sexta-feira, 30 de março de 2012

Luciana Abreu comprou uma bomba para tirar leite

 

O “Correio da Manhã” é o jornal diário mais vendido em Portugal. Mesmo quando publica na primeira página notícias que não são notícia em lugar nenhum do mundo. A actriz Luciana Abreu, ao anunciar que comprou uma máquina para tirar leite, ao que se presume, das suas próprias mamas – e não das tetas de uma vaca qualquer –, está a oferecer ao "Correio da Manhã" a possibilidade de vender muitos jornais (ver aqui). Isso é que é grave. Donde, sem o “Correio da Manhã”, isto não seria a mesma coisa.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Lula anuncia regresso à política




O ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, difundiu um vídeo no Youtube após receber os resultados dos exames realizados no hospital Sírio Libanês, em S. Paulo, os quais mostraram a remissão completa do cancro. Lula utilizou o Youtube para agradecer o apoio recebido e anunciar o regresso à actividade política. O vídeo foi gravado na sede do Instituto Lula, nesta quarta-feira, dia 28 (Ver aqui).

“O Independente”, segundo Miguel Esteves Cardoso


“[‘O Independente’] era uma coisa moderna, normal. Uma coisa não respeitadora dos respeitinhos, e sem medo. Tinha havido o Estado Novo e a censura. Há esse medo de arreliar uma pessoa, de magoar pessoas, e nós, talvez inconscientemente, talvez irresponsavelmente, não tínhamos medo. E não tínhamos medo de não ser de esquerda. Historicamente, em Portugal, o PSD era ‘social-democrata’, como o Bernstein, era sempre preciso mostrar que se era primo direito ou em terceiro grau do Marx. Não imagina as discussões que havia em 1974. Até o CDS era pela sociedade sem classes. Esse elemento estava muito enraizado na maneira de pensar. E nós queríamos poder dizer que éramos conservadores. Ser conservador não é ser nazi, é querer que as coisas continuem, gostar das coisas como são. E isso era novo.”

“O jornal era um grupo de pessoas, mas a parte cultural era feita por mim e a parte política pelo Paulo [Portas]. O Caderno 3 tinha muitos jornalistas conservadores, mas muitos não o eram, não era importante. Fazíamos aquilo que nos apetecia.”

“O João Bénard escrevia exactamente como queria e com o tamanho que queria. Hoje em dia, não é bem assim. As pessoas compravam o jornal para ler essas pessoas. Sou fã do Vasco Pulido Valente e pensava: ‘Como é que este gajo, que eu lia quando era miúido, agora escreve para mim?’ Era uma idolatria pura, com a Agustina, com a Filomena Mónica, com o Barreto, ter esses colegas. E a fotografia era muito importante, nunca tinha havido fotografias assim. O essencial na relação com os fotógrafos, a Inês Gomnçalves, o Daniel Blaufuks, era podermos dar espaço às fotografias. E com o grafismo do Jorge Colombo podíamos ocupar a página como quiséssemos.”

“O que não se pode substituir nunca é a juventude, a primeira vez. Eu não conhecia o Paulo, o Paulo não me conhecia, éramos dois putos e decidimos: ‘Vamos fazer um jornal.’ Não sabíamos nada de jornais, nunca tínhamos trabalhado em jornais, e isso era excitante, poder fazer tudo, decidir quem é o director. Era maravilhoso, não se consegue reproduzir.”

“O Cavaco [primeiro-ministro entre 1985 e 1995] nunca pôs um processo, nunca chateou, nunca mandou uma carta, mesmo quando foi muito maltratado, foi impecável. E o Mário Crespo também. Essas pessoas com que gozávamos, como o Macário, acabavam sempre por ganhar, porque eram superiores. Com o Torres Couto, quando fomos entrevistá-lo, eu e o Paulo, ele fez pouco de nós, foi superior, respondeu às perguntas, e nós sentimo-nos muito mal. De repente, percebemos que estávamos a ser parvos e ele estava a ser um adulto, foi uma lição.”

Miguel Esteves Cardoso, fundador e primeiro director do jornal “O Independente”, em entrevista ao “Expresso”, 24-03-2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Conrado Adolpho. “A Internet subverte a ordem das coisas.”


“Antes de pensar o que faremos pelo marketing, temos que nos perguntar o que faremos pelas pessoas. O marketing é (ou deveria ser) apenas um desdobramento do que as empresas fazem pelas pessoas. Se não tivermos as pessoas como objectivo final, não chegaremos a fazer muito em termos de marketing.”

“Devemos pensar no que a computação em nuvem pode fazer para ajudar as pessoas a melhorarem as suas vidas... O marketing acompanhará esse movimento. Já há muitas iniciativas geniais nesse sentido. Exames médicos que pertencem à pessoa, não ao médico ou ao hospital (que ficam na nuvem para que as pessoas possam aceder de qualquer lugar), administração de procura elástica em ‘sites' de filmes sem deixar que a banda seja prejudicada ou caia.”

“Os 8P’s do Marketing Digital são um processo de marketing no ambiente ‘online'. Os 8P’s não mudaram o marketing tradicional. Só o ampliaram para um ambiente mais complexo. Muitos comparam os 8P’s aos 4P’s e acham que os 8P’s são uma extensão dos 4P’s. Os 4P’s referem -se a variáveis controláveis num ‘mix' de marketing. Os 8P’s são um processo de marketing que visa organizar e automatizar acções de marketing digital dentro de uma empresa. Um complementa o outro, não substitui.Os 8P’s são pesquisa, planeamento, produção, publicação, promoção, propagação, personalização, precisão e começa-se tudo de novo. É um processo circular.”

“Os casos que mais dão certo são os que associam o "mundo virtual" – que é uma abstracção humana, porque o virtual faz parte do real – ao dia-a-dia, físico, ‘offline', do indivíduo.”

“A Internet subverte a ordem das coisas. O que é longe passa a ser perto, o que é pequeno passa a ser grande. O relacionamento é feito em larga escala, em massa, mas de maneira personalizada. A Internet cria novas regras e um novo ambiente que faz com que uma pequena empresa possa competir com uma grande desde que ela entenda quais são essas novas regras. E elas incluem a quebra da barreira geográfica, o que faz com que a geografia passe a ficar cada vez mais irrelevante. As empresas passam a ser o conteúdo que divulgam na Internet, o que faz com que uma empresa pequena, com uma boa curadoria e produção de conteúdo, se aproxime muito mais do consumidor do que uma grande empresa sem bons conteúdos.”

“A chegada da internet ao marketing funcionou como um evento de ruptura em que a essência continua a mesma, mas o resto – as ferramentas e a maneira de lidar com o consumidor – mudou completamente. A Internet para o marketing foi disruptiva. Ela é democrática, na medida em que tanto o pequeno quanto o grande tem acesso à mesma informação e às mesmas ferramentas pelo mesmo preço. Sabemos que existe uma tentativa de controlo por parte dos grandes, principalmente nos sectores governamentais. Mas isso a tornará menos democrática. Os fornecedores de infra-estrutura também têm engendrado movimentos de controlo. A liberdade expressa pela web pode ser prejudicada por tentativas de controlo por parte de alguns poucos ‘players' desse jogo. Só o tempo dirá o quão democrática a Internet será no futuro próximo.”

