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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A morte de Eusébio e a informação televisiva


Portugal deve ser o único país do mundo civilizado onde os serviços de notícias, ou telejornais, das televisões em sinal aberto têm hora para começar, mas não têm hora para terminar. Sejam na televisão pública ou nas televisões privadas.
No pequeno mercado português dos “media”, a “informação televisiva” é, muitas vezes, sinónimo de emissões intermináveis de relatos vazios ou inconsequentes sobre o nada e de perguntas muitas vezes mal formuladas e respostas sem nexo de protagonistas que não têm nada a acrescentar sobre o acontecimento. Foi esta informação sem conteúdo que ganhou estatuto e interesse entre os editores de informação, de tal modo que se transformou em motivo de guerrilha entre canais pela conquista de audiências. Em tempos, até a hora de início dos três telejornais das 20h00 foi motivo de grande polémica, tendo sido necessária a intervenção de organismo regulador, porque, simplesmente, havia canais que tinham prazer em enganar os telespectadores, iniciando o serviço de notícias antes das 20h00 agendadas só para agarrar o público que já estava a ver a novela das 19h00. Uma concorrência absolutamente patética.
A RTP1, a RTP2, a SIC e a TVI não são canais de informação, nem as suas redações estão preparadas para trabalhar com as exigências técnicas e profissionais dos canais de notícias, mas, muitas vezes, atuam como se fossem canais de informação, embora sem que se vislumbre algum critério editorial a não ser o critério das imagens espetaculares, propagandeadas por “teasers” sucessivos antes dos intervalos publicitários para prender ao aparelho o incauto do telespectador – como se as notícias fossem objetos de consumo. Deste modo, degrada-se a qualidade do jornalismo e a informação televisiva perde credibilidade e importância social. Curiosamente, essa degradação agrada aos vários poderes, em particular ao poder político. Mas isso é outra conversa.
Se este cenário pode ser assistido em dias normais – em que as televisões desinformam o telespectador através da promoção da selva mediática, em vez de orientá-lo com o essencial da informação mais importante do dia – tudo piora nos dias de cobertura de grandes acontecimentos. Foi o que aconteceu por estes dias, com a notícia da morte do futebolista Eusébio e respetiva cobertura televisiva das reações, do velório e das cerimónias fúnebres do antigo jogador de Portugal e do Benfica. Foram diretos sobre diretos, com muitas lágrimas, muita comoção e muitas opiniões sem interesse nenhum, ou repetições de imagens e declarações que os portugueses puderam ver em doses cavalares ao longo de horas e horas, fazendo de Eusébio um homem único sem o qual Portugal não teria existido. E transformando todos os canais numa espécie de “Benfica TV”. A verdade é que cobertura da morte de Eusébio construiu uma realidade mediática própria ao ter feito desaparecer das televisões toda a atualidade informativa que não fosse sobre o morto. E, no entanto, mesmo Portugal estando de luto, a vida continuou, em todas as suas vertentes, a chuva não deixou de cair e o mundo avançou.
Podemos dizer que, mais uma vez, os editores televisivos perderam a noção da realidade, deixaram-se arrastar pela emoção do acontecimento e perderam a capacidade de editar o manancial de informação de que dispunham sobre Eusébio, em função de imagens, notícias, entrevistas, reportagens e outros conteúdos. Ora, quando um meio de comunicação perde a capacidade de editar deixa de cumprir o seu papel na sociedade. Editar dá muito trabalho e implica capacidade de decisão, bom gosto, sobriedade, objetividade e muito bom senso. Editar significa separar o trigo do joio, separar o que interessa do que não interessa, em suma, editar significa hierarquizar a informação segundo o posicionamento editorial de cada meio de comunicação, oferecendo ao público o essencial para sua informação. Doutro modo, não estamos a orientar o público e a facilitar a compreensão da realidade, correndo o risco de desinformar, intoxicar e confundir o público.
Mesmo em situações de grandes acontecimentos de interesse público, um telejornal de um canal generalista não pode deixar de ser um telejornal, oferecendo ao público toda a informação do dia. E por muito grande que seja um acontecimento, só muito raramente ele poderá ser susceptível de alterar o tempo de duração de um telejornal. De resto, em ocasições muito especiais, há sempre a possibilidade de ser aberta uma emissão especial, com uma duração temporal previamente fixada, para que o público possa saber com o que vai contar na sua televisão. E assim ganhariam todos. O canal de televisão ganharia credibilidade e o telespectador sentir-se-ia respeitado.

