visibilidade mediática às pessoas e ao povo. Aproximar a televisão, a sua informação e programação, das pessoas. Na altura só apareciam na televisão as pessoas poderosas. Era necessário democratizar a televisão.”

“Nós queríamos fazer uma televisão que chegasse ao maior número de pessoas, essa era a condição de sobrevivência da SIC. Para atingir a maior parte da população era necessário que não houvesse nenhum complexo elitista em relação ao entretenimento, dar às pessoas aquilo que elas no fundo pretendiam e em termos informativos que fosse uma estação muito criteriosa e rigorosa. Não víamos nenhuma contradição nisso.”

“A SIC podia ter [o ‘Big Brother’] em exclusivo, mas eu considerei que aquele formato não era realizável no modelo da SIC. Nós devíamos ter comprado para pormos na gaveta e ganharmos algum tempo para poder arranjar alguma coisa que pudesse contrabalançar isso. Para mim, o "Big Brother" não era exibível na SIC porque afectaria a credibilidade do resto da estação. Mas os meus argumentos não foram ouvidos pelo Dr. Francisco Balsemão, isso implicava um milhão, mas os accionistas da SIC só viam os dividendos. E essa cegueira levou-nos a largar mão desse expediente e a perder a liderança, com custos acrescidos para os accionistas.”

“[Se voltasse atrás], teria feito exactamente a mesma coisa. Adivinhava-se o sucesso do "Big Brother", mas aquilo era fazer caminho para trás. Quando a SIC começou foi tendo formatos populares, simples e baratos, mas depois foi sempre melhorando de qualidade e complexidade, e quando estava numa fase não se admitia voltar com tudo atrás em termos de relação com o espectador.”

“Considerado em termos globais, acho que, [na comunicação social em Portugal], se conseguiu manter uma informação e um jornalismo televisivo actuante e isento. Onde eu acho que há uma regressão é nos jornais. Menos pluralismo. E há o domínio de uma imprensa sensacionalista que publica coisas sem respeitar o mínimo dos códigos deontológicos. Não olha a meios para atingir fins.”

“Os portugueses têm de estar felizes pelo 25 de Abril. Temos democracia. Podia ser melhor, mas não há caminho sem democracia. Mesmo para melhorarmos muito o que temos. Nos últimos anos há algumas coisas preocupantes, como a falta de respeito total pelas pessoas durante esta crise. Mas o seu combate exige sempre mais democracia e um melhor jornalismo.”

Emídio Rangel, fundador e primeiro diretor da TSF e da SIC, entrevistado por Nuno Ramos de Almeida, jornal “i”, 25-03-2014 :: Texto integral no link: http://bit.ly/1l3Ctba

sexta-feira, 21 de março de 2014

As novas regras da comunicação no turismo


NOVOS TEMPOS / DIRETO AO PONTO

Por Luís Paulo Rodrigues

O mundo digital trouxe desafios e novidades ao mercado de viagens.Hoje, a comunicação tem novas regras, como a criação de vínculos ou cumplicidade, para atrair o consumidor.

As viagens e a comunicação se integram. A democratização da Internet e a conexão das pessoas em redes de troca e partilha de informação trouxeram novos desafios ao tradicional agente de viagens. Antigamente, o destino das férias era escolhido tendo em conta a opinião do agente de viagens, que assim condicionava as escolhas. Agora, o turista do século 21 – ou da sociedade da informação e do conhecimento –, que segue a pauta dos meios de comunicação e está na rede, planeja suas férias ou visitas turísticas e pode inclusive fazer tudo online: escolher o destino, a hospedagem e comprar a passagem aérea.
É um mundo novo, desafiante para o agente de viagens e para as organizações de promoção turística de países e cidades. Um destino de férias, para ser escolhido, precisa ser conhecido. Para isso, tem de divulgar suas características e seu diferencial, indo ao encontro dos potenciais turistas, de forma espontânea, comunicando-se diretamente com eles. Como afirma Philip Kotler, professor norte-americano e um dos principais nomes do marketing atual, as localidades são produtos cujos valores e identidades “devem ser planejados e promovidos” para evitar a estagnação e o declínio. Num mundo global e competitivo, a comunicação de um território, focalizada nos seus recursos culturais, turísticos e econômicos, fortalece os laços de coesão e motivação internas e define a percepção pública que os “stakeholders” (interessados) e o público externo podem ter sobre esse território. A comunicação é a ferramenta disponível para facilitar e promover a captação de moradores, turistas e investidores – uma tríade fundamental para um lugar sustentável e em desenvolvimento constante.
Da Europa e da América do Norte já chegaram ao Brasil exemplos de comunicação internacional, tendo em conta o potencial da comunicação digital. No Facebook, por exemplo, o governo da França criou a página Turismo na França, escrita em português, com 186 mil seguidores, que promove a cultura e os lugares franceses junto aos potenciais turistas brasileiros, indo ao encontro deles, falando com eles de modo regionalizado, ou seja, como se fosse uma comunicação de brasileiros para brasileiros, criando vínculos e cumplicidades. As autoridades de turismo dos Estados Unidos fizeram o mesmo, com a página Descubra os Estados Unidos da América, seguida por 3,4 milhões de pessoas. Eles já compreenderam as novas regras da comunicação. Vão diretamente ao consumidor.