Conrado Adolpho, autor do livro “Os 8Ps do Marketing Digital”, “Diário Económico”, 23-03-2012 (ler documento integral aqui)

domingo, 25 de março de 2012

Moreira da Silva e Paulo Portas. Surpresas no congresso


O congresso do PSD, o primeiro desde que Pedro Passos Coelho lidera o Governo português, teve dois grandes vencedores políticos: um interno e outro externo. Mas ambos surpreendentes.
O vencedor interno é Jorge Moreira da Silva, um vice-presidente que tinha sido maltratado no processo de escolha da equipa do Governo (chegou a estar convidado para ministro do Ambiente) e que agora passa a ser o coordenador político do PSD e a sua primeira figura fora do Governo. Teoricamente irá assumir o papel até agora ocupado por Miguel Relvas. Falta saber como.
Moreira da Silva, que lidera o “think tank” Plataforma para o Crescimento Sustentável (ver aqui) empresta ao PSD uma marca social-democrata que perdera desde que Passos Coelho assumiu a liderança e entregou a máquina partidária a Miguel Relvas. É uma mudança a seguir com atenção. Até aqui director-geral das Nações Unidas da área de Economia das Alterações Climáticas, no Grupo de Energia e Ambiente, Moreira da Silva passa a ser consultor daquela organização.
O vencedor externo é Paulo Portas. Sim, o líder do CDS/PP e terrível antigo director de “O Independente”, que indispunha ministros e secretários de Estado do PSD nos tempos do primeiro-ministro Cavaco Silva nas noites de quinta para sexta-feira, entre 1988 e 1995, tais eram os escândalos que o jornal descobria e publicava. Agora parceiro da coligação governamental, Portas teve a honra de ser a figura central da abertura do congresso, ao ter sido convidado por Pedro Passos Coelho para passar a ideia de um Governo forte e unido.
Deste modo, Paulo Portas posiciona-se como candidato a candidato presidencial em 2016, com o apoio dos partidos do centro-direita. Não por acaso, Miguel Esteves Cardoso, também antigo director de “O Independente”, onde fez parelha com Paulo Portas, manifestou um desejo extraordinário na capa da revista do “Expresso” deste sábado: “Paulo Portas há-de mandar nesta merda”.

Passos Coelho fala bem, mas a realidade é terrível


No encerramento do congresso do PSD, Pedro Passos Coelho falou bem sobre a “revolução tranquila” que diz estar a empreender em Portugal. Demonstrou uma surpreendente sensibilidade social, acenou com uma palavra de “esperança” aos sacrificados da pátria e manifestou-se contra os privilégios que estão a distorcer a economia; contra o rolo compressor do Ministério das Finanças que mata empresas e afoga famílias; contra as parcerias público-privadas que estão a arruinar o País e a engordar a carteira de ex-ministros e afins, etc..
Curiosamente, foi quando anunciou a revisão destas escandalosas parcerias público-privadas, que serão objecto de uma comissão parlamentar de inquérito, que o líder do PSD ouviu os aplausos mais fortes do auditório. Foi um pequeno sinal do sentimento de indignação que atravessa o País.
Passos Coelho falou bem, é certo. E mostrou boas intenções na governação do País. Não se comprometeu com nada, pois não tem “uma bola de cristal”, muito menos o controlo de uma situação que depende basicamente da Europa. O problema é a partir de segunda-feira. Os congressos partidários são muito bonitos. A retória dos discursos é muito sedutora. O embate com a realidade é que é terrível.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Dilma Roussef e a resistência à globalização


Nas economias emergentes, o Brasil é uma ilha de resistência à globalização, com o Governo de Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores (PT), a não hesitar em aumentar a carga tributária sobre os produtos importados de modo a proteger a produção nacional. É claro que os partidários da ideologia neoliberal e os agentes dos mercados, cuja acção não se importa muito com a ética, assentando na ganância que está a destruir a Europa, já estão a berrar aqui e ali contra as políticas proteccionistas do Brasil. Porque querem entrar com mais facilidade nesse mercado apetecível de 200 milhões de pessoas com capacidade de consumo.
A grande diferença entre o Brasil e qualquer dos 27 países da União Europeia é que o Brasil é um País soberano – uma república federativa com 27 estados – que pode decidir o seu destino sem depender de ninguém. Já os países da União Europeu não podem decidir nada, vivendo prisioneiros de um espaço comum que, afinal, é cada vez mais desigual.
Nestes tempos em que a globalização da economia e das relações pessoais e profissionais é uma realidade irreversível, olho com muita curiosidade e interesse para a política de Brasília de protecção da economia, traduzida no aumento da carga tributária sobre os produtos importados ou no alívio dessa carga quando marcas estrangeiras produzem no próprio Brasil, gerando riqueza e emprego locais. Nos últimos dias, foi noticiado o aumento do imposto alfandegário sobre os vinhos de Portugal e do Chile (cujas importações subiram muito no Brasil em 2011) e sobre os carros produzidos no México (cuja importação também subiu bastante em terras brasileiras). E não se pode dizer que o vinho português no Brasil seja um produto acessível. Uma simples garrafa de vinho verde "Casal Garcia", por exemplo, que em Portugal pode custar cerca de 3 euros no supermercado, é vendida em qualquer supermercado brasileiro a 30 reais, o que equivale a 12,50 euros., ou seja, quatro vezes mais. Não será tudo motivado pela carga tributária, mas dela resulta um peso excessivo no preço final dos produtos importados pelos brasileiros.
A questão é saber até que ponto o Governo de Brasília será bem ou mal sucedido com o seu proteccionismo; se conseguirá manter uma economia em crescimento sustentado e sustentável, ainda que o preço a pagar pelos cidadãos brasileiros seja o custo muito alto dos produtos importados, ficando assim em desvantagem em relação aos consumidores norte-americanos e europeus, quando se trata, por exemplo, de comprar um perfume, um par de óculos de sol, umas calças jeans ou um iPad.   
Esse é um dos grandes desafios da economia brasileira nos próximos tempos. Se Dilma Roussef provar que a chave do equilíbrio económico do Brasil – evitando que o País seja contagiado por economias doentes – está no proteccionismo, talvez no futuro a globalização se torne mais contida à escala global.

A criação literária, o jornalismo e a vida


"Se eu fosse mais seguro não estava à espera de ter 40 e tal anos para editar um romance. Provavelmente, já teria editado antes, mas seria seguramente pior porque acho que a vida tem de passar por nós para depois sair."

“Criar é um espaço de liberdade. No jornalismo não posso criar. Numa reportagem tenho de lidar com o que acontece e com o que me dizem.”

"A vida está sempre a acontecer. Estamos metidos lá dentro, não temos noção de quem está a puxar a corda por nós. Às vezes levamos um puxão sem saber bem de onde, nem por que é que aconteceu.”

“Não nos preocupamos minimamente com os outros. Agimos inconscientemente, virados para dentro, não pensamos que ao estacionarmos o carro no lugar errado podemos estar a prejudicar outra pessoa. Ou seja, o tipo que estacionava ali chega atrasado para uma reunião e, como não tem o lugar vago, demora mais tempo a estacionar e leva uma 'bronca' do chefe. Seduz-me pensar nisso, como posso, ou não, influenciar a vida dos outros.”