domingo, 29 de dezembro de 2013

O papel da imprensa económica no espaço mediático português


“(...) Alguns jornalistas ficam muito irritados quando afirmo (e vou repetir) que um dos problemas dos dias de hoje na vida pública em Portugal é a facilidade com que a comunicação social absorve a linguagem do poder e a reproduz como sendo sua, assim legitimando-a porque lhe dá um sujeito neutro, tornando-a uma verdade universal. Este processo não é simples, não se trata de estar “a favor” ou “contra” o Governo, nem sequer de atuar em função de preferências ou hostilidade partidárias, porque se fosse assim seria mais fácil identificar o que se passa.
Há um papel importante para os gostos e os ódios pessoais, mas isso faz parte do meio jornalístico desde sempre. O hábito é ajustar contas em função das simpatias ou antipatias pessoais entre jornalistas, políticos e outras personagens do espaço público, muito mais eficaz como explicação do que as simpatias partidárias. A promiscuidade entre jornalistas e “fontes”, a troca de favores e cumplicidades, as amizades e os amores, as vinganças e elogios interessados passam-se de modo subterrâneo, mas explicam muito da atitude de jornalistas face aos detentores do poder político, atual ou passado. Ora pouca gente cultiva mais a sua relação com os jornalistas do que os grupos dirigentes das “jotas” dos partidos, seja do PS ou do PSD, cuja proximidade social, cultural, de mentalidade e modo de vida, é quase total, e cuja partilha geracional de vocabulário (escasso), fragmentos de ideias, mitos e (in)experiências é igualmente comum.
Muitas vezes estas empatias têm a ver com o bem escasso da “influência” e os conflitos pela capacidade de a ter, outras vezes é inveja por ganhos e recursos. O problema é que, sendo esta uma explicação importante para muito do que se publica e se diz, ainda por cima em meios muito pequenos, que comunicam entre si, e onde está sempre alguém no lugar pretendido por outrem, ela é invisível para a comunidade dos consumidores dos media, que desconhecem muitos dos meandros que estão atrás dos bastidores. Explicava muita coisa, como se percebeu quando do “caso Relvas”, mas é na maioria dos casos impossível de usar.
Há cada vez mais jornalistas e jornalistas-comentadores mais próximos do poder, partilhando do mesmo pensamento de fundo associado ao “ajustamento”, embora possam discordar e algumas vezes serem até agressivos na crítica a aspectos de detalhe da governação. O problema é que a concordância de fundo é muito mais importante do que a discordância no detalhe e o núcleo central de legitimação do poder permanece intocável.
A mentalidade adversarial da comunicação social, já em si mesmo uma fragilidade, deu lugar a uma enorme complacência com o poder. Uma das razões desta proximidade de fundo tem a ver com o papel cada vez mais destacado da imprensa económica em tempos em que a “crise” é dominantemente explicada apenas pelas suas variantes económicas. O predomínio da economia levou a um avolumar do “economês”, uma variante degradada quer da economia, quer da política. E esse “economês” favorece os argumentos de “divisão” que têm tido muito sucesso no discurso público, fragilizando, no conflito social, umas partes contra as outras. Este discurso da divisão é uma novidade desta crise e uma das principais vantagens da linguagem do poder.
Colocar novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores privados contra funcionários públicos, reformados da Segurança Social contra pensionistas da CGA, sindicalizados contra “trabalhadores”, grevistas contra a “população”, e muitas outras variantes das mesmas dicotomias, tem tido um papel central no discurso governamental, que encontra na “equidade” um dos mais fortes elementos de legitimação. Se se parar para pensar, fora dos quadros das “evidências” interessadas, verifica-se até que ponto uma espécie de neomalthusianismo grosseiro reduz todas estas dicotomias a inevitabilidades a projeções sobre o “futuro” muito simplistas e reducionistas e que recusam muitos outros fatores que deviam entrar na avaliação dessa coisa mais que improvável que é o “futuro”. À substituição da política em democracia, com o seu complexo processo de expectativas e avaliações, traduzidas pelo voto, ameaçando, como dizem os “ajustadores”, pela “politiquice”, ou seja, as eleições, a “sustentabilidade” das soluções perfeitas de 15 ou 20 anos de “austeridade”, soma-se a completa falta de pensamento sobre o modo como as sociedades funcionam, que o “economês”, que é má economia, não compreende.
A redução das análises correntes a este “economês”, sem política democrática, nem sociedade, revela-se num fenómeno recente que é a proliferação de livros de jornalistas com as receitas para salvar o país, quase todos sucessos editoriais. Eles mostram a interiorização profunda, em muitos casos prosélita, noutros mais moderada, da linguagem, explicações, legitimações, amigos e adversários, proto-história e factos selecionados, do discurso do poder sobre a crise. A isso acrescentam propostas em muitos casos inviáveis em democracia e num Estado de direito, e cuja eficácia, mesmo nos seus termos, está por demonstrar.
Esses livros favorecem a ideia de que o “vale-tudo” que está por detrás da continuada sucessão de legislação inconstitucional do Governo poderia ser a solução ideal “para Portugal”, que infelizmente é “proibida” ou pela “resistência corporativa” dos interesses ou por entidades como o Tribunal Constitucional, ou mesmo pela “ignorância” e impreparação da opinião pública. Escreve-se como se não houvesse interesses legítimos que o Estado de direito acautela, ou práticas brutais de transferência de rendimentos e recursos, que tem sempre quem ganha e quem perde, cujos efeitos na conflitualidade social tornam por si próprio insustentável a sua manutenção. São de um modo geral muito complacentes com os de “cima” e muito críticos dos de “baixo”, e dão pouca importância aos efeitos de exclusão e diferenciação social que as suas políticas propõem, mas, acima de tudo, ignoram sistematicamente que elas falham no essencial, ou seja, que são ineficazes para os objetivos pretendidos.
A solução é, em vez de mudar as políticas, acrescentar-lhes mais tempo e é por isso que o coro da “austeridade” para décadas é cada vez maior e será ruidoso depois da troika mandar aterrando cá, para mandar a partir de Bruxelas. Aliás, será um interessante exercício ver o que nos diziam em 2011, sobre os resultados que já se deveriam ver em 2012, e o milagre de uma economia pujante “libertada do Estado”, já em 2013, e que agora é de novo prometida em 2014. Se diminuíssemos a dívida e défice em função das “intenções proclamadas” para o ano seguinte, já estávamos a cumprir o Pacto Orçamental.
Alguns jornalistas sabem que é assim, que a linguagem do poder se estabeleceu de forma acrítica na comunicação social, e aqui e ali tentam funcionar a contracorrente. Mas as redações estão muito degradadas, com meios muito escassos, o trabalho precário, barato ou quase gratuito, pouco qualificado, prolifera e o emprego está sempre em risco, pelo que a prudência exige muita contenção. Por outro lado, o papel crescente da “comunicação” profissionalizada, a que Governo e empresa, recorrem cada vez mais, exerce uma pressão considerável no produto final da comunicação social, em particular na informação económica. A isto se junta o proselitismo na Rede, nos blogues e no Facebook, nos comentários anónimos, às claras ou em operações “negras” de assessores militantes e amigos dos partidos do Governo, à procura de um lugar ao sol, ao exemplo do que um destes operacionais revelou recentemente numa entrevista à Visão.
Por isso, neste combate pelas palavras de 2014, o Governo parte em vantagem, não porque tenha razão, mas porque tem mais meios e, pior ainda, conta com a força que num país pequeno, fragilizado, com uma classe média empobrecida, com uma opinião pública débil, tem o discurso que vem do lado do poder. Já acontecia com Sócrates, acontece com Passos Coelho.”

José Pacheco Pereira, historiador e militante do PSD, partido que lidera a coligação governamental, “Público”, 28-12-2013 :: Texto integral: http://bit.ly/1fTeU1C :: Título da responsabilidade do blog COMUNICAÇÃO INTEGRADA

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

António Borges na doença e no poder


A questão é sensível e polêmica. Mas não pode deixar de ser colocada. Hoje, sabemos que o Governo português contratou para seu principal consultor, com responsabilidade por muitos negócios públicos importantes, nomeadamente na área das privatizações e da renegociação das parcerias público-privadas, um homem com graves problemas de saúde, o economista António Borges, que estava a lutar contra um cancro no pâncreas, diagnosticado em 2010, tendo falecido neste domingo, aos 63 anos de idade.
A questão é saber até que ponto a doença afetou, ou não, o economista António Borges nas suas decisões, nos seus conselhos ao Governo e nas opiniões expressas publicamente, nos últimos meses da sua vida. Ironicamente, António Borges era um defensor acérrimo do programa de austeridade, que está empobrecendo as famílias portuguesas e a economia. Há um livro muito interessante que fala sobre isso, do político inglês David Owen, intitulado precisamente “Na Doença e no Poder”. A partir do caso de António Borges, penso que o tema deveria subir à agenda mediática portuguesa para ser debatido sem preconceitos. http://migre.me/fRhB7

Obs. – António Borges foi um liberal que representou os interesses da alta finança internacional. Mesmo assim, estou triste pela sua morte. E continuo sem compreender como é possível que os senhores do mundo não consigam descobrir a cura para uma doença tão mortal como o câncer.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A informação biquíni