(Texto publicado na VIAGENS SA, revista de referência para o “trade” turístico do Brasil, nº 27, página 52, Abril de 2014 :: Consulte a edição impressa aqui: http://bit.ly/1jcECE7)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Relações Públicas e Jornalistas. Uma relação difícil


Muito se tem escrito sobre o papel dos agentes de relações públicas no espaço público mediático – profissionais da comunicação que, ao serviço de uma instituição, empresa, organismo ou até pessoas, são, muitas vezes, acusados de “envenenar” os verdadeiros jornalistas, “vendendo-lhes” notícias ou informações que estes últimos não deveriam “comprar”... Verdade? Mentira? Se calhar as duas coisas, pois tudo deve começar no respeito com que uns e outros devem relacionar-se...
Comecemos então. Um agente de relações públicas (RP) pode e deve assumir-se como um informador privilegiado dos jornalistas. Deve ter conhecimento profundo da matéria cuja divulgação pretende, assumindo naturalmente que esse facto não lhe dá o direito de exigir qualquer publicação ou simples divulgação. Por outro lado, o jornalista ao receber informações, documentação, etc., do profissional de RP, não deve nem está a assumir qualquer compromisso em termos de divulgação do conteúdo dessas mesmas informações.
Tudo se pode passar, ao fim e ao cabo, como se uma fronteira invisível atravessasse, embora dividindo, um terreno comum a estes dois profissionais. De um lado o agente de RP, que ao ter conhecimento dos princípios de independência, rigor e objetividade que regem a atividade jornalística, não deve pressionar o jornalista, forçando ou simplesmente sugerindo qualquer publicação.
Do outro, o jornalista, que jamais se deve sentir comprometido por aceitar documentação ou informações, antes reservando-se o direito de as analisar, trabalhar e incluir ou não no seu trabalho final. Que o RP não se sinta melindrado se o jornalista não aproveitar, ou aproveitar pouco o seu material. Que o jornalista não se sinta, “culpado” por exercer as suas opções editoriais chegando à situação limite de recusar a divulgação ou publicação de qualquer matéria.
Qual então o terreno comum aos dois grupos? A informação trabalhada e preparada por um para servir a função do outro? Provavelmente, e uma vez mais se afirma, no total respeito pelas competências e prerrogativas de ambos.
O agente de RP tem, assim, a responsabilidade de produzir ou preparar uma informação que, destinando-se a ser fornecida ao jornalista, jamais poderá conter erros, mentiras, inverdades ou simplesmente ser falaciosa, por assumir dedutivamente algo não provado.
Embora podendo considerar o profissional de RP como uma fonte de informação fidedigna, o jornalista jamais deve assumir como inquestionável o material informativo que recebe das suas mãos. Por outras palavras, a matéria informativa recebida pelo jornalista pode, e se calhar deve, ser confirmada junto de outras fontes estranhas ao primeiro “informador”.
O jornalista pode, assim, encarar o agente de RP como um precioso auxiliar no processo da obtenção da informação. Pode e deve, porque essas são as suas funções, questionar essa mesma informação, procurando complementá-la junto de outras fontes.
O profissional de RP – ou assessor de comunicação – não pode nem deve alimentar expectativas de que a sua informação vá ser aproveitada em todo ou em parte pelo jornalista na sua peça. Mas pode ter fundadas esperanças de que quanto mais correta, factual e organizada estiver a informação que fornece ao jornalista, maiores serão naturalmente as possibilidades dessa mesma informação ser difundida pelo jornalista.
Há em todo este processo um risco que não deve ser escamoteado. O agente de RP serve os múltiplos interesses da entidade que o contratou, e é evidente que o seu trabalho reflete esses mesmos interesses. Ao contrário, o jornalista norteia a sua ação, orientando-a em função do interesse público, ou quando muito no interesse do público. Estes interesses podem entrar em choque, e às vezes dar origem a equívocos que os intervenientes devem ser capazes de amenizar.
É assim frequente encontrarmos relações públicas que entendendo a especificidade do trabalho dos jornalistas, limitam-se não apenas ao papel de fornecedores de informação, mas sobretudo à organização segundo critérios jornalísticos dessa mesma informação.
Trabalhando a montante do jornalista, o agente de RP dá-lhe a total liberdade de escolha da informação a publicar, devendo aceitar implicitamente os resultados dessa escolha. Funcionando o jornalista a jusante do relações públicas, as suas opções editoriais, acabam por ter em conta os seus destinatários: o grande público consumidor do seu trabalho jornalístico.