Luís Francisco, jornalista e autor de "A Vida Passou por Aqui" (o seu primeiro romance), no suplemento “Ípsilon”, "Público", 23-03-2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

O terrorismo na campanha francesa

Com o ataque terrorista de Toulouse, tudo mudou na campanha eleitoral para as eleições presidenciais francesas. Até agora, Nicolas Sarkozy estava em dificuldades (ver aqui), adoptando como estratégia um discurso de extrema-direita – o único eleitorado onde teria margem para crescer eleitoralmente, encolhendo Marine Le Pen.
A comoção que atravessa a França, em virtude dos sangrentos ataques de Mohamed Merah e a consequente aparição de Sarkozy como Presidente a tempo inteiro nas cerimónias fúnebres, baralha o jogo eleitoral. Porque estamos perante um caso que mexe com a mente do eleitorado. Por isso, a campanha do socialista François Hollande enfrenta um obstáculo inesperado que poderá ser fatal. Os franceses querem alguém que proteja a França. E Sarkozy está em palco, o que decorre das suas funções como Presidente legítimo dos franceses.
Em termos comunicacionais, há situações inesperadas que rebentam durante as campanhas eleitorais cujos efeitos são incontroláveis ou muito difíceis de controlar. Nuns casos, travam a mudança política que estava em perspectiva. Noutros, acentuam a tendência dessa mudança.
Em 1999, António Guterres, que se recandidatava a Primeiro-Ministro de Portugal, teve a seu favor o massacre de Timor Leste – que resultou na independência do território –, o que lhe deu muita exposição pública mediática. Como se isso não bastasse, em plena campanha eleitoral, morreu Amália Rodrigues e o País parou. Guterres venceu, contra Durão Barroso, mas nem assim conseguiu a maioria absoluta.
Em 1980, na última semana das presidenciais, morreu o Primeiro-Ministro e líder do PSD, Francisco Sá Carneiro, que se batia pela eleição do general Soares Carneiro contra Ramalho Eanes – tendo este acabado por vencer as eleições. Mas não sabemos qual seria o resultado eleitoral se Sá Carneiro não tivesse morrido.
Em 2004, em Espanha, na sequência de um ataque terrorista em Madrid, a quatro dias das eleições, onde morreram perto de duas centenas de pessoas, o Governo de José Maria Aznar (Partido Popular) manifestou dificuldade em atribuir a autoria dos atentados, o que levou o povo a sair às ruas, em manifestações espontâneas, o que contribuiu de forma decisiva para a mudança de Governo, com a vitória do socialista José Luiz Zapatero contra todas as previsões anteriores ao atentado. FOTO: Jacques Brinon / Associated Press

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sporting, FC Porto e Benfica andam a dormir


O futebol português tem extraordinários executantes dentro do relvado, mas tem “players” de qualidade duvidosa nos gabinetes dos clubes, nomeadamente nos departamentos de marketing. Obviamente, há excepções, mas a regra está alinhada pelo País. E quando um País não sabe que marca deve vender no exterior, é natural que as suas empresas – ou, neste caso, os seus clubes de futebol – também não sejam nada de especial quando o assunto é marketing.
Vem isto a propósito de uma notícia segundo a qual o departamento de marketing dos brasileiros do Vasco da Gama fará mais uma homenagem a Edmundo, um ídolo eterno do clube, também conhecido por “Animal”, com o lançamento de dois modelos de camisola com o seu nome (ver aqui). Sendo um produto alusivo a um ídolo do clube, vai, certamente, ter saída.
A partir desta notícia lembrei-me de procurar, em Portugal, as camisolas de época em homenagem a Fernando Peyroteo, a Eusébio, a Cubillas, a Manuel Fernandes, a Chalana, a Fernando Gomes, a António Oliveira, a Vítor Baía, a Travassos, a Luís Figo, a Hector Yazalde, a Rui Costa, a Peter Schmeichel, a Rui Jordão, a Paulo Futre, a Humberto Coelho, enfim, a inúmeros craques do futebol português, que são glórias dos nossos grandes clubes – o Sporting, o FC Porto e o Benfica (a ordem decorre do meu sportinguismo militante). Não encontrei nenhuma. O máximo que encontrei de diferente no meu Sporting foi uma camisola branca, dita alternativa.
Quanto a camisolas, os nossos grandes clubes só pensam na camisola alternativa, segundo eles destinada a realizar receitas. Mas essa camisola alternativa só serve para retirar identidade às equipas. Ainda nesta segunda-feira, o Gil Vicente ganhou por 2-0 a uma equipa vestida de branco (Sporting), mas cujo equipamento que lhe dá identidade é formado por calções pretos e camisola com listas horizontais verdes e brancas.
As equipas de futebol em Portugal vivem, portanto, reféns de estranhas estratégias de marketing. Porque os clubes, nesta matéria, são muito permeáveis ao que vem de fora – ou aos negócios previamente acertados… – e não apostam em departamentos de marketing próprios, isto é, que pensem e que pensem pela sua cabeça. As coisas fazem-se porque o outro faz igual e quem propõe faz igual em todos os clubes. O caso das páginas dos nossos clubes na Internet é só um exemplo. No fundo, em matéria de marketing, Sporting, FC Porto e Benfica andam a dormir.

Empresas não sabem lidar com crises de comunicação digital


As empresas e organizações ainda revelam muitas dificuldades para enfrentar e resolver crises de comunicação nas redes sociais. E a maioria nem sabe como agir em situações críticas. Esta é uma das conclusões do estudo desenvolvido pela InfiniteLatitude, rede global de agências independentes de relações públicas, representada em Portugal pela Guess What PR.
De acordo com o Briefing, o estudo, que contou com cerca de cem profissionais de relações públicas e comunicação de 31 países, mostra que mais de 80 por cento dos departamentos de comunicação das empresas não tem procedimentos definidos para lidar com crises nos "media" sociais. Ao invés, 85 por cento revela ter procedimentos padrão para lidar com este tipo de situações nos media tradicionais. Apenas um quinto das empresas mostraram ter semelhantes procedimentos para o universo online. Os dados revelam ainda que 85 por cento dos profissionais "in-house" inquiridos subcontratam os serviços de gestão de crise nas redes sociais.

segunda-feira, 19 de março de 2012

As relações públicas de George Clooney


O actor George Clooney é muito mais do que um símbolo sexual cuja acção pública se limita à frivolidade de Hollywood. Como a Nespresso descobriu, é uma marca muito valiosa, que também busca valor acrescentado no envolvimento com causas sociais, de que é exemplo a crise humanitária no Sudão.
Já em 2005, o actor tinha surpreendido ao assinar a realização da película “Boa Noite, e Boa Sorte” (ver aqui). Agora, Clooney – que é partidário de Barack Obama – esteve na Casa Branca para denunciar a crise humanitária nas regiões fronteiriças entre o Sudão e o Sudão do Sul. Participou num protesto em Washington e foi preso, em frente à embaixada do Sudão, por desobediência (ver aqui). O actor foi detido juntamente com outros manifestantes que acusavam o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, de estar a provocar uma crise humanitária ao bloquear as ajudas à população necessitada.
O objectivo de Clooney foi plenamente conseguido. Basta olhar para o ar sorridente com que recebeu a ordem de prisão. Ao ter sido detido, o actor chamou a questão do Sudão para agenda mediática internacional, pelo que a sua detenção resultou numa brilhante acção de relações públicas.
Um profissional de relações públicas é muito mais do que alguém que tem o dom de receber bem os convidados de um evento. As relações públicas são o elo de ligação entre as organizações e os seus diversos públicos. Fazer relações públicas também é gerir a comunicação. Neste caso, George Clooney foi um exímio gestor da comunicação de uma causa política e social. FOTO: Win McNamee (France Press)