O “Daily Mirror” é lido pelas pessoas que acham que mandam no país. O “The Guardian” é lido pelas pessoas que acham que deviam ser elas a mandar no país. O “The Times” é lido pelas pessoas que realmente mandam no país. O “Daily Mail” é lido pelas mulheres dos homens que mandam no país. O “Financial Times” é lido pelas pessoas que são donas do país. O “Morning Star” – jornal do Partido Comunist – é lido pelas pessoas que acham que o país devia ser mandado por outro país. E o “Daily Telegraph” é lido pelos que acham que ele é realmente mandado por outro país.
É um exercício interessante, não é? Eu podia aqui exercitar os sucos gástricos e escrever sobre os concorrentes do “Diário de Notícias” ou até sobre o próprio “Diário de Notícias”... Há tanto para dizer sobre os jornais. Os jornais do poder político, os dos juízes e da polícia, os jornais dos empresários e dos intelectuais (ainda há jornais de intelectuais?), os dos professores e pensionistas, etc. Não há mal nenhum nisto se entendermos que cada periódico tem uma clientela com exigências e apetites informativos que criam mercados de leitura muito concretos.
Há até espaço para nichos. O “Diário Económico”, onde trabalhei, e o “Jornal de Negócios”, por exemplo, vendem hoje cada um deles (nem sempre foi assim) menos de quatro mil exemplares por dia em banca, mas exercem uma influência determinante nestes poucos leitores que, por sua vez, têm um peso enorme na opinião que o País forma sobre os assuntos económicos e políticos. Não é por acaso que a reforma do IRC foi tão bem recebida: a agenda dos empresários é esta, não outra. Já a redução do IRS (vital) não encontra defensores tão persistentes e vocais que obriguem a que o assunto se fixe no centro do debate. Os sindicatos poderiam assumir este papel, mas concentram-se nas reivindicações salariais e na defesa de estatutos profissionais muitas vezes caducos – e daí não arredam pé.
Na verdade o que parece escassear são jornais que olhem para o todo e escolham o relevante. Que tratem as notícias não na perspetiva de um grupo de interesses, mas que estejam abertos a todo o universo informativo sem ficarem, digamos, capturados. Não se trata apenas de resumir tudo ao antagonismo superficial entre austeridade e crescimento, mas de enriquecer as análises e as decisões que tomamos – como a eleição de um Governo –, com informação bem investigada capaz de remeter o ruído partidário (a insistência nos swaps) ou o jornalismo mirone (o biquíni de Judite Sousa) para o lugar que merecem. À “Caras”, portanto, o que é da “Caras”. A questão é até simples, como diria sir Humphrey, o secretário permanente do primeiro-ministro Jim Hacker – da série Yes, Prime-minister, de onde tirei a citação inicial: "Se as pessoas não sabem o que estamos a fazer no Governo, não sabem o que estamos a fazer mal no Governo." Não está mal visto.

Autor: André Macedo, jornalista, “Diário de Notícias”, 15-08-2013
http://migre.me/fKNeO

terça-feira, 24 de abril de 2012

"Um dia com os Media" na Lusófona do Porto


Na próxima segunda-feira, 30 de Abril, pelas 14h00, estarei na Universidade Lusófona do Porto (ULP), para falar sobre o papel dos “media” nas nossas vidas, no âmbito da iniciativa nacional “Um dia com os Media”. Para mim, será um privilégio estar ao lado do provedor do telespectador da RTP, José Carlos Abrantes, e de outras pessoas da ULP, para falar daquilo que vivo, que é também aquilo de que mais gosto e que mais estimula o meu interesse pelo conhecimento: a comunicação e o jornalismo (ver aqui toda a informação).

domingo, 22 de abril de 2012

Caricaturas da democracia e do jornalismo


Não é possível! Para quem viveu largos decénios no coração da União Europeia, a situação é inacreditável. Porque esta particularidade portuguesa dos "comentadores residentes" (!) e de uns gurus caseiros que falam e escrevem sobre política (e tudo, tudo o mais) constitui uma anomalia total. E em nenhum, absolutamente nenhum país da Europa ocidental se encontram situações idênticas e tão caricatas.
Concretamente, a primeira anomalia vem do facto de que, em Portugal, são militantes de primeiro plano e antigos ou atuais responsáveis políticos que ocupam a grande maioria dos lugares de "comentadores" nos grandes “media” nacionais. Quando nos outros países europeus é a jornalistas "seniores" especializados, a profissionais ou a académicos de reconhecida competência que os “media” atribuem tal estatuto.
A segunda anomalia é absolutamente única: a de ver um personagem como Marcelo Rebelo de Sousa (homem de uma incontestável simpatia e inteligência, e de uma boa cultura, mas totalmente desconhecido para além das fronteiras nacionais) dispor de duas páginas no Expresso dos primeiros anos e atualmente no Sol, e de uma emissão semanal na TVI ou mesmo na pública RTP. Com a agravante de que fala não só de política (onde teve, tem e parece querer ter papel importante) mas de absolutamente tudo e de nada, e quantas vezes de matérias em que não tem competência alguma...
Esta anomalia tem ainda uma consequência totalmente aberrante. Quando Marcelo Rebelo de Sousa (provincianamente designado por "Marcelo"), José Pacheco Pereira ("Pacheco") e outros mais "residentes" mandam "uma boca" (como agora se diz) mais ou menos radical, feroz e, de preferência, contra o partido, governo e presidente deles, toda uma série de outros “media” retomam tais "bocas" em título. Sejam embora tais "bocas" de nulo interesse para a compreensão da sociedade e da política nacional. Até porque, muitas vezes, mais não fazem que traduzir guerrinhas no microcosmos alfacinha: tristes caricaturas da democracia e do jornalismo!

