sábado, 4 de outubro de 2014

A força da televisão nas eleições brasileiras


As eleições brasileiras deste domingo são um interessante caso de estudo sobre a política e a comunicação, e, em particular, sobre a volatilidade cada vez maior das percepções do público eleitor em relação aos políticos e suas propostas.
Apesar da Internet, que deverá ter 30% da população conectada e politicamente ativa (sendo, por isso, um público com as suas opções políticas bem definidas), o Brasil é um país onde a televisão continua a fazer a imagem dos candidatos e a mudar o sentido do voto, não através dos serviços informativos (onde os políticos até passam muito pouco), mas através dos tempos de antena eleitorais (o chamado “horário político”, à hora do almoço e à hora do jantar, em todos os canais de televisão de sinal aberto) e, sobretudo, através das inserções publicitárias ao longo do dia, a que os candidatos têm direito, no espaço da publicidade comercial das televisões. Logo, uma candidatura com um bom trabalho de televisão tem possibilidades de ganhar mais eleitores durante a campanha.
Foi, aliás, após o início da campanha na televisão que a Presidente Dilma Rousseff conseguiu estancar a queda de popularidade e recuperar algum eleitorado. Com uma excelente campanha na televisão, na senda, aliás, de todas as campanhas do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff está estacionada nos 40% das intenções de voto, pelo que haverá uma segunda volta, no dia 26 de outubro. Mas a ambientalista Marina Silva (Partido Socialista Brasileiro), muito provavelmente, não irá com ela nesse segundo jogo. Os últimos estudos apontam o segundo lugar para o surpreendente Aécio Neves, o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de Fernando Henrique Cardoso, que foi o Presidente da estabilidade económica. Na última semana da campanha, Aécio renasceu das cinzas, beneficiando com a perda de imagem de Marina – na razão direta da sua exposição pública para responder ao marketing de guerrilha do PT.
Não sendo brasileiro, mas vivendo no Brasil, devo dizer que o país está melhor do que no primeiro dia do PT na Presidência, em 1 de janeiro de 2003. De então para cá, houve muitos casos de corrupção, é certo, mas também houve milhões de brasileiros que saíram da pobreza, que compraram computadores, casa, carro e electrodomésticos. Outros começaram a ter oportunidade de estudar na universidade ou começaram a viajar para a Europa e Estados Unidos. E foi neste tempo que o Brasil enfrentou a crise económica internacional mais grave desde 1929. Há, agora, novos e complexos desafios pela frente, destacando-se entre eles a qualificação dos serviços públicos (saúde, educação, justiça), a violência urbana e a modernização e competitividade da economia num mundo global.
Olhando para este processo eleitoral, confesso que esperava mais espessura política dos candidatos e uma visão mais profunda das soluções. Vejo Dilma sem rasgo, sem uma visão do Brasil para daqui a 30 ou 50 anos, a gerir os projetos lançados por Lula da Silva, e Aécio Neves muito agarrado ao trabalho que diz ter feito enquanto Governador de Minas Gerais e como fiel seguidor de Fernando Henrique Cardoso. Marina Silva, que tem mais história de vida do que outra coisa, também não trouxe nada de novo à campanha.
Para o segundo turno, as pesquisas de opinião apontam uma vitória de Dilma sobre qualquer dos candidatos. Serão novas eleições. É preciso ter em atenção que Aécio Neves é o candidato que subiu sempre nas intenções de voto, tendo perdido terreno apenas nos dias emocionados da morte de Eduardo Campos, em que o Brasil parecia comovido e apostado em Marina Silva. Ora, se Dilma, neste domingo, tiver uma votação percentualmente abaixo dos 40% dos estudos de opinião, penso que tudo poderá acontecer no dia da grande decisão. Está, por isso, tudo em aberto.