Aventuras de um jovem jornalista


Em 1984, ainda não havia “e-mail”, mas o correio tradicional funcionava muito bem. Uma carta era colocada no marco do correio num dia e no seguinte chegava ao destinatário. Como eu estava decidido a ser jornalista, comuniquei essa pretensão aos jornais escrevendo aos seus directores. Um deles foi o director de “O Comércio do Porto”, Manuel Teixeira, actual chefe de gabinete do presidente da Câmara do Porto, Rui Rio.
Pedi-lhe uma “experiência jornalística”, mas a resposta do director do jornal que aprendi a ler desde criança, dada em poucos dias, foi negativa. Manuel Teixeira alinhavou um conjunto de obstáculos intransponíveis para um jovem de 19 anos de idade que estava a acabar o ensino secundário. Não tinha o serviço militar cumprido, não morava no Porto, não tinha frequência universitária, nem tinha 23 anos.
Dos directores a quem escrevi, tive uma oportunidade como correspondente em Vila Nova de Famalicão, dada por Joaquim Queirós, que então dirigia a “Gazeta dos Desportos”, jornal de que também era leitor. A coisa dava para pagar umas cervejas, não mais. Foi a forma de começar, tanto mais que, entretanto, lá fui obrigado a cumprir o serviço militar, talvez para corresponder aos quesitos impostos por Manuel Teixeira.  
O curioso é que, cinco anos depois, na sequência de um telefonema do Paulo Montes, hoje em “A Bola”, lá estava eu a entrar na redacção de “O Comércio do Porto”, ainda na Avenida dos Aliados. O director continuava a ser Manuel Teixeira, tendo Fernando Santos, actualmente na direcção do “Jornal de Notícias”, como subdirector. Mas Teixeira raramente descia à redacção, preferindo a reserva do seu gabinete – onde escrevia prosas que o transformaram no cronista preferido do então primeiro-ministro Cavaco Silva. Aliás, em ano e meio como jornalista do "CP", só vi Manuel Teixeira na redacção num dia em que foi cumprimentar toda a gente. Daí o espanto do também jovem estagiário Augusto Bernardino, que hoje está em “A Bola”, depois de apertar a mão ao director: “Quem é este cidadão?”

O talento de Mário Zambujal entre whisky e meninas


“Numa insónia podemos ter um trabalho fantástico. Ainda esta noite tive uma, e como preciso de entregar um conto de Natal, acho que o fiz mentalmente. Só falta passar para o papel. Tenho muitas ideias durante a noite, enquanto não consigo dormir. Talvez tenha a ver com o facto de ter sido noctívago durante muitos anos. Fazia jornais até às quatro e cinco da manhã, só depois é que ia jantar. O problema é que a essa hora só há whisky e casas de meninas.”

“Acabava por cear nessas casas. No dia em que Carlos Lopes ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos, o director da revista "Flama" virou-se para mim e disse: ''Preciso de um texto teu, um daqueles malucos, mas preciso disso para amanhã de manhã.'' E lá fui eu ali para cave do Mundial, na Rua António Augusto Aguiar, cheio de fome. Cheguei lá, encontrei-o com outros amigos comuns e disse-lhe: ''Amanhã de manhã, tocas à campainha da porteira e pedes a chave do correio. Deixo-te lá a crónica, mas não me acordes.'' Comecei a escrever em guardanapos de papel uma coisa chamada "Esta Noite Choveu Prata". Um artigo feito entre as marotas da Cave, que passaram a noite a dizer "então querido, o que estás fazer?" Dois anos depois o texto, escrito num ambiente de pecado, estava nos livros do oitavo ano de escolaridade. Só faltava cheirar a whisky.”

“Gosto de me movimentar, raramente me fixo. Mudar de ambiente é quase uma necessidade. Isso aconteceu nos vários jornais onde trabalhei, apesar de nunca ter mudado por causa de algum conflito – os meus desentendimentos são escassos, normalmente acabam com "ficas na tua, eu fico na minha". Nunca me chateio mais do que isto. Mudar com frequência torna a vida mais intensa, rodeada de mais pessoas.”

“Nasci em Moura, vivi na Amareleja, em Beja e no Algarve, onde comecei por escrever uma crónica num jornal local. Também jogava futebol, mas era uma nulidade com o pé esquerdo. O treinador obrigava-me a jogar com uma sapatilha no pé direito e uma bota no outro, para ver se eu chutava com o esquerdo. Quando o correspondente de "A Bola" no Algarve adoeceu, eu fui substituí-lo. Os editores começaram a pedir-me mais coisas, até que, pela primeira vez na sua história, o jornal chamou um miserável correspondente da província para trabalhar em Lisboa, na redacção.”

“Os dois primeiros meses foram um desastre. O Carlos Pinhão levava-me para casa dele quase como se me tivesse adoptado. Mal sabia onde era a Rua do Ouro.”

“Eu odiava a palavra escritor – apesar de já ter livros suficientes – porque representa uma actividade permanente. Prefiro dizer autor. Na verdade, eu não queria escrever a "Crónica dos Bons Malandros", mas os meus amigos passavam a vida a insistir. Gostavam das minhas crónicas mais ou menos humoradas. (…) Tenho uma grande admiração por aqueles escritores que trabalham oito horas por dia, quase como se tivessem uma profissão burocrática. Eu sou capaz de trabalhar 16 horas em apenas um dia, mas também posso estar uma semana sem escrever uma linha. Faz parte da minha personalidade, não me violento muito no sentido de mudar, acho que não vale a pena.”

“Aceitei o convite [da RTP] às quatro da manhã numa casa chamada Hipopótamo, sentado à mesa com o Cordeiro do Vale, que era chefe do departamento desportivo da RTP. Ele tinha dois gurus que o estimavam muito, o Noronha Feio, que foi director-geral do Desporto, e o José Esteves, que escrevia na "A Bola". Quando ele lhes perguntou se sabiam de alguém com o perfil para o lugar [apresentador de um programa de desporto], ambos me recomendaram. ''Eu falo alentejano com sotaque algarvio'', dizia eu.”

“A televisão intimidava-me, não era o meu universo, nunca gostei muito dos holofotes, das câmaras, sentia-me um bocado desajustado. A pior coisa que há é um tipo fazer as coisas sem ter a convicção de que as pode fazer bem. E eu, no princípio, não tinha essa convicção.”
“Tento nunca dizer a expressão "no meu tempo". Este tempo também é o meu, mas sinto que as coisas vão ficando cada vez mais desumanizadas. Ainda escrevo os meus livros à mão. Dantes, nos intervalos do jornal, íamos comer uma sandes à dona Ermelinda. Agora é uma máquina que se está nas tintas se queremos manteiga ou alface. Mete-se lá a moeda e ela descarrega com ar de "toma lá isto e cala-te".”