Obs. - Título e imagem da responsabilidade deste blogue

terça-feira, 10 de abril de 2012

A semana horrível do Governo Passos Coelho


Paul Watzlawick (1921-2007), um dos mais notáveis teóricos da comunicação e um dos fundadores da Escola de Palo Alto (EUA), formulou cinco axiomas na comunicação entre dois indíviduos sem os quais a comunicação pode falhar. Uma dessas proposições tão evidentes que não precisam ser demonstradas é a ideia segundo a qual é impossível não comunicar, dado que todo o comportamento humano é uma forma de comunicação. De acordo com Watzlawick, como não existe forma contrária ao comportamento – não existe o "não-comportamento" ou o "anticomportamento" –, também não existe a "não-comunicação". É por isso que é impossível não comunicar.
Do mesmo modo, também é impossível a um Governo não comunicar. Bem ou mal está sempre a comunicar. Não comunicar é impossível, porque, muitas vezes, até um silêncio sobre uma matéria qualquer pode ser ensurdecedor. Se olharmos para trás, os casos mais polémicos que têm envolvido o Governo da coligação PSD-CDS/PP têm resultado mais de declarações desconexas e contraditórias, produzidas em actos públicos, entrevistas ou encontros de circunstância com os jornalistas, do que propriamente de decisões tomadas pelo executivo no âmbito das duras medidas de empobrecimento de Portugal impostas pela “troika” formada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia. No fundo, os casos mais polémicos são um problema de comunicação.
Perante jornalistas e meios de comunicação que apanham a espuma das coisas, ou o "sound bite", e privilegiam o incidente ou a divergência, por mais pequena que ela seja, pois só assim têm o “espectáculo” garantido nas televisões, o Governo de Pedro Passos Coelho tem deslizado mais do que seria expectável numa equipa encarregada de impulsionar a recuperação económica e social do País, contando com uma larga maioria parlamentar e com a predisposição da população para os sacrifícios.
Porém, alguns dislates perfeitamente dispensáveis têm dado cabo da paciência dos cidadãos – a acrescentar a um conjunto de decisões que contrariam o que fora dito em campanha eleitoral, como por exemplo, sobre os cortes dos subsídios de férias e de Natal ou as nomeações políticas – e têm contribuído para um divórcio gradual entre o País e o Governo. Assim de cabeça, não faltam exemplos de trapalhadas verbais em menos de um ano de Governo: a pieguice enunciada por Pedro Passos Coelho sobre os portugueses que se queixam das dificuldades; o convite aos jovens e aos professores para que emigrem; o incentivo à exportação de pastéis de nata; ou o desconhecimento sobre a rede ferroviária espanhola, anunciando-se um comboio rápido para ligar Sines a Badajoz numa linha cuja bitola correspondente só existe na fronteira de Espanha com a França.
Mas o pior da comunicação governamental aconteceu na Semana Santa, que ficou assinalada como a semana horrível deste Governo. Para além do anúncio inesperado da proibição das reformas antecipadas, verificaram-se desencontros graves entre o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, a propósito da data do regresso de Portugal aos mercados e dos cortes nos subsídios de férias e de Natal para os funcionários públicos e pensionistas. Como se sabe, esses cortes foram alvo de uma comunicação ao País devidamente preparada, ainda antes da aprovação do Orçamento para 2012. Nela, o primeiro-ministro foi muito claro ao anunciar que esses cortes iriam vigorar apenas em 2012 e 1013. Não se entende, por isso, que a reposição desses subsídios seja agora atirada para 2015, e mesmo assim gradualmente, e que o ministro das Finanças venha reconhecer que, afinal, o que dissera foi um lapso.
Com isto, Pedro Passos Coelho aproxima-se cada vez mais de José Sócrates: deixa de ter credibilidade e vê ganhar terreno a ideia de que “os políticos são todos iguais”, o que é terrível, mais a mais numa situação de emergência como aquela que se vive em Portugal.
Ora, para uma boa comunicação é indispensável que o mensageiro seja responsável nas decisões que anuncia e seja credível. Para isso não é preciso inventar. Basta agir com bom senso. Como diz o antigo ministro Miguel Beleza, num trabalho sobre o assunto publicado hoje pelo jornal “i”, “não se pode dizer tudo, mas o que se diz não pode ser mentira” (ver aqui).

sexta-feira, 30 de março de 2012

Luciana Abreu comprou uma bomba para tirar leite

 

O “Correio da Manhã” é o jornal diário mais vendido em Portugal. Mesmo quando publica na primeira página notícias que não são notícia em lugar nenhum do mundo. A actriz Luciana Abreu, ao anunciar que comprou uma máquina para tirar leite, ao que se presume, das suas próprias mamas – e não das tetas de uma vaca qualquer –, está a oferecer ao "Correio da Manhã" a possibilidade de vender muitos jornais (ver aqui). Isso é que é grave. Donde, sem o “Correio da Manhã”, isto não seria a mesma coisa.

quarta-feira, 28 de março de 2012

“O Independente”, segundo Miguel Esteves Cardoso


“[‘O Independente’] era uma coisa moderna, normal. Uma coisa não respeitadora dos respeitinhos, e sem medo. Tinha havido o Estado Novo e a censura. Há esse medo de arreliar uma pessoa, de magoar pessoas, e nós, talvez inconscientemente, talvez irresponsavelmente, não tínhamos medo. E não tínhamos medo de não ser de esquerda. Historicamente, em Portugal, o PSD era ‘social-democrata’, como o Bernstein, era sempre preciso mostrar que se era primo direito ou em terceiro grau do Marx. Não imagina as discussões que havia em 1974. Até o CDS era pela sociedade sem classes. Esse elemento estava muito enraizado na maneira de pensar. E nós queríamos poder dizer que éramos conservadores. Ser conservador não é ser nazi, é querer que as coisas continuem, gostar das coisas como são. E isso era novo.”

“O jornal era um grupo de pessoas, mas a parte cultural era feita por mim e a parte política pelo Paulo [Portas]. O Caderno 3 tinha muitos jornalistas conservadores, mas muitos não o eram, não era importante. Fazíamos aquilo que nos apetecia.”

“O João Bénard escrevia exactamente como queria e com o tamanho que queria. Hoje em dia, não é bem assim. As pessoas compravam o jornal para ler essas pessoas. Sou fã do Vasco Pulido Valente e pensava: ‘Como é que este gajo, que eu lia quando era miúido, agora escreve para mim?’ Era uma idolatria pura, com a Agustina, com a Filomena Mónica, com o Barreto, ter esses colegas. E a fotografia era muito importante, nunca tinha havido fotografias assim. O essencial na relação com os fotógrafos, a Inês Gomnçalves, o Daniel Blaufuks, era podermos dar espaço às fotografias. E com o grafismo do Jorge Colombo podíamos ocupar a página como quiséssemos.”

“O que não se pode substituir nunca é a juventude, a primeira vez. Eu não conhecia o Paulo, o Paulo não me conhecia, éramos dois putos e decidimos: ‘Vamos fazer um jornal.’ Não sabíamos nada de jornais, nunca tínhamos trabalhado em jornais, e isso era excitante, poder fazer tudo, decidir quem é o director. Era maravilhoso, não se consegue reproduzir.”

“O Cavaco [primeiro-ministro entre 1985 e 1995] nunca pôs um processo, nunca chateou, nunca mandou uma carta, mesmo quando foi muito maltratado, foi impecável. E o Mário Crespo também. Essas pessoas com que gozávamos, como o Macário, acabavam sempre por ganhar, porque eram superiores. Com o Torres Couto, quando fomos entrevistá-lo, eu e o Paulo, ele fez pouco de nós, foi superior, respondeu às perguntas, e nós sentimo-nos muito mal. De repente, percebemos que estávamos a ser parvos e ele estava a ser um adulto, foi uma lição.”

Miguel Esteves Cardoso, fundador e primeiro director do jornal “O Independente”, em entrevista ao “Expresso”, 24-03-2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

O terrorismo na campanha francesa

Com o ataque terrorista de Toulouse, tudo mudou na campanha eleitoral para as eleições presidenciais francesas. Até agora, Nicolas Sarkozy estava em dificuldades (ver aqui), adoptando como estratégia um discurso de extrema-direita – o único eleitorado onde teria margem para crescer eleitoralmente, encolhendo Marine Le Pen.
A comoção que atravessa a França, em virtude dos sangrentos ataques de Mohamed Merah e a consequente aparição de Sarkozy como Presidente a tempo inteiro nas cerimónias fúnebres, baralha o jogo eleitoral. Porque estamos perante um caso que mexe com a mente do eleitorado. Por isso, a campanha do socialista François Hollande enfrenta um obstáculo inesperado que poderá ser fatal. Os franceses querem alguém que proteja a França. E Sarkozy está em palco, o que decorre das suas funções como Presidente legítimo dos franceses.
Em termos comunicacionais, há situações inesperadas que rebentam durante as campanhas eleitorais cujos efeitos são incontroláveis ou muito difíceis de controlar. Nuns casos, travam a mudança política que estava em perspectiva. Noutros, acentuam a tendência dessa mudança.
Em 1999, António Guterres, que se recandidatava a Primeiro-Ministro de Portugal, teve a seu favor o massacre de Timor Leste – que resultou na independência do território –, o que lhe deu muita exposição pública mediática. Como se isso não bastasse, em plena campanha eleitoral, morreu Amália Rodrigues e o País parou. Guterres venceu, contra Durão Barroso, mas nem assim conseguiu a maioria absoluta.
Em 1980, na última semana das presidenciais, morreu o Primeiro-Ministro e líder do PSD, Francisco Sá Carneiro, que se batia pela eleição do general Soares Carneiro contra Ramalho Eanes – tendo este acabado por vencer as eleições. Mas não sabemos qual seria o resultado eleitoral se Sá Carneiro não tivesse morrido.
Em 2004, em Espanha, na sequência de um ataque terrorista em Madrid, a quatro dias das eleições, onde morreram perto de duas centenas de pessoas, o Governo de José Maria Aznar (Partido Popular) manifestou dificuldade em atribuir a autoria dos atentados, o que levou o povo a sair às ruas, em manifestações espontâneas, o que contribuiu de forma decisiva para a mudança de Governo, com a vitória do socialista José Luiz Zapatero contra todas as previsões anteriores ao atentado. FOTO: Jacques Brinon / Associated Press