Pedro Luiz de Castro, 
jornalista 
e professor 
universitário 
:: 
Texto inédito 
enviado pelo autor

A remoção de Mário Crespo


O jornalista Mário Crespo sai da SIC Notícias e o “Jornal das Nove” jamais será o mesmo. Curiosamente, a comunicação da Impresa, de Pinto Balsemão, diz que vai renovar a “oferta informativa em horário nobre”. Como se houvesse horário nobre na televisão atual (embora isso seja tema para outra análise). E como se fosse possível substituir a experiência e a memória do jornalista Mário Crespo – para mim, um dos melhores pivôs de informação da televisão portuguesa, cuja densidade e independência incomodavam os vários poderes políticos. 
Há momentos em que o esforço de comunicação de uma organização se transforma em propaganda barata. A questão é esta: a saída de Mário Crespo significa a remoção da memória na redação da SIC Notícias. E a remoção da memória numa redação é uma perda irreparável. Por muito que se renove a tal oferta informativa. Confira a informação: http://bit.ly/1miIa7Z.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ameaças ao Facebook


A rede social Facebook cresceu, cresceu muito, e transformou-se num espaço muito mal frequentado. Se o senhor Mark Zuckerberg não apostar fortemente na segurança e não conseguir travar a proliferação de vírus que andam por aí – travestidos de pedidos de amizade, mensagens, posts e comentários robotizados –, a maior rede social do mundo corre o risco de cair, como aconteceu com muitas outras que duraram menos tempo. Porque ninguém gosta de frequentar um espaço que representa uma ameaça à nossa segurança.