“Era namoradeiro e tive pessoas muito interessantes. Aos meus 15 anos, ainda se vivia um tempo de profundo afastamento entre rapazes e raparigas. Mas essa dificuldade, de não poder tocar ou abordar, era superada nos bailes. Quando o conjunto começava a tocar, virava-me para aquela rapariga que eu conhecia mas com quem nunca falava e dizia-lhe: "A menina não quer dançar, pois não?" Nunca falhou. Bailes e bola sempre foi o meu mundo. Mais tarde, já em Lisboa, era capaz de sair do jornal às três da manhã e ir a Santarém beber um copo com uma senhora. No "Diário de Notícias" os estagiários ficavam à minha espera só para os levar para as boîtes. Se tivesse morrido nessa altura, o meu funeral ia estar cheio de porteiros, conhecia toda a gente."

Mário Zambujal, jornalista e escritor, actualmente com 76 anos, celebrados no último dia 5 de Março, numa entrevista ao jornal “i”, publicada em 16-10-2010 (Ler aqui na íntegra)

quinta-feira, 15 de março de 2012

O valor acrescentado de um estudo de mercado


O objectivo de um estudo de mercado é reduzir a incerteza que está associada ao processo de tomada de decisão de gestão. Em momentos de crise económica, como aqueles que se vivem nomeadamente em Portugal e em outros países europeus, as tomadas de decisão de gestão são mais lentas e exigem estudos bem feitos, que tenham sido realizados com base na melhor informação possível. É um trabalho de aturada investigação que está a cargo do marketing ou das relações públicas de uma empresa.
Curiosamente, um bom estudo de mercado não é aquele que confirma a ideia inicial do gestor. Pelo contrário. Um estudo de mercado é tanto mais valioso quanto menos confirma a ideia inicial do gestor. É esse, de facto, o valor acrescentado de um estudo de mercado. Porque se um estudo não confirma a ideia que o gestor tinha antecipadamente isso significa que houve informação nova sobre um mercado capaz de reduzir a incerteza na hora de decidir.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Os clientes reclamam. E ainda bem...


Ninguém gosta de ouvir coisas desagradáveis a seu respeito, por muito inócuas que sejam. O mesmo acontece com as empresas, as marcas e as organizações. Elas detestam o "buzz" negativo. Há uma ideia verdadeira segundo a qual uma reclamação é sempre negativa e tem de ser evitada a todo o custo. No entanto, as reclamações do público também têm aspectos positivos.
Ter um livro de reclamações à disposição dos consumidores pode ser muito mais do que uma medida de relações públicas susceptível de criar a boa reputação de uma marca ou organização – só porque é politicamente correcto demonstrar tolerância face às críticas, ouvindo as queixas da clientela. Uma reclamação também pode ser vista de um ângulo positivo para a marca visada. Reclamar dá trabalho e, muitas vezes, implica perder tempo. Quando um cliente reclama, isso significa que ele se importa com a marca, com o serviço ou a organização. Reclamar é dar informação sobre algo que está menos bem, permitindo que a marca ou a organização saibam o que fazer para melhorar o serviço prestado. Clientes problemáticos são aqueles que não reclamam e mudam silenciosamente de fornecedor.
A verdade é que, de todos os clientes insatisfeitos com uma marca ou um serviço, só uma pequena percentagem deles costuma reclamar. Esses clientes que reclamam devem ser muito bem tratados. Por uma razão: se eles reclamam é porque estão envolvidos com a marca, dando sinais de que pretendem continuar a experiência. E face a cada reclamação apresentada, a organização tem uma excelente oportunidade para melhorar a experiência do cliente se for suficientemente cativante na resposta que der. Ou, por outras palavras, se souber utilizar a comunicação para transformar um momento de crise numa oportunidade.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O delegado da Liga de futebol que abriu a boca no Facebook


Para muita gente, ter acesso às novas tecnologias de difusão de informação é como dar um salto maior do que a perna. É o caso daquelas pessoas que ocupam funções que exigem independência pública à prova de bala, mas depois vão para o Facebook emitir as suas opiniões pessoais como quem está no café a conversar com os amigos mais chegados. Foi o que aconteceu a um delegado da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, um adepto confesso do FC Porto, e um dos delegados mais antigos, que usou a sua conta pessoal no Facebook para falar de modo grosseiro sobre a arbitragem do jogo Paços de Ferreira-Benfica (ver conteúdo na imagem).
Acresce que uma das funções de um delegado da Liga é fomentar o "fair play" (ver aqui, no artigo 39º). Ora, o delegado Manuel Armindo até pode ter a maior razão do mundo, mas não pode expressar-se daquela maneira numa rede social. Nem deve emitir a sua opinião pessoal publicamente. Porque dar opiniões no Facebook não é a mesma coisa que dar opiniões dentro de casa, em família ou com os amigos. Na prática, é o mesmo que emitir opiniões num jornal.
Como já escrevi neste blogue (ver aqui), a linha que divide a esfera pública da esfera privada tem sido alterada ao longo dos tempos. E tem sido motivo de muitos debates. E, com a Internet e a explosão das redes sociais, a confusão entre o que é público e o que é privado tornou-se cada vez mais evidente.
Neste caso concreto – que valeu para ficarmos a saber, de modo cristalino, o nível dos observadores da Liga, cuja função é garantir que tudo decorra bem na organização de um jogo de futebol –, as opiniões do cidadão Manuel Armindo sobre a arbitragem do Paços de Ferreira-Benfica, assim como a forma grosseira como se referiu ao presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, comprometem, evidentemente, o delegado da Liga Manuel Armindo. Por isso, a Liga suspendeu o seu delegado (ver aqui). Veremos o que vai acontecer.

“The Guardian” avança para o jornalismo aberto


O respeitado diário inglês “The Guardian” resolveu considerar o conteúdo gerado pelos seus leitores como parte de sua política editorial. É mais um sinal da cultura da convergência em que vivemos, sobre a qual escreveu Henry Jenkins. Hoje, os meios de comunicação tradicionais, as organizações e os cidadãos estão ligados em rede e todos falam com todos. Dispondo de computadores, telemóveis baratos e de Internet a baixo custo, o cidadão é cada vez mais informado e mais exigente. Assim como dá opiniões no Facebook, também quer participar na criação da notícia. A grande questão é saber que jornalismo resultará dessa convergência do trabalho dos jornalistas dos meios tradicionais com o trabalho dos seus públicos na rede.
Como se pode ler clicando aqui, a decisão de “The Guardian” abre caminho a uma revolução tardia no jornalismo digital, que ainda luta para encontrar um papel social num mundo virtual cada vez mais participativo e onde a linha que divide a produção e o consumo de conteúdos praticamente desapareceu. Sejam bem-vindos, pois, ao “jornalismo aberto” – uma nova forma de editar notícias que conta com a participação activa dos cidadãos.