segunda-feira, 19 de março de 2012

O talento de Mário Zambujal entre whisky e meninas


“Numa insónia podemos ter um trabalho fantástico. Ainda esta noite tive uma, e como preciso de entregar um conto de Natal, acho que o fiz mentalmente. Só falta passar para o papel. Tenho muitas ideias durante a noite, enquanto não consigo dormir. Talvez tenha a ver com o facto de ter sido noctívago durante muitos anos. Fazia jornais até às quatro e cinco da manhã, só depois é que ia jantar. O problema é que a essa hora só há whisky e casas de meninas.”

“Acabava por cear nessas casas. No dia em que Carlos Lopes ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos, o director da revista "Flama" virou-se para mim e disse: ''Preciso de um texto teu, um daqueles malucos, mas preciso disso para amanhã de manhã.'' E lá fui eu ali para cave do Mundial, na Rua António Augusto Aguiar, cheio de fome. Cheguei lá, encontrei-o com outros amigos comuns e disse-lhe: ''Amanhã de manhã, tocas à campainha da porteira e pedes a chave do correio. Deixo-te lá a crónica, mas não me acordes.'' Comecei a escrever em guardanapos de papel uma coisa chamada "Esta Noite Choveu Prata". Um artigo feito entre as marotas da Cave, que passaram a noite a dizer "então querido, o que estás fazer?" Dois anos depois o texto, escrito num ambiente de pecado, estava nos livros do oitavo ano de escolaridade. Só faltava cheirar a whisky.”

“Gosto de me movimentar, raramente me fixo. Mudar de ambiente é quase uma necessidade. Isso aconteceu nos vários jornais onde trabalhei, apesar de nunca ter mudado por causa de algum conflito – os meus desentendimentos são escassos, normalmente acabam com "ficas na tua, eu fico na minha". Nunca me chateio mais do que isto. Mudar com frequência torna a vida mais intensa, rodeada de mais pessoas.”

“Nasci em Moura, vivi na Amareleja, em Beja e no Algarve, onde comecei por escrever uma crónica num jornal local. Também jogava futebol, mas era uma nulidade com o pé esquerdo. O treinador obrigava-me a jogar com uma sapatilha no pé direito e uma bota no outro, para ver se eu chutava com o esquerdo. Quando o correspondente de "A Bola" no Algarve adoeceu, eu fui substituí-lo. Os editores começaram a pedir-me mais coisas, até que, pela primeira vez na sua história, o jornal chamou um miserável correspondente da província para trabalhar em Lisboa, na redacção.”

“Os dois primeiros meses foram um desastre. O Carlos Pinhão levava-me para casa dele quase como se me tivesse adoptado. Mal sabia onde era a Rua do Ouro.”

“Eu odiava a palavra escritor – apesar de já ter livros suficientes – porque representa uma actividade permanente. Prefiro dizer autor. Na verdade, eu não queria escrever a "Crónica dos Bons Malandros", mas os meus amigos passavam a vida a insistir. Gostavam das minhas crónicas mais ou menos humoradas. (…) Tenho uma grande admiração por aqueles escritores que trabalham oito horas por dia, quase como se tivessem uma profissão burocrática. Eu sou capaz de trabalhar 16 horas em apenas um dia, mas também posso estar uma semana sem escrever uma linha. Faz parte da minha personalidade, não me violento muito no sentido de mudar, acho que não vale a pena.”

“Aceitei o convite [da RTP] às quatro da manhã numa casa chamada Hipopótamo, sentado à mesa com o Cordeiro do Vale, que era chefe do departamento desportivo da RTP. Ele tinha dois gurus que o estimavam muito, o Noronha Feio, que foi director-geral do Desporto, e o José Esteves, que escrevia na "A Bola". Quando ele lhes perguntou se sabiam de alguém com o perfil para o lugar [apresentador de um programa de desporto], ambos me recomendaram. ''Eu falo alentejano com sotaque algarvio'', dizia eu.”

“A televisão intimidava-me, não era o meu universo, nunca gostei muito dos holofotes, das câmaras, sentia-me um bocado desajustado. A pior coisa que há é um tipo fazer as coisas sem ter a convicção de que as pode fazer bem. E eu, no princípio, não tinha essa convicção.”
“Tento nunca dizer a expressão "no meu tempo". Este tempo também é o meu, mas sinto que as coisas vão ficando cada vez mais desumanizadas. Ainda escrevo os meus livros à mão. Dantes, nos intervalos do jornal, íamos comer uma sandes à dona Ermelinda. Agora é uma máquina que se está nas tintas se queremos manteiga ou alface. Mete-se lá a moeda e ela descarrega com ar de "toma lá isto e cala-te".”

“Era namoradeiro e tive pessoas muito interessantes. Aos meus 15 anos, ainda se vivia um tempo de profundo afastamento entre rapazes e raparigas. Mas essa dificuldade, de não poder tocar ou abordar, era superada nos bailes. Quando o conjunto começava a tocar, virava-me para aquela rapariga que eu conhecia mas com quem nunca falava e dizia-lhe: "A menina não quer dançar, pois não?" Nunca falhou. Bailes e bola sempre foi o meu mundo. Mais tarde, já em Lisboa, era capaz de sair do jornal às três da manhã e ir a Santarém beber um copo com uma senhora. No "Diário de Notícias" os estagiários ficavam à minha espera só para os levar para as boîtes. Se tivesse morrido nessa altura, o meu funeral ia estar cheio de porteiros, conhecia toda a gente."

