quarta-feira, 6 de junho de 2012

Cavaco Silva e o circo da selecção portuguesa


Como sempre tem acontecido em outras ocasiões similares, a comitiva da selecção portuguesa de futebol, no âmbito do conjunto de actividades recreativas que têm antecedido a fase final do Euro 2012, foi recebida no Palácio de Belém, pelo Presidente da República, Cavaco Silva. Muito sinceramente, não se sabe o que é que o chefe de um Estado falido tem para oferecer à selecção mais gastadora do campeonato.
Estas recepções não passam de pretensos actos políticos encapotados que dão uma não-notícia que sai em todo o lado: jornais, televisões, rádios, Internet. Mas, do ponto de vista comunicacional, são notícias já não trazem vantagem para ninguém: o político já não ganha mais popularidade com o gesto e os jogadores deveriam era ter tempo para descansar e treinar mais para falharem menos grandes penalidades. Falando curto e grosso, estas recepções do Estado português aos “donos da bola” – que não acontecem em Países civilizados – são ainda resquícios dos 48 anos da ditadura portuguesa (1926-1974). E de outras ditaduras europeias e não só – que sempre utilizaram o desporto como símbolo expressivo da sua força política ou para desviar as atenções do povo de outros problemas. Hitler, na Alemanha, foi o primeiro do mundo a usar a televisão na primeira grande prova desportiva à escala planetária com cobertura televisiva: os Jogos Olímpicos de 1936.
Hoje, nem Cavaco Silva, nem Pedro Passos Coelho (via Miguel Relvas) utilizam estas cerimónias patuscas como momentos de acção política. Porque elas perderam esse papel. No meio de algumas figuras do nosso futebol, os políticos podem, inclusive, perder mais votos. Aliás, como deve ter acontecido agora, com a selecção portuguesa, representativa de um país pobre e endividado, mas cuja Federação de Futebol demonstra ter dinheiro para gastar nos hotéis mais caros do Euro 2012. Ora, com a maioria dos portugueses a sofrer os efeitos da austeridade, não houve um único jornalista que questionasse o Presidente da República sobre esses gastos sumptuários da FPF. 
É por isso que os políticos portugueses deveriam ter cuidado com estas manifestações de “fervor patriótico”. Portugal tem de começar a ser um País onde um político é um homem normal e onde uma selecção de futebol numa fase final europeia é um acontecimento normal. Ora, como sabemos, estamos muito longe disso. Basta ligar as televisões – a começar pela RTP – e ver o circo montado de manhã à noite por causa da selecção de futebol. Uma vergonha digna do Terceiro Mundo. FOTO: "Record Online"

Um comentário:

eu sou assim disse...

Grande texto. Copiei parte e coloquei no meu blog, com a devida referência. Parabéns