sábado, 10 de março de 2012

Problemas de liderança


A avaliar pelas últimas notícias, as leis do País não são iguais para todos. Como se sabe, o Governo formalmente liderado por Pedro Passos Coelho anunciou a eliminação dos subsídios de férias e de Natal em 2012 e 2013 para todos os funcionários públicos, por alegada imposição do FMI. Porém, surgiram logo casos excepcionais. Primeiro foi o Banco de Portugal, depois a TAP, agora são os trabalhadores da RTP (ver aqui) e de outras empresas públicas que também querem ser excepção, não se vislumbrando motivos para que não sejam a partir da justificação engendrada pelo Ministério das Finanças para dar mais dinheiro aos trabalhadores da TAP.
Estamos perante um problema grave, porquer gera a percepção pública de que há, de facto, portugueses de primeira e portugueses de segunda. Isso é o pior que pode acontecer à imagem do Governo quando Portugal precisaria de uma resposta colectiva muito forte perante a crise. É também um problema de liderança do Governo. Assim como a querela entre os ministros Álvaro Santos Pereira e Vítor Gaspar representa igualmente um problema de liderança de Pedro Passos Coelho. Porque num Governo com um líder forte todos sabem quem decide ou de quem é a última palavra.
Quando Cavaco Silva foi primeiro-ministro (1985-1995), os ministros Dias Loureiro e Fernando Nogueira também representavam dois grupos antagónicos dentro do Governo. Mas não havia dúvidas sobre quem mandava. Nem era preciso convocar reuniões do Conselho de Ministros para definir quem geria o dinheiro público. Havia liderança.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A rua mais bonita do mundo


A rua mais bonita do mundo é brasileira e fica na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. A Rua Gonçalo de Carvalho é uma rua “verde”, sob um túnel formado pelas árvores que se erguem dos dois lados. A via foi eleita pelos turistas e por especialistas como a rua mais bonita do mundo. Eis como o verde das árvores pode potencializar o marketing público de uma cidade e a sua capacidade de atracção turística.
Mas tudo começou quando a população se manifestou contra a construção de um parque de estacionamento. O projecto previa a remoção de algumas árvores, além da colocação de asfalto no lugar dos tradicionais paralelepípedos do local – que sugam a água da chuva, ajudando na irrigação das árvores. Os moradores venceram. Não houve parque de estacionamento e as árvores não foram derrubadas. Hoje, a rua é motivo de atracção urbana. A moda deveria pegar (ver mais fotos aqui)...

Há um português no Brasil entre os mais ricos do mundo


Há mais um português além de Alexandre Soares dos Santos, Américo Amorim e Belmiro de Azevedo na lista dos mais ricos do mundo. O empresário luso-brasileiro Ivens Dias Branco (na foto), presidente do Grupo Manoel Dias Branco, entrou para o ranking dos homens mais ricos do mundo, publicado pela revista norte-americana “Forbes” (ver aqui). As origens do empresário escaparam, porém, à imprensa portuguesa. Ivens Dias Branco é filho de um emigrante português do distrito de Aveiro e é o primeiro cidadão do Nordeste brasileiro a constar da lista dos mais ricos do mundo.
Ivens Dias Branco, que lidera o mercado brasileiro de massas e bolachas, o que levou a revista "Isto É Dinheiro" a considerá-lo "O Rei do Macarrão" (ver aqui), ocupa a 290ª posição entre os mais ricos no mundo e o nono lugar no Brasil, com uma fortuna avaliada em 3,8 mil milhões de dólares. Segundo a “Forbes”, está mais bem colocado na lista mundial que grandes empresários brasileiros como Abílio Diniz (Grupo Pão de Açúcar), António Luiz Seabra (Natura) ou os irmãos Moreira Salles, sócios do Banco Itaú. Numa listagem onde os portugueses mais ricos perderam terreno (ver aqui).
Ivens Dias Dias Branco regista a particularidade de ser filho do português Manoel Dias Branco (1904-1995), que construiu um império na indústria alimentar, a partir do estado nordestino do Ceará, onde chegou com apenas 18 anos, na primeira metade do século XX, oriundo de Albergaria-a-Velha, no distrito de Aveiro. A sua importância na economia de Fortaleza foi distinguida recentemente com uma homenagem pública que não está ao alcance de todos: Manoel Dias Branco tem a sua estátua numa praça da cidade que tem o seu nome.
O grupo Dias Branco tem a sua sede no município de Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza (ondem vivem 3 milhões de pessoas), e emprega mais de 10 mil trabalhadores. Segundo o “Estado de S. Paulo”, os investimentos do grupo Dias Branco vão das massas ao cimento (ver aqui).

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Sicasal ardeu. Mas renasceu das cinzas


Se me pedissem para nomear uma empresa portuguesa que seja exemplar no envolvimento activo dos seus trabalhadores na concretização da missão empresarial, em resultado da união entre patrão e trabalhadores, não teria dúvidas em nomear o exemplo da Sicasal, a empresa de transformação de carnes com sede em Mafra.
A Sicasal, uma organização familiar, liderada por Álvaro Santos Silva, foi parcialmente destruída pelo fogo em 15 de Novembro de 2011, mas, dois meses depois, estava pronta a retomar a laboração, e ainda com maior capacidade produtiva, que lhe permite alargar os mercados. “Vamos aproveitar a oportunidade para investir num projecto novo, com uma componente importante de exportação”, revelou Santos Silva, ao “Expresso” (ver aqui).
Ora, dada a situação de crise que o País atravessa, o normal seria que o patrão fizesse como muitos que andam por aí de cabeça levantada e aproveitasse a onda de despedimentos para despedir também o pessoal eventualmente excedente na Sicasal. Mas Álvaro Santos Silva demonstrou ser um grande empresário – um empresário daqueles que o País precisa.
No dia do incêndio, o patrão anunciou logo que não despediria nenhum dos 650 trabalhadores. Em resultado da sua atitude, recebeu a colaboração de todas na reconstrução da fábrica, inclusive aos fins-de-semana. E no final, em sinal do bom ambiente que se vive na organização, os trabalhadores surpreenderam o patrão com uma homenagem.
“Nos maus momentos vem ao de cima tudo o que há de bom entre as pessoas. Os trabalhadores vivem realmente a empresa, não é só vir aqui ganhar dinheiro. Isso vale quanto? Não se consegue quantificar”, considera Álvaro Santos Silva, que afirma ter por costume “falar sempre a verdade” aos empregados. Ainda em declarações ao “Expresso”, Álvaro Santos Silva – que já recebeu a visita do ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, que quis testemunhar o bom exemplo da Sicasal – afirmou: “Está provado que os portugueses estão dispostos a fazer sacrifícios. Mas querem um País decente e que lhes ofereça futuro, não um Portugal sem sentido.” Quem fala assim diz também nunca ter acreditado “no modelo que existe em Portugal de luta de patrões contra empregados”.
No fundo, a Sicasal está a dar mostras de ser uma organização moderna, em aprendizagem contínua, como definiu Peter Senge (ver aqui). Uma organização que tem capacidade de aprender, de se renovar e de inovar continuamente, e cujos membros estão permanentemente a reforçar a sua capacidade criativa e produtiva, num modelo de comunicação aberta, com significado comum e partilhado por todos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A realidade do Facebook e a vida real


A realidade do Facebook é fantástica. Pessoas felizes, famílias felizes, piadas engraçadas. O Facebook é o campo virtual, onde se conversa com centenas de pessoas, muitas que não conhecemos pessoalmente. De maneira amigável, descontraída, “cool”.
Mas a vida real é diferente. Hoje, é maior o cenário das pessoas que tentam sobreviver, do que as que tentam viver. O mundo está perigoso, diria Vasco Pulido Valente. Eu só diria que está difícil.
As pessoas estão muito mais sós. Não falo apenas da solidão propriamente dita, pois, em alguns casos, é uma opção. Falo da solidão por falta de solidariedade, por falta de valores de amizade, de compaixão, de interesse pelo "outro".
O mundo em que vivemos é perigosamente do "salve-se quem puder", de atropelos e de falta de escrúpulos. Ao contrário do Facebook, a realidade não é bonita. Por isso, muita gente gosta do Facebook.