Mário Zambujal, jornalista e escritor, actualmente com 76 anos, celebrados no último dia 5 de Março, numa entrevista ao jornal “i”, publicada em 16-10-2010 (Ler aqui na íntegra)

segunda-feira, 12 de março de 2012

“The Guardian” avança para o jornalismo aberto


O respeitado diário inglês “The Guardian” resolveu considerar o conteúdo gerado pelos seus leitores como parte de sua política editorial. É mais um sinal da cultura da convergência em que vivemos, sobre a qual escreveu Henry Jenkins. Hoje, os meios de comunicação tradicionais, as organizações e os cidadãos estão ligados em rede e todos falam com todos. Dispondo de computadores, telemóveis baratos e de Internet a baixo custo, o cidadão é cada vez mais informado e mais exigente. Assim como dá opiniões no Facebook, também quer participar na criação da notícia. A grande questão é saber que jornalismo resultará dessa convergência do trabalho dos jornalistas dos meios tradicionais com o trabalho dos seus públicos na rede.
Como se pode ler clicando aqui, a decisão de “The Guardian” abre caminho a uma revolução tardia no jornalismo digital, que ainda luta para encontrar um papel social num mundo virtual cada vez mais participativo e onde a linha que divide a produção e o consumo de conteúdos praticamente desapareceu. Sejam bem-vindos, pois, ao “jornalismo aberto” – uma nova forma de editar notícias que conta com a participação activa dos cidadãos.

terça-feira, 6 de março de 2012

James Curran. “ A Internet está a pulverizar o jornalismo”


“Pensava-se que a Internet iria remodelar o mundo, mas o mundo acabou por fazer o contrário. Acho que foi o mundo a ter mais impacto na Internet que o contrário.”
“Talvez a palavra “flop” seja demasiado forte para caracterizar o impacto que a Internet acabou por ter no mundo. As expectativas não foram cumpridas, mas o activismo político, por exemplo, ficou muito mais forte com a Internet. Qualquer grupo que se reúna para combater algo que o preocupe tem na Internet o melhor difusor da mensagem. E muitos têm conseguido marcar a agenda mundial, há vários exemplos. Veja-se a denúncia das fábricas da Apple na China, onde são pagos ordenados miseráveis e os trabalhadores têm falta de condições de trabalho. À custa dos vários protestos na Internet, a Apple já tomou medidas para tentar reverter a situação. A influência da Internet é enorme, é uma das grandes consequências. Com a Internet os activistas conseguem trazer mais activistas para a rua. E a Internet teve grande impacto na movimentação dos capitais. Apesar de tudo, o mundo não ficou melhor com a Internet, não da forma que se imaginava há 15 ou 20 anos.”
“Os grandes excluídos são os que não têm acesso à Internet. Apenas 30% da população mundial tem acesso fácil e os 70% que não o têm são de países pobres. Isso quer dizer que as principais mudanças provocadas pela Internet ocorreram nos países ricos. E há outro aspecto: a Internet promove o activismo, mas o activismo acaba por ficar limitado aos mais ricos. Se formos um cidadão pobre a viver numa sociedade rica e ocidental, vivemos uma experiência dolorosa de exclusão, quase pior que viver num país totalmente pobre, devido à componente moral da pobreza, em que as pessoas são culpadas da sua pobreza, por falharem o êxito pessoal e material. Isso aumenta a exclusão do activismo político, por as pessoas estarem mais desmoralizadas e afastadas da acção. Há vários factores no mundo real que desencorajam as famílias mais pobres de serem mais activas em termos políticos. E tal facto projecta uma enorme sombra sobre o alcance da Internet. O ciberespaço não deu mais poder às pessoas, de forma global.”
“Outra das desilusões dos que, nos anos 90, tinham grandes expectativas quanto à Internet e à liberdade da circulação da informação, que estaria fora do alcance dos estados, é que os governos andam cada vez mais a vigiar a Internet. Organizações como a Wikileaks e a Anonymous tentam reverter essa tendência de supra-vigilância estatal sobre o cidadão comum. Estes movimentos tentam manter vivo o espírito inicial da Internet, de quando se acreditava que ela iria derrubar ditadores e seria uma ferramenta da liberdade de expressão.”

“A penetração da Internet na Arábia Saudita, em Marrocos ou nos Emirados Árabes Unidos (EAU), por exemplo, é bem maior que na Tunísia, na Líbia ou no Egipto. Mas os sauditas ou os marroquinos não fizeram a Primavera Árabe. Nem os habitantes dos Emirados àrabes Unidos. Isso mostra que a tecnologia não faz revoluções. Foram outras as razões que levaram à Primavera Árabe, como o desemprego, as falhas no sector da educação, as rivalidades tribais, o sistema económico, etc. E houve sinais que mostraram que a Primavera Árabe ia acontecer. Os jornalistas ocidentais caíram na tentação de olhar para esta revolução como fruto da Internet e do seu poder. Mas é claro que a Internet acabou por dar alguma força à questão, mostrando ao mundo rico o que se estava a passar por lá.”

“Muitos dos chamados ‘egovernos’ apenas disponibilizam informação para consulta, sem grande comunicação entre governantes e governados. É um mero pró-forma por parte das entidades estatais, para deixar os cidadãos satisfeitos. A maior parte das vezes são meras acções de relações públicas.”

“Acho que [o jornalismo] está a ficar pior. A Internet está a afastar o investimento publicitário dos chamados meios tradicionais, levando a que menos jornalistas tenham de produzir mais conteúdos e baixando a qualidade. E quanto ao mito do jornalista-cidadão, é uma forma de jornalismo que não tem um modelo de viabilidade muito definido. De resto, a Internet está a pulverizar o jornalismo.”
James Curran, director do Goldsmith Media Research Centre, jornal “i”, 06-03-2012 (ver aqui documento integral)

segunda-feira, 5 de março de 2012

“Público” tenta regressar ao passado



Quando apareceu nas bancas, em 5 de Março de 1990, sob a liderança editorial de Vicente Jorge Silva, o jornal “Público”, onde tive o enorme prazer de trabalhar, entre 1993 e 2000, revolucionou a imprensa portuguesa, tendo influenciado a produção de jornais nacionais, regionais e até locais. Muitas dessas influências, nomeadamente estéticas, perduram ainda hoje.
Com uma equipa de grande qualidade intelectual e com profissionais para quases todas as tarefas, como era preciso, beneficiando da capacidade de investimento de Belmiro de Azevedo, o “Público” marcava a diferença, assumindo-se como um jornal que aprofundava os assuntos com rigor, explicando devidamente todos os acontecimentos, fossem eles relativos à crise da ideologia comunista após o fim da URSS ou à problemática do tratamento dos lixos domésticos num município dos arredores do Porto. E isso sem deixar de dar as notícias do dia, numa altura em que a Internet estava nos primórdios.
Desde o seu primeiro número (ver imagem da capa neste "post"), o “Público” habituou os seus leitores a muito mais do que à notícia do dia anterior. Com o “Público”, o leitor encontrava diariamente uma visão da região, do País e do Mundo devidamente enquadrada. E foi assim que o jornal da SONAE se transformou numa marca de informação com valor acrescentado.
Mas os tempos mudaram. A comunicação mudou. O jornalismo mudou. O “Público” – que em 1990 surgira com uma imagem e um conceito únicos em Portugal – inaugura hoje aquela que é a sua terceira mudança de grafismo e de conteúdos nos primeiros 12 anos deste milénio, o que, para um jornal de referência, julgo serem mudanças a mais em tão pouco espaço de tempo, mas que demonstram as dúvidas e as incertezas sobre “o papel do papel” nos meios de comunicação, para utilizar uma expressão da directora Bárbara Reis. As mudanças têm um objectivo: fazer do “Público” o jornal de referência que já foi – um regresso ao passado, adaptado aos tempos de hoje. A tarefa é muito difícil.
O “Público” que hoje está nas bancas, no dia em que comemora 22 anos, é um jornal diário que não valoriza as notícias do dia, mas que precisa de tempo para ser lido. Teoricamente, o conceito parece adequado, até porque o público-alvo tem acesso à notícia do dia em tempo real. A questão é saber se esse público tem tempo para ler e, sobretudo, se o jornal – cada vez com menos meios humanos – tem capacidade para oferecer aquilo que um leitor exigente espera todas as manhãs. Da resposta a esta questão dependerá o sucesso ou não de mais esta mudança.