quinta-feira, 13 de março de 2014

A queda do vinho do Porto no Brasil e a comunicação


O vinho do Porto perdeu 30% do negócio no Brasil em apenas dois anos, anunciou o “Jornal de Negócios”, apontando como motivos barreiras alfandegárias e taxas elevadas. Mas há outras razões. É trágico porque é uma queda que acontece num momento em que os brasileiros despertam para o consumo de vinhos e têm uma oferta internacional cada vez maior. E mesmo custando cinco vezes mais, em média, do que em Portugal, os vinhos portugueses nem são particularmente dos mais caros que podemos ver nas prateleiras dos supermercados brasileiros. A questão é que não são os únicos vinhos do mercado. E até os bons vinhos franceses apostam em comunicação, aparecendo no Brasil com rótulos em língua portuguesa.
Eu acrescento outra razão para a tragédia: falta ao vinho do Porto uma política de comunicação eficaz no Brasil. Em especial uma comunicação que vá ao encontro do consumidor, despertando o seu interesse por um dos melhores vinhos do mundo. O lado bom é que o presidente do Instituto do Vinho do Douro e do Porto, Manuel de Novaes Cabral, com quem já tive o privilégio de falar sobre o assunto, sabe disso.
Num mundo global e competitivo, a comunicação é um elemento fundamental para que um produto possa ir ao encontro dos consumidores, criando neles uma necessidade de consumo. Comunicar com eficácia um vinho num determinado mercado estrangeiro é dar a conhecer esse vinho, mas também a cultura que o envolve e os momentos que convidam ao seu consumo, gerando, assim, envolvimento entre o produto e os possíveis consumidores.
O Vinho do Porto e a Região Demarcada do Douro – que é a região demarcada mais antiga do mundo – reúnem condições para uma comunicação eficaz nos mercados internacionais, que tenha em conta uma visão multidimensional da região e do País, que contribua para o fortalecimento da imagem externa da região duriense, para a captação de consumidores de vinho do Porto, para a atração de enoturistas, assim como de novos investimentos e, por consequência, novas fontes de rendimento para a região duriense, para a Área Metropolitana do Porto e para Portugal.
O Turismo do Vinho é um segmento da atividade turística que se baseia na viagem motivada pela apreciação do sabor e aroma dos vinhos, mas também nas tradições e na cultura das localidades que produzem a bebida. Mais do que apenas "beber" vinho, o enoturista aprecia paisagens, utiliza os equipamentos de gastronomia, hotelaria e diversão, fomentando a economia, designadamente o comércio local e outras prestações de serviços. Uma boa comunicação de um produto com a singularidade do Vinho do Porto tem, portanto, reflexos sobre a percepção pública que os “stakeholders” e os públicos externos podem ter sobre o território produtor.
O aumento do grau de conhecimento sobre o vinho do Porto é fundamental para fazer aumentar o seu consumo no Brasil. No mercado brasileiro, aumentar o conhecimento sobre o vinho do Porto implica ensinar a história, a forma como se bebe, como se aprecia e combina com os diversos tipos de comida. Os vinhos do Porto e do Douro possuem uma multiplicidade de características e de produtos diferenciados que se adequam a muitos momentos de consumo, dos mais solenes aos mais descontraídos, a climas mais quentes ou mais frios – e o mercado brasileiro precisa de ter acesso a esse conhecimento, para saber distinguir entre um vinho do Porto e um vinho argentino, chileno ou francês.
Um bom vinho depende, antes de mais, do território onde é produzido. É por isso que não existe Vinho do Porto que não seja produzido na Região Demarcada do Douro. Por isso, a sua comunicação agrega valor ao produto se tiver em conta não só o vinho, mas também as potencialidades ambientais, turísticas, culturais e económicas da Região Demarcada do Douro. É esse conhecimento que se traduz em percepções positivas junto dos potenciais consumidores que, por sua vez, potenciam o consumo do vinho e, eventualmente, o incremento do turismo e da economia da região produtora do vinho. Neste processo, que é dinâmico, são captados novos consumidores de vinho e novos turistas, enquanto outros se fidelizam.
A rede de hotéis, o Museu do Douro, os passeios de barco no Douro, as quintas e adegas, a gastronomia da região, o comboio histórico, as caves do vinho do Porto, a cultura e as tradições, os centros históricos do Porto e Vila Nova de Gaia, etecetera, são elementos cuja comunicação integrada é susceptível de aumentar nos públicos brasileiros o interesse pelo conhecimento do Norte de Portugal. O que, por consequência, aumenta o interesse e o conhecimento sobre o Vinho do Porto e o seu consumo.
Através da Internet, com uma linguagem adaptada à cultura brasileira, a comunicação pode levar vinho do Porto diretamente aos consumidores brasileiros. Só assim será possível evitar a queda nas vendas e inverter a tendência, para bem da economia portuguesa. E num negócio que, neste momento, vale 3,8 milhões de euros anuais (valor das exportações de vinho do Porto e do Douro para o Brasil em 2013), iria valer a pena o investimento.