FONTE: Rui Calafate, editor do blog It’s PR Stupid, 28-02-2012 (ver aqui)

Sporting na Europa. Um vídeo magnífico


O Sporting Clube de Portugal lançou um vídeo de promoção nas redes sociais do jogo desta semana com o Manchester City, a contar para a Liga Europa, em futebol. É um vídeo muito bem feito, porque dá aos adeptos do futebol uma percepção da dimensão internacional do clube leonino e deixa os sportinguistas com vontade de ir ao Estádio de Alvalade repetir sucessos de outros tempos.

A justiça e a comunicação


“O poder judicial não pode continuar a ser hermético, fechado. Os magistrados têm de aprender a comunicar. A justiça precisa de se abrir e compreender que aquele universo é um universo que as pessoas têm sede de conhecer. Gera muita curiosidade, dúvidas e perguntas. Acho difícil um juiz falar sobre uma causa antes de julgá-la, mas é possível que os tribunais tenham gabinetes de comunicação que possam interpretar os termos técnicos jurídicos e dar a informação de forma objectiva. Isso já acontece em muitos lugares do mundo. Se a população compreender melhor o funcionamento da justiça vai criticar menos e confiar mais.”

Gabriela Knaul, Relatora Especial das Nações Unidas para a Independência de Juízes e Advogados, jornal “i”, 07-03-2012

terça-feira, 6 de março de 2012

James Curran. “ A Internet está a pulverizar o jornalismo”


“Pensava-se que a Internet iria remodelar o mundo, mas o mundo acabou por fazer o contrário. Acho que foi o mundo a ter mais impacto na Internet que o contrário.”
“Talvez a palavra “flop” seja demasiado forte para caracterizar o impacto que a Internet acabou por ter no mundo. As expectativas não foram cumpridas, mas o activismo político, por exemplo, ficou muito mais forte com a Internet. Qualquer grupo que se reúna para combater algo que o preocupe tem na Internet o melhor difusor da mensagem. E muitos têm conseguido marcar a agenda mundial, há vários exemplos. Veja-se a denúncia das fábricas da Apple na China, onde são pagos ordenados miseráveis e os trabalhadores têm falta de condições de trabalho. À custa dos vários protestos na Internet, a Apple já tomou medidas para tentar reverter a situação. A influência da Internet é enorme, é uma das grandes consequências. Com a Internet os activistas conseguem trazer mais activistas para a rua. E a Internet teve grande impacto na movimentação dos capitais. Apesar de tudo, o mundo não ficou melhor com a Internet, não da forma que se imaginava há 15 ou 20 anos.”
“Os grandes excluídos são os que não têm acesso à Internet. Apenas 30% da população mundial tem acesso fácil e os 70% que não o têm são de países pobres. Isso quer dizer que as principais mudanças provocadas pela Internet ocorreram nos países ricos. E há outro aspecto: a Internet promove o activismo, mas o activismo acaba por ficar limitado aos mais ricos. Se formos um cidadão pobre a viver numa sociedade rica e ocidental, vivemos uma experiência dolorosa de exclusão, quase pior que viver num país totalmente pobre, devido à componente moral da pobreza, em que as pessoas são culpadas da sua pobreza, por falharem o êxito pessoal e material. Isso aumenta a exclusão do activismo político, por as pessoas estarem mais desmoralizadas e afastadas da acção. Há vários factores no mundo real que desencorajam as famílias mais pobres de serem mais activas em termos políticos. E tal facto projecta uma enorme sombra sobre o alcance da Internet. O ciberespaço não deu mais poder às pessoas, de forma global.”
“Outra das desilusões dos que, nos anos 90, tinham grandes expectativas quanto à Internet e à liberdade da circulação da informação, que estaria fora do alcance dos estados, é que os governos andam cada vez mais a vigiar a Internet. Organizações como a Wikileaks e a Anonymous tentam reverter essa tendência de supra-vigilância estatal sobre o cidadão comum. Estes movimentos tentam manter vivo o espírito inicial da Internet, de quando se acreditava que ela iria derrubar ditadores e seria uma ferramenta da liberdade de expressão.”

“A penetração da Internet na Arábia Saudita, em Marrocos ou nos Emirados Árabes Unidos (EAU), por exemplo, é bem maior que na Tunísia, na Líbia ou no Egipto. Mas os sauditas ou os marroquinos não fizeram a Primavera Árabe. Nem os habitantes dos Emirados àrabes Unidos. Isso mostra que a tecnologia não faz revoluções. Foram outras as razões que levaram à Primavera Árabe, como o desemprego, as falhas no sector da educação, as rivalidades tribais, o sistema económico, etc. E houve sinais que mostraram que a Primavera Árabe ia acontecer. Os jornalistas ocidentais caíram na tentação de olhar para esta revolução como fruto da Internet e do seu poder. Mas é claro que a Internet acabou por dar alguma força à questão, mostrando ao mundo rico o que se estava a passar por lá.”

“Muitos dos chamados ‘egovernos’ apenas disponibilizam informação para consulta, sem grande comunicação entre governantes e governados. É um mero pró-forma por parte das entidades estatais, para deixar os cidadãos satisfeitos. A maior parte das vezes são meras acções de relações públicas.”

“Acho que [o jornalismo] está a ficar pior. A Internet está a afastar o investimento publicitário dos chamados meios tradicionais, levando a que menos jornalistas tenham de produzir mais conteúdos e baixando a qualidade. E quanto ao mito do jornalista-cidadão, é uma forma de jornalismo que não tem um modelo de viabilidade muito definido. De resto, a Internet está a pulverizar o jornalismo.”
James Curran, director do Goldsmith Media Research Centre, jornal “i”, 06-03-2012 (ver aqui documento integral)