quinta-feira, 1 de março de 2012

No Observatório da Imprensa do Brasil


Em 17 de Fevereiro último, o jornal “i” publicou um artigo meu sobre os desafios que se colocam ao jornalismo contemporâneo (ver aqui), nestes tempos críticos para as instituições representativas do Estado e dos poderes democráticos. Sob o título "Jornalismo, poderes fácticos e novas censuras", esse texto, devidamente "traduzido" para "português do Brasil", acaba de ser publicado no Observatório da Imprensa do Brasil (ver aqui). Fica o meu agradecimento a Alberto Dines, editor responsável do Observatório.
O Observatório da Imprensa é uma iniciativa do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projecto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É um meio jornalístico focado na crítica dos “media”, com presença regular na Internet desde Abril de 1996.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Eusébio, a febre mediática e o Hospital da Luz


O antigo futebolista português Eusébio, uma figura mítica do Benfica e da selecção de Portugal, não precisaria de pagar os tratamentos hospitalares, tal é a visibilidade mediática que as suas recaídas dão ao Hospital da Luz – uma unidade de saúde privada que ao tratar aquele que é talvez o seu cliente mais famoso passou a ter publicidade gratuita e de grande impacto em todos os meios de comunicação portugueses. Pelo contrário, o Hospital da Luz é que deveria pagar para ter um cliente tão importante que mobiliza os meios de comunicação mesmo estando quieto.
A questão está em saber se cada espirro de Eusébio deve ser motivo de notícia e se as referências ao hospital onde trata as suas maleitas vão ou não para além do estritamente necessário do ponto de vista jornalístico. Só numa notícia pequenina que hoje circula na Internet há três referências ao Hospital da Luz (ver aqui). A questão está também em saber até que ponto os meios de comunicação, ao darem notícia de cada indisposição do antigo jogador, estão ou não a violar a sua privacidade.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O “spinning” de Eduardo Catroga


Nesta segunda-feira, o jornal “Público” destaca uma grande figura do regime democrático português chamada Eduardo Catroga, apresentado como “um gestor de topo com gosto pela política”. O título, grafado sobre uma imagem que ocupa mais de metade da primeira página, que nos mostra Catroga em acção falando ao telemóvel, é ternurento para o protagonista e insultuoso para a inteligência dos portugueses: “Eduardo Catroga. O homem que fez um Governo e ficou de fora.”
Estamos a falar de alguém que era candidato a ministro e que, aos 70 anos, continua à boleia do poder político-partidário, tendo sido contemplado com um ordenado de 45 mil euros mensais na EDP, para somar a uma reforma milionária de que não abdica. Daí talvez o título extraordinariamente simpático que ocupa a primeira página do suplemento P2: "Competente, dinâmico, empenhado, impulsionador, independente."
Depois da crise de comunicação gerada pelas histórias pornográficas dos "pentelhos" e pela nomeação para a presidência do Conselho Geral e de Supervisão da EDP (ver aqui), estamos agora perante uma óbvia operação de “spinning” destinada a lavar a imagem de um dos portugueses que mais beneficiaram com a mudança de Governo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Jornalismo, poderes fácticos e novas censuras


O jornal “i”, o diário português que é considerado um dos jornais mais inovadores da actualidade, publica na sua edição de hoje um artigo meu sobre os desafios que se colocam ao jornalismo contemporâneo, nestes tempos críticos para as instituições representativas do Estado e dos poderes democráticos. Sob o título "Jornalismo, poderes fácticos e novas censuras", o texto pode ser lido clicando aqui ou nas linhas que se seguem. Boa leitura!

Uma das funções do jornalismo é fiscalizar poderes públicos e privados, assegurando transparência nas relações políticas, económicas e sociais. É por isso que os meios de comunicação social são apontados como “quarto poder”, pois têm a capacidade de manipular a opinião pública, de ditar regras de comportamento e de influenciar nas escolhas dos indivíduos e da própria sociedade.
Um texto noticioso implica uma selecção vocabular e um ordenamento dos factos por influência de múltiplos factores de ordem subjectiva. Os jornalistas, intencionalmente ou não, podem ser vítimas da propaganda ou da desinformação. Mesmo sem errar com dolo, podem dar uma visão parcial dos factos, focando determinados aspectos em detrimento de outros. Como diz Nélson Traquina, no manual “Jornalismo” (2002), a actividade jornalística é uma realidade muito selectiva, construída através dos óculos dos profissionais do jornalismo.
Mário Mesquita, no livro “O Quarto Equívoco – O Poder dos Media na Sociedade Contemporânea” (2003), aborda mitos e realidades do chamado “quarto poder”, começando por identificar uma crise de representação dos poderes do Estado, que se reflecte na diminuição da participação cívica, na prevalência do consumidor sobre o cidadão, e num distanciamento dos eleitores perante os eleitos. A questão é saber se estamos perante um “quarto poder”, orientado pelos órgãos de comunicação e ao serviço dos cidadãos, ou se estamos perante um “quarto equívoco”, telecomandado por poderes fácticos, que influenciam e decidem opções editoriais.
Segundo Mesquita, o poder mediático dissemina informação e institui-se em tribuna de debate, o que deveria incentivar a cidadania. No entanto, agrava a crise, porque facilita a “desintermediação” das instituições representativas, acentua a personalização no exercício dos cargos públicos e, por via da transformação da notícia num espectáculo, contribui para uma atitude de desconfiança social em relação aos poderes legitimados pelo voto, que passam a ser cada vez mais subalternizados por decisões adoptadas em “centros de poder invisíveis”. Assim, o exercício da governação nas democracias contemporâneas é cada vez mais prisioneiro de poderes fácticos de natureza financeira, económica e tecnológica. A globalização, os mercados, a banca e as bolsas são palavras-chave de uma reconfiguração do mundo que coloca em perigo o Estado-Nação, como se observa na actual crise portuguesa e europeia.
Ao mesmo tempo, os “media” tendem a questionar a legitimidade do representante eleito – ao confrontá-lo, em permanência, com factos ou opiniões desfavoráveis –, e a dar palco a figuras com “boa imagem mediática” ou cuja acção provoque o conflito ou o incidente, que pode resultar numa imagem de televisão espectacular. Deste modo, como observa Mário Mesquita, a acção mediático-jornalística pode influenciar, distorcer ou corroer a representatividade política – o que pode acontecer em função do dinheiro disponível, da qualidade da assessoria de comunicação ou do talento teatral dos candidatos.
O director da SIC Notícias, António José Teixeira, numa conferência sobre “A Política e o Poder do Jornalismo”, na Universidade Lusófona de Lisboa (2009), confessou o mesmo pessimismo. “Vivemos uma crise de representação em que o poder político vai ficando refém de teias de poderes não sufragados”, o que, aliado a “um poder mediático tão voluntarioso como impotente”, coloca a democracia em risco. Curiosamente, em 2011, mudou o Governo em dois países europeus (Grécia e Itália), sem que tenha havido eleições…
O jornalista Paul Moreira vai mais longe, no livro “As Novas Censuras – Nos Bastidores da Manipulação da Informação” (2008), onde aborda as múltiplas técnicas de manipulação da informação aplicadas na cadeia do processo noticioso: “Se a verdade for difundida pelos ‘media’, há que controlar o impacte sobre a opinião e tudo fazer para que não seja ouvida e, sobretudo, para que não crie uma emoção popular.”
No tempo da informação instantânea, em que jornalistas, organizações e cidadãos produzem informação, já não se faz censura cortando a frase ou a notícia que não convém à instituição ou ao Governo. Hoje, gere-se a percepção do público. Porque todos nós agimos ou decidimos em função das percepções. Essa gestão é feita pelos especialistas em relações públicas e comunicação política – os “spin doctors”, assim designados nos países anglo-saxónicos. O seu trabalho é justamente “massajar” a mensagem, para que chegue à opinião pública a verdade mais forte. Não interessa o que aconteceu na realidade, mas aquilo que os “media”, como intermediários, dizem que aconteceu. É neste colete-de-forças que vive o jornalismo contemporâneo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