domingo, 9 de março de 2014

Impresso ou digital? Prefiro o jornalismo credível


O jornalismo digital é sinónimo de informação instantânea. O pior é que isso, muitas vezes, significa falta de confirmação dos dados junto das fontes e ausência de cruzamento de informações, por alegada falta de tempo. Na Internet a concorrência é ditada ao segundo e ninguém quer perder a corrida desenfreada pela notícia dada antes dos outros. Noutros tempos, antes da rapidez da Internet, quando a concorrência dos jornais impressos tinha, pelo menos, a cadência das 24 horas do dia, a publicação de notícias com base em dados não confirmados era identificada como um exemplo de incompetência profissional de jornalistas, editores e diretores.
Agora, as edições digitais cometem erros grosseiros que, por sua vez, são reproduzidos por outras edições digitais e pelas edições impressas do dia seguinte e, inclusive, nas revistas da semana seguinte. É o descrédito total do jornalismo impresso – que não tem culpa nenhuma dos erros grosseiros cometidos por maus profissionais digitais sem tempo para nada.
É neste contexto que muitas notícias falsas se propagam como vírus tanto nas edições digitais como nas edições impressas, provocando o descrédito do jornalismo e alimentando discussões sobre o fim do jornal impresso e sobre um futuro digital e em rede capaz de resolver os problemas do jornalismo.
Curiosamente, ninguém confessa, mas um jornalismo sem crédito deve interessar muito aos interesses privados que invadiram governos e outras instituições públicas, e invadiram também o espaço público mediático. Quanto menos credível é o jornalismo, mais esses interesses podem medrar.
Mais do que discutir se o jornalismo deve ser impresso ou deve ser digital, importa discutir em que condições é que o jornalismo deve ser feito. A crise de credibilidade no jornalismo contemporâneo é uma questão fundamental. Se a distribuição do jornalismo aos cidadãos é feita em modo digital ou em modo impresso será, a meu ver, uma questão igualmente importante, mas não elementar. A propósito desta reflexão sobre a crise do jornalismo contemporâneo, aconselho a leitura de um texto de Jessica Behrens e João José Forni, no blog “Comunicação & Crise”, sobre o que tem a ver a poluição chinesa com a crise do jornalismo (ver aqui: http://bit.ly/PcHIe3).

sexta-feira, 7 de março de 2014

A “selfie” de Ellen DeGeneres e a nova publicidade


Um bom exemplo do que são as novas formas de fazer publicidade aconteceu na noite dos Óscares – o momento em que a apresentadora Ellen DeGeneres promoveu uma selfie (fotografia tirada a si própria), que correu mundo e foi um fenómeno impressionante de partilha nas redes sociais. A história que apareceu no dia a seguir é curiosa: durante toda a emissão da entrega dos Óscares, Ellen DeGeneres brincou com um telemóvel Samsung Galaxy Note branco que tinha na mão – e foi esse aparelho que ela passou ao actor Bradley Cooper para ele fazer a selfie que correu mundo, ao lado de estrelas como Brad Pitt, Meryl Streep, Kevin Spacey e Jennifer Lawrence, para além da própria DeGeneres, à sua volta. O momento da selfie foi filmado e emitido na transmissão televisiva e lá está bem visível o logo da Samsung. Acontece que a Samsung investiu cerca de 20 milhões de dólares em spots que passaram nos intervalos da transmissão da entrega dos Óscares deste ano e a presença em palco do Galaxy fazia parte do pacote negociado.
Mas a marca não se ficou por aí e preparou a sua presença em ecrã, desde pessoas que o usavam na passadeira vermelha a fazer fotografias e a filmar, até ao momento da selfie. Segundo o "The Wall Street Journal", a selfie terá sido ideia de Ellen DeGeneres, mas a cadeia ABC, detentora dos directos da transmissão e comercialização da publicidade, sugeriu que ela o fizesse com um Samsung Galaxy Note, e responsáveis da Samsung estiveram nos ensaios e ensinar Ellen DeGeneres a familiarizar-se com o aparelho para que, na altura certa, o pudesse utilizar de forma bem visível. Na realidade, a selfie não foi uma coisa espontânea, foi um "product placement" bem pensado e trabalhado que deu enorme retorno à marca coreana. A foto foi "retweetada" quase três milhões de vezes na segunda-feira à tarde e a Samsung chegou a ser mencionada 900 vezes por minuto nas redes sociais durante esse espaço de tempo. É impossível quantificar o valor que isto significa, mas excede em muito aquilo que foi pago pelos spots exibidos nos intervalos da emissão.

Manuel Falcão, “Jornal de Negócios”, 07-03-2014 :: http://bit.ly/1dzeSx8
Obs. – Título da reponsabilidade do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADA

segunda-feira, 3 de março de 2014

Um assessor de imprensa aos pontapés


Quem costuma contactar com Zeca Mendonça, o assessor de imprensa do PSD, que entrou no partido nos tempos da fundação, como segurança de Francisco Sá Carneiro, tem dele a imagem de uma pessoa equilibrada, sensata, afável e minimamente conhecedora do funcionamento dos jornalistas e do sistema mediático. Não é um estratega, mas é um homem do terreno atento aos detalhes, sempre disponível para ajudar os jornalistas no cumprimento do seu trabalho.
Sendo talvez o assessor de imprensa há mais tempo em funções em Portugal, o veterano Zeca Mendonça é, aliás, uma referência do PSD. Por isso, o seu pontapé num fotojornalista não é um pontapé qualquer. Ainda me lembro do célebre congresso do PSD que ditou a sucessão de Cavaco Silva e do momento em que Luís Filipe Menezes, então presidente da poderosa Comissão Política Distrital do Porto, com o discurso contra os “sulistas, elitistas e liberais”, causou desordem na reunião, tendo bastado um olhar do líder Cavaco para que Zeca Mendonça assomasse ao púlpito e dissesse que Cavaco Silva pedia ordem aos congressistas, começando toda a gente a gritar pelo PSD, devolvendo, assim, a ordem ao conclave.
Duas décadas depois, somos surpreendidos pelo mesmo Zeca Mendonça a pontapear um fotojornalista nos corredores de um conselho nacional do PSD, onde havia, realmente, interesse jornalístico em fotografar o seu novo presidente, o regressado Miguel Relvas (assista ao vídeo aqui: http://bit.ly/1coRcxf).
Entre 1995 e 2014 são duas imagens distintas da mesma pessoa. Aparentemente, foi Zeca Mendonça que mudou para pior, perdendo as estribeiras e reagindo sem senso e sem inteligência – ignorando que estava a ser filmado pelas costas e que, actualmente, tudo o que acontece no espaço público fica registado e pode ser amplamente difundido sem controlo por meios de comunicação tradicionais ou digitais, como aconteceu. E ainda bem, em nome da transparência e do direito que temos à informação.
Infelizmente, Zeca Mendonça abordou o fotojornalista ao pontapé, com o ímpeto de quem queria mesmo partir a perna ao adversário. Um método próprio de intolerantes, que não convivem bem com a democracia e com a diferença, e que, portanto, não suportam jornalistas. Mas o seu pontapé também pode ser visto como uma metáfora da acção governativa contra os bolsos dos portugueses, enquanto o Estado continua a viver gordo como sempre viveu, tendo eliminado apenas umas juntas de freguesia para disfarçar.
O que é extraordinário é que a reacção brutal do assessor do PSD foi motivada por uma simples fotografia, que o repórter fez e, ao que parece, não deveria ter feito. E que mal teria a fotografia de Miguel Relvas que o fotojornalista queria mostrar ao público através dos meios de comunicação para quem trabalha? Não teria mal nenhum, evidentemente. O assessor quis proteger Miguel Relvas de quê? É por isso que tenho enorme dificuldade em entender este triste episódio fora de um clima de desespero e desnorte total da comunicação do PSD. 

O namorado de Judite de Sousa e o jornalismo do nada


Já há vários anos que os jornais portugueses “Correio da Manhã”, “Diário de Notícias” e “Jornal de Notícias” – particularmente estes, que teoricamente são diários de informação geral e não jornais de mexericos –, enveredaram pela criação de uma secção ondem publicam alegadas notícias do chamado "jet-set" – ou mundo cor-de-rosa, como também é conhecido –, que vive à base dos interesses comerciais de agentes de comunicação que trabalham com modelos, actores e outros artistas para promovê-los de qualquer maneira no espaço público mediático.
Sempre disponíveis para mostrarem aos seus leitores bons corpos sem roupa, os jornais de informação geral, outrora reconhecidos defensores do interesse público e promotores da informação de interesse público, colocam-se, assim, ao sabor dos interesses privados de atores e modelos, que procuram aparecer quando estão no desemprego. Por vezes, é nesse contexto que muitas modelos/actrizes aproveitam o ensejo para mostrar as mamas novas, demonstrando, assim, a sua excelente forma física para voltar ao mercado. E os jornais vão enchendo páginas e páginas com estes conteúdos daquilo que já designei neste blog como o jornalismo do nada. 
Administradores e editores de jornais podem comemorar milhões de “pageviews” nas edições digitais dos respectivos meios de comunicação, mas já deveriam ter concluído que, com estas notícias sobre o nada, não ganham públicos fiéis para as edições em papel nem conseguem inverter a tendência de queda das receitas de publicidade.
Apesar disso, os seus jornais continuam alegremente a informar-nos quem vai para a cama com quem. E, como o mercado é pequeno, agora até jornalistas famosos são objeto destes mexericos, como é o caso da “notícia” sobre o novo namorado de Judite de Sousa (ver aqui: http://bit.ly/1eV3Q1i), publicada num jornal dito de referência como se fosse jornalismo. Como se tivéssemos alguma coisa a ver com o casal. Como se os leitores fossem acéfalos. E como se estes jornais pudessem sobreviver assim. Fotografia: Lux