segunda-feira, 5 de março de 2012

“Público” tenta regressar ao passado



Quando apareceu nas bancas, em 5 de Março de 1990, sob a liderança editorial de Vicente Jorge Silva, o jornal “Público”, onde tive o enorme prazer de trabalhar, entre 1993 e 2000, revolucionou a imprensa portuguesa, tendo influenciado a produção de jornais nacionais, regionais e até locais. Muitas dessas influências, nomeadamente estéticas, perduram ainda hoje.
Com uma equipa de grande qualidade intelectual e com profissionais para quases todas as tarefas, como era preciso, beneficiando da capacidade de investimento de Belmiro de Azevedo, o “Público” marcava a diferença, assumindo-se como um jornal que aprofundava os assuntos com rigor, explicando devidamente todos os acontecimentos, fossem eles relativos à crise da ideologia comunista após o fim da URSS ou à problemática do tratamento dos lixos domésticos num município dos arredores do Porto. E isso sem deixar de dar as notícias do dia, numa altura em que a Internet estava nos primórdios.
Desde o seu primeiro número (ver imagem da capa neste "post"), o “Público” habituou os seus leitores a muito mais do que à notícia do dia anterior. Com o “Público”, o leitor encontrava diariamente uma visão da região, do País e do Mundo devidamente enquadrada. E foi assim que o jornal da SONAE se transformou numa marca de informação com valor acrescentado.
Mas os tempos mudaram. A comunicação mudou. O jornalismo mudou. O “Público” – que em 1990 surgira com uma imagem e um conceito únicos em Portugal – inaugura hoje aquela que é a sua terceira mudança de grafismo e de conteúdos nos primeiros 12 anos deste milénio, o que, para um jornal de referência, julgo serem mudanças a mais em tão pouco espaço de tempo, mas que demonstram as dúvidas e as incertezas sobre “o papel do papel” nos meios de comunicação, para utilizar uma expressão da directora Bárbara Reis. As mudanças têm um objectivo: fazer do “Público” o jornal de referência que já foi – um regresso ao passado, adaptado aos tempos de hoje. A tarefa é muito difícil.
O “Público” que hoje está nas bancas, no dia em que comemora 22 anos, é um jornal diário que não valoriza as notícias do dia, mas que precisa de tempo para ser lido. Teoricamente, o conceito parece adequado, até porque o público-alvo tem acesso à notícia do dia em tempo real. A questão é saber se esse público tem tempo para ler e, sobretudo, se o jornal – cada vez com menos meios humanos – tem capacidade para oferecer aquilo que um leitor exigente espera todas as manhãs. Da resposta a esta questão dependerá o sucesso ou não de mais esta mudança.

sábado, 3 de março de 2012

O jornal oficial do Benfica

Depois do emocionante Benfica-FC Porto (2-3) da noite desta sexta-feira, “A Bola”,  que é talvez o jornal desportivo mais lido do País, não engana: é o jornal oficial do Sport Lisboa e Benfica. Numa leitura rápida da primeira página, que é a montra da edição, verificamos que o conteúdo da manchete, tanto o título como o antetítulo, onde estão as mensagens principais, é escolhido na perspectiva benfiquista, a quem o jogo correu mal, e não valoriza o excelente espectáculo de futebol.
Na manchete, a expressão “Fora de Jogo” sobre a imagem do último golo do FC Porto remete-nos, de imediato, para uma vitória ilegítima do FC Porto, por ter ido baseada num lance ilegal. Não estou a discutir a legalidade do lance – igual, de resto, a tantos outros que já beneficiaram o Benfica sem que “A Bola” ou os benfiquistas se tivessem preocupado. Nesta primeira página, interessa-me apenas a questão comunicacional. A manchete "Fora de Jogo" também nos diz, subliminarmente, que o Benfica não entrou no jogo ou ficou fora de jogo, isto é, fora da corrida pelo título de campeão nacional.
É no antetítulo que parecem evidentes as contradições e a falta de distanciamento e o descontrolo emocional dos jornalistas de “A Bola”. Começam por justificar a derrota do Benfica mencionando “erros de arbitragem”, todavia, a maioria dos recados incluídos no antetítulo são internos, são para o Benfica, sendo destacados erros do treinador Jorge Jesus, de Emerson (o jogador do Benfica que foi expulso pelo árbitro) e de Artur (o guarda-redes do Benfica que não terá sido competente nos golos sofridos). A frase do antetítulo é rematada com uma ideia que nos deixa algo confusos: todos os erros apresentados, afinal, “não retiram mérito à vitória do FC Porto”. Foi o melhor que "A Bola" conseguiu escrever sobre o FC Porto na primeira página. A referência a uma grande penalidade indiscutível e não assinalada a favor do FC Porto, ainda antes do golo decisivo, aparece "diluída" numa chamada secundária. Talvez a próxima edição do jornal do Benfica aproveite o trabalho feito da Travessa da Queimada…

quinta-feira, 1 de março de 2012

No Observatório da Imprensa do Brasil


Em 17 de Fevereiro último, o jornal “i” publicou um artigo meu sobre os desafios que se colocam ao jornalismo contemporâneo (ver aqui), nestes tempos críticos para as instituições representativas do Estado e dos poderes democráticos. Sob o título "Jornalismo, poderes fácticos e novas censuras", esse texto, devidamente "traduzido" para "português do Brasil", acaba de ser publicado no Observatório da Imprensa do Brasil (ver aqui). Fica o meu agradecimento a Alberto Dines, editor responsável do Observatório.
O Observatório da Imprensa é uma iniciativa do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projecto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É um meio jornalístico focado na crítica dos “media”, com presença regular na Internet desde Abril de 1996.

O fim do acordo ortográfico da Língua Portuguesa


Neste blogue continuo a escrever o "português de Portugal", como a professora Luciana Pinto me ensinou nos bancos da escola primária, na década de 1970, pelo que tenho ignorado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E, a avaliar pelas notícias que chegam da secretaria de Estado da Cultura, estou no caminho certo (ver aqui). Ao ter anunciado que o Governo vai mudar o Acordo Ortográfico até 2015 e que cada português pode escrever como quiser, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, acaba de matar, e bem, o famigerado acordo.
De facto, as regras de escrita que, ao fim de anos e anos de estudos, nos tinham impingido por decreto com o alegado objectivo de uniformizar a língua – como se em Portugal, no Brasil ou em outros países de expressão portuguesa todos falassem da mesma forma – não têm sentido nenhum. A diversidade é enriquecedora. Uma língua é tanto mais rica quanto mais incorporar as diferenças dos seus falantes.
Basta ler o que escreve António Guerreiro sobre a grafia dupla prevista no acordo ortográfico, num trabalho analítico publicado no suplemento cultural "Actual", do semanário "Expresso", de 25-02-2012, para perceber o que está em causa: "A grafia dupla abrange três domínios: o das consoantes mudas, o da acentuação gráfica e o da capitalização (o uso das maiúsculas). Como o critério é o da pronúncia, temos os casos em que há a supressão obrigatória (ato, seleção), os casos em que há a manutenção obrigatória (facto, dicção) e os casos em que a supressão é facultativa (rece(p)ção, dece(p)ção), em que o Acordo dito de unificação ortográfica conseguiu criar uma divergência onde ela não havia."
Nos últimos tempos, tinham vindo a público vários sinais contrários ao Acordo Ortográfico. Às reservas colocadas na imprensa angolana, seguiu-se a desobediência protagonizada por Vasco da Graça Moura, novo administrador do Centro Cultural de Belém, ao anunciar que a instituição estatal iria comunicar segundo a antiga ortografia. Graça Moura venceu, assim como todos aqueles que resistiram a uma mudança estúpida – incluindo algumas publicações, designadamente os jornais “Público” e “i”.
Já agora, o Governo português deveria preocupar-se com casos de abuso das autoridades brasileiras, que pedem aos portugueses a tradução dos documentos, como passaportes ou cartas de condução. Como se os documentos de Portugal não estivessem escritos em português (ver aqui).