As televisões portuguesas e a vaga de frio


Preocupadas com a "vaga de frio" que por estes dias promete gelar a Europa, o que, aliás, é normal nesta época do ano, as televisões portuguesas procuram “bons momentos de televisão” ouvindo o povo das serras do interior, em Trás-os-Montes ou na Beira Alta. E o povo, sem medo de morrer do frio, diz que é normal e que costuma andar agasalhado. Naturalmente.
De resto, frio a sério faz-se sentir mais a Norte da Europa. Ou no Canadá, onde, como o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, pode comprovar, a factura energética é a maior despesa de uma família, justamente por causa do frio. Ou seja, tal como no Canadá, também os portugueses das serras estão mais ou menos preparados para o tempo frio, pois sempre tiveram invernos mais ou menos rigorosos.
Mas é no interior, onde a vida é mais comunitária, que as nossas televisões insistem em fazer “reportagem”. Não entendem que o perigo de morte está mesmo na frente do seu nariz, em plena cidade de Lisboa, nomeadamente nas casas velhas da baixa pombalina, onde vivem idosos solitários, sem familia e com reformas de miséria que não chegam para pagar os remédios muito menos para o aquecimento.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os "media" e o marketing na cultura da convergência


No dia 11 de setembro de 2001, de má memória para os EUA, a informação sobre o ataque terrorista ao World Trade Center e ao Pentágono correu o planeta quase instantaneamente, através dos meios de comunicação. Retenho na memória a visão em direto do segundo avião a perfurar uma das torres do Word Trade Center, perante o ar pasmado do jornalista Paulo Camacho, que apresentava as notícias da hora do almoço na SIC e, sem mais informação disponível, não conseguia, naquele instante, enquadrar o espectador com as imagens brutais que passavam no ecrã, através da CNN.
O ataque terrorista estava mesmo a acontecer naquele momento, a dor e a morte atingiam milhares de norte-americanos e o mundo assistia em direto, por força da capacidade técnica da televisão. Outros receberam informação do mesmo acontecimento por outros meios, como a rádio ou a Internet. E, no dia seguinte, os jornais de todo o mundo acrescentaram fotografias, explicações e análises sobre o sucedido. Cada meio de comunicação cumpriu o seu papel informativo.
As histórias que foram conhecidas posteriormente vieram provar que os meios de comunicação complementam-se e não se anulam uns aos outros. O que aconteceu no seio de uma família americana, nesse 11 de setembro de 2001, demonstrou isso mesmo. Segundo Bruno Rodrigues, especialista em comunicação digital e autor do livro "Webwriting – Redação & Informação para a Web" (Rio de Janeiro, Brasport, 2006), em determinada família o filho estava na Internet e a mãe via televisão, até que se encontraram no corredor da casa e pensaram na forma menos impactante de contar à avó a notícia sobre a tragédia. Porém, quando foram até junto da senhora, ela já sabia de tudo. Até sabia mais. Sabia que um terceiro avião já tinha caído em Washington – pois ela tinha ouvido tudo pela rádio.
Estes factos demonstram que a rádio não acabou com os jornais. Assim como a televisão não acabou com a rádio. Nem a Internet acabou com a televisão. Todos os meios de comunicação de massa têm o seu lugar no sistema mediático e são complementares. Mas além desses meios, o sistema mediático conta agora com todos os cidadãos que tenham ligação à Internet – os quais recebem e produzem informação através de meios e plataformas digitais.
O que as redes sociais trouxeram de novo em relação a tudo o que já era conhecido na história dos meios de comunicação e da Internet foi um espaço de “convergência mediática” e uma “cultura da convergência”, de que fala Henry Jenkins (“Cultura da Convergência”, S. Paulo, Aleph, 2008), em que meios de comunicação tradicionais, organizações e cidadãos estão ligados em rede e todos falam com todos. A verdade é que, nas redes sociais, continuamos a procurar a notícia ou o cronista do jornal “a” ou “b” ou o programa da televisão “c” ou “d”.
Aplicada à sociedade de consumo, esta convergência entre marcas e consumidores implicou mudanças significativas na gestão do marketing contemporâneo, tendo Philip Kotler (“Marketing 3.0 – Do Produto e do Consumidor até ao Espírito Humano”, Lisboa, Actual Editora, 2011) identificado o Marketing 3.0 para designar uma fase em que a rendibilidade está a par da responsabilidade social, na qual as empresas encaram os clientes como um ponto de partida estratégico, abordando-os tendo em conta as suas necessidades e os seus interesses, numa interação duradoura e inesquecível, como acontece, por exemplo, através do marketing experiencial.
Munido de computadores, telemóveis baratos e de Internet a baixo custo, o consumidor é agora mais informado e mais exigente. Assim como dá opiniões no Facebook, também quer participar na criação do produto, para adquiri-lo à sua medida, tornando o processo de aquisição e de usufruto numa experiência única. É por isso que o marketing contemporâneo deve criar experiências de envolvimento, de participação e de interacção para conquistar e manter clientes.
É importante que o marketing e a publicidade percebam as mudanças em curso. Na indústria da comunicação, esta cultura da convergência, que é eminentemente democrática, está a desinstalar jornais e outros meios tradicionais, porque está a derrubar velhos métodos de trabalho e de gestão, assim como hábitos de consumo ultrapassados. Do mesmo modo, muitos publicitários e directores de marketing e de comunicação mostram-se carregados de dúvidas porque as mudanças implicam abordagens criativas e novas linguagens para conquistar a atenção dos públicos. É natural, porque há cada vez mais intérpretes em competição num mercado cada vez mais volátil e global. O que estamos a viver é uma revolução que ainda não acabou. Mas decretar a morte antecipada de meios que já foram dominantes talvez seja exagerado. A história tem provado que todos têm lugar.

Obs. – Artigo publicado no Briefing, nº 29, de Janeiro